Judas: Romance lirico em quatro jornadas

Chapter 5

Chapter 53,673 wordsPublic domain

Se te reféres Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade Para o matar. Não mato uma celebridade. Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve Uma grande ovação. De resto, não se atreve A suscitar no povo o odio contra o Império: Deseja que se entregue a Deus e a Tibério O que pertence a Deus e o que pertence a Roma. Agrada-me o desejo. É o melhor diploma Que lhe ha de garantir a minha protecção.

HANAN ao ouvido de Judas:

Ficou tudo perdido, ó Judas.

JUDAS reservadamente:

Ainda não. Péde para eu falar.

HANAN

Duvído...

JUDAS

Experimenta.

HANAN muito supplicante a Poncio:

Senhor, ouve as razões que este homem apresenta: Conhece o Nazareno, e sabe tudo...

PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:

Vá. Pode falar, mas bréve.

JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, firme, resoluto, assim começa:

Eu nasci em Judá. Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso, Me curvei de Tibério ao vulto majestoso. --Engana-te, senhor, aquelle que disser Que o profeta de quem falou Hanan requer, Como acabei de ouvir, as attenções do povo Para o império de Roma.

PONCIO estremeceu, carregou o semblante:

O quê?

JUDAS com sinceridade hypocrita:

Não me demôvo De dizer a verdade, inda que soffra o peso Do remorso, indicando um amigo indefeso Á justiça de Roma e do Conselho! Brado Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado! O Profeta conspira, em intimo rancor, Contra a lei de Moysés e contra o vencedor! --De tal conspiração confio-te o segredo...

Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora, insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem dos labios de Judas como subtil veneno.

Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo Austero, alcantilado, enorme?--Toda a gente Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente, Que do seu dormitar ninguem o accordaria, Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu... Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu, Barafustou no espaço, e com fragor medonho Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho! --Que forças colossaes, que forças imprevistas O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas Majestosas, assim que despontava ao largo; A Lua namorada, em languido lethargo, Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio, Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío Como um peito de cisne ou face de mulher... O proprio Creador do Mundo nem siquer Lhe causava receio. Em doidas convulsões, Um raio desabou das vastas amplidões Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada, Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada! --Que forças colossaes, que forças imprevistas, Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas? Que forças?--Perguntae-o áquella massa informe, Que por vezes murmúra e que por outras dorme Em profundo silencio; interrogae o Mar, Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar Do horisonte sem fim, da solidão distante, Para oscular os pés do impávido gigante! Interrogae o vil hipocrita, que ao passo Que era meigo e humilde, em fraternal abraço, Tratava de roer, silenciosamente, As bases do colosso athletico e indiff'rente, Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho, No abismo tombou com fragor tão medonho, Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito, Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!

PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.

Ha colossos que teem gigantes nas entranhas, Féros como leões, grandes como as montanhas! Possuem dos clarins as frases inspiradas, E fusilam do olhar relampagos d'espadas! Ó mares da perfidia, andaes a carcomer As bases do colosso herculeo do poder? Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes! Ondas que assim correis, que vindes em galopes, Apressadas, servís, infames... Para traz! Que para reprimir a vossa furia audaz, Para que o vosso dente ao monstro não carcoma, Basta um simples olhar dos hercules de Roma!

E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto:

Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro Se falaste verdade, ou se acaso labóro Em uma vil intriga! A dúvida me envolve... Mas n'esta situação o meu poder resolve O que julga efficaz. Esse traidor proféta Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta Da existencia. Vou dar a ordem da prisão Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão!

HANAN detendo-o, supplicante, receioso:

Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes Não deverá correr. Escuta os meus prudentes Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!... Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia! Tenho medo do povo... elle é tão leviano!... Será muito melhor seguir o nosso plano.

PONCIO sem querer ouvil-o:

Que poderá falhar!

HANAN n'um protesto:

Que é firme!

JUDAS

Que é seguro!

HANAN matreiramente:

Uma escolta romana ao meu dispôr, e juro Por Moysés que ámanhã de noite será preso O Nazareno.

E em tom de muita confiança, como velha autoridade que bem conhece os seus governados:

O povo ha de ficar surpreso, Ao saber no outro dia a grande nova. Embora! Não deve protestar, porque elle não ignora Que é depois d'ámanhã o dia consagrado Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte Do Proféta.--Senhor, bem vês que d'esta sorte Moysés perde um rival, Tibério um inimigo. --Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo Onde fica de noite o Nazareno occulto E os discipulos...

