Julião e a Biblia

Part 12

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Escute tambem o que dizem os textos seguintes:

«Cristo _uma vez_ morreu pelos nossos pecados; o Justo pelos injustos, para nos oferecer a Deus (1.ª de Pedro 3:18).»

«E não entrou para se _oferecer muitas vezes_ a si mesmo, como o Pontifice cada ano entra no santuario com o sangue alheio; doutra maneira lhe seria necessario padecer muitas vezes desde o principio do mundo, mas agora aparece uma só vez na consumação dos seculos, para destruição do pecado, oferecendo-se a si mesmo por vitima. Assim como está decretado aos homens que morram uma vez, e que depois disto se siga o juizo, assim tambem Cristo foi UMA SÓ VEZ imolado para esgotar os pecados de muitos; e a segunda aparecerá sem pecado aos que o esperam, para a salvação (Hebreus, 9:25—28).»

«Mas este, havendo oferecido _uma só_ hostia pelos pecados, está _sentado para sempre_ á dextra de Deus, esperando o que resta, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés» (Hebreus, 10:12 e 13).

Estes textos do Novo Testamento, que acabo de ler, demonstram claramente que a missa, ou, melhor, a pretenção de sacrificar a Cristo todos os dias, e em muitos logares ao mesmo tempo, é contraria á vontade de Deus, que quer um só sacrificio. Disto deduzo uma consequencia, e é a seguinte—que os anatemas de Roma são contra Deus.

Agora é claro que para haver sacrificio é necessario haver vitima, e desta aproveita-se a egreja romana por meio da sua transubstanciação, porém tenha V. em conta «que sem derramamento de sangue se não faz remissão». Ora, onde está na missa o derramamento de sangue? De que instrumentos cortantes se serve o sacerdote nesse sacrificio? Quem derrama ali o sangue? E que não digam os romanos que tudo ali se faz em figura e memoria, porque em tal caso cae sobre eles o anatema tridentino; é preciso crer, ainda que não se veja, que Cristo desce ás mãos do sacerdote, e que este O oferece em sacrificio ao Eterno. Ah! Roma faz muito bem em se servir, para representar a fé, duma matrona com os olhos vendados.

Compreendo a razão por que Roma não quer o livre exame, pois que odeia a luz! Pois bem, padre Francisco, o senhor é sacerdote romano, permita que lhe diga que está nas trevas; não está em Deus, «porque Deus é luz.»

O joven calou-se, e o sacerdote disse:

—Ainda que a minha alma receba uma dulcissima consolação, ainda que desejaria confessar-lhe tudo o que sinto, pode descançar. Porém, se não quer, continue.

—Não estou cançado—respondeu o joven, acrescentando:—Além disso, desejo terminar a questão que nos ocupa. Que Cristo, material ou corporalmente, está na missa, que a Sua presença é verdadeira e real, no dizer da egreja romana, não resta duvida, pois no canon I, sessão 13 do referido concilio de Trento, diz-se: «Qualquer que negar que no sacramento da Eucaristia se contém verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com Sua alma e divindade, e por consequencia Cristo todo, mas afirmar que está ali em simbolo ou figura, ou por Sua propria virtude, SEJA ANATEMA.

Torno, pois, não já a dizer que Roma anatematiza o Deus que ela adora, senão que se opõe com seus decretos á vontade soberana de Deus. Como pode estar Cristo no sacramento, ou na missa, duma maneira corporal? A Escritura, em oposição a isto, diz:

«_Pelo que, se ressuscitastes em Cristo, buscae as coisas que são de lá de cima, ONDE =Cristo= estará sentado á dextra de Deus_» (Col., 3:1).

«_Ao qual (Jesus) certamente é necessario que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, as quaes Deus falou por boca dos Seus santos profetas, desde o principio do mundo._» (Atos, 3:21).

«_Mas Este (Jesus), havendo oferecido uma só hostia pelos pecados, ESTÁ SENTADO PARA SEMPRE á dextra de Deus._» (Hebreus, 10: 12).

Como, pois, se atrevem os senhores a sustentar que Cristo desce a este mundo, quando é preciso que esteja á dextra de Deus até que se cumpram todas as profecias? Como podem sacrificar ou renovar o sacrificio d’Aquele que com _um só_ sacrificio fez perfeitos os que santificou?

