Part 4
«O joven, ao ver-se em perfeita liberdade, e possuidor de grandes bens, gastou tudo o que seu pae havia ganho. Porém gastou-o em coisas santas? Em esmolas? Não; «dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.» Bem depressa o joven se viu reduzido á pobreza. Que fazer? Deus enviou áquele paiz uma grande fome, e o joven, só e pobre, teve que sofrer aquela praga até ao ponto de desejar as landes que comiam os porcos que ele guardava. Neste estado, entrando em si, veiu-lhe á imaginação _a sua casa e o seu pae_. «Quantos jornaleiros—disse ele—ha em casa de meu pae que teem pão em abundancia, e eu aqui pereço á fome!» Desta reflexão nasceu outra em sua alma. Quanto tenho pecado! Que fazer? «Levantar-me-hei, e irei buscar a meu pae, e dir-lhe-hei: Pae, pequei contra o céu e deante de ti: já não sou digno de que me chames teu filho; _faze de mim como dum dos teus jornaleiros_». Concedeu-lhe o pae o que ele pediu? _Não, mil vezes não._ O pae vê vir lá ao longe um homem, esfarrapado, coberto de pó. Alguns homens do povo passam junto dele, olham-no de alto a baixo, porém não o conhecem. Ah! os olhos dum pae vêem a uma grande distancia. O ancião reconhece naquele, que parecia um mendigo, seu filho, e corre ao seu encontro, abraça-o, e, quando lhe ouve a confissão que ele faz, reconhece o seu arrependimento, e não diz! «Trazei-lhe uma enxada ou uma pá», mas sim: «Tirae depressa o seu primeiro vestido e vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e uns sapatos nos seus pés; trazei tambem um vitelo bem gordo, e matae-o para comermos e para nos regalarmos.»
—Agora, meus amigos—continuou Julião—apliquemos esta parabola a nós mesmos. Todos temos pecado. Cada um de nós é um filho prodigo, nosso pae é Deus, e perdoar-nos-ha Ele? Sim, certamente, porque «se o estipendio do pecado é a morte, a graça de Deus é a vida perduravel em Cristo Jesus» (_Rom. 6: 23_). Deste modo se explicam as palavras de Jesus: «Assim vos digo que haverá maior jubilo no céu sobre um pecador que se arrepender do que sobre noventa e nove justos que não hão mister de arrependimento» (_Luc. 15: 7_). Não crê, querida Antonia, que Deus quer e pode perdoar-lhe desta maneira?
—Oh! dificil é explicar o que sinto; sómente posso dizer que creio de todo o coração que Jesus é meu Salvador e que estou salva.
—Que o Senhor abençoe a sua fé.
Todos se levantaram para se despedirem; Julião e sua familia dirigiram-se para casa.
João e as mulheres ficaram falando, com louvor, de Julião. Brigida sómente repetia:
—Não, não, a mim não ha nada que me arranque das minhas opiniões. Parece verdade, parece...
Pouco tempo depois toda a gente, menos a tia de Antonia, que ficava aquela noite a cuidar dela, se retirou para descançar.
CAPITULO VIII
A calunia
Passaram quinze ou vinte dias desde que Julião anunciou o Evangelho em casa de mestre João. Antonia, obtendo sensiveis melhoras, havia entrado em convalescença, e, se bem que ainda fraca, costumava vir para o pateo, onde passava algum tempo acompanhada por Dôres, ambas sentadas, lendo ou conversando.
—Numa dessas tardes, depois de terem lido e meditado sobre uma passagem do Evangelho, Dôres disse á sua amiga:
—Antonia, ámanhã é o dia em que devo ir buscar os brincos.
—Ámanhã!... Eis aqui a primeira parte de Santo Antonio!... Não sei como o direi a meu pae.
—Ouve, Antonia; Julião não teria inconveniente algum em dar-nos os 600 reales que custa o concerto; graças a Deus, hoje temos essa quantia; porém alguem poderá reparar em que tratamos de enganar teus paes.
—Sim, Dôres, sim; o melhor é que nós mesmas digamos tudo a meu pae.
—E porque não dizêl-o a tua mãe? Não julgas que seria melhor?
—Não, Dôres; infelizmente, minha pobre mãe, imbuida pelos conselhos de algumas pessoas, está muito reservada para comigo; o outro dia vi-a ajoelhar-se deante de Santo Antonio, e ouvi-lhe pedir a minha morte, chorando copiosamente.
—A tua morte!
—Sim. Minha mãe julga que eu estou condenada, e, segundo pude compreender, essa crença dimana daquilo que algum padre lhe tem dito, pois que ela dizia ao Santo entre outras coisas: «Santo Antonio, peço-te que faças entrar no bom caminho a minha filha; prometo que mandarei dizer uma missa todos os primeiros sabados de cada mez, e isto emquanto eu viva, se fizeres com que minha filha volte ao seio da Egreja Catolica Romana. Porém se isto não pode ser, dá-lhe um momento de arrependimento, e depois manda sobre ela um raio da tua divina graça e leva-a para ti.»
As duas amigas guardaram silencio, profundamente impressionadas ao considerarem a oração dirigida por Brigida ao Santo. Depois de alguns momentos, Antonia disse:
—Agora chama meu pae, para lhe falarmos dos brincos.
Dôres ia chamar João, quando este apareceu no limiar da porta.
O carpinteiro tinha mudado completamente. Desde que sua filha se poz boa, recobrou o seu genio alegre; e, relativamente ás suas idéas, devemos dizer que tambem haviam experimentado alguma mudança, como já tivemos ocasião de ver.
—Passava—disse ele, sorrindo-se—da sala para a oficina, vi-as juntinhas e disse: Vamos ver de que se ocupam as duas amigas.
Antonia fez sinal á sua amiga para que principias-se a conversa, Dôres compreendeu-a, e disse ao sr. João, rindo-se:—Realmente quer saber do que estavamos falando?
—Sim, senhora.
—Mas se lhe custar cara a sua curiosidade?
—Ah! então vocês vão pôr a preço o seu segredo?
—Sim, senhor. Não o vendemos por menos de seis libras.
—Nesse caso, eu vol-as darei sem regatear.
—E nós—disse Antonia—confiamos na sua palavra.
Dôres, deixando o seu ar alegre e tomando outro mais serio, disse:
—Sr. João, deve estar muito agradecido a Deus, que lhe restituiu a sua filha. Tambem deve estar crente de que, terminando a doença de Antonia, terminaram as consequencias da vespera e do dia de Santo Antonio; porém realmente não terminaram.
—Mas a que vem esse discurso—perguntou o sr. João, acrescentando:—De vagar, de vagarinho.
—Então já que assim o quer, lá vae. Na vespera de Santo Antonio, na ocasião da dança, cairam ao chão alguns pares. Antonia tambem caiu, como sabe, e na queda perdeu um brinco de diamante, cuja compostura valia precisamente as seis libras que valia o nosso segredo.
Dôres em seguida calou-se. Mestre João ficou pensativo, e depois perguntou:
—Onde está o brinco?
—Em casa do ourives—respondeu Dôres.
—Porém tua mãe sabe-o?
—Não, meu pae; eu dei a guardar o brinco a Dôres para que o entregasse a vocemecê, se eu morresse, e, se me restabelecesse, pensava mandal-o concertar, sem dizer-lhe nada, e por meio do meu trabalho arranjar a quantia precisa para a compostura, porém Dôres aconselhou-me a que dissesse isto mesmo a meu pae.
—Bom conselho; vou dar-te o dinheiro, e eu direi a tua mãe o que se me oferecer sobre o caso; ou ela pega no santo e o põe onde eu o não veja, ou queimo-o para aquecer a cola. Não quero cá em minha casa mais santos de tal natureza. Tua mãe que vá com o santo e quantos desgostos nos tem causado. Nada, nada, para fóra de minha casa idolos de madeira. Não quero que haja aqui outra coisa senão a Biblia; isso me basta.
O carpinteiro e sua filha meteram-se em casa, e poucos momentos depois apareceu Antonia ao limiar da porta para dar o dinheiro a Dôres.
As duas amigas separaram-se sem reparar numa pessoa que as escutava, e que exclamou quando elas desapareceram:
—Que descoberta! Corro a ver se encontro o P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que vi e ouvi. Suas palavras eram muito misteriosas. Não, não as esqueço, e logo... lhe deu muito dinheiro, muito, muito.
Aquela que assim falava subiu as escadas com a agilidade que lhe permitiam os seus muitos anos.
Como havemos de encontrar esta personagem, vamos descrevel-a a largos traços.
Era a comadre Claudina, uma mulher que andava pelos seus setenta anos de edade. O nome com que vulgarmente era conhecida no bairro era o da _tia dos enredos_, e realmente que assim era. O seu prazer era falar duns e outros, e não poucas dissenções tinha causado em muitas casas. Sustentava-se esta mulher de esmolas que lhe davam.
Não implorava a caridade publica, porém sabia perfeitamente levar a vida para arranjar donativos da Sociedade de S. Vicente e outras; além disso, nunca faltava ás festas de egreja, e ali se colocava junto da pia da agua benta, que oferecia ás senhoras da fidalguia, recebendo em troca, como esmolas, algumas moedas. Além disso, fazia quantos recados lhe mandavam, levando sempre o rosario na mão. Eterna bisbilhoteira, nada se sabia da sua vida, senão o que ela dizia: que era de muito boa familia, e que nunca quiz casar-se, apezar de se lhe oferecerem vantajosas ocasiões. Deste ser tão repugnante serviu-se o P.ᵉ Francisco para se pôr ao facto da vida intima das duas familias, a de mestre Julião e a de mestre João.
A velha ouviu a conversa, e, sem saber do que se tratava, correu a casa do P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que muito bem lhe pareceu, porém mentindo, e por tal modo que bem se pode dizer que a ela estava reservada a condenação descrita no Apocalipse, cap. 21: 8: «e... a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.»
Assim que chegou a casa do P.ᵉ Francisco, disse-lhe:
—Senhor, descobri uma coisa espantosa. Esta tarde, quando vinha da egreja, de assistir á festividade das _Quarenta horas_, vi á porta a filha do carpinteiro com a mulher do vidraceiro. Estavam tão absortas na conversa que não repararam em mim. Eu aproximei-me, quanto pude, delas, e ouvi que Antonia dizia á sua amiga: «Ahi tens o dinheiro, e arranja tudo isso depressa. Tenho dó de meus paes! Oh! se minha mãe soubesse!...» E passou-lhe para a mão uma certa soma de dinheiro.
O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes, dizendo por fim:
—E quanto dinheiro julga que Antonia deu a Dôres?
—Pelos modos vinte libras—respondeu a velha.
—Tanto!
—Sim, senhor, deu-lhe até oiro, que eu bem vi.
O padre despediu a velha, recomendando-lhe o maior segredo, e dando-lhe uma peseta.
Claudina esperava maior recompensa do que esta, pelo que, quando chegou á porta da rua, começou a murmurar do padre, e fez comsigo o firme proposito de contar tudo ao mestre carpinteiro.
Logo que a velha saiu, o P.ᵉ Francisco mandou chamar Brigida, e dentro de poucos momentos estava esta sentada ao lado do sacerdote, que lhe dizia:
—Acabaram de dizer-me que viram sua filha dar dinheiro á mulher do vidraceiro, uma soma bem boa.
—Minha filha! Ah! senhor! isso é uma calunia.
—Muito folgarei que assim seja.
—Sim, senhor, assim é, pois que minha filha não é uma ladra.
—Eu não disse tanto. Porém donde tirou Antonia o dinheiro que deu a Dôres?
—Tel-o-hia dado á minha filha a mulher de Julião para que o guardasse.
Esta razão de Brigida pareceu transtornar o padre. Aquilo podia ser verdade. Comtudo, disse á mulher do carpinteiro:
—Creio que não me enganaram quando me disseram isto; porém, pelo sim pelo não, será bom que vocemecê conte o dinheiro que tem em casa, para ver se lhe falta algum. Eu—acrescentou—não digo que sua filha de proposito e caso pensado a roubasse, mas podia dar-se o caso de que o fizesse aconselhada pela mulher de Julião, que é um agente dos protestantes.
Brigida despediu-se do sacerdote, e saiu em direcção de casa. Quando lá chegou, seu marido tinha saido e sua filha estava em casa de Dôres.
Sobressaltada com o que o P.ᵉ Francisco lhe havia dito, dirigiu-se á comoda, abriu uma das gavetas e tirou uma saquinha em que marido e mulher guardavam o fruto das suas economias. Despejou depois todo o dinheiro sobre a comoda e começou a contal-o.
Quando acabou, uma palidez mortal cobria o seu rosto.
—Ter-me-hia enganado!—disse ela comsigo; e tornou a contar.
Por fim, depois de contar duas, tres e quatro vezes o dinheiro, guardou-o na mesma saquinha, pôl-o no mesmo sitio, e deixando-se cair, quasi desfalecida, numa cadeira, exclamou:
—Parece-me um sonho!... Seiscentos reales! Não; Antonia não foi... ela tão boa, tão... porém D. Francisco sabe mais do que eu... sim, sim, enganaram-na. Ah! tratantes! Logo que venha João, dar-se-ha parte á autoridade, e cadeia com eles... Ah!—exclamou meio sobressaltada—e as joias que ela trazia na noite de Santo Antonio?... Onde as terá? Sim, já sei que ela me disse que as tinha na gavetinha do toucador.
A pobre mulher, meio louca, entrou na alcova de sua filha, abriu a gavetinha do toucador, e procurou com a maior anciedade. Encontrou o colar, porém faltavam os brincos.
—Mais esta ainda—exclamou.—Oh! Santo Antonio bemdito! Virgem do Amparo! Que fazer agora?... Vou já a casa do sr. padre Francisco pedir-lhe o seu conselho.
Brigida saiu, sem dizer nada em casa, em direcção da morada do padre Francisco.
Emquanto Brigida subia as escadas da casa do padre Francisco, chegava Antonia á sua, com os brincos que já Dôres havia trazido do ourives.
Seu pae já vinha perto de casa. Chegava á porta no mesmo momento em que a comadre Claudina sahia da sua.
—Guarde-o Deus, senhor João—disse a velha.
—Que Ele a acompanhe—respondeu o carpinteiro, dirigindo-se para dentro de casa.
—Senhor João—gritou a velha,—ouça uma coisa.
—Que é que tem para me dizer?
—Nada, senão que sinto muito a desgraça que acaba de o ferir.
—A mim?
—Sim, senhor... porém... já sei, vocemecê, como é tão bom, não quererá fazer-lhe mal algum... De resto, eles bem o mereciam.
—Senhora Claudina—exclamou o carpinteiro com impaciencia,—peço-lhe o favor de falar claro, que tenho pressa.
—Porém não sabe o que sucedeu em sua casa?
—Não, senhora; como vê, chego agora de fóra e...
—Pois já tenho pena de ter principiado; mas emfim... Ouvi dizer na visinhança que Dôres aconselhou sua filha a que lhe désse dinheiro, e esta tarde viram Antonia dar dinheiro a Dôres. Eu, no seu caso, metia na cadeia Julião, sua mãe e sua mulher.
O carpinteiro encarou com desprezo a velha, e dirigiu-se a casa, deixando-a á porta.
Entrando, deu as boas tardes aos seus oficiaes, e subiu logo á sala, onde achou sua filha lendo.
—Boas noites, filha—disse ele.
—Boas noites, meu pae—respondeu Antonia.—Aqui estão os brincos, que Dôres já me trouxe.
—A proposito—interrompeu-a seu pae, pegando nos brincos,—sabes que te viram dar o dinheiro a Dôres, e diz-se pela visinhança, sem duvida com má intenção, que Dôres te aconselhou a que lhe dês dinheiro.
—Santo Deus!—exclamou Antonia;—pode ser isso verdade?
—Sim, agora mesmo acaba de mo dizer a velha Claudina.
—O pae já sabe quem é essa mulher.
—Sim, já o sei; porém, quer seja ou não verdade o que ela diz, é bom estar prevenido. E tua mãe?
—Não sei; quando cheguei a casa, não estava cá.
—Parece-me que em todo este negocio anda a mão do padre Francisco. Tua mãe não está em casa, porém a roupa com que costuma sair está ali pendurada.
—Talvez que esteja aqui perto falando com alguma visinha.
—Ou então em casa do padre Francisco... Espera, vou subir lá acima ao ultimo andar, onde mora o padre Francisco, para ver se tua mãe lá está... Oh! se ela lá estiver...
—Meu pae, peço-lhe que não se deixe levar do seu genio; tenha mão em si.
—Descança, que não farei mais do que dizer a tua mãe que desça cá para baixo.
Antonia ficou orando em silencio para que Deus tivesse compaixão de sua mãe, emquanto o carpinteiro subia as escadas que conduziam ao ultimo andar, que era a morada do padre Francisco, para ver se sua mulher estava lá ou não.
Efectivamente, estava ali chorando a pobre Brigida, e escutando os conselhos do padre Francisco.
Assim que este viu o marido de Brigida, levantou-se para o receber, e, apezar da resistencia que ele opoz, obrigou-o a entrar.
O padre, quando ele entrou, fechou a porta por dentro, e, quando mestre João se sentou, disse-lhe:
—Deus certamente que lhe inspirou a idéa de vir aqui. Provavelmente ignora o que sucedeu em sua casa.
O carpinteiro num instante formou o seu plano, e disse num tom fingido:
—Vim aqui em procura de minha mulher; e estranho que ela esteja aqui, quando o seu logar era em sua casa.
Brigida não se atrevia a olhar para o marido; o sacerdote disse:
—Sua esposa veiu aqui procurar, no seio da verdadeira religião, remedio para os seus males.
—E porque, se tem algum pezar, mo não comunica a mim primeiro? Com que direito vem confiar os seus desgostos a um homem que não é o seu marido?
—Parece-me, sr. João, que duvida de sua esposa e de mim.
—De minha esposa não duvido, porém de si duvido.
—Talvez preferisse antes que sua mulher fosse aconselhar-se com o vidraceiro, não é verdade?
—Certamente; ele é um homem casado, e como pae de familia conhece o que são os pezares que muitas vezes nos torturam.
—Bom hipocrita é o tal Juliãosinho! Forte maroto.
João não pôde conter-se por mais tempo, e, erguendo-se, bastante excitado, disse:
—P. Francisco, se não estivesse em sua casa, tel-o-hia ensinado a ter cuidado com a lingua. Diga-me, o senhor que se chama ministro de Jesus Cristo: Em que pagina do Evangelho aprendeu a insultar assim uma pessoa que não está presente? Onde estão essa caridade e amor que devem revestir um ministro do Senhor? P. Francisco, muito pouco sei ainda do Evangelho, porém digo-lhe que o senhor será um ministro do papa ou do arcebispo, mas não é um ministro de Jesus.
—Repito o que ha pouco disse. Sofrerei com paciencia tudo o que disser. Com que então, porque não sou casado, não sirvo para dar conselhos a uma mulher casada? Então não pode haver religião, porque nenhum ministro é casado nem nunca o foi.
—Perdão... O senhor sabe perfeitamente que na primitiva egreja os sacerdotes eram casados, e a noite passada ouvi ler uns versiculos da Biblia a Julião, os quaes dizem que os bispos e diaconos devem ser todos casados.
O carpinteiro voltou-se para sua mulher e disse-lhe:
—Vá, vamos daqui para fóra.
—Espere um pouco, mestre; ouça lá uma historia. Ha em Madrid uns aldeãos que teem uma filha. Esta filha cae doente, muito doente. Uns visinhos, muito amigos do pae, entram-lhe em casa e aproveitam-se da confiança que depositam neles para abrir as gavetas e roubar o que encontram. Sucede, porém, que a pobre enferma... passemos por alto alguns pormenores... a enferma tem na gaveta do seu toucador umas joias que lhe são roubadas por uma sua amiga; e, como se isto não fosse bastante, apenas se restabelece, a sua amiguinha a seduz para que roube seus paes, e hoje os visinhos da casa em que vivem viram a joven, ainda mal convalescente, entregar á sua amiga uma boa soma. Conhece as personagens desta historia?
—Sim, senhor.
—Continuará a crêr na sinceridade religiosa de Julião e sua familia?
—Mais do que nunca—exclamou com exaltação o carpinteiro.
Brigida e o P.ᵉ Francisco entreolharam-se, possuidos de grande surpreza.
—Mais do que nunca—prosseguiu mestre João,—porque conheço o infame caluniador que sómente trata de perder um honrado pae de familia.
—Senhor João!...
—Senhor P.ᵉ Francisco, prudencia, e escute-me como eu o tenho escutado. Na vespera da festa que tantas desgraças acarretou a minha familia, minha esposa adornou minha filha com as joias que eu lhe dei no dia do nosso casamento. Quando minha filha dançava perdeu uns diamantes dos seus brincos, e, prescindindo eu tambem dalguns pormenores, direi que minha pobre filha entregou esses brincos a Dôres para que os mandasse concertar se ela se restabelecesse, e para que mos entregasse, se morresse. Minha filha julgava que Dôres adeantava o dinheiro, pagando-lhe ela a pouco e pouco. Dôres, porém, por ser sua amiga, aconselhou-a a que me contasse tudo.
«Assim o fizeram, e esta mesma tarde lhes entreguei o dinheiro que custou a compostura. Veja como tão cruelmente caluniaram uma familia honrada, tão sómente porque o senhor ou outra qualquer pessoa viu minha filha dar o dinheiro á sua amiga. Sabe agora qual é o seu dever? Quer cumprir com o dever que o seu ministerio lhe impõe?
—Eu o que creio é que vocemecê está contando uma historia para salvar o vidraceiro. Aposto que não aparecem os brincos.
Mestre João, já meio fóra de si, levantou-se de novo, e, tirando do bolso um pequeno embrulho, disse:
—E chama-se ministro do Senhor! Não, e mil vezes não. Não o é.
Abriu o embrulho, tirou de dentro uma caixinha, abriu-a, e mostrou os brincos, cujas pedras, sob a acção da luz do candieiro, brilharam intensamente, ferindo a vista dos circunstantes. Então o carpinteiro, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:
—São estes os teus brincos?
—São—respondeu Brigida, depois de os ter examinado.
—Então, P.ᵉ Francisco, sabe agora qual é o seu dever?
—Qual?
—Como cristão, como sacerdote, deve descer e pedir perdão a Julião, a Dôres e a minha filha, que tão cruelmente caluniou.
—Pedir perdão! Vocemecê está louco! Quem são eles para me perdoarem?
—Não quer pedir perdão ás pessoas ofendidas?
—Não.
—Pois ámanhã terá de ser chamado á presença do juiz.
João guardou as joias, e, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:
—Já vês que classe de gente é esta. Eles exigem aos outros o que eles não querem fazer. Espero que terás emenda.
Dito isto, saiu atraz de sua mulher.
P.ᵉ Francisco ficou sem saber o que dizer.
CAPITULO IX
Novos acontecimentos
Logo que chegaram a casa, João, dirigindo-se a sua filha, disse-lhe.
—Vês como não me enganei? Vês como a mão do padre andava metida neste negocio?
—O que se passou?—perguntou Antonia a seu pae, deixando o livro que estava lendo.
O carpinteiro contou a sua filha tudo o que tinha sucedido, e ao terminar disse:
—Se tua mãe não tomar emenda com isto, digo-te que não tem juizo. Com relação ao padre, vamos chamal-o á presença da autoridade.
—Meu pae—disse Antonia,—grande é o poder de Deus, e, como Ele disse, a mentira não pode permanecer. A respeito de fazer mal ao padre Francisco, creio que Julião não permitirá isso, pois Jesus perdoou na cruz e orou mesmo pelos Seus proprios algozes, e Ele mesmo disse: «Abençoae aqueles que vos amaldiçoam; _e orae por aqueles que vos caluniam_.
Dito isto, saiu mestre João.
Brigida permaneceu calada, e Antonia deu razão ao que seu pae acabára de dizer, exprimindo-se assim:
—Sim, minha mãe não seja insensata, procurando a salvação por um outro caminho, que certamente a conduzirá á perdição. Como pôde escutar, sem se exaltar, a voz que lhe disse: «Sua filha é uma ladra»?
—Ai! minha filha! Eu nunca cri nisso, porém já vês que me faltava o dinheiro, faltavam-me os brincos, e já podes calcular que desconfiava de que alguem nos tivesse roubado. Porém tu me perdoarás, não é verdade?
—Como!—exclamou Antonia—eu perdoar-lhe! Demos graças a Deus e peçamos-Lhe que, do que acaba de suceder, resulte um grande beneficio para a sua alma.
Entremos agora em casa de Julião.
Deve ter ali sucedido alguma coisa de extraordinario, e, para nos inteirarmos do que se está passando, escutemos o que mestre João diz ao seu visinho:
—Mas o que ha?—perguntava João ao seu visinho.
—Que minha mãe tem uma pneumonia.
—Porém que diz o medico?
—Diz que por emquanto não pode emitir opinião segura: porém disse-me que estivesse preparado para tudo.
—Não faça caso; os medicos dizem sempre isso.
—Cumpra-se a vontade de Deus.
Depois dalguns momentos de silencio, o carpinteiro disse:
—Não sabe o que sucedeu?
—O que foi?
João contou a Julião tudo o que havia sucedido, e tudo o que dele se havia dito.
Quando Julião ouviu que o visinho tratava de levar o assunto aos tribunaes, respondeu:
—De modo nenhum, sr. João. Jesus, meu Mestre, jámais fez tal coisa; ao contrario, em vez disso, manda que eu peça por aqueles que me caluniam e dizem mal de mim. O P. Francisco poderá lançar mão de tudo para fazer-me mal, mas se Deus está comigo quem será contra mim?
—Foi isso mesmo o que disse Antonia; porém isso não é para o meu caracter; pela minha parte, o meu desejo e a minha vontade eram castigar o P. Francisco.
—Diga-me, sr. João: sabe o Padre Nosso?
—Sim, senhor.
—E costuma rezal-o?
—Pelo menos todos os domingos na egreja.