Part 13
«Sim, separo-me dos erros de Roma, porque aprendi no Evangelho qual é o caminho onde se serve a Deus, e o meio que existe para entrar no céu. Se me separo da Egreja de Roma, é porque esta egreja dá ao homem um sem numero de intercessores, ao passo que a Palavra de Deus me ensina «que ha um Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.»
«Separo-me da Egreja de Roma, porque ela diz que o homem se salva por suas boas obras, fazendo deste modo que ele tome parte em sua salvação, e isto em menoscabo de Cristo, o unico Salvador, porque está escrito ácerca dele: «_Em nenhum outro ha salvação, porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual possamos ser salvos_», e em menoscabo da Palavra, que diz:
_«Pela graça sois salvos pela fé, e isto não de vós, pois é dom de Deus.»_ Separo-me da Egreja Romana, porque nela tudo é material e nada espiritual, fazendo um vil negocio das coisas mais santas; pois que do mesmo modo vende tanto os sacramentos, como as bulas, como as missas, como as indulgencias, etc., etc., sem ter em conta que foi dito por Jesus: «_De graça recebestes, de graça dae._»
«Não posso por mais tempo permanecer no seio da Egreja Romana, que conta entre os seus dogmas o da _Transubstanciação_. Meus amigos, estudei essa questão ha poucos dias, e estou intimamente convencido de que Jesus e Seus apostolos nada disseram ácerca da missa, nem tão pouco a instituiram, nem, e ainda muito menos, a disseram.
«Separo-me da Egreja Romana, porque vi que ela alterou as praticas estabelecidas por Jesus e os apostolos, aumentando, tirando ou modificando sacramentos, como vou passar a expôr: O baptismo que a egreja ministra não é o que ministraram nem João, nem Paulo, nem nenhum dos apostolos. Em primeiro logar, faz o seguinte: exorcismo do sal, que o sacerdote põe nos labios da creança; o exorcismo da creança, soprando-lhe sobre o rosto, por tres vezes; outro exorcismo de sal; o presbitero põe saliva no nariz e nos ouvidos do recem-nascido, e tambem o unge nos hombros e no peito, com o oleo dos catecumenos. Como já disse, procurei com todo o cuidado na Palavra de Deus, para ver se ela autorizava taes praticas, e não achei sequer a menor sombra destas superstições. Filipe, Paulo e Pedro, e todos quantos administraram o baptismo, sómente exigiam a fé em Cristo, sem usarem exorcismos, nem velas, nem unturas. Baptizavam em qualquer ponto onde havia agua, tendo presente o mandamento de Cristo: «Ide e ensinae, baptizando em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo.» Depois do baptismo cobram-se 24 reales, o que indica que por esta quantia Roma introduz na familia cristã um ser qualquer.
«Protesto contra a confissão romana, e aceito a Biblia. Pela primeira, o homem se confessa ao homem, a quem não ofendeu, e esquece o verdadeiro ofendido; o penitente envergonha-se dum homem e não se envergonha de Deus. Eu fui confessor, e conheço os segredos do confessionario, pelo que vos digo que fujaes dele. O homem deve confessar-se a Deus.
«Declaro que adiro ao Evangelho em toda a sua pureza; que o prohibir aos homens a leitura da Palavra de Deus é uma pratica que tem por fim levar os homens a que não vejam o erro em que vivem e o abandonem, com menoscabo da autoridade de Deus, que ordena em muitas passagens da sua Palavra que esta seja lida, sabida e estudada por todos os homens. Roma, porém, prohibe ao povo a leitura das Escrituras, e manhosamente procede do mesmo modo para com os sacerdotes, para que tanto uns como outros não vejam as adulterações e corruções que essa egreja tem feito, alterando umas coisas e introduzindo outras.
«Confesso tambem que a Egreja de Roma comete uma grande maldade, alterando o mais respeitavel de todos os sacramentos; falo da sagrada Eucaristia. A egreja romana, querendo corrigir o que Jesus fez, prohibe o calix aos fieis no ato da comunhão, ao passo que o Senhor diz: «_Bebei todos dele_» referindo-se, não sómente aos discipulos, mas a quantos depois deles haviam de comemorar «_a morte do Senhor até que venha_.»
«Finalmente, protesto contra tudo o que Roma faz, por duas razões: ou porque tudo está viciado, ou porque está em contradição manifesta com as práticas apostolicas e com a vontade de Deus.
«Confesso que, emquanto fui sacerdote (pois desde hoje deixo de o ser), procedi impelido pelo zelo e fanatismo, de que estava possuido, e porque cria fazer um serviço a Deus! Quanto me enganei! Deus me perdôe!
«Confesso que procurei fazer muito mal a este amigo—e apontava para Julião—em seus interesses; confesso que, a solicitações minhas, o capelão duma familia nobre influiu sobre certa dama, de quem era confessor, e Julião perdeu, não sómente o trabalho de certa casa, como tambem as economias que havia empregado em materiaes para aquele trabalho; d’ahi principiou a decadencia da casa de Julião, e por isso teve ele que fechar a sua loja, e aqui cometi outro pecado maior. Quando se achava na miseria, fui oferecer-lhe recursos em troca da sua consciencia. Confesso que por minha parte empreguei todos os esforços para impedir a celebração dos cultos aqui nesta casa, valendo-me de quantos meios bons ou maus estavam ao meu alcance; confesso que chamei este joven—disse ele, apontando para Mateus—com má intenção, e confesso, por fim, que fui tão grande pecador que sómente pela maravilhosa misericordia de Deus estou convencido de que Ele me perdoará, pois que lho peço em nome de Jesus Cristo, e vós todos a quem ofendi me perdoareis egualmente, porque sois cristãos e porque vol-o peço pelas entranhas misericordiosas de Cristo.»
Havia nas palavras do padre Francisco tal convicção e tal acento de verdade que, ao ouvil-as, algumas vozes se ouviram, dizendo:
—Sim, sim, está perdoado.
E a todas estas vozes sobressaiu uma, que disse:
—Bem, bem, senhor padre Francisco, V. é um bom sacerdote, liberal, honrado e honesto; perdôo-lhe tudo e estimo-o.
Foi mestre João quem disse isto.
CONCLUSÃO
Não se pode descrever a sensação que a profissão do ex-sacerdote romano fez no auditorio. Profundamente impressionado, não pôde prosseguir no discurso, pelo que Mateus, levantando-se e fazendo sinal de silencio, disse:
—Irmãos e amigos. Acabamos de escutar as palavras de quem, tendo militado sob as bandeiras do erro, abriu os olhos á luz, e hoje acode pressuroso a refugiar-se em Cristo.
«Fez uma confissão de todos os seus atos assim como da sua fé, pelo que nós devemos recebel-o. O Senhor não desprezou nenhum dos que iam ter com Ele, o Senhor não desprezou o ex-padre romano; nós, portanto, não devemos desprezal-o, mas sim amal-o. Agora oremos ao Senhor.
Depois que fizeram oração e cantaram um hino, todos os ouvintes foram apertar a mão ao novo convertido, dirigindo-lhe as palavras mais afectuosas. Ele, por sua parte, respondia a todos carinhosamente, e por ultimo os ouvintes retiraram-se.
No dia seguinte, o padre Francisco devolveu ao seu superior as suas licenças e a renuncia do seu titulo de sacerdote, e nunca mais, apezar de quanto fizeram os seus antigos companheiros para o convencerem, tornou a dizer missa; cresceu-lhe o cabelo, que cobriu a corôa, e dentro de poucos mezes ninguem conhecia aquele que pouco tempo antes tinha sido padre catolico.
A imagem de santo Antonio foi destruida; os cultos continuaram na casa em que Julião vivia; Julião e João continuaram á frente das suas oficinas; o padre Francisco, segundo é fama, fez-se missionario evangelico; por meio dele Deus anuncia o Evangelho da paz a muitos hespanhoes sepultados no erro.
O Senhor permita que sejam muitos os que assim conheçam a verdade e a sigam!
NOTAS
[1] Não estranhem isto os leitores. Não se pode assinalar a origem desta e outras absurdas crenças, porém é certo que o povo baixo as tem.
[2] Os leitores devem lembrar-se de que é um padre romano quem fala, e de que os mandamentos foram deturpados por essa egreja.
[3] Cerca de 2 escudos.
[4] Note-se que nesta formula de confissão faz-se menção de tudo, menos de Jesus Cristo.
INDICE
Pag.
I—A benção de Deus 5
II—Devoção e... vinho 10
III—No dia de Santo Antonio 20
IV—Consequencias 27
V—Tlim... tlim... tlim... tlim... 32
VI—Manda-o minha filha, e é quanto basta 40
VII—A visita 49
VIII—A calunia 59
IX—Novos acontecimentos 72
X—De corpo presente 85
XI—Um culto funebre 91
XII—Intrigas do confessionario 99
XIII—Frutos do confessionario 110
XIV—Da loja á agua-furtada 118
XV—Já começa! 128
XVI—Um sermão, um desafio, e uma hora de fé 137
XVII—O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus 143
XVIII—Pobre padre Francisco 150
XIX—Evangelicos e romanos 154
XX—O Cristo das Completas e um lignum crucis 161
XXI—A conferencia 168
XXII—Temor, inquietação e duvidas 179
XXIII—Romano e evangelico 188
XXIV—As duas cartas 200
XXV—O regresso 205
XXVI—O padre Francisco 210
Conclusão 216