Porém vou fazer-lhe uma pergunta, á qual, se responder satisfatoriamente, prometo crer, não digo na transubstanciação, mas em tudo o que de mim exija o _infalivel_ romano. A pergunta é esta: Que Cristo é que Roma sacrifica—o glorificado dos céus ou o terreno do Golgota? O primeiro, atendendo ao que diz S. Paulo, «ha corpos celestes e corpos terrestres», é celestial, ou seja o Cristo glorificado; a esse tal é impossivel sacrificar, porque já está glorificado, e portanto, além da Sua natureza, que a isso se opõe, seria necessario fazer baixar um ser dum logar de gloria a um mundo de padecimentos e a sofrer dôres. Se me dizem que sacrificam o corpo de Cristo como está cá no mundo antes de ser glorificado, digo que não pode ser, porque não existe, e porque o Cristo que o sacerdote sacrifica não corresponde, nem em peso nem em tamanho, ao Cristo que nasceu em Betlehem. Que Cristo é glorificado, e que o Seu corpo é um corpo celestial, nós o sabemos, por aquilo que está escrito na primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15: 45-48, e ainda mais pela leitura de todo o capitulo em que se diz que os que habitam nos céus teem corpos celestiaes.

Depois duma breve pausa, o joven continuou:

—Se alguma crença eu tivesse ácerca da transubstanciação, bastar-me-hia, para abandonal-a, ter lido no missal romano as regras sobre os defeitos da missa, que V. conhecerá perfeitamente. Ha uma pagina de que eu me recordo muito bem, e que diz: «Se uma hostia consagrada chegar a desaparecer, por qualquer acidente, pelo vento, ou por milagre, ou fôr devorada por um animal, consagre-se então outra». Como é possivel que Aquele a quem os crentes obedecem, esteja exposto a ser levado pelo vento? Como dizer que um milagre pode fazer desaparecer outro milagre? Como dizer que Cristo está exposto a ser devorado pelos ratos, que se dão perfeitamente nos retabulos carunchosos das egrejas? Como sei que não ignora o que deverá fazer o sacerdote se uma mosca ou uma aranha cair no vinho consagrado, que deve ser bebido, se da parte do sacerdote não houver nauseas, não lho repetirei, porém, sim, direi alguma coisa da famosa regra que diz: «Se no inverno se GELAR O SANGUE no calix, deve envolver-se este em panos quentes; se isto não fôr bastante, coloque-se dentro de agua quente perto do altar, até que se DERRETA O SANGUE, tendo o cuidado de que não entre agua no calix.»

Pode haver, meu amigo, maior cumulo de impiedades? O sangue de Cristo gelado! Então que Cristo é que sacrificam?

—Meu amigo—disse o sacerdote, profundamente comovido,—desde que me ordenei notei algumas coisas que não compreendia, porém em que cri, pela obediencia passiva, a que somos obrigados. Hoje tenho ouvido algumas que julgo serem verdadeiras, porém desejo ficar só para me ajoelhar deante de Deus, e pedir-Lhe que mostre o que devo fazer. Tudo o que neste momento podesse dizer-lhe não seria ditado por uma consciencia livre, pois que me encontro sob a influencia dos seus argumentos. Todavia, eu lhe prometo obrar conscienciosamente, e, para que tenha uma prova disso, vou fazer-lhe uma promessa e um pedido.

O joven prestou toda a sua atenção, e o sacerdote prosseguiu:

—A promessa é esta: não tornarei a dizer missa até que Deus me convença de que é um erro tudo quanto o senhor acaba de me dizer; o pedido é que me deixe a sua Biblia para que eu possa lêl-a e confrontal-a com a minha. Uma coisa mais: se o Senhor me disser que a egreja da qual sou sacerdote não é de Cristo, renunciarei ás ordens e me separarei dela.

O joven e o padre Francisco combinaram o dia em que se veriam outra vez, e, depois duma breve oração que o evangelista fez, este saiu da casa do sacerdote, pedindo a Deus a sua conversão.

CAPITULO XXIV

As duas cartas

Os nossos leitores certamente que ainda não perderam de memoria a personagem principal da nossa historia, o mestre Julião.

Este, bem como o seu amigo, o mestre João, continuam em M., e, se bem que amiudadas vezes escrevam ás suas respectivas familias, nada temos dito a esse respeito, porque tambem nada digno de especial menção tem ocorrido.

Alguns dias depois da entrevista do padre Francisco com o evangelista, achava-se Dôres costurando a um canto da loja, quando um aprendiz se dirigiu a ela e lhe disse:

—Mestra, está aqui uma carta.

Dôres ergueu de repente a cabeça e tomou a carta das mãos do rapaz; com a rapidez do relampago, abriu-a, e, vindo sentar-se numa cadeira, começou a ler a carta, que era concebida nestes termos:

Povoação de M...

«Querida esposa. Que, quando esta chegue ás tuas mãos gozes saude em companhia do nosso filho, são os desejos de teu esposo.

«João e eu passamos sem novidade.

«Recebi a tua ultima, e, inteirado do que me dizes, agradeço-te as noticias que me dás de tudo, porém especialmente ácerca dos negocios do nosso estabelecimento; não esperava outra coisa do sr. Mateus, que é um bom cristão.

«Saberás que já concluimos aqui as obras (o que falta agora para fazer é pouco) e podemos ir a Madrid passar alguns dias para comprar materiaes e descançarmos, emquanto os arquitetos principiam outros trabalhos. Depois d’ámanha, pois, terei o prazer de ver-te e de beijar o nosso querido Paulo.

«Dou graças ao Senhor, porque aqui ficam alguns que já conhecem o Evangelho, os quaes se reunem todos os domingos e passam uma hora e meia lendo a palavra da vida.

«Alegro-me tambem com o que me participas ácerca das visitas de Mateus a casa do padre Francisco, e peço ao Senhor que converta esse infeliz sacerdote.

«O sr. João diz-me que tenhas cuidado de observar, todas as vezes que Mateus sobe as escadas do padre, se torna a descel-as, pois que diz que não tem confiança nos catolicos, porém eu digo que Deus é maior do que todos e que Ele guardará Seus filhos de todo o mal.

«Hontem recebemos a ultima importancia do trabalho, e, como já te disse, paguei ha tempos ao sr. João o dinheiro que nos emprestou, e ainda temos uma economia dalgumas libras. Para concluir, te direi que de saude vou bem. Pois até o sr. João diz que estou muito gordo, o que não admira, porque quando aqui cheguei quasi cahia de fome.

«Pobre esposa, quanto tens sofrido! Porém, repara como o bom Deus nos tem abençoado!

«Sem mais, dá lembranças aos oficiaes, á familia do nosso amigo, beijos ao menino, e tu recebe o amor de teu esposo.

_Julião._»

Dôres deu graças a Deus pela carta que tinha recebido, e depois saiu precipitadamente pela porta que dava para o corredor, em direcção á casa da familia de João.

Dôres levava a carta na mão, e, ao abrir a porta, encontrou-se com Antonia, que, com outro papel na mão, vinha para sua casa.

—Carta!—exclamaram ao mesmo tempo as duas jovens assim que se viram.

—De meu marido—disse Dôres.

—De meu pae—respondeu Antonia.

—Pois vamos para tua casa—respondeu Dôres—ali as leremos; não é bom que tua mãe fique só.

—Como queiras—respondeu Antonia.

Ambas entraram na carpinteria, onde estava a senhora Brigida chorando de alegria.

Antonia começou a ler.

«Povoação de A...

Querida esposa e filha. Muito me alegrarei que ao receber esta gozeis a mais perfeita saude, que é o que eu mais desejo; eu estou bom, para o que queiraes mandar.

«Brigida e Antonia, estou certissimo de que ides receber um alegrão, quando receberdes estas curtas letras.

«Sim, certamente que vos alegrareis.

«Sabereis que depois d’ámanhã chegamos a casa, pois que por agora concluimos aqui o trabalho.

«Vou dar-vos um abraço, forte, muito forte; sois vós as duas pessoas a quem mais quero neste mundo.

«Tambem quero muito a Dôres e a seu filho, sem falar em seu marido, que é o melhor homem que debaixo do céu existe. Está sempre a prégar e com a Biblia na mão. Eu tenho-lhe dito muitas vezes:

«Oh homem, não vê que se riem de si nas suas proprias barbas?—Porém ele tem mais paciencia do que Job, que, segundo creio, foi o homem mais paciente do mundo.

«A mim faz-me sofrer muito, porque quando vejo que ha alguem que se ri das nossas crenças não sei que faria; porém Julião sempre me está a repreender, dizendo: «Senhor João, Jesus diz: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração:—veja que os discipulos de Jesus não hão de ser homens colericos: veja que, porque não somos do mundo, por isso nos aborrece o mundo.» Com estas e outras razões faz de mim tudo quanto quer.

«Outra coisa: O padre Francisco ainda vos molesta por causa dos cultos? Que vontade tenho de ir, para o confundir a ele e á gente! Todas as manhãs oramos por ele, Julião e eu; porém, se Deus não faz um milagre, deixará esse senhor de ser padre romano quando eu deixar de ser carpinteiro. Aquele é o seu oficio, como este é o meu; emfim, eu, para não ocupar-me dele, não quero outra coisa mais senão que nos deixe em paz.

«Não vos incomodo mais; saudades a Dôres, beijos a Paulo, lembranças aos oficiaes da casa, aos aprendizes e a todos os que perguntem por mim. Recebei saudades de Julião.

«E agora disponde, no que vos aprouver, deste que vos estima e deseja ver,

_João_.»

—Vês?—disse Brigida.—Nada nos diz meu marido das obras nem dos ganhos; sómente tem na imaginação o padre, de quem não gosta, pelo mal que a todos nos tem feito.

—A mim—exclamou Antonia—pouco me importam as noticias com respeito a interesses; o principal é saber que teem saude e que veem breve.

—Claro—respondeu Brigida,—porém repito-vos que o seu eterno pesadelo é o padre.

—Meu pae—insistiu Antonia—tem um coração nobre. Homem rude, sabe amar com toda a sua alma, e odeia menos do que parece. Estou certa de que, se ámanhã o padre Francisco se visse em alguma dificuldade e meu pae podesse tiral-o dela, fal-o-hia com grande prazer, pois que é este o seu costume.

—Amigas—disse Dôres, interrompendo a conversa,—recebemos boas noticias, e por isso devemos dar graças a Deus.

Em seguida todas se pozeram de joelhos em oração a Deus, rogando-Lhe por aqueles dois seres que tão queridos eram ás tres mulheres.

No aposento em que oravam estava o altar com Santo Antonio; porém nem uma palavra houve para o santo.

CAPITULO XXV

O regresso

No dia marcado nas cartas por Julião e o sr. João, chegaram ambos a Madrid.

Suas familias foram esperal-os á estação do caminho de ferro, e agora todos juntos se acham na loja de Julião, conversando, e entre outras pessoas se encontra o joven Mateus, pois terminado o culto daquela noite, como soubesse que o seu amigo Julião chegava, foi tambem esperal-o.

Depois das primeiras saudações, e no momento em que os achamos sentados conversando em casa de Julião, Mateus falava assim:

—Pois sim, meus amigos, durante a vossa ausencia aconteceram muito boas coisas nesta casa.

—Pelo que diz—perguntou Julião,—o culto continuou a fazer-se sem interrupção?

—Sim, senhor.

—E continúa a vir gente?

—Já se vê que sim.

—E diga-me—interrompeu o sr. João,—o padre tem-os incomodado?

—Ah!—exclamou o evangelista.—Pobre padre Francisco! Neste momento a sua alma passa por uma luta terrivel;—a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, entre o seguir as verdades do Evangelho e as praticas romanas. Tal é a sua situação; o pobre sacerdote luta, porém creio que essa luta lhe será proveitosa.

—Sim, sim, pensem no padre—disse o carpinteiro—e verão o que lhes sucede.

—Não sei—disse Mateus,—porém parece-me que o padre Francisco deixará os erros de Roma.

—Pois senhor—insistiu o sr. João,—muito desejarei que assim suceda, porém...

—Nada, senhores—interrompeu Julião,—a obra não é nossa, a obra é de Deus. Ele tem que obrar; nós, com as nossas duvidas e com a nossa falta de fé, fazemos o que fizeram as multidões no tempo de Jesus:—impossibilital-O, com as nossas incredulidades, de que obre maravilhas.

Depois dalgumas palavras mais, Mateus manifestou intenção de se retirar para que os dois recem-chegados descançassem. Julião propoz que se tivesse um pequeno culto de acção de graças ao Senhor, pelo regresso dos dois ao seio de suas familias, e, feito isto, cada qual retirou-se para sua casa.

No dia seguinte, assim que circulou a noticia da chegada de Julião, quasi todos os visinhos foram visital-o e apertar-lhe a mão.

As mulheres não cessavam de falar sobre a vinda de Julião, e tanto assim que muito depressa chegou a noticia aos ouvidos do padre Francisco, que permanecia em sua casa, sem sair dela e sem querer receber ninguem.

O pobre sacerdote lia sem cessar a Biblia, orava continuamente, e a sua alma ia-se abrindo cada vez mais para recolher nela a verdade.

O padre Francisco havia envelhecido dez anos. Estava palido, com os olhos encovados, e tanto assim que a sua governante, assustada, lhe tinha proposto, por vezes, que se chamasse um medico, ao que ele se havia recusado abertamente.

No momento em que soube da chegada do vidraceiro, um raio de alegria iluminou o seu palido semblante, e imediatamente mandou chamar Julião, o qual, recebido o recado, dirigiu-se a casa do sacerdote, emquanto Dôres foi dar a noticia ao sr. João e á sua familia.

—Ah!—exclamou o carpinteiro—já começamos de novo? Pois eu asseguro-vos que, se acaso trama alguma coisa contra vocês, lhes mostrarei o que vale este velho.

Entretanto, o padre Francisco, frente a frente de Julião, contava-lhe os seus temores, as suas duvidas, descobria-lhe, emfim, o estado de sua alma.

—Pois para mim—disse-lhe o vidraceiro depois de o ouvir—a coisa é clara e a solução desta questão é simples; V. antes não conhecia a verdade, pelo que procedia julgando servir a Deus; hoje a verdade lhe foi revelada por meio da Palavra da Vida; agora, pois, não tem mais do que dois caminhos a seguir: ou ter a fé dos anjos, ou ter a fé do demonio.

—Não compreendo—disse o padre.

—Pois creio que me explico bem—disse Julião.—Os demonios crêem em Deus, e, comtudo, tremem; os anjos crêem em Deus e se deleitam n’Ele. Se V. viu a luz, Cristo, e não a segue, por esta unica razão está no caminho da perdição; e devo advertil-o de que o Evangelho já lhe foi anunciado, e Jesus já Se lhe manifestou. Se teme mais aquilo que dirão de si, se teme a anciedade, se receia perder a sua posição aqui no mundo, se não teme a ira de Deus para com aqueles que rejeitam a Jesus, resiste ao Espirito Santo, e é este o mais terrivel pecado que o homem pode cometer.

Julião calou-se, e o sacerdote, que se achava numa grande agitação nervosa, passados alguns instantes, disse:

—No caso de que eu me decidisse pelo Evangelho, como V. o compreende, que deveria fazer?

—A primeira coisa era crêr no Senhor Jesus, como o unico Salvador e Intercessor entre Deus e os homens; a segunda coisa era abandonar completamente as praticas romanistas, resignar todos os cargos que exerce no seio da sua Egreja e fazer a sua profissão publica da sua fé na presença duma congregação de cristãos evangelicos, dedicando-se em seguida a prégar a verdade, com o mesmo afinco e zelo com que antes prégava o erro. Finalmente, se quer ver o que deve fazer, se é convertido ao Senhor, veja e estude o que fez S. Paulo quando deixou de ser Saulo.

—Sim—exclamou o padre Francisco—é preciso que eu prefira o bem a tudo, a verdade ao erro. Porém o mais dificil para mim, o que mais me tortura, é a idéa «do que dirão de mim os meus colegas.»

—Por muito que digam, esteja certo de que nenhum deles vae responder por V. no dia do juizo. Se tem medo _do que dirão_, do mundo, tema antes _o que dirá_, do sangue de Jesus, tema o que dirá aquele manso Cordeiro, quando Ele se levantar para lançar-lhe em rosto o desprezo que tem do Seu sacrificio já feito. «_Eu_—disse o Senhor—_eu mesmo vos consolarei_. _Quem és tu para teres medo dum homem mortal, e do filho do homem, que assim como o feno se secará? E te esqueceste do Senhor, teu opifice, que estendeu os céus e fundou a terra, e todo o dia tremeste continuadamente á vista do furor daquele que te atribulava e se tinha disposto para te perder; onde está agora o furor do que te atribulava?_» (Isaias, 51: 12 e 13) Desgraçado daquele que pelo mundo abandona a Deus.

—Não falemos mais; creio em meu coração que devo fazer o que diz, porém ha alguma coisa que mo impede; dentro de poucos dias terá noticias minhas.

Depois duma breve oração, Julião despediu-se do padre Francisco, profundamente convencido de que Deus trabalhava no coração do sacerdote.

Quando chegou a sua casa, estava lá o mestre João, que ao vêl-o disse:

—Aposto em que o padre mais uma vez o enganou!

—Senhor João—respondeu Julião,—oremos ao Senhor pelas almas que trabalham por abandonarem o mal, e ás quaes Satanaz persegue e põe mil obstaculos para as impedir de se acercarem do Senhor. A conversão dum sacerdote romano é para Satanaz um verdadeiro desespero.

CAPITULO XXVI

O padre Francisco

Já haviam decorrido oito dias desde que Julião tinha regressado a Madrid, e quatro desde que ele havia falado com o padre Francisco.

Julião tornou a encarregar-se do culto que se celebrava em casa. Uma noite, depois de prégar, anunciou aos concorrentes que na noite seguinte um novo prégador desejava dirigir-lhes a palavra, e taes coisas disse e por tal modo encareceu o assunto, chamando a concorrencia dos assistentes, e especialmente dos visinhos, que na noite de que vamos falar a sala do culto, corredor e mais dependencias, donde se podia ouvir, estavam atulhadas de gente.

No semblante de todos via-se desenhados os desejos mais veementes de conhecer o novo prégador.

Chegou, por fim, a hora de principiar o culto, e a curiosidade ia satisfazer-se.

Julião ocupou a cadeira que ficava pelo lado detraz da meza, invocou o auxilio do Senhor, cantou-se como de costume um hino, fez-se oração, e em seguida Julião leu o cap. 55 de Isaias.

Em logar de tomar o texto para prégar, Julião afastou-se para um dos lados da meza, quando acabou de ler. Neste momento abriu-se uma porta de vidraça, que ficava pelo lado de traz dele, e entrou um individuo, que veiu ocupar o logar do prégador.

Este individuo, vestido de preto, fez com que todos os concorrentes exclamassem, possuidos de profunda admiração:

—Oh! O padre Francisco!!!

Houve uns momentos de assombro geral, durante os quaes foram sentar-se a ambos os lados da meza Julião e o joven evangelista Mateus.

Passados aqueles momentos, o padre Francisco disse:

—«Sim, amigos meus, é o padre Francisco, que, tendo ouvido na palavra de Deus o convite a «todos os sedentos para virem ás aguas», cheio de sêde acode pressuroso a esse manancial de aguas divinas; o padre Francisco, que ouviu ainda a tempo o aviso de Deus: o padre Francisco, emfim, que, impelido hoje por uma força desconhecida, por uma voz que lhe grita: «para deante» vem para fazer aqui, e depois em outra parte, uma confissão dos seus erros, e uma profissão de fé. Todos sabeis quem eu sou, todos me conheceis: e por isso mesmo a vós outros, antes do que a ninguem, venho dizer-vos que creio no milagre portentoso do Santo, porque dos meus olhos tambem cairam as escamas do erro.

«Eu era cego, guia de cegos; e ai! sem o pensar, a quantos precipitei eu no barranco!

«Nescio de mim que, tendo o Evangelho em minhas mãos, jámais estudei as verdades nele contidas, fiando-me sómente na interpretação rotineira que me haviam ensinado nas cadeiras de teologia que cursei.

«Porém, graças a Deus, vim ao reconhecimento da verdade que ha em Cristo Jesus, e hoje abandono o erro que está na Egreja de Roma. De hoje em deante serei cristão de Cristo, porém não cristão do Papa; serei prégador do Evangelho, porém não serei sacerdote; perderei com isso a minha reputação, o meu credito, tudo; porém não me importa; ganhei a Cristo; é quanto basta; e a todos quantos julguem ver no meu procedimento um fim interesseiro, emprazo-os para deante do Tribunal Supremo, naquele dia em que «todo o oculto será manifesto.»