JUDAS

Que hão de fugir ao tumulto...

PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:

«Um cadaver de mais, um cadaver de menos É coisa que não traz aos meus dias serenos Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»--Hanan, Dás-me a tua palavra...?

HANAN

O Proféta, ámanhã Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário, Ha de estar preso.

PONCIO

Bem! Pois n'esse caso...

Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando:

Ostiario!

HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas:

Ganhámos, afinal! Serás recompensado Pelo teu grande zelo, ó Judas.

JUDAS soturno:

Obrigado...

HANAN

Um prémio te darei. Trinta moedas; queres? De prata!

JUDAS indifferente:

Sim, Hanan... Acceito o que me deres.

O OSTIARIO que appareceu no terraço:

Chamaste-me?

PONCIO

É de crêr que no Pretorio esteja Algum centurião. É Poncio quem deseja Que se dê cumprimento a tudo que estes dois Homens disserem.

O OSTIARIO

Bem.

PONCIO

Fique entendido pois. Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.

E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar, retira-se para os seus aposentos.

HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra:

Moysés ha de vencer!...

JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:

Maria ha de ser minha!...

Vão-se com o Ostiario pela outra porta.

Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço.

GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr parte do reposteiro que pende do arco.

Vae repoisar a minha ama... Como a noite é calma e linda! Mas ninguem ha que prescinda Das indolencias da cama! Muito ingrata a Humanidade, Que acha as trévas de Morpheu Preferiveis a este ceu De risonha castidade! Talvez seja por vingança Que a mostrar-nos a outra face A Lua não se abalança! Seja lá pelo que fôr, Que sem protesto não passe, Diana, o teu desamor!

Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo.

Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto occulto por espesso veu de lã negra.

A MULHER adiantando-se como procurando alguem:

Claudia?

GEDA admirada e insolente:

Quem te deu a livre entrada? Que vens fazer aqui, judía?

A MULHER

Venho Para falar a Claudia, unicamente É este o meu empenho.

GEDA

E que importa o motivo, se é costume Não entrar sem licença do Ostiario?

A MULHER

Em pouco a minha falta se resume: Vi tudo solitario...

GEDA

Esperasses.

A MULHER

Desculpa-me...

GEDA

Duvído De que a minha ama te receba. É tarde. A menos que a tivesses prevenido De vir, e que te aguarde.

A MULHER assumindo attitude imperiosa:

Urge que eu fale a Claudia. É muito sério O que me traz!

GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na meza.

Eu vou...--Temos misterio!

E entra nos aposentos de Claudia.

A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.

MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma préce:

Ó essencia do Bem! ó divinal encanto, Que fazes do Amor a tua crença unica! Presinto que a Desgraça estende o negro manto E deixa a descoberto a sanguinaria tunica, Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura, Em breve deixará de ser como é a aurora, Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura! Mostra-te para mim bondoso e esmoler: Escuta-me, Senhor! E que seja bastante, Para fazer da noite aurora triunfante, Uma lagrima ardente e pura de mulher.

E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.

CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu assombro.

Maria de Bethania?! O quê? Pois tu Ousaste vir aqui? Pois desafías Com a tua presença o meu rancor? Tens a loucura, a falta de criterio, _De brincar com as cinzas inda quentes_?

MARIA baixou a fronte; e a meia voz:

Perdôa-me, Senhora...

CLAUDIA

O que fizeste Da altivez soberana e do teu odio?

MARIA

Perdôa-me, senhora. Quem se humilha, É porque tudo esquece, e quem supplíca O perdão d'uma offensa, tem direito A ser ouvida...

CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua figura:

Apraz-me isso que dizes. Tu propria te encarregas de vingar-me. Optimamente!--O que é que tu me queres?

MARIA com meiguice:

Nunca viste, depois da tempestade, Quando vem a bonança, Resplandecer de luz na immensidade O Arco da Alliança? Pois que venha, senhora, em tal momento, Um meigo olhar bondoso Alegrar do teu rosto o firmamento Como o divino traço luminoso.

CLAUDIA com uma risada:

Não faças poesia, que Virgilio Mandou lançar a sua Eneida ao fogo! Começas muito mal. Por um idilio!... Do teu poema a sorte pões em jogo...

MARIA docemente:

Na ironia cruel quanta amargura! Esta hora é suprema. Vou falar-te d'um ser todo candura...

CLAUDIA zombeteira, petulante:

O heroe do teu poema?

MARIA animando-se pouco a pouco:

Heroe, disseste bem, mas que regeita O gladio vingador, E que tem na palavra uma arma affeita Á bondade, ao amor... Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce Que de manso deslisa, Perfumado, subtil, como se fosse O perpassar da brisa, As almas estremecem, de sentidas, E ficam-se amorosas, Desabrochando trémulas, florídas, Como botões de rosas! Ha já trez dias, Claudia, que o terror É para mim veneno! Querem matal-o! Ai! salva o meu amor! Ai! salva o Nazareno! Não deixes que lhe roubem a existencia, E termina o martirio D'esta paixão que tem do Sol a ardencia, E a pureza d'um lirio! Ordena que o não matem, Claudia! acalma Os monstros malfasejos, Que eu a teus pés arrojarei minh'alma N'um effluvio de beijos!

E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril, os braços estendidos, supplicante.

CLAUDIA depois de nova risada:

Isto é completamente um caso novo, E agrada-me de véras Que sejas tu, mulher, em vez do povo, Quem venha interceder pelo Profeta Com lagrimas sinceras! É bello!

MARIA

Tem piedade!

CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:

Honra o teu sexo O platonico amor que te inquieta; E n'elle vejo mais do que um reflexo Do feminil civismo d'outras eras. Tu excedes Cornelia, E de Coriolano a mãe Veturia! --Tenho notado haver n'esta Judéa Mais valor nas mulheres que nos homens, O que toma o aspecto d'uma injuria Ás patricias de Rhéa! Judith a Holofernes rouba a vida, Para salvar o povo seu amante, Ao vêr que elle agonisa; Esther, em patrio amor toda incendida, De Assuéro affronta a crueldade e insânia; Debóra, a profetisa, Entra na lucta e sae-se triunfante... Agora vem Maria de Bethania! --Palavra, que a Judéa é divertida!

Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois de ageitar-lhe as almofadas.

MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:

Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime! Quando uma alma se dobra e tanto se deprime, Quando um peito soluça, a compaixão ordena Que a ironia que esmaga e o riso que envena...

A um olhar severo de Claudia, humildemente:

Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo Que não seja o tormento indómito e agudo, Que me offusca a razão e o peito me lacéra! Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera Que soubesses tambem como é risonha a vida, Que toda se consagra a uma entidade querida: Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora; Respirar o subtil perfume que evapora; Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama; Silenciosamente, amar tudo o que ella ama; Ouvir-lhe da palavra a doce melodía Tão limpida, tão casta e pura, que enebría, Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal, Semelhante, no brilho, ao riso divinal Da estrella que, tremente, em candidez scintilla, Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.

Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.

Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido: Tu poderás talvez, pedindo a teu marido... Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana Quando te respondi com altivez soberana. Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr... --Mas fala, mas responde a isto que eu te peço! Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!

E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados no coxim.

Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.

Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:

Não me resta uma esperança, Pois não me escuta ninguem! Dorme a eterna Divindade No azul da Immensidade, Nos horisontes d'além, Onde não chega um suspiro, Onde o silencio é profundo. Ha de ser bom tal dormir, Descuidoso do porvir, Descuidoso d'este mundo, N'aquelle reino divino Tecido por andorinhas, Feito só para os honrados, Para os bons e desprezados, Para as meigas creancinhas... Tão sereno como o lago Da Galiléa florída, Que se formou por encanto Do arrependido pranto Da mãe Eva arrependida... --Parece mesmo que o vejo No seu manto azul. Dir-se-ia Que o firmamento amoroso Teve a alegre fantasía De enviar á terra um beijo Puro, suave, bondoso... Parece mesmo que o vejo. --É seu olhar calmo e doce; A tudo o mais fica estranho, Quando distingue o fulgor Dos astros, como se fosse O cuidadoso pastor Do scintillante rebanho...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

É seu olhar calmo e doce...

MARIA continuando alheiada a tudo:

Tem o brilho das seáras O cabello perfumado, Que nos hombros lhe descansa E lhe cerca as faces claras. É tão formoso e doirado Como um sorrir de creança...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

Tem o brilho das searas Seu cabello perfumado...

MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:

Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir. Reconheço por fim que era a esperança fátua. É inutil chorar em frente d'uma estátua... --Retiro-me vencida, assim como o pagão, Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão, Os gritos da sua alma e os canticos do amor. Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!

E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida escadaria.

O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede fronteira, como um enorme phantasma negro...

QUARTA JORNADA

EM 15 DE _NISAN_

QUARTA JORNADA

EM 15 DE _NISAN_

Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam mansamente.

Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos sem vida de suppliciados.

Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro. Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas. Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.

Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso e triste.

Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.

A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.

O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram reforçadas na vespera por ordem de Poncio.

AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:

Erguei-vos, camaradas, pois não deve O negro deus do somno tal imperio Exercer sobre vós, quando do Olympo Cáem com furia as cóleras de Jove.

LAUSO accordando:

Novamente começa a tempestade?

FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:

Foi aquelle patife do Vulcano, Que lhe enviou fornecimento novo.

LAUSO erguendo-se:

Pois ainda troveja?

AMPÍO

Muito ao longe.

FÁBIO

O peior é que Phébo, com certeza, Não vem tão cedo.

AMPÍO

Os galos já cantaram Das bandas do Levante, amigo Fábio.

LAUSO

Olha! alguem se dirige para aqui.

FÁBIO rindo:

Talvez seja Noctifer, deus das trevas.

E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos soldados.

UM MERCADOR em tom submisso:

É permittida a entrada aos mercadores?

AMPÍO

A dúvida, meu velho, está sómente Em pagarem tributo ao publicano.

O MERCADOR

Decerto que pagamos, como é de uso; Mas quando vi trez guardas junto á porta. Fiquei suppondo alguma novidade...

AMPÍO

Pois quê! não morreu hontem o profeta? Nada mais facil do que haver rebeldes... Conhecemos a vossa grande astucia E o vosso rancor, judeus malditos!

O MERCADOR por entre dentes:

Maldita Roma!...

FÁBIO com uma risada alvar:

Eh! lá! Vê como falas, Que o _teu rei_ já não vive!

O MERCADOR muito seccamente:

Da Judéa Ha muito que fugiu a realeza!

E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que d'elles chasqueiam.

A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos.

JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a voz muito enfraquecida:

Vem o dia a nascer das regiões eternas. Depois de ter lançado as iras justiceiras, O grande firmamento agora é mudo e quedo. Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas, E vão pedir a noite ás fendas do rochedo As aves agoureiras.

E olhando para a caverna d'onde saíu:

Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro, Ó treva de amargura e negras maldições! Ó antro, que animei co'o halito do crime, Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime, Das tectricas visões!

Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois, como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:

Estavam a dormir ao pé das oliveiras, E a Lua derramava em cheio nas clareiras O argentino olhar, o seu formoso pranto. Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto, Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu... Mas ficou-se indeciso apenas descobriu Dos archotes a luz na solidão campestre. --Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.» Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo, Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai! Co'um latido feroz toda a matilha sae Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento! Aos amigos leaes occorre o pensamento Heroico de empregar a força. A gritaria Desperta o olival da funda lethargia. Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador... Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror. Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja Espavorida vae dizendo-me que fuja.

E erguendo-se de chofre, animando-se:

Percorro velozmente os grandes olivaes; Quando abandono a sombra, entro nos matagaes; O manto esfarrapado o rasto meu indica, Depois a propria carne! A alma, porem, não fica, Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça. Termina de repente o estenso matagal, Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal Onde tenho uma lucta encarniçada e louca: A lama em borbotões entra-me pela bocca, Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos, Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos, Fogem nuvens de rãs para logares occultos, E o seu coaxar parece arremetter insultos! Mas saio vencedor e a terra firme alcanço; Então quero parar... mas corro sem descanso. As forças vão fugindo, e julgo que do peito O coração rebenta exanime e desfeito! Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto, Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando Sinistramente ao longe um lobo fica uivando. Chego á margem; depois entro por um atalho Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho... Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo Descobrir de repente o mais seguro abrigo!

Abeirando-se da caverna: