Julião e a Biblia

Part 2

Chapter 24,021 wordsPublic domain

O rapaz retirou-se. Entretanto Brigida e Antonia falavam com Julião e Dôres, á porta da sua oficina. Instavam com eles para que os acompanhassem, porém em vão.

—Nesse caso, se teimam em ficar—disse Brigida,—não deixem de olhar cá pela casa.

—Esteja descançada—disse Julião,—que nós olharemos pela sua casa.

Brigida despediu-se, e a sua filha, aproximando-se de Dôres, disse-lhe ao ouvido:

—Ai, Dôres! mau dia de Santo Antonio vamos ter. A vespera foi má e o dia não será melhor! Depois te contarei tudo.

Como passaram o dia as personagens da nossa historia?

Vamos dizer-vol-o em poucas palavras, tanto quanto nos seja possivel.

Julião passou o dia trabalhando, e tanto ele como sua familia e oficiaes gozaram perfeita tranquilidade.

Quanto ao mestre carpinteiro, vamos encontral-o com sua familia e amigos no campo pelas cinco horas da tarde.

Todos se acham alegres, como é natural, quando se vae passar o dia ao campo, e especialmente á hora de comer.

—Vamos—disse neste momento mestre João,—trinchemos estas aves, como dizem os ricos.

—Quem fala agora aqui de ricos?—Vivam os pobres!

—Viva a liberdade!—gritou João.

—Viva!!!

—Olha—perguntou o confeiteiro—para que queres tu a liberdade?

—Homem... eu... para... que sim... porque meu avô foi muito liberal... e odiava os padres, a religião e os ricos.

—Que não se fale aqui de politica—disse uma mulher.

—Sim, sim, para fóra daqui a politica; falemos antes de religião, o que está na ordem do dia desde que chegaram aqui os protestantes. Falemos, pois, de religião, como falou hontem á noite o mestre Julião, que tem cara de padre.

—Pois falemos de religião—disse uma das pessoas presentes; e, dirigindo-se ao confeiteiro, disse-lhe: Tu que és? catolico apostolico romano, ou judeu?

—Homem—respondeu ele—eu sou hespanhol.

Uma gargalhada geral acolheu esta resposta.

—De que se riem vocês?—perguntou ele—Eu nasci em Madrid, portanto sou hespanhol.

—Isso nada tem que ver. És cristão?

—Sim.

—Catolico apostolico romano?

—Sim.

—Nesse caso crês no Papa.

—Eu não creio no Papa.

—E nos padres?

—Tão pouco.

—E na Virgem?

—Sim.

—Pois então não és católico apostolico romano, porque não crês no Papa.

—Lembra-te de que ele é infalivel.

—Sim, e exactamente agora, porque é infalivel, perdeu ele o poder temporal, e contra ele se levantam os proprios catolicos. Ha pouco li num jornal, de que sou assinante, que o padre Jacinto, esse padre ou frade francez que tanto tem dado que falar, vae casar-se, e o mesmo vae fazer um sabio alemão que se chama... não me posso recordar agora do seu nome; o certo é que eles dizem que os padres devem ser casados.

—Isso é que é uma grande verdade—disse outra pessoa presente,—os padres devem ser casados; assim não se presenciariam certos escandalos...

—Mas é que o Papa—disse outro—é muito provavel que saia de Roma, apezar de toda a sua infa...li...bi...lidade.

—Em vista de tanta trapalhada que ha na egreja e tanta palhaçada—exclamou o sr. João—eu não sou nada; o que me ensinaram meus paes isso ensino eu a minha filha; porém eu... creio que ha um Ser supremo, mas que não intervem em coisa alguma deste mundo; faço o bem que posso, respeito os santos, e não me meto com ninguem; e com isto tenho a certeza de ganhar o céu, se é que o ha.

—Isso sim—exclamaram alguns—isso é que é ser cristão.

Assim continuou a conversação, expondo cada qual as suas idéas religiosas.

Segundo eles, fazer o bem que se pode fazer, crer num _Ser_ que é antes um _não ser_, visto que em nada intervem, e respeitar os santos, eis o que é preciso para uma pessoa ser cristã e salvar-se.

Que cegueira! E quem tem a culpa de tanto erro? Não hesitemos em o declarar; a culpa tem-na em sua maior parte um clero tão ignorante como fanatico, porém sobretudo tão egoista, que não ergue a voz senão quando se vê ofendido nos seus interesses materiaes.

