Judas: Romance lirico em quatro jornadas

Chapter 6

Chapter 63,657 wordsPublic domain

Sem saber onde estou, a estremecer d'horror, Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor, Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura, Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura, Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas, A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!

Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna responde-lhe longamente...

Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:

Eliminei a causa, e agora nem procura A minh'alma saber se existe ou já não dura O effeito. Um assassino é o que vejo em ti, Judas!

Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.

O coração refugiou-se aqui Transformado em dinheiro. É prata reluzente, Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente! E falas de ambição, tu que possues a marca Das filhas sem pudor do velho patriarcha!... Relembras o incesto horrendo de Thamar, E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar A honra de seu pae no leito da madrasta!... E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta Em de redor de mim o grande amontoado Das velhas podridões da carne e do peccado!

Ferido por um rapido pensamento:

--Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame, E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...

Mas detendo-se, hesitante:

Tenho medo... não sei...

E supersticioso:

Era de madrugada E eu ia caminhando em terras d'Ephraím Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse Para vir espreitar meus passos junto á estrada. Esmaguei o!--Se alguem agora me fizesse A mesma cousa, a mim?

Compadecído:

Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda, Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente! Rasteja para longe, ó animal mesquinho, Deixando atraz de ti a escuridão profunda... Rasteja para longe... e ségue o teu caminho Silenciosamente...

A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que ella fórma.

Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade. Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São Maria de Bethania e sua irmã Martha.

MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito resignada:

Fica perto da cidade O sepulcro: é no jardim Do José d'Arimathéa. Ao aroma do jasmim Casa-me o aroma da rosa... É tudo meigo e silente N'aquelle triste remanso Onde elle dorme. A corrente, Que vae regar os pomares, Tem uns murmurios tão doces E tão cheios de misterio...

MARTHA

Maria, irmã, se tu fosses Contaminar o teu corpo? É prohibido na Lei Ir a um sepulcro...

MARIA

Decerto...

MARTHA

É um crime.

MARIA

Sim; bem sei. Mas devo eu conjecturar Que os negros vermes da terra Contaminem moradia Que tanto perfume encerra? As borboletas sómente, Aereos beijos de amor, Hão de poisar junto d'elle Como poisam n'uma flôr, Indo contar em seguida Aos espinhos do balseiro Quanta fragancia divina Exhala aquelle canteiro. ... Ao passo que eu viverei Na grande dôr do meu pranto, Como a aranha silenciosa Que fez a teia n'um canto. --No ceu da minha existencia Pairavam tranquillamente Dois flócos de nuvem, que era Como o fumo transparente... Andavam pairando assim Despreoccupados os dois, Para ao sopro d'uma aragem Se desfazerem depois... Fumo illusorio que sobe Mansamente pelo ar E que se esvae n'um instante P'ra nunca mais se juntar...

MARTHA

Ó minha irmã!...

E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam longamente.

Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se reconhece ser Claudia.

CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz muito meiga:

Porque choras?

MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã:

Ella?!

MARTHA receiosa:

Claudia!...

CLAUDIA

Que motivo Gerou no teu seio a Dôr, A negra mãe do gemido? Conta-me tudo, mulher. --Morreu-te um filho, o esposo, Ou um irmão...

MARTHA ao ouvido de Maria:

Oh! meu Deus! Como o seu falar é outro!

CLAUDIA

Tambem eu soffro ha trez dias D'um enorme soffrimento, E quero que na cidade Fiquem todos conhecendo Quanto Claudia é bondosa, Claudia, que o povo despreza, E quanto chora tambem Pela morte do Profeta.

MARIA absôrta:

O que oiço!

CLAUDIA

D'uma mulher Taes lamentos recebi, Que um novo ser despertou De chofre dentro de mim. Sonhei depois, e que sonho! Nem mesmo o posso contar... Tão cheio de quietação, De suavidade e de paz, Que fiquei por muito tempo Absorta, de madrugada, Ao construir na memoria Todo o sonho que sonhara. --Eu fugira para longe, Para um paiz tão distante, Que este mundo em que vivemos Não me ficava ao alcance; E alguem cercado de luz E de meigas creancinhas Veio alegre ao meu encontro Nas paragens infinitas...

MARIA

O que te disse?

CLAUDIA

Não sei... Apenas sei que, accordando, Não conheci a minh'alma Transformada por encanto; E por que um plano de morte Estava urdido em segredo Contra o bondoso Profeta, Logo intentei desfazel-o, Supplicando a meu marido Que em seu favor empregasse Todo o auxilio. Impossivel! A suprema divindade Caíra em somno profundo No seu grande leito azul, Deixando que o Nazareno Expirasse n'uma cruz!...

MARIA baixinho á irmã:

E eu que ainda a accusava!...

CLAUDIA

A minha dôr reparti Comtigo; deves portanto Confiar tudo de mim...

MARIA espansiva:

Para quê, se tudo sabes?

CLAUDIA

Tudo sei?...

MARIA

Pois que em Judá Nenhum rosto de mulher Por mais ninguem chorará N'este momento.

CLAUDIA

Por Elle?

MARIA animando-se:

Sim, por Elle, Homem-Misterio, Que voou, como o aroma Da pobre rosa pendida Sobre a haste, dolorida Pela mágua da saúdade... --Vinde comigo, mulheres, Orvalhar co'o vosso pranto A boceta em que dormita Aquelle celeste encanto. Ide colher á campina Braçados de malmequeres, D'alfazema e rosmaninho, E vinde, vinde comigo Dispol-os naquelle ninho... E vós, ó mães, que trazeis No ventre o fructo do amor, Purificae-o aspirando O perfume e o calor, Que se evolam brandamente Do sepulcro sorridente, Como as nuvens que perpassam... ... Fumo illusorio, que sobe Com lentidão pelo ar, E que se esvae n'um instante, P'ra nunca mais se juntar...

E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas.

CLAUDIA suspeitosa:

Estas palavras?... Judía, Impossivel existirem Dois corações como o teu!

MARIA

Já não o tenho: morreu.

CLAUDIA

Como te chamas?

E vendo o rosto de Maria que se desvelára:

Maria!

MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos:

Sim! que se roja a teus pés Humildemente contricta, Para dizer-te: mulher, Sê bemdita, sê bemdita!

CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e abraçando-a:

Ergue-te, ó alma sublime, Que encheste de luz a treva E que tiveste o condão De abafar a voz do crime Co'o soluço do perdão. --Tambem eu ia levar-lhe O meu pranto dolorido Como nunca tive igual. És a mulher que fugiu Para o reino do Ideal... A terra é muito mesquinha, E o vôo da andorinha Convida a voar tambem...

Cingindo com os braços Maria e Martha:

Partamos, sim, pela estrada Que nos conduz ao misterio. Sorri ao longe a alvorada... Vamos tranquillas, serenas, Bater a cada poisada, E sejam nossas palavras:

Levando-as comsigo docemente:

Vinde comnosco, mulheres, Orvalhar co'o vosso pranto A boceta em que dormita Aquelle celeste encanto. Ide colher á campina Braçados de malmequeres, De alfazema e rosmaninho...

E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.

O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade: João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha:

SIMÃO PEDRA que viera junto de João:

Não entres na cidade...

ELEAZAR

És muito conhecido. O Conselho não tem desviado o sentido Dos amigos do Mestre.

SIMÃO

Olha que talvez pense Em prender-te, e depois nada ha que recompense O inutil sacrificio.

SIMÃO PEDRA

Ao teu valor opponho Todo o meu raciocinio.

JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade:

Ainda julgo um sonho!...

GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso:

Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida, Como o escravo traidor, como o ladrão!...

JOÃO irrompendo:

Ó Vida, E continúas tu dando vigor a quem, Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem! Profetas de Sião, da campa alevantae-vos Para escrever ali com sanguinarios laivos Esta nefanda historia, este inarravel crime! Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime, E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo, Em látegos crueis com ella açoite o Mundo!

SIMÃO PEDRA

Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa...

GAMALIEL por entre dentes:

Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!

JOÃO desalentado:

E assim tudo acabou!...--Saúdosa Galilea, Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!... Quantas recordações do teu ceu, do teu ar, Dos dias que passei no teu sereno mar, Das noites que dormi na relva da campina, Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina, Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores As almas infantis d'ingénuos pescadores, Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão, Confiados, como vae por entre a cerração A barquinha velleira ao descobrir farol! Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol Canta serenamente em noites estivaes; Macieiras em flôr; regatos que passaes, Ondeando, como ondeia á brisa, levemente, Da aldeã virginal a trança refulgente... Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte, Que te elevas no fundo azul do horisonte, Redondo como um seio a amamentar os astros... Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros, Rochedos, alcantís, seáras e pastagens, Que bordam a primor tuas alegres margens... --Eis aqui finalmente a horrivel derrocada! A solida affeição dos Dôse feita em nada; A cegueira vencendo; a Luz amortecida; A tripudiar em nós um ladrão homicida; E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto, Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!... --E assim tudo acabou!

GAMALIEL avançando para elle nervosamente:

Quem fala de acabar? O fogo ainda não se extinguiu no altar Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos Não deixaram de todo os nossos corações!

JOÃO desanimado:

Que havemos de fazer?...

GAMALIEL animando-se e animando-o:

Povos, religiões, Autoridades, leis, é tudo movediço E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!

SIMÃO PEDRA

Queres dizer então...

ELEAZAR

A lucta?!

GAMALIEL

Braço a braço, Não se deve luctar. Seria um erro crasso Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!

JOÃO erguendo-se:

O que pensas?

GAMALIEL

Que chega a ser um attentado Á memoria do Mestre abandonar o arado Com que elle andou lavrando a consciencia humana! Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana, Que esfria os corações e purpurisa as ruas! Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas! Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!

SIMÃO PEDRA

Mas faláste de lucta.

GAMALIEL

Humilde, mas sem trégoas; Branda, mas incisiva; humana... mas divina! Como arma, aquelle dom secreto que extermina, Ferindo os corações sem que haja soffrimento. Ruge, como o trovão e géme como o vento, Murmúra como a fonte e estála como o raio, Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio; Dolente, acaricía; em furias, escalavra! Esta arma triunfante, esta arma...

JOÃO com o olhar brilhante:

É a palavra!

Mas logo receioso:

Falar ás multidões...?

SIMÃO PEDRA tambem receioso:

Continuar...?

GAMALIEL

Decerto! Entrando no porvir que Elle deixou aberto. Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir O caminho traçado entrando no porvir, E esse alguem és tu!

JOÃO n'um sobresalto:

Eu?

ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:

Sim, João!

SIMÃO incitando-o:

Ninguem Melhor que tu!

SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel:

Qual é de nós o que mais tem O verbo inspirador, altivo e fulgorante?

JOÃO indeciso:

Simão, Gamaliel, amigos... Ai!

GAMALIEL

Ávante!

ELEAZAR

Para gloria do Mestre!

SIMÃO

E gloria tua!

SIMÃO PEDRA

E nossa!

GAMALIEL

É bella a occasião...

JOÃO

E quem vos diz que eu possa?...

SIMÃO PEDRA

Serás novo profeta, aproveitando o exemplo...

GAMALIEL agarrando João por um braço:

Vão começar agora os canticos no Templo. Anda comnosco!

ELEAZAR

Vem!

SIMÃO PEDRA

Sê forte!

GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:

N'um instante, De povo te verás cercado...

JOÃO n'uma grande espansão:

Ávante! Ávante! É preciso arrancar ao morbido lethargo. A doutrina do Mestre!

GAMALIEL em doida alegria:

Emfim!

JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:

É meu o encargo! O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora A escada de Jacob á luz da meiga aurora. Por ella vae subindo um côro triunfal Proclamando no Espaço o amor universal E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio. Ávante! Não desabe o sólido edificio De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro, Enriqueça de novo a consciencia humana! Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana! Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia, Uma scentelha só do genio teu envia Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria Que torne a minha voz da tua a emissaria! --Vamos, Gamaliel!

GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:

Gloria ao profeta novo!

JOÃO vibrantemente:

Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!

Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de

GAMALIEL bradando:

Negra Jerusalem, escuta, ó assassina, D'aquelle que morreu a divinal doutrina!

E depois, mais distante:

Ouve, Jerusalem, que matas os profetas, As palavras que são do teu Senhor dilétas!

E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e tortuosas ruas da cidade.

No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. D'ali ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.

JUDAS com desdem:

«Gloria ao profeta novo!»--Insensatos! João, Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!

Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo alguem que se approxima, recúa e estáca.

Maria?!

MARIA parando tambem:

Judas!

JUDAS, desvairado:

Ah! cobarde salteador D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor? O olhar, que seduzia, infunde repugnancia! O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia, Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar, Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar A carne do meu crime! Odeio-te!

MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:

Não vim Trazer o meu amor.

JUDAS

Que queres tu de mim? Trazes-me o teu perdão?

Solta uma risada nervosa.

MARIA

O riso da demencia Nunca ha de suffocar a tua consciencia, Que géme e se revolve em negro torvelinho. Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.

JUDAS impedindo-lhe a passagem:

E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!

MARIA

A tua maldição... as tuas gargalhadas!... --Como o teu odio é bom!

JUDAS

Inda não é bastante Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante, Como eu satisfaria este voraz desejo: Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo! Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois, Fruir o teu amor, e arrojar depois O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres! --Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...

MARIA muito calma:

P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo: O mundo é tão cruel que aleives não reprime, Se junto da virtude elle descobre o crime. Mas entretanto... foge!

JUDAS rindo febril:

Acaso me suppões Tão cobarde que vá fugir sem ter razões Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?

MARIA

E se o Mestre voltar?

JUDAS rindo:

Que doida fantasía!

MARIA

Se o visses novamente?

JUDAS de subito receioso:

Eu? vêl-o?

MARIA

Sim!

JUDAS

Não creio! A morte é vasto abismo...

MARIA, dogmatica:

Abismo, cujo seio Não poderá conter o que era illimitado!

JUDAS acobardado:

Que dizes tu, mulher?!

MARIA em tom profetico:

Que dorme inanimado O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio, Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário, Como o trabalhador que não requer salário E que só tem por fim realisar o plano De ha muito concebido. Em vão o olhar humano Procura descobrir o que existe no centro Do casúlo: o misterio é silencioso dentro. Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto, Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!

JUDAS tomado de vago terror:

Justos ceus!

MARIA animando-se:

Has de vêr, com a tua alma inquieta, Saír do seu casúlo a enorme borboleta, Que n'esta hora talvez as palpebras descerra, Encher de luz o espaço e de pavôr a terra, Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...

JUDAS trémulo:

E caír sobre mim co'o azorrague em punho!

MARIA terrivelmente:

Emquanto não voltar, os olhos do covarde Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde: Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro, Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!

JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:

Não pode ser, não creio...

MARIA perseguindo-o:

Ha de falar-te, Judas, Á tua consciencia abjecta!

JUDAS tentando occultar o rosto:

Não me illudas, Que eu nada vejo!

MARIA erguendo o braço:

Vês pairando sobre ti O Remorso, o fantasma eterno!...

JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e apontando tambem, trémulo, allucinado:

Ali! ali! Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria! Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia Que vae falar-me!--Oh! cala-te! Fui eu Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu! Não me accuses, que sinto em mim a accusação; Tem os dentes da cobra e as garras do leão! Anda aqui dentro--ouviste?--a esfarrapar-me todo! Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo, Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome, Que nem os proprios cães matem comigo a fome!

E apontando de novo, como um vidente:

O respirar opprésso... o corpo no madeiro... Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro... Exactamente!--Eléva os olhos para os ceus; A agonia final chegou: fala com Deus... A cabeça descae no peito: vae morrer...

E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:

Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!

E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço. Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso. Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação... A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão, Passiva e sem vigor n'este fatal momento Assim como o enforcado a baloiçar ao vento... --Adeus.

E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.

Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então

JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:

«O enforcado?...»

E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:

Emfim para que existo?

Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria aquellas palavras de João que elle repéte machinalmente:

«As estrigas de linho...»

E prevendo o effeito:

Um laço... um nó...

Resoluto:

--É isto!

Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio, vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:

Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante Correr atraz de mim um grito retumbante E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus Quem pode combater a cólera de Deus? Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo, Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo! Não fugirei!--Se fico, atrocidades cruas... Hei de ser arrastado ahi por essas ruas, Padecerei do povo horríficos flagellos: Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos, E transformar em lama o corpo do homicida! --Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!

De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista:

Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço! A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a! Que importa! Serei grande até na propria infamia!

Allucinado novamente:

Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade! Renego do respeito e amor á Divindade! Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!

E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito:

Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda, Para insultar a Vida, essa madrasta bruta, Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta! E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme, Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.

É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.

E é então que

JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:

Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta! Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim; Elle quem libertou da escravidão funesta O povo d'Israel... Elle descansa em mim. Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim!