Part 11
—As citações que fez, e que lemos nesse livro—dizia, apontando para a Biblia,—tão gravadas ficaram na minha mente que jámais as esquecerei... Oh! receio ter cometido um pecado, lendo este livro! Porém... Porventura não li eu as notas e não vi que estão conformes com a explicação e até mesmo com a aplicação que delas fez o joven?... E, no fim de tudo, os Evangelhos e as Epistolas que nós lemos á missa... Ah! a missa! Parece que tão pouco acredita nela! Não, pois neste ponto não lhe concedo nada; eu sei que Jesus instituiu a missa quando instituiu o sacramento da Eucaristia, e sei que os apostolos tambem disseram missa...
Novamente o padre Francisco se calou, porém ao cabo dalguns momentos continuou:
—Emfim, vou ver o que é a verdade... Lerei os capitulos que me disse da Epistola aos Hebreus... Certamente que lerei as notas; e assim não haverá receio de que o meu espirito se extravie.
O padre Francisco abriu a Biblia, procurou a Epistola e principiou a ler o capitulo 4, depois de ter recitado uma breve oração em latim.
Diversas foram as impressões que o padre Francisco recebeu durante a leitura; impressionavam-no sobremaneira os versiculos 14 e 15 do cap. 4; o 20 do cap. 6; porém sobretudo surpreendeu-o o que estava escrito nos versiculos 24 e 28 do cap. 7, e não poude passar mais adiante.
Ali, viu clara e terminantemente a falsidade de que a missa seja o sacrificio de Cristo.
No versiculo 21 do citado cap. 7, leu ácerca de Cristo:
«_Que não tem necessidade, como os outros sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrificios, primeiramente pelos seus pecados, depois pelos do povo, porque isto o fez uma vez, oferecendo-Se a Si mesmo._»
Recorreu o sacerdote ás notas, desejoso de que elas lhe fizessem compreender outra coisa distinta daquilo que ele compreendia, isto é, que depois do sacrificio de Cristo teria havido alguma razão poderosa para se celebrar a missa. Ancioso, cravou os olhos no livro e leu:
«Ofereceu-Se a Si mesmo, não por pecados proprios, como impiamente disse Socino, pois que o Apostolo lhe chama Santo, Inocente, Imaculado, senão que satisfez ao Pae por nós. O ter-Se _oferecido uma vez_ não exclue os sacrificios da _Egreja Cristã_, porque o mesmo que se efectuou cruento sobre a cruz está expresso no incruento dos nossos altares». (Conc. Trid. Sessão 22, cap. 11).
O padre Francisco deu um murro em cima da mesa e exclamou:
—Claro que a missa é uma representação do sacrificio de Cristo, porém esta nota do Concilio de Trento está abertamente em oposição com aquilo que nós ensinamos, isto é, que na missa sacrificamos a Cristo real e verdadeiramente, pois que temos em nossas mãos um Cristo real, material e verdadeiro. Não posso compreender isto, porém creio que o sacrificio de Cristo não se repete mais... Oh! que está dando entrada no meu coração a heresia!... Nada, nada... porém, sim, a olhos vistos se pode observar que existe uma contradição entre os nossos ensinos e as nossas praticas...
O sacerdote, cançado por uma luta tão prolongada, decidiu ir refugiar-se no leito, esperando encontrar repouso no sono.
Fez as suas orações do costume, porém podemos afirmar que nessa noite os seus labios mais do que o seu espirito tomaram parte nos exercicios piedosos, pois que o espirito, esse achava-se bastante perturbado.
Todavia, contra as suas esperanças, passou aquela noite preza de pezadelos que o não deixaram dormir.
Impossivel nos seria descrever os sinaes de terror que se desenhavam no rosto do padre Francisco ao levantar-se do leito, ao romper do dia. Tremulo e agitado, principiou a vestir-se com uma precipitação desusada, e exclamou:
—Oh Santissima Virgem do Pilar! Tu és boa, tu és pura, tu não quererás que eu, que te amo até ao ponto de ter-te aqui encerrada nesta arca santa, para que nem o proprio ar te dê; tu, oh flôr de Nazaré, oh estrela da manhã, não quererás que eu me perca... Não sou eu sacerdote? Não te amo mais do que a minha vida?... Não daria até o meu proprio sangue por ti? Porque, pois, não me ouves?... Acaso já me não amas a mim? Em que te ofendi? Oh Virgem Santissima, não te mostres indiferente quando eu te oro; pelo contrario, concede-me o que te peço!... Agora vou dizer missa; a ti a ofereço, excelsa Senhora; prepara-me tu, e perdoa-me todos os meus pecados, que na tua presença confesso.
E o sacerdote, cruzando as mãos sobre o peito, inclinou a cabeça e disse em voz baixa:
—Eu, pecador, me confesso a Deus[4] e á bemaventurada sempre Virgem Maria, e ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, e ao bemaventurado S. João Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos... que pequei gravemente por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa... por minha culpa... por minha gravissima culpa. Portanto, rogo á bemaventurada Virgem, ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, ao bemaventurado S. João-Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo, e a todos os Santos... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor... Amen... Jesus, Maria, José, perdoae-me o grave pecado de ler o que não devia ter lido, e falado com quem não devia falar, que me fez sonhar aquilo que eu não queria. Senhor, Maria, Santos que habitaes as mansões celestes. Sumo Pontifice, Arcebispo da diocese, perdoae-me... _Amen._
O sacerdote, depois de se ter persignado tres vezes, levantou-se, e, fechando o armario, dirigiu-se ao seu quarto; uma vez ali, poz a capa e, tomando o gorro, saiu.
Emquanto ia a caminho da egreja, novos pensamentos se lhe cruzaram pelo espirito, inquietando-o muitissimo.
Via em sua imaginação a Virgem do Pilar, deante da qual se tinha ajoelhado, tão resplandecente, tão formosa... então, por uma transformação, viu-a negra, sem aquela expressão de bondade no rosto que sempre tinha, tal qual como quando estava nas mãos do artista; depois, viu-a no cadinho derretida, e por ultimo acabou por perguntar a si mesmo: «Ter-me-ha ouvido esse pedaço de prata?»
Como nesta luta estava interessada a cabeça e o coração, tornava-se ainda mais amarga, porque o que aquela aprovava este rejeitava, e vice-versa; assim que, depois da pergunta anterior, veiu-lhe ao espirito o seguinte pensamento: «Porém, se eu me prostrei deante daquela imagem, não foi para a adorar a ela, mas sim aquilo que representa».
Por fim chegou á egreja, e, depois de tomar uma pouca d’agua benta, com que fez uma cruz na testa e na corôa, dirigiu-se para a sacristia.
A sacristia desta egreja é digna de ser observada.
Quasi todas, com pequenas excepções, são eguaes. Um compartimento maior ou menor, com um armario a um dos lados, que serve ao mesmo tempo de meza, o qual é de madeira e duma construção pesada. Nos seus gavetões guardam-se os paramentos, a cera, etc.
Na parede lateral do lado oposto, ha uma especie de banco corrido, que oculta um caixão a todo o comprimento, onde os sacerdotes guardam as capas, quando se preparam para celebrar a missa.
Quadros misticos, um crucifixo, uma pequena taça de pedra com agua, onde o sacerdote lava as mãos antes e depois da missa, compõem todo o adorno daquele logar.
Devemos fazer especial menção duma antiquissima mesa, por detraz da qual ha uma cadeira de couro, não menos antiga.
Fazemos menção especial destes dois objectos, que não faltam em nenhuma egreja paroquial, não por sua antiguidade nem por sua beleza artistica, mas sim porque naquela cadeira e por detraz daquela mesa senta-se um sacerdote. Vejamos de que se ocupa ele.
Uma mulher entra na sacristia, dizendo que deseja mandar dizer uma missa em tal ou qual altar; mandam-na ter com o sacerdote que está sentado á mesa, o qual recebe o dinheiro e escreve num livro, respondendo depois: «Pode-se ir embora, que a missa cá se dirá...»
Depois chegam duas senhoras, com um recem-nascido. Veem mandar dizer uma _missa de parida_, como vulgarmente se chama. O clerigo recebe dinheiro e diz: «A primeira que agora se fôr dizer é a missa que deseja». Costuma suceder que alguma pessoa entra na sacristia pedindo o _Viatico_ para algum enfermo, e então não falta sacerdote que não murmure:
—Não podem vir á noite? A esta hora tão impropria! Assim está em perigo o doente?
E deste modo, ainda que o sacerdote se revista com as vestes proprias, ainda que o sino dê o sinal do estilo, numa palavra, ainda que se vá desempenhar aquele oficio no _mesmo instante_, não se faz sem primeiramente se haver murmurado ácerca da hora, do frio, do calor, dos muitos degraus que ha para subir, se o enfermo é pobre e habita nas aguas-furtadas dum quinto andar. Em resumo, para aquele que vae com o dinheiro na mão tudo está muito bem; para o pobre, porém, é outra coisa; tudo se faz, mas sempre de má vontade.
Para terminar esta descrição, diremos que na sacristia, geralmente, reina o melhor humor. Os sacristães, rodeados por seis ou oito meninos do côro que olham com inveja para a sotaina, e aspiram chegar a serem sacristães quando _haja logar_, ralham sobre a repartição mal feita dalguma propina, ou sobre o dever de ajudar ou não á missa. Porém que ha a estranhar em que os meninos do côro façam isto, quando os sacerdotes lhes dão tal exemplo?
Numa palavra, se os nossos leitores querem inteirar-se a fundo e conhecer as miserias da egreja romana, vão estudal-as no interior dalgumas sacristias paroquiaes, na certeza de que verão com surpreza e escandalo o que o autor destas linhas tem tido ocasião de ver.
Porém, voltando ao padre Francisco, achava-se sentado e absorto em suas meditações, quando um dos sacristães se aproximou dele para lhe dizer que era a hora de dizer missa.
O padre Francisco principiou a paramentar-se, recitando em latim, durante esse ato, as rezas do ceremonial.
Recordou-se então de que nenhum dos apostolos havia usado aquelas vestes, e, a seu pezar, olhava para elas agora com uma certa indiferença que lhe seria impossivel explicar. Por fim tomou o calix e saiu para a egreja. Ao subir os degraus do altar-mór, sentia esvaecimentos de cabeça; porém, apezar disso, continuou.
Segundo o costume, recitou as primeiras orações, e, ao chegar ao _confiteo deo_, etc; quiz concentrar-se comsigo para fazer uma confissão digna, porém naquele momento assaltou-o este pensamento: Primeiramente pensou que nem S. Paulo nem S. Pedro deviam ter celebrado missa recitando aquela oração, pois, de contrario, eles mesmos se pediriam perdão dos seus proprios pecados; segundo, se, como é de supôr, esta oração não se dizia no tempo dos apostolos, claro é que era um remendo deitado depois, e em tal caso a missa não era como a celebraram os apostolos.
Imediatamente o assaltou outro pensamento:
—Que nescio sou em pensar assim! Claro é que nem S. Pedro nem nenhum apostolo disse esta oração; porém nem por isso a missa está alterada, visto que desde o _introito_ até ao Evangelho não são senão orações preliminares, que não formam parte da missa. Deixemos, pois, de pensar nestas coisas.
Continuou na celebração. Por fim chegou ao Evangelho; o menino do côro que ajudava á missa mudou o missal da esquerda para a direita do altar, e o sacerdote principiou a ler o Evangelho, que naquele dia era o cap. 4 de S. João, ou a passagem de Jesus com a samaritana.
O sacerdote lia rapidamente; porém ao chegar aos versiculos 21, 22 e 23, uma luz penetrou no seu espirito, e por um momento parou na leitura, até que com muita atenção e pausa tornou a ler:
«_Vós adoratis quod nescitis..._»
—Sim—pensou o padre Francisco—«Vós adoraes o que não sabeis». Isso sucede á maioria dos catolicos. Que sabe ácerca de Deus essa gente que se ajoelha atraz de mim? Como pode estar orando com recolhimento, se está olhando para mim com toda a atenção, para se ajoelhar quando eu me ajoelho, e levantar-se quando eu me levanto?
«_Ced venit hora—prosseguiu lendo—et nunc est, quando veri adoratores adorabund Patrem in spiritu et veritate. Nam et Pater tales quoe rit, qui adorant eum, in spiritu et veritate oportet adorare._»
—Oh—disse o padre—eis aqui uma doutrina na qual nunca havia posto a atenção. «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pae em espirito e verdade, porque Ele é Espirito e verdade; além disso, porque tambem o Pae busca taes adoradores para que O adorem.» O Senhor, pois, deseja um culto espiritual, porém certamente que o culto que nós, os catolicos, Lhe rendemos tem muito pouco de espiritual, é antes externo e material. Jámais pensei nisto.
O sacerdote continuou a missa, e concluiu-a, saindo da egreja sem falar a ninguem.
As devotas que costumavam ouvir a missa que ele dizia sahiam, dizendo:
—Hoje sim, que o padre Francisco disse uma missa bem comprida!
Ao chegar a casa escreveu a seguinte carta:
Madrid... Embaixadores...
Meu caro Sr. Mateus N.
Apezar de ter resolvido não incomodal-o mais, sinto muito ter de o fazer, pedindo-lhe que venha por esta sua casa quando lhe seja possivel, tendo em conta que uma alma que sofre necessita da sua presença.
Seu afectuosissimo,
_Francisco Maria dos Anjos_.
CAPITULO XXIII
Romano e evangelico
Passaram dias terriveis para o padre Francisco. Nestes dois dias comeu pouco, dormiu menos e permaneceu encerrado em casa, sem sair á rua, nem mesmo para dizer missa.
No fim destes dois dias bateram á porta. A creada veiu abrir, e anunciou logo:
«O sr. Mateus.»
—Que entre! que entre!—disse o padre, que não poude conter-se, indo ele mesmo á porta.—Bemvindo, bemvindo seja, senhor Mateus.
Saudaram-se mutuamente e entraram logo no escritorio.
Depois de tomarem assento, disse Mateus:
—Hontem á noite, ás onze e meia, recebi a sua carta, pois que estive numa povoação prégando, e, como lhe disse, cheguei hontem a essa hora; por isso apressei-me hoje em vir, e aqui me tem ás suas ordens.
—Meu amigo, é impossivel dizer-lhe as angustias que sofro. O meu espirito luta, e mesmo de noite não posso descançar. No dia em que lhe escrevi, não pude dizer a missa com a tranquilidade de espirito necessaria: á noite, antes de me deitar, li a Biblia, e fui acometido de horriveis pesadelos.
E o padre Francisco contou ao joven os sonhos que teve durante a noite, e tudo o mais que lhe sucedeu na missa. Depois continuou:
—Que significa tudo isto? Porque sofre tanto a minha alma? Eu lhe peço, sr. Mateus, que me diga franca e lealmente se o que crê o crê do coração; se assim é, qual é a base da sua fé, porque difere das crenças da Egreja, porque tem em pouca conta a missa... numa palavra, desejo que me diga sinceramente se obedece á sua consciencia, ou se, tanto o senhor como os da sua seita, estão filiados para, sob a capa do Evangelho, destruir a Egreja catolica, e substituil-a pelo seu protestantismo. Fale-me com toda a franqueza, na certeza de que ninguem saberá esta nossa conversa, e em troca terá restituido a tranquilidade e o repouso á minha alma. Finalmente, sr. Mateus, ou me demonstra clara e terminantemente as erradas crenças que eu confesso, ou diz-me que os protestantes obedecem a planos duvidosos, pois de contrario porque protestam?
O padre Francisco calou-se; o seu olhar estava fito no semblante do evangelista, como se quizesse magnetisal-o. Passados alguns segundos, disse Mateus:
—Senhor padre Francisco, tenho-o estado escutando com toda a seriedade de animo, e compreendi que a sua alma necessitava dum tal desafogo. Agora vou responder á primeira das suas perguntas, pois que, para melhor inteligencia, vou dividil-as em dois grupos. Deseja saber qual é o caracter do protestantismo. Bem; aqui, em nome do Senhor, a quem desde que sou convertido jámais invoco em vão, lhe asseguro que os protestantes, ou, antes, os cristãos evangelicos, não obedecem, em materias religiosas, a planos duvidosos; que por nenhuma causa desejam que o mundo se perca, que não odeiam os ministros, nem os fieis da Egreja romana, antes pelo contrario teem compaixão deles, e, por ultimo, que os protestantes desejam que o Evangelho, em toda a sua pureza, se estabeleça em toda a superficie da terra, e que, conforme as palavras do Senhor, o mundo seja cheio do conhecimento do Seu nome. Agora, a segunda parte da minha resposta é que a unica regra de fé dos protestantes é a palavra de Deus, conforme se acha contida nos livros do Antigo e Novo Testamentos; que acatamos tudo quanto a Biblia diz; que nos submetemos aos seus ensinos e rejeitamos pela base tudo aquilo que está em contradição com as Escrituras ou que não achamos nelas estabelecido. Isto posto, e antes de passarmos a outro ponto, devo perguntar-lhe se depois disto, e do mais sobre o que vamos falar, o Senhor, pelos meus labios, lhe pozer á vista os erros dos romanistas, promete não resistir por mais tempo ao Espirito, antes pelo contrario obrar conforme ele lhe dite?
—Sim, senhor—respondeu o sacerdote.
—Pois bem, observe, á face do Evangelho, os erros da Egreja de que é ministro. Mas para proceder com metodo, tratemos da questão pessoalmente, quero dizer, como se V. fosse o fundador do romanismo e eu do protestantismo.
—Bem, muito bem—disse o padre Francisco;—principiemos pela missa. Eu digo, e a Egreja o confirma, que Jesus foi quem instituiu a missa, quando instituiu o sacramento da Eucaristia.
—E eu—disse Mateus—digo que, antes de mais nada, precisamos de definir a missa. Pergunto, pois: o que é a missa?
—A missa—respondeu o sacerdote—é um sacrificio, no qual o sacerdote oferece a Deus, em sacrificio incruento, a Jesus Cristo, Filho de Deus. Este sacrificio pode aplicar-se em beneficio dos defuntos cujas almas se acham no purgatorio, por algumas faltas que cometeram neste mundo.
—Perfeitamente—replicou o evangelista.—É assim como o entende a Egreja romana; no emtanto, eu digo-lhe que não ouvi jámais tantos erros em tão poucas palavras. Em primeiro logar, como procederam os apostolos em relação ao partir do pão? No cap. 2 dos Atos, ver. 42 a 46, leio que eles, com as pessoas convertidas, participavam da comunhão entre si, celebrando o partir do pão nas casas, e todos com alegria glorificavam a Deus.
«Agora, pois, sabemos que os apostolos não se serviram desta especie de obreia, que a egreja romana emprega na comunhão, senão que comiam o pão como Jesus lhes ordenou; tambem bebiam vinho, não sómente os apostolos, como todos quantos participavam da comunhão, coisa contraria ao que faz o sacerdote romano, que priva do calix o povo, o que me dá direito de lhe perguntar: Quem instituiu o sacramento, o sacerdote ou Cristo?
«O Senhor, falando do calix, diz: «BEBEI TODOS DELE». Quem é V. para opôr-se á vontade do Fundador, que quiz que todos se aproveitassem do Seu sangue? Em segundo logar, a missa não foi instituida por Cristo, nem por Seus apostolos, porque um papa, Damaso, bispo de Roma, no ano de 368, instituiu o _confiteor_; Gelasio, no ano de 492, compoz os _Hinos_, _Coletas_, _Responsorios_, _Graduaes_, _Prefacios_, e tambem acrescentou o _Vere dignum et justum est_. Simaco, no ano de 512, decretou que nos domingos e festas principaes dos martires se cantasse a _Gloria in excelsis Deo_. Pelagio, pelo ano de 556, acrescentou a comemoração dos defuntos. Gregorio I, pelo ano de 600, fez as _Antifonas_ e o _Introito_, ordenando que a _kirie-eleyson_ se cantasse nove vezes, e do mesmo modo o _Aleluia_. Além disso, tambem ordenou este papa que o _Pater Noster_ se cantasse em alta voz, e sobre a hostia consagrada; tambem acrescentou ao canon: _Dies que nostres in tua pace disponas_.
O padre Francisco estava verdadeiramente assombrado, o que deixava ver claramente pelo gestos com que acompanhava as palavras de Mateus, que continuou assim:
—Sergio, que morreu em 701, ordenou que o _Agnus Dei_ se cantasse tres vezes antes de partir a hostia. Gregorio III acrescentou á secreta missa: _Quorum solemnitas hodie in conspectu tuae magestates celebratur, domine deus noster, in toto orbe terrarum_. Nicolau I acrescentou as _sequencias_. Não me negará V. que Sixto I acrescentou o Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Inocencio I, pelo ano de 405, acrescentou o osculo de paz. Leão I inventou o _Orate, frates_, o _Deo gratis_, e acrescentou ao canon _Senatum sacrificium_, _immaculatam hostiam_, e o _Hanc igitur oblationem_. E, depois de tudo isto, não vê V., meu caro amigo, que Cristo não instituiu a missa, mas sim que esta foi obra em que muitos colaboraram?
O padre continuou silencioso. Mateus prosseguiu:
—Existe outra prova maior do que todas, que demonstra claramente a extraordinaria mentira de que Cristo instituiu a missa. O grande _Te igitur clementissime Pater_ é uma parte da missa, na qual se faz menção do papa, do bispo e do rei, o que é uma prova irrecusavel de que nem instituiu a missa, nem tão pouco a disse, pois que no Seu tempo ainda não havia papas nem bispos. No _Communicates_ faz-se menção da Virgem e dos muitos santos que não existiram senão muitos anos depois dos apostolos, como S. Cipriano, S. Lourenço, S. Crisostomo, S. Cosme, Damião e outros. Ora isto prova a verdade da minha asserção. Agora convem observar a subtileza romana. Não põem no canon a S. Pedro, porque, se o pozessem, poderia dizer-se que aquele apostolo tinha procurado a nossa propria gloria. Com isto convenço o mais pertinaz ou cego de que nem Cristo nem nenhum dos apostolos disseram missa, nem conheceram o que isso era.
O sacerdote deu um suspiro e disse:
—Triste coisa é a gente encontrar-se em presença da fria verdade que esmaga! Oh! que Deus perdôe a todos.
O evangelista continuou:
—Agora passemos ás Escrituras. V. apresenta-me como razão das suas crenças a autoridade dos homens; e eu aceito-a para confundir essa autoridade com a de Deus. A essencia, o fundamento, da missa, está contida no artigo V. do Credo do Papa Pio IV, que diz assim: «Confesso, eu mesmo, que na missa se oferece a Deus um verdadeiro, proprio e propiciativo sacrificio pelos vivos e defuntos, e que no santissimo sacramento da Eucaristia estão _verdadeira, real e substancialmente_ o corpo e o sangue, _juntamente_ com a alma e a divindade, de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que se verifica uma _conversão_ de toda a substancia do vinho no Seu sangue, á qual conversão chama a Egreja Romana TRANSUBSTANCIAÇÃO. Tambem confesso que sob qualquer das duas especies se recebe Cristo total e completamente, e que são um verdadeiro sacramento.» Este artigo, ensinado aos catolicos, obriga-os a crêr em varias coisas; porém as duas principaes são: primeira, que na missa se oferece a Deus um sacrificio de propiciação pelos vivos e pelos mortos; segunda, que na missa, e sob as especies do pão e do vinho, está real, verdadeira e substancialmente Cristo, com a Sua alma e divindade.
Depois disto, e dado o caso de que alguem ousasse levantar-se contra tal impiedade, ou não podesse admitir uma tal crença, vem-nos o concilio de Trento decretar em sua sessão 22, canon III, o seguinte:
«Se alguem disser que o sacrificio da missa é sómente um sacrificio de louvor e acção de graças, ou uma mera comemoração do sacrificio feito sobre a cruz, e que não é propiciatorio, ou que aproveita sómente áquele que o recebe, e que não deve ser oferecido pelos _vivos_ ou pelos _mortos_, por seus pecados, castigos, penitencias mal cumpridas e outras necessidades, seja _anatema_.»
Todo o catolico romano está obrigado a calar-se e a acatar esta doutrina, esteja ou não conforme com ela, sob pena de ser fulminado pelo anatema.
O ensino, pois, desta egreja é que, cada vez que um sacerdote celebra missa, oferece a Deus um sacrificio proprio e propiciatorio pelos vivos e pelos mortos. Quem é o sacrificado neste sacrificio? Cristo, o mesmo Cristo do Golgota, o Jesus de Belem.
Quando principiámos esta discussão, disse-lhe que, tal como a queda e o caido, assim tinha que ser a redenção e o Redentor. Agora—acrescentou, tirando do bolso a Biblia—contra a doutrina de que o sacrificio de Cristo possa repetir-se ou renovar-se, temos o cap. 6, vers. 9 e 10 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.
«_Sabendo que, tendo Cristo ressurgido dos mortos_, JÁ NÃO MORRE, NEM A MORTE TERÁ SOBRE ELE MAIS DOMINIO. _Porque, emquanto a Ele morrer pelo pecado, Ele morreu uma só vez; mas, emquanto a viver, vive para Deus._»