Ha milhares e milhares de pessoas como o mestre João, excelentes paes de familia, homens honrados segundo o mundo, porém em questões religiosas, já por vezes o temos observado, com o facto de fazerem o bem que podem dão-se por satisfeitos. Erro! lamentavel erro! Aqueles que em tal coisa crêem que escutem o que disse Jesus ao doutor da lei.

«Mestre—disse um doutor da lei a Jesus—o que é preciso que eu faça para alcançar a vida eterna? E Jesus lhe disse: O que está escrito na lei? Como lês tu? E, respondendo o doutor, disse: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, com todas as forças do teu entendimento, e o teu proximo como a ti mesmo.—Bem falaste (respondeu Jesus); _faze isso e viverás_».

_Faze isso e viverás_; não basta fazer uma parte, é preciso fazer tudo para a gente se salvar. Porém agora surge esta pergunta: Pode o homem fazer tudo? Não. Para ele cumprir a lei, ganhar a salvação da sua alma, é impossivel; porém temos um Substituto que fez tudo; foi-nos dado _um_ que não deixou nada por fazer. Esse _um_ é Jesus Cristo, e só por Ele temos redenção, justificação e santificação. Sim, pela fé em Jesus temos assegurada a salvação da nossa alma. Sem a fé em Jesus _nada_ temos.

Porém voltemos á reunião.

É já quasi noite, e os amigos do mestre João, este e sua familia, preparam-se para irem para suas casas. Ao subirem para o carro, o boleeiro ria como um perdido na almofada, e por mais que fizessem para o dissuadirem disso não poderam.

O carro partiu, e todos iam alegres e contentes.

O confeiteiro começou a sentir-se incomodado com o movimento do carro, e principiou a gritar:

—Parem! parem! he! he! sinto-me incomodado: quero...

Inclinou-se para um lado, e, sem que ninguem podesse evital-o, caiu do carro abaixo. O cocheiro fez um supremo esforço para parar os cavalos, porém em vão; não o pôde fazer senão depois de terem dado alguns passos.

Toda a gente, soltando gritos de horror, desceu do carro, e foi logo para junto do confeiteiro, que jazia estendido no chão, banhado em sangue, sendo necessario transportal-o para a casa mais proxima.

Houve uma pessoa que, apezar da muita devoção que tinha a Santo Antonio, não pôde deixar de exclamar:

—Se Santo Antonio não tivesse vindo ao mundo, nem tivesse amanhecido o seu dia, não se teria perdido com isso coisa nenhuma. Ao passo que outro acrescentou: «Melhor nos teria sido passar o dia com Julião, trabalhando na oficina, e ganhando para nós e nossas familias».

CAPITULO IV

Consequencias

São decorridos quinze dias desde o dia de Santo Antonio até hoje. Em casa do mestre João deve ter havido alguma coisa de extraordinario. Reina lá uma agitação fóra do costume; as mulheres andam apressadas dum para outro lado e o rosto de mais duma delas está humedecido pelo pranto. Que terá sucedido?

Consequencias duma vespera e dum dia de Santo Antonio.

Quer pela perda dos diamantes, quer pelo susto que recebeu com a queda do moço confeiteiro, Antonia veiu para casa doente.

No dia seguinte manifestou-se-lhe uma febre tão intensa que o medico declarou que não havia tempo a perder, pois via-a ameaçada duma congestão cerebral. Acrescentou que o caso não podia ser mais grave, e que, portanto, seria conveniente que se preparasse espiritualmente.

A pessoa que recebeu esta noticia foi a Dôres.

A mãe de Antonia estava como fóra de si; o pae chorava como uma creança, e para dizer tudo numa palavra—todo e qualquer teria pena daquela familia, tão triste agora como alegre ainda não havia muitos dias.

Dôres transmitiu a noticia a uma tia de Antonia, a qual disse que não a comunicava aos paes dela. Por fim, depois de muita hesitação, resolveram dizel-o a um sacerdote que vivia na mesma casa. Chamava-se Francisco, era ainda novo, um tanto instruido e, apezar de fanatico nas suas idéas religiosas, gozava de bastantes simpatias entre os seus freguezes.

As mulheres despediram-se do padre Francisco, e dez minutos depois um aprendiz de Julião entrou na oficina do carpinteiro, dizendo:

—Sr. João, o meu mestre pede-lhe que vá á loja dele, pois que precisa muito de falar-lhe.

O carpinteiro seguiu o rapaz, e, logo que avistou Julião, este disse-lhe:

—Boas tardes, sr. João. Como vae Antonia?

—Mal, muito mal. Filha da minha alma!

—Senhor João—disse Julião muito comovido—não se aflija. Emquanto um doente tem vida, ainda ha esperança. Venha comigo cá para dentro, que temos que falar.

Quando chegaram á sala e se sentaram, Julião deixou que o seu amigo se tranquilisasse um pouco, e chamou por sua mãe para que trouxesse um copo de agua.

—Então, sr. João!—disse a senhora Josefa, apresentando-lhe o copo com a agua—não se entregue á dôr dessa maneira, tenha confiança em Deus.

—Deus, Deus—exclamou o carpinteiro,—Deus não ouve, Deus está...

A senhora Josefa ia a responder, porém um gesto de Julião indicou-lhe que saisse, e assim o fez, dizendo:

—Jesus está em toda a parte.

—Senhor João—disse Julião quando sua mãe saiu,—ha sucessos na vida mediante os quaes é posta á prova a alma do homem. Quando um pae sofre o que vocemecê está sofrendo, e crê e confia em Deus, não se desespera assim.

—Não sei, Julião, o que teem as suas palavras, que tanto me consolam; porém, não, não, minha filha não deve morrer tão joven... eu proprio a disputarei a Deus.

—Quer disputal-a a Deus?

—Sim, como?

—Pela oração.

—Eu não sei rezar, nem quero; o que quero é minha filha.

—Tão pouco eu quero que reze; o que eu quero é que se volte para o Senhor com humildade, dizendo: «Senhor, não te deixarei se não me abençoares; ofereço-Te minha filha, faze dela o que fôr da Tua vontade; sómente Te rogo que ma deixes, ou que me dês forças para sofre este golpe no caso de ma levares; tem piedade de mim, em nome de Jesus».

—Eu não sei dizer isso; eu não sei orar.

—Não? Pois então diga ao Senhor: «Senhor, ensina-me a orar...» Jesus disse: «Tudo o que pedirdes em oração, tendo fé, recebereis».

Estavam nisto quando bateram de mansinho á porta da sala.

Julião abriu, e o P.ᵉ Francisco entrou, saudando João e Julião, que por sua vez corresponderam á saudação.

—Pois, senhores, deixo-os sósinhos—disse Julião.

—Não, não, de modo nenhum; deve até ficar—respondeu o sacerdote, acrescentando:—Vejamos, sabe já o sucedido, sr. Julião?

—Não—respondeu Julião—eu tratava de o consolar, exortando-o a que pozesse a sua confiança em Deus, infinitamente bom.

Todos tomaram assento, e o P.ᵉ Francisco disse:

—Sim, é certo que Deus é bom, porém quer que da nossa parte façamos alguma coisa.

—E que devemos fazer nós?—perguntou Julião.

—Oh!—exclamou o sacerdote—a penitencia! Esse precioso dom que nos concedeu a misericordia dum Deus Salvador! Dom que, acompanhado da poderosa intercessão da Bemdita Virgem e de toda a côrte celestial de anjos, querubins e santos, nos abre infalivelmente as portas do céu, já se vê, uma vez que haja a absolvição do sacerdote, apoz a confissão! Sim, meu amigo, se receia alguma coisa por sua filha, deve, revestindo-se de valor, dizer-lhe... que se confesse.

João ia a falar, quando o P.ᵉ Francisco o interrompeu, dizendo:

—Já sei o que me vae dizer. Dirá o que todos dizem, isto é, que a confissão feita por um enfermo no leito da morte é um golpe terrivel para ele. Mas porquê? Quando o sacerdote, vestido com os seus habitos talares, e com a autoridade que Deus e a santa egreja lhe dão, se aproxima da cabeceira do doente para o advertir de que se acha ás portas da eternidade, e de que o espera talvez a condenação eterna, a sua presença e palavras actuam de tal maneira no espirito do doente que lhe dão novas forças; e, no momento de se confessar para poder receber a Jesus sacramentado, opera-se nele uma tal mudança que se pode atribuir á certeza, que é dada ao enfermo, da absolvição dos seus pecados dada aqui na terra pelo sacerdote romano e ratificada no céu. Então pode o moribundo entregar-se com inteira confiança á protecção da mãe dos pecadores, e morrer em estado de graça e em perfeita e completa paz.

—Eu pergunto uma coisa—disse Julião.—O sacerdote não diz nada de Jesus aos enfermos?

—Sim, diz; porém o nome de Maria Santissima é mais doce, induz mais facilmente ao arrependimento.

—Não estou de modo nenhum conforme com isso, porque, afinal, quem operou a salvação dos pecadores, Maria ou Jesus?

—A salvação é obra dos dois, porque, se Jesus morreu, foi concebido no ventre da Virgem e amamentado aos seus peitos; e, ainda que não fosse por isso, pelo facto de ela ser mãe de Jesus, Este ha de declinar nela todo o poder. Sem Maria não podia existir Jesus.

—Porém essas doutrinas são hereticas; onde encontra o senhor uma só palavra na Biblia que autorize taes opiniões?

—Mas se a Biblia o não diz dil-o a egreja e os padres.

—A palavra de Deus tem mais autoridade do que padre algum, pois que o melhor deles é falivel.

—Porém de que se trata?—perguntou mestre João.

—Simplesmente—respondeu o sacerdote—dizer-lhe que sua filha está perigosamente doente, e que é preciso que se confesse.

—Filha do meu coração!—exclamou o carpinteiro, louco pela dôr.—Minha pobre filha! Com que então morre?..

Houve um momento de silencio, durante o qual o sacerdote e mestre Julião encararam com profunda simpatia o aflito pae.

CAPITULO V

Tlim... tlim... tlim... tlim...

No dia seguinte ao dos acontecimentos narrados no capitulo antecedente, estava tudo preparado para se levar o _Viatico_ a Antonia.

A opinião do padre Francisco prevaleceu, e ele mesmo confessou a filha do carpinteiro. Ao anoitecer já estavam todos os amigos de mestre João e grande numero de visinhos esperando que soasse a hora marcada para irem á egreja.

Entre os visinhos faltava um, era mestre Julião.

Deixemol-os no caminho da egreja, e ouçamos o seguinte dialogo entre duas visinhas:

—É estranho que a mulher de mestre Julião não esteja neste momento em casa de Antonia, visitando-a tanto a miudo como a visitava.

—Olhe, sr.ª Tomazia, segundo o que tenho ouvido dizer, ela e o marido são protestantes, e por isso... como vão á...

—Protestantes! Vocemecê está louca, sr.ª Joana! Pois então não conheço eu Dôres desde pequenina, e não foi baptizada em S. Caetano?

—Pois filha, o que lhe digo e repito é que mestre Julião é protestante.

—Pois está muito enganada. Os protestantes não são hespanhoes nem estão baptizados.

—Então que são eles?

—São uns estrangeiros que vieram de longe, da mourama, mandados de lá para conquistarem a Hespanha.

—Pois a mim disseram-me em segredo que Julião era protestante.

—Não, esse está baptizado e é hespanhol; e ha pouco entrou em sua casa o padre Francisco; já vê que, se ele fosse protestante, não entraria ali aquele sacerdote.

—Pois é exactamente por isso que eu o sei. O padre Francisco soube que mestre Julião estava aconselhando o pae de Antonia a que não deixasse confessar a filha, e foi lá a casa para o trazer comsigo.

—É verdade! Isso é um misterio.

—Misterio não; ha quem diga...

Neste momento ouviu-se o _tlim... tlim... tlim... tlim..._ da campainha anunciando a chegada do _Viatico_.

Imediatamente em casa da enferma e nas casas visinhas se estabeleceu uma grande confusão. Os moradores dos andares superiores desceram á porta da rua, uns trazendo luzes e outros com brazas nas pás, em que queimavam alfazema e incenso. O som da campainha ouvia-se cada vez mais distintamente, e os que vinham na frente com tochas acesas entraram no portal. Toda a gente se poz de joelhos. O sacerdote passou pelo meio, murmurando palavras que não se entendiam, e entrou pela porta que dava para as trazeiras da carpinteria. A porta de Julião, de que já falámos, e que ficava em frente da de mestre João, permaneceu fechada, causando este facto grande surpreza.

Emquanto o sacerdote estava lá dentro, alguns dos que tinham vindo acompanhar processionalmente o _Viatico_ ficaram no portal, porque não cabiam no quarto da enferma, e, para não perderem o tempo, começaram a fumar e a conversar muito tranquilamente.

—Ouça lá, visinha—disse um individuo a uma mulher que estava com um candieiro na mão.—Quem mora nessa casa cuja porta está fechada e que não teve uma triste vela para alumiar o Senhor quando passou?

—Ali—respondeu a mulher, apontando para a porta que estava fechada—é a oficina de mestre Julião. Não são muito amigos destas coisas, nem ele nem sua familia; são...

—Protestantes?

—Exactamente.

—Oh! com mil bombas! Ouve tu—dirigindo-se a outro—; naquela casa mora um protestante: deveriamos chamal-o e obrigal-o á força a abrir a porta e trazer uma luz.

—Não, deixae-vos de loucuras, cada um é livre de pensar como quizer—respondeu ele.

—Bom, bom—disse um homem já de edade,—por essa tolerancia da mocidade em admitir estrangeiros é que a Hespanha está assim.

—Não—respondeu uma visinha,—ámanhã mesmo o comunicaremos ao sr. padre Francisco, pedindo-lhe que diga ao senhorio que despeça aquelas aves de mau agouro.

Neste ponto terminou a conversa, pois que tinha tambem terminado a cerimonia da administração do _Viatico_ á enferma. Pôz-se tudo na mesma ordem; tornou a soar a campainha, e o _Deus inventado pela Egreja romana_ saiu de casa, e lá foi novamente nas mãos dum simples mortal.

Vejamos entretanto o que estava fazendo aquela familia que conservou a porta sempre fechada, e que nem uma _triste vela_ acendeu á passagem do viático.

Dôres, Josefa e Julião estavam sentados na sala, tendo este ultimo deante de si um livro aberto.

—Que tristeza—disse Julião—me causa tudo o que se está passando na casa de João! Que diferente é o que estão fazendo com Antonia daquilo que o Senhor ordena na Sua Palavra! Leiamol-a e vejamos o que se deve fazer com os enfermos. Na Epistola de S. Tiago, cap. V, vv. 14 e 15, lê-se o seguinte: «Está entre vós algum enfermo? chame os presbiteros da egreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o em nome do Senhor; e a ORAÇÃO DA FÉ salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará; e, se _estiver em alguns pecados_, ser-lhe-hão perdoados.» Taes são as instruções que temos na Palavra de Deus, e portanto não devemos afastar-nos delas, desprezando-as.

Façamos «_a oração da fé_ que salvará o enfermo», pedindo a Deus por nossa visinha a quem tanto estimamos; não que a nossa oração a salve, mas sim porque é uma recomendação de Deus, e por meio da qual liberalisa a Sua graça e concede os Seus dons. Porém é preciso fazer essa oração com fé. Minha mãe e tu, Dôres, sentem-se com verdadeira fé, para pedir ao Senhor por Antonia, crendo firmemente que o Senhor a aliviará?

—Sim, responderam elas resolutamente.

—Pois então oremos ao Senhor.—Pozeram-se todos de joelhos, e, depois duns momentos de meditação profunda, ergueu-se a voz de Julião, pausada e solene, dizendo:

—Oh! Senhor e nosso Pae! Ajoelhamo-nos deante de Ti, em nome de Jesus Cristo, para Te suplicarmos que nos concedas uma benção especial. Senhor, lemos na Tua Palavra que nos mandas que oremos pelos enfermos, prometendo que «a oração da fé salvará o enfermo, e que Tu, Senhor, o aliviarás». Dá-nos a fé necessaria para Te pedirmos por Antonia, nossa visinha. Tu, oh! Deus, sabes todas as coisas, e conheces todos os corações. Sabes, pois, a situação em que se encontra a nossa amiga e o estado do seu coração. Ah! Senhor! Não permitas que, enganada por praticas vãs, que lhe ensinaram, sua consciencia continue a estar adormecida, pois que nesse caso qual será o seu despertar? Oh! bom Deus; aqui Te apresentamos a promessa; agora, Senhor, atende ao que Te pedimos: Que levantes Antonia do seu leito, e que a convertas a Ti, sarando-lhe deste modo o seu corpo e a sua alma. Senhor, concede-nos isto, faze-nos ver o Teu poder, dá consolação a seus paes, e restitue-lhes sua filha; mas, se fôr do Teu agrado leval-a para Ti, salva a sua alma. Ouve-nos, Senhor; assim To pedimos em nome, por amor e pelos merecimentos de Jesus Cristo, Teu Filho. _Amen._

—_Amen_, repetiram as duas mulheres.

Quando se levantaram, Julião disse:

—Agora aguardemos a resposta do Senhor.

—Olha, Julião—disse Dôres,—vou ver como está Antonia, e volto já.

—Se te deixarem entrar..., observou Josefa.

—E porque não me hão de deixar entrar?

—Porque como nenhum de nós foi á porta quando passou o _Viatico_...

—Nesse caso—interrompeu Julião,—se te disserem alguma coisa que não te agrade, volta imediatamente para casa.

Dôres saiu, e dentro em breves instantes eil-a em casa de mestre João. Estranho contraste se apresentou então aos seus olhos! O altar de Santo Antonio estava iluminado como na vespera do seu dia, e adornado de flores; porém ás gargalhadas e ao ruido das guitarras havia sucedido o pranto; ao forte sapatear da dança, o andar de mansinho nas pontas dos pés; á atmosfera viciada pelo fumo dos cigarros a não menos viciada atmosfera do fumo do incenso e da alfazema. Na presença do Santo tinha sido a orgia, na presença do Santo as lagrimas e os soluços. E este, impassivel deante das palavras grosseiras de então, continuava impassivel agora á dôr e ao pranto de toda uma familia. Então ofereceram-lhe canções, agora oferecem-lhe orações, e, se áquelas foi completamente surdo e cego, a mesma surdez e cegueira manifesta em presença destas. O mal principiou no dia do Santo, ou antes na vespera, e quando e como acabará?

Estas ideias perpassam pelo espirito de Dôres, que pôde observar tambem como, á sua entrada, algumas mulheres que estavam na sala cessaram de falar e a encaravam com certa reserva.

—Boas noites—disse ela.

—Boas noites—responderam as pessoas que estavam.

—Posso ir ver Antonia?

As mulheres hesitaram; por fim uma disse:

—Pode ir.

Dôres entrou na alcova, e aproximou-se silenciosamente da cabeceira da enferma, inclinando-se para a ver. Antonia abriu os olhos, e logo que reconheceu que era Dôres disse-lhe com voz debil:

—És tu, Dôres?

—Sim, sou eu—respondeu ela,—como estás?

—Mal, muito mal; não sinto a cabeça.

—Pois nesse caso não fales.

—Não, não falarei; o cheiro da cera e do incenso entonteceram-me... Porque não vieste antes?

—Deves saber, Antonia, que, ainda que não esteja a teu lado, lembro-me de ti e oro a Deus por ti. Vou deixar-te. Pensa em Deus, minha amiga, e lembra-te de que só Jesus Cristo é que pode salvar-nos.

—Eu já recebi a comunhão.

—Muito bem; porém não fies a tua salvação de mais ninguem senão de Jesus Cristo. Por Ele serás salva.

—Assim o farei... porém não vás ainda, senta-te aqui junto de mim.

Dôres calou-se e sentou-se, orando em silencio por sua amiga. Passados alguns momentos, saiu para a sala, e, dirigindo-se ás mulheres que ali estavam, disse-lhes:

—Onde estão os paes de Antonia?

—Não sabemos—respondeu uma, muito secamente.

Dôres, apezar de notar que a sua pergunta não tinha sido bem recebida, continuou:

—Parece-me que as senhoras deviam apagar algumas luzes do altar. Antonia queixa-se do calor e do cheiro da cera.

—Bem sabemos—respondeu a tia de Antonia—aquilo que temos de fazer. E a proposito; a senhora far-nos-hia um grande favor não tornando aqui até que Antonia esteja livre de perigo. O confessor prohibiu que fale com certa classe de gente... e...

—Sim—interrompeu Dôres—e entre essa classe de gente estão Julião, sua mãe e sua mulher, não é verdade? Pois bem, retiro-me, porém graças a Deus que em minha casa orarei pela minha amiga, e sei que Deus me ouvirá.

—Já lhe dissemos que pode retirar-se—exclamaram todas.

—Sim, retiro-me—disse Dôres com as lagrimas nos olhos—retiro-me, e que Deus vos perdôe o mal que me fazeis.

As mulheres continuaram por alguns momentos falando, e Dôres saiu, chorando, em direcção de sua casa. Ao verem-na entrar assim, sufocada pelas lagrimas, Julião e Josefa levantaram-se apressados, interrogando-a:

—Morreu?

—Não—respondeu Dôres.

—Então que foi?

—Ai!... por ordem do confessor não podemos entrar mais naquela casa.

—E então isso é motivo para que te aflijas assim dessa maneira?—exclamou Julião.

—Sim, porque quero muito a Antonia, e desprezam-nos sem saber porquê!

—Sem saber porquê?—disse Josefa—Não digas isso; eles de mais o sabem; é porque nós somos cristãos e eles não; eis ahi o motivo.

—Porém podiamos ter feito tanto bem a Antonia... que...