Julião e a Biblia

Part 10

Chapter 103,946 wordsPublic domain

O padre Francisco levantou-se, dirigindo-se ao armario, e poz o dedo num botão amarelo, o que deu logar a que as portas se abrissem, deixando ver uma especie de capela com o seu altar, imagens e uma lampada de prata, cuja luz ardia continuamente. Ao abrir-se o armario, o padre Francisco tirou o _solideo_, fez uma reverencia ao altar e, voltando-se para Mateus, disse-lhe:

—Venha ver, que ha aqui coisas esplendidas.

O joven aproximou-se do altar, sem se inclinar nem fazer o menor sinal de reverencia.

—Veja—prosseguiu o padre Francisco—o meu pequeno tesouro. Essa Virgem do Pilar, que é de prata, tem um merito artistico extraordinario. Aquele crucifixo de marfim é tambem muito bom, e custou-me, quando estive em Roma, trinta e cinco libras. Vê aquele S. Pedro? Foi presente da minha madrinha de baptismo, que mo deu quando cantei missa, e então meu padrinho, para que eu tivesse o par completo, mandou-me fazer aquele S. Paulo. São ambos de oiro. Meu tio mandou-me do Brazil, quando era mordomo do arcebispo daquele paiz, esta reliquia: é um pedacinho dum dos degraus da casa de Anás. Porém ainda não lhe mostrei o melhor, que é aquele Cristo.

O padre Francisco apontava para uma téla, onde estava pintado um Nazareno com a cruz ás costas: representava-O de meio corpo e quasi do tamanho natural.

—_É o Cristo das Completas_, imagem muito milagrosa. Saiba que já falou.

—Já falou, esse pedaço de linho!—exclamou Mateus.

—Sim, senhor; queira ouvir a historia. Essa imagem achava-se exposta á veneração dos fieis num convento; nesse convento havia uma freira tão enamorada dela que cada vez que se ajoelhava para adorar passava ali horas esquecidas. Sucedia com isto que, ainda que o sino tocasse para as rezas, aquela esposa do Senhor não o ouvia e faltava sempre a elas.

«Uma tarde achava-se a freira em adoração á imagem e tocou o sino para as _Completas_, porém ela não ouviu o toque, e então a divina imagem, abrindo os seus divinos labios, avisou a sua amiga, dizendo-lhe: _Olha que tocam para Completas_.

—Pois sr. padre Francisco, não posso acreditar no que diz. Falar um pedaço de pano pintado!

—Como? Acaso não falou a burra de Balaão?

—Sim, senhor, porém aquele caso foi muito diferente, pois...

—Falaremos nisso depois do jantar. Veja outra preciosidade. Este _Lignum crucis_ trouxeram-mo de Jerusalem. Cresceu tanto emquanto o trouxe ao pescoço que tive que o cortar tres vezes durante um ano.

O joven, sem poder conter-se, soltou uma ruidosa gargalhada, mas, reprimindo-se em seguida, disse ao padre Francisco:

—Espero que me desculpe este imprudente riso, que me veiu sem querer aos labios; e logo que fechar o armario lhe contarei o motivo por que me ri quando me contou a historia do _Cristo das Completas_.

O padre fechou o armario e sentou-se numa cadeira em frente do joven, que disse:

—Ha pouco tempo achava-me eu numa loja de ourives desta capital; o dono, que é meu amigo, deu a um aprendiz, para que o limpasse, um relicario que ali tinham levado para esse fim. O relicario era nada mais nada menos do que um _Lignum crucis_, e, ao dal-o o meu amigo ao aprendiz, disse-lhe que tivesse todo o cuidado; porém o rapaz, apenas lhe pegou, deixou-o cair. Oh dôr! pegaram no relicario, olharam para dentro, e a reliquia havia desaparecido. Em vão a procuram, mas como é uma coisa sumamente pequena não pôde ser encontrada. Em tal situação que fazer? Pois, senhor, um oficial da casa cortou um pedacinho da cadeira em que estava sentado e colocou-o no sitio em que devia estar a reliquia. Passado pouco tempo, disse-me o meu amigo que a dona do relicario o procurara para lhe arranjar uns brincos; então perguntaram-lhe pelo seu _Lignum crucis_, e toda alvoroçada exclamou: «Cresceu extraordinariamente desde que o mandei compôr, pois que já o cortaram duas vezes.»

—Pois bem—continuou Mateus,—o fenomeno compreende-se: a tal senhora levou o relicario ao peito, e, como a caixinha era de papelão forrado de seda, penetraram nela facilmente a humidade e o calor, o que fez com que o pedacinho de madeira aumentasse de volume, obrigando-o assim a sair do pequenissimo orificio destinado para a reliquia, pelo que foi necessario cortar duas vezes o tal fingido _Lignum crucis_, que já dava de si material para outros novos.

—Porém isso—exclamou o padre Francisco—foi uma acção má, um sacrilegio.

—Eu não quero nem pretendo agora julgar se a acção foi boa ou má; porém quem disse a V. que a sua reliquia não é egual ao pedacinho de madeira de que temos falado?

—Não, senhor; este foi trazido da Terra Santa.

—Bem, nesse caso será um pedacinho de madeira de Jerusalem, da Terra Santa, e sempre é alguma coisa. Note que uma das coisas que deram logar á Reforma foi o abuso das reliquias. Por todas as partes encontramos ossos deste ou daquele santo, e o peor é que não é raro encontrar o mesmo osso dum santo em quatro pontos distintos, e, se não, diga-o a celebre queixada de Santa Apolonia.

—Isso...

—Desengane-se, senhor padre Francisco, Jesus é tudo. O ensino da egreja romana consiste em não prégar. Se em vez de fanatizar com reliquias e outras coisas, se ensinasse ao povo a palavra de Deus, e o que disse Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguem vem ao Pae senão por mim», e estas outras: «Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo», o povo não estaria tão cego e não fiaria a sua salvação de reliquias ridiculas e falsas, e que só servem para nos apartar de Jesus e conduzir-nos ao inferno.

Umas pancadas dadas na porta vieram interromper a conversação.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada entrou na sala, anunciando que a comida estava na meza.

—Vamos, sr. Mateus, vamos para a meza, e emquanto comemos teremos ocasião de conversar.

E o padre Francisco, tomando o joven pelo braço, encaminhou-se para a sala de jantar.

CAPITULO XXI

A conferencia

Ás tres e meia horas da tarde, o padre Francisco e o seu hospede estavam sentados á meza. Quando já tinham comido algumas colheres de sopa, o padre Francisco, numa voz meliflua, disse ao joven:

—Amigo Mateus, desejei vivamente falar comsigo, movido da melhor boa vontade, e peço-lhe que ponha de parte as nossas diferenças religiosas, para que conversemos como se fossemos alheios ás questões que vamos tratar.

O joven manifestou com a cabeça um sinal de assentimento, e o padre Francisco, continuando o seu discurso, disse:

—Sempre me chamou a atenção a propaganda tão tenaz que os protestantes fazem em Hespanha, sem embargo de que pouco podem adeantar. Vocês espalham livros, pagam a missionarios, pagam o aluguer das casas onde prégam, as quaes, apezar de estarem sempre vasias, custam bom dinheiro... Quem paga para tudo isto e qual o fim que teem em vista?

—Eu, por minha vez, devia perguntar-lhe: Quem enche as chamadas arcas de S. Pedro? Donde saem essas somas que vão engrossar os tesouros do pontifice italiano?

—Os bons catolicos é que...

—Desculpe-me, senhor padre Francisco, já sei qual a resposta; essas somas saem, em sua grande maioria, da nobreza, que, em logar de socorrer as necessidades do seu proprio paiz, manda dinheiro para uma coisa de que não quero ocupar-me.

«Pois bem: existem fóra daqui homens que crêem em Cristo; estes homens sabem que sómente nesse nome é que podemos ser salvos; compreendem que uma parte do que o Senhor lhes dá devem empregal-a no serviço do mesmo Deus, e em vez de darem a um homem para que o empregue á sua vontade, sustentando soldados e outras coisas, enviam aos paizes onde o Evangelho é ignorado missionarios que préguem o nome de Jesus, custeiam a despeza dos livros que falem d’Ele, e sobretudo dedicam somas enormes á impressão da Biblia na lingua de cada povo.

—O maior de todos os males!—exclamou o padre Francisco.—Isso é o peor de tudo.

—Como?—disse o joven, surpreendido.—Diz que a vulgarisação da Palavra de Deus entre o povo é a coisa peor da propaganda evangelica?!...

—Sim, senhor—afirmou o padre Francisco, acrescentando:—Supondo mesmo que a tradução está feita com a melhor boa fé, quem se lembra de pôr nas mãos dum povo ignorante um livro tão profundo como a Biblia? Eu mesmo não me atrevo a estudar a Biblia, nunca a leio, com medo de extraviar-me. A Santa Biblia foi sómente escrita para homens doutos e instruidos, e não se deve mostrar ao povo, e muito menos deixal-a em suas mãos, pois que isso serviria tão sómente para o perder.

—Não tem razão no que diz—disse Mateus,—e no que afirma vae de encontro ao que está escrito, pois recordo-me perfeitamente de que o Salmista diz: «_Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho..._» (Sal. 118: 105).

—Pode dizer o que quizer, porém não ha provas suficientes que autorizem o povo a que leia a Biblia.

—Como assim, se a palavra de Deus está cheia dessas autorizações? A Biblia era lida publicamente na sinagoga. Moisés recebeu ordem do Senhor para a ensinar ás pessoas adultas, ás creanças, e até mesmo aos estrangeiros que habitavam entre o povo de Israel.

—Porém observe, Mateus, que então era outra coisa, pois ainda não tinha vindo Jesus Cristo, e era preciso recorrer á profecia; mas hoje, que Cristo já veiu, de modo nenhum devemos recorrer ao Antigo Testamento, para nos inspirarmos nas antigas praticas.

—Se bem que não me conformo com essa opinião—replicou o joven,—no emtanto recorramos, pelo menos, ao Evangelho, e...

—Isso mesmo fazemos nós—disse o padre Francisco,—pois que todos os dias na egreja se lê o Evangelho e alguns trechos das Epistolas.

—Sim? E diga-me em que lingua são lidos o Evangelho e esses trechos das Epistolas.

—Em latim, por ser o idioma universal da egreja.

—Como diz que o latim é a lingua universal da egreja, quando a egreja é composta de italianos, hespanhoes, portuguezes, francezes, inglezes, e de outras nações, e cada qual fala a sua lingua particular? Quem fala hoje em dia latim? Á excepção do clero, creio que ninguem. Então é preciso falar a cada um na sua propria lingua.

«Que significa o facto de, quando os apostolos receberam o Espirito Santo, começarem a falar diversas linguas? Significa certamente que deviam contar as maravilhas de Deus a cada povo, na sua propria lingua, para que ele podesse entender. Os apostolos falavam diversas linguas, depois de terem recebido o Espirito Santo, e, segundo alguns crêem, sem saberem eles mesmos que falavam lingua estranha: mas seja como fôr, se o Senhor obrou tal milagre é porque convem que o Evangelho seja prégado ao povo na sua propria lingua, para que ele o possa entender. Assim S. Paulo diz, na sua primeira Epistola aos Corintios, cap. 14: 18 e 19: «_Graças dou ao meu Deus, que falo todas as linguas que vós falaes; mas eu antes quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha._»

O padre Francisco ficou silencioso, sem saber que responder, vencido pelos argumentos do joven. Porém acrescentou logo:

—Sim, tudo o que diz parece verdadeiro, porém eis ahi o que resulta de ler a Biblia sem os comentarios da egreja.

—Pois eu digo a V. que, lendo a Biblia com as notas do padre Scio, se encontram os mais solidos argumentos em favor da minha asserção.

—Bem—disse o padre Francisco,—acabemos de comer, e, visto que o senhor assim o deseja, iremos consultar a Biblia.

—Se lhe parece—disse Mateus,—discutiremos se as Sagradas Escrituras devem ou não ser lidas pelo povo.

—Sim, discutamos—respondeu o padre,—porém, antes disso, permita que lhe apresente os argumentos que tenho a meu favor, pois que, se eles o convencerem, pouparemos palavras inuteis. O primeiro argumento que posso apresentar é a tradição—coisa esta muito digna de se ter em conta. Porque é que nenhum bispo tem permitido até hoje que a Biblia circule livremente nas mãos do povo?... O segundo é que, ao instituir Cristo a familia sacerdotal, como pode dizer-se em hipotese, claro está que foi só para que os sacerdotes, e sómente estes, sejam depositarios e interpretes da Biblia... Depois... Depois... Os concilios!... Essas assembleias de homens doutissimos! Poços de sabedoria humana e divina!... Os papas!... Essa cadeia não interrompida de homens cheios do Espirito Santo, que vem comunicando-se duns para os outros desde o primeiro que teve o primado! Todos estes são concordes em que a Biblia deve ser prohibida para aqueles que, alterando a sua significação ou dando-lhe uma interpretação forçada, podem extraviar as almas, precipitando-as no inferno. Mateus, seja franco; o senhor mesmo não experimentou duvidas ácerca do dogma cristão ocasionadas pela leitura da Biblia sem notas? Responda-me, porém faça-o com franqueza, dizendo o que realmente sente.

—Vou responder-lhe com a franqueza que deseja. Principio pela sua ultima pergunta. Não, senhor; jámais experimentei duvidas ácerca do dogma cristão quando principiei a ler a Biblia; o que, sim, senti desde logo que possui o sagrado livro foi uma sensação de temor e respeito, que não posso explicar. Ao ler as manifestações do amor de Deus, fiquei assombrado; depois, com as Epistolas, aprendi uma porção não pequena de doutrina, e por ultimo o livro dos _Atos dos Apostolos_ me ensinou a evangelizar. Eis aqui do que me serviu a Biblia. Hoje em dia, que me acho familiarizado com a sua leitura, esquadrinho o Antigo Testamento, estudo as profecias, a minha alma canta lendo os Salmos, sofre com Job e goza com José, aprendendo quaes são os juizos de Deus, que Se serve de tantos meios para fazer bem ao homem. Sim, padre Francisco, a leitura da Biblia enche o espirito de santas emoções, demonstra a enormidade do pecado, tornando-o odioso á nossa alma, e nos faz ver antecipadamente os inefaveis gozos que a misericordia dum Deus de amor nos prepara nos logares que hoje nos são desconhecidos.

Depois dalguns momentos de silencio, durante os quaes o padre Francisco se mostrou muito pensativo, o joven evangelista prosseguiu:

—Agora passemos a outra coisa, da qual falarei pouco, pois que quero falar com a Biblia. Diz V. que nunca na antiguidade houve quem lesse a Biblia, querendo, sem duvida, dar a entender que até ao seculo XVI não houve quem se ocupasse na tradução do sagrado texto em lingua vulgar.

«Contra esta asserção fala o bispo Ulfilas, que viveu no seculo IV, o qual, quando os godos invadiram a Hespanha, havia já traduzido para o gotico as Sagradas Escrituras; levanta-se Recesvinto, que viveu no ano de 650-672, rei dos godos, que entre as suas virtudes contava um desejo insaciavel de conhecer os misterios das Escrituras, no que respeitava á sua salvação; levanta-se um João, bispo de Sevilha, que no seculo III traduziu a Biblia para o arabe, afim de que os arabes que tinham invadido a Hespanha podessem lêl-a e instruir-se nas verdades cristãs; D. Jaime I, que reinou nos anos de 1213 a 1276, e que tão pouco está conforme com V., padre do seculo XIX, pois, emquanto que V. crê que a interpretação da Biblia pertence aos sacerdotes, aquele rei, dizem as cronicas, possuia um conhecimento profundo das Sagradas Escrituras, as quaes explicava e prégava como o mais consumado mestre de teologia, em qualquer cidade onde se achasse. Este rei não sómente prégou ao povo, senão que no concilio de Lyon, e perante o Papa Gregorio X e mais prelados, tomou para texto as palavras de Isaias: «Levanta-te; resplandece, etc., etc.,» as quaes desenvolveu com notavel admiração de todos. Outro hespanhol, Luiz de Gusmão, mestre de Calatrava, mandou traduzir a Biblia, no ano de 1432, ao sabio judeu Moisés, e, como este opozesse algumas dificuldades, conseguiu o nobre mestre, á força de dinheiro e ameaças, convencer o judeu; a tradução fez-se, e numa nota do Moisés lê-se: «Até hoje tenho gasto mil dobrões, desde que se principiou, até ao estado em que a vêdes.» Devo advertir-lhe, sr. padre Francisco, que os mil dobrões de então correspondem a umas 2500 libras esterlinas de hoje. Agora julga ainda que não houve reis, bispos e nobres que lessem a palavra de Deus? Como se atrevem os senhores a afirmar coisas que não conhecem nem sabem? Porém, vamos ao texto.

—Vejamos; eu acho na palavra de Deus o mandamento de ensinar a Biblia ás creanças, e aqui, no livro chamado o Deuteronomio, cap. 6, vers. 6-9, leio o seguinte:

E as palavras que eu hoje te intimo estarão gravadas no teu coração; e as referirás a teus filhos, e as meditarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir e ao levantar-te; e as atarás como sinal na tua mão; e elas estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e nas portas da tua casa.

—A primeira coisa que tenho que opôr a isso—respondeu o padre Francisco—é que esse texto pode estar alterado, ou não ser exato, pois o senhor diz que esse livro é uma Biblia completa, o que não pode ser, pois que tão extensa materia não pode estar contida em tão pequeno volume; e, visto que não está anotado, não podemos nós interpretal-o.

—Muito bem—replicou o joven;—nesse caso faça favor de trazer a Biblia.

O padre Francisco dirigiu-se a um armario, e tirou de lá tres grandes volumes.

Procurou entre eles, e por fim disse:

—Aqui está o texto que você cita; vou lêl-o.

O padre leu:

E estas palavras que eu hoje te intimo estarão em teu coração, e as contarás a teus filhos, e as meditarás sentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir, e ao levantar-te: e as atarás como sinal na tua mão, e elas estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e portas da tua casa.

—Diga-me que diferença ha entre o que está na minha Biblia e o que está na sua?—perguntou Mateus.

—Realmente nenhuma, respondeu o padre; porém aqui ha algumas notas, e estou certo de que elas discordam da opinião dos senhores. Vejamos. E onde diz: «E as contarás a teus filhos» ha uma nota que explica este texto, dizendo:

«_Instruirás nelas a teus filhos, pois a isto se reduz a perfeição do homem._»

O padre Francisco ficou sem saber o que dizer, e Mateus, aproveitando aqueles momentos, disse:

—Pois, longe de discordar da nossa opinião, é esse mesmo o nosso sentir. Já vê, pois, que estamos de perfeito acordo.

—Mas diga-me—disse o padre Francisco,—não tem nenhuma nota na sua Biblia sobre esse texto?

—Não; nem precisa é; na Biblia não queremos opiniões de homens.

Neste ponto houve alguns momentos de silencio, depois dos quaes o padre Francisco, como iluminado por uma ideia, disse:

—Porém, Mateus, não estamos nós divagando? Não lhe dizia eu que esse livro extravia os ignorantes? Pense, e veja bem que estamos tratando a questão num terreno falso. Nos tempos de Moisés devia-se ler e meditar nestas coisas; porém veiu Jesus Cristo e encerrou a Antiga Aliança; de modo que estes mandamentos são inuteis, porque não nos pertencem a nós.

—Certamente—respondeu Mateus.—Vamos agora ao Novo Testamento. No Evangelho de S. João, cap. 5, ver. 39, lemos:

«_Examinae as Escrituras, pois julgaes ter nelas a vida eterna, e elas mesmas são as que dão testemunho de mim._»

—Aqui, como vê,—acrescentou o joven—é Cristo que fala.

—Sim—replicou o padre,—porém fala ácerca dos judeus que não queriam reconhecel-O como Messias. Este texto nada tem que ver comnosco, os cristãos.

—Eu não creio assim, mas recorreremos a outros. Na segunda Epistola de S. Paulo a Timoteo, cap. 3, ver. 14 a 17, lemos:

«Mas _tu persevera_ nas coisas que aprendeste, e que te foram confiadas, sabendo de quem as aprendeste, e que _desde a infancia foste educado nas Sagradas Letras, que te PODEM INSTRUIR para_ a salvação, pela fé que é em Cristo Jesus. Toda a Escritura divinamente inspirada é util para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito, ESTANDO PREPARADO PARA TODA A OBRA BOA.»

—Peço-lhe, sr. padre Francisco, que examine este texto na sua Biblia e veja que instruções dá S. Paulo a um seu discipulo que está á frente duma egreja.

O padre Francisco quasi tinha medo de pegar na Biblia; por fim, depois de muito instado pelo evangelista, tomou o livro, percorreu o texto, leu-o para si e disse:

—Sim, o texto é egual ao que leu.

E, ocultando o rosto entre as mãos, calou-se; parecia que o seu espirito estava como que envolvido em terriveis lutas.

Depois dum breve espaço de tempo, o sacerdote ergueu a cabeça e disse ao joven:

—Meu amigo, se soubesse o que me vinha a acontecer, isto é, que havia de ter este desassocego de espirito que agora sinto, jámais teriamos falado a tal respeito; finalmente, deixemos de discutir, e separemo-nos para não nos vermos mais.

—Separarmo-nos!—exclamou, comovido, o joven—Separarmo-nos! De modo nenhum, sr. padre Francisco; agora mais do que nunca desejo que a nossa amizade principie. Sim, sr. padre Francisco; estudaremos juntos a palavra de Deus. Lendo a Biblia, conhecerá Cristo, tal como Ele é; lendo a Biblia, beberá no manancial da agua pura, que refrescará a sua alma, apagando-lhe o fogo das obras vãs em que hoje se engolfa. Nos Atos dos Apostolos achará qual foi a constituição e o regimen da Egreja primitiva, e verá como a egreja em que milita, apezar de se chamar apostolica, não conserva nada dos apostolos. Ali verá que Pedro não teve primado algum. Pelas Escrituras jámais poderá provar que aquele apostolo estivesse em Roma. Ali, finalmente, encontrará que nem os apostolos nem aqueles que com eles se juntavam renderam culto á Virgem, nem a nenhuma outra creatura, nem tinham confessionarios nem confissão feita ao ouvido do sacerdote.

—Pois, sr. Mateus—disse o padre Francisco depois duma breve pausa,—aquilo que diz parece ser verdade, porém falaremos noutra ocasião; deixe-me meditar e pensar, porque creio que... emfim... não me declaro vencido.

—Bem, não quero incomodál-o mais—acrescentou o joven,—porém ámanhã, quando vá dizer a sua missa, recorde-se de que no Novo Testamento está escrito que Jesus, com UM SÓ SACRIFICIO, fez perfeitos aqueles que santificou; assim que, se foi com um só sacrificio, aquele que o senhor celebre é completamente inutil. Agora, rogo-lhe em nome de Jesus que leia a Biblia; ela lhe fará conhecer o erro em que está; e não quizera sair daqui sem que me désse a sua palavra de ler os capitulos 5, 6, 7, 8 e 9 da Epistola aos Hebreus.

Depois de cinco horas de discussão, o joven saiu daquela casa e, ao despedir-se, disse ao sacerdote;

—Não tornaremos a ver-nos?

—Não sei—respondeu o padre,—veremos; se Deus quizer, sim; senão cada qual seguirá o seu caminho.

Ambos, depois de se apertarem a mão, se separaram.

CAPITULO XXII

Temor, inquietação e duvidas

Quando o sacerdote ficou só, fechou-se no seu quarto, depois de dar ordem á creada de que por ninguem nem por coisa nenhuma o fosse incomodar.

O padre Francisco sentou-se á mesa do escritorio, sobre o qual poz o candieiro e a Biblia.

Depois apoiou os cotovelos na mesa, ocultou o rosto entre as mãos, e nesta posição esteve muito tempo.

Durante este intervalo só se ouvia o oscilar da pendula do relogio, que vinha perturbar o profundo silencio que ali reinava.

Por fim, o padre Francisco, mudando de posição, disse:

—Ah! Que revolta confusão de idéas surgem no meu espirito... Sim, sinto uma sêde insaciavel de saber a verdade do assunto... Esse joven é mais sabio do que eu julgava, seus argumentos são de peso, e suas palavras teem tal expressão de verdade que, se não me convenceram, pelo menos fizeram penetrar a duvida no meu espirito.

O sacerdote calou-se, e depois duma breve pausa continuou comsigo: