Judas: Romance lirico em quatro jornadas
Chapter 4
Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar, Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar, Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto, E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.
MARIA com simplicidade, avançando um pouco:
Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença. Ao passo que me opprime este cruel receio De vêr barafustar o nosso Mestre em meio Dos inimigos seus, mais frio do que a neve Se torna o meu olhar.
JUDAS tôrvamente:
Deve ser isso, deve...
E depois de algum silencio, ironico:
Costumado a subir nos estos d'esse amor Aos mundos do Ideal, o candido fulgor Transforma-se em desdem, e apenas se descerra Perante a mesquinhez que roja pela terra!
O olhar bem fito n'ella, animando-se:
Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, Brilha sinistramente e vem caír direito N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!
N'um arranco d'alma:
Em verdade te digo, ó mulher altaneira, Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!
Crescendo em furia:
Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós Para que emfim termine este supplicio atroz! Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda, E vae saír de mim, como em torpel a onda, Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! --Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, E deixa de cuidar n'essa paixão agora, Que é maior a paixão que todo me devora!
Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:
Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: É puro o teu amor, não é amor vulgar... Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, No centro da minha alma em sangue e dolorída Existe uma paixão tambem que me envenena, Podendo ser mortal, assim como a gangrena...
Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a roupagem:
Ah! no supremo arranco um peito esfacelado Como este, não receia o que haja mais sagrado, E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, De luctar e vencer o ente mais disforme, Terrivel como Deus, gigante como Adão, Possuindo na voz as frases do trovão! E porque sinto aqui as contorsões finaes, Espando francamente as máculas brutaes, Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!
Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.
MARIA que não se moveu, serenamente:
Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas; Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.
JUDAS n'um rugido:
Maria!
MARIA sempre immovel:
Com franqueza, eu disse-te por vezes: Em castidade egual ás innocentes rezes No Templo do Senhor dadas em sacrificio, Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio, Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha Acrisolado amor, amor... como de filha. Na terra nada mais preciso que uma coisa: A Crença.
Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:
O meu amor longe d'aqui repoisa, Estrella que não teme as nuvens tempestuosas. Brando como o dormir das aguas silenciosas, Vago como o misterio enorme do futuro, Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro, Nos espaços do azul vive risonho e inerme. A estrella é sempre estrella...
Descendo o olhar para Judas:
e o verme é sempre verme.
JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:
Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor, Fugindo á grande lei do grande Creador, Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre Para tornar assim fecundo o estéril ventre!
MARIA sem se perturbar:
Enlouqueceste!
JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido, n'um queixume:
Mas se eu nunca fui amado! Assim como o terreno a que não chega o arado, Semelhante em mudez ás pedras do caminho, Era o meu coração. Via-me tão sósinho, Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, Interrogava o Espaço, interrogava Deus, Procurava arrancar ás trevas o motivo De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.
Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas graciosas, languidas:
Mas desde que no teu o meu olhar depuz, Enxerguei o brilhar d'uma divina luz Na immensa escuridão d'este viver amargo E senti-me surgir do fundo do lethargo. Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, Adorada Maria, envolta na roupagem Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: No prado sorridente, em meio da floresta, Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... Por toda a parte, em summa!--Adoro-te, Maria! No caminho da vida o teu olhar me guia... Vem dar uma esperança ao pobre coração Que vive para ti, que te pertence...
MARIA com ligeiro movimento de cabeça:
Não.
JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:
Oh! que negra palavra, amarga como fel!
MARIA com a voz tranquilla:
Á doutrina do Mestre...
JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:
O Mestre!...
MARIA
... és infiel. Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro Do que seja o dever, e que se torna avaro, Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! Se não queres viver do amor pela virtude, Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: Foge para distante, ou foge para a Morte.
JUDAS allucinado, avançando para ella:
Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala! Fica sabendo pois que isto que me avassala, O que por fim se espande e que ha de ser funesto, Nunca foi do amor um sentimento honesto!
MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:
Maldito sejas tu, se acaso me tocares!
JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, agarrando-a:
Que importam maldições inuteis e vulgares? Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os, Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!
E tenta beijal-a, soffrego:
MARIA evitando-lhe os beijos:
Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!
JUDAS arrastando-a para o triclinio:
Chamaste muito bem á minha ardente furia, Como o fogo voraz, cruel e deshumana, Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.
MARIA com a voz estrangulada, luctando:
Soccorro! Eleazar!
JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:
Oh! cala-te!
MARIA já sem forças:
Meu Deus!
JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:
Ah! como são gentis assim os olhos teus! Como é rosada e fina a tua debil mão! Vaes ser minha, afinal!
Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade, abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, diz n'um murmurio de desespero:
Desfallecida?!...
Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um grito na alma:
Não!!
E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um lirio d'Issachar...
TERCEIRA JORNADA
EM 13 DE _NISAN_
TERCEIRA JORNADA
EM 13 DE _NISAN_
Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.
Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente, achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da quadra, ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal; de roseo o busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a legenda: _Tiberius Claudius Nero, Imp_. Das portas ha pendentes reposteiros de azul e oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando nós o busto de Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e perto d'ella vemos uma cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas e recurvas; á nossa esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, no chão, está estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano macisso alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas que decorrem.
Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes, escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de oiro cinzelado.
Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que a Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar, banhando as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.
No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e é branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por demais conhecido panorama.
CLAUDIA solta emfim um suspiro.
Dorme tudo na cidade. Que silencio e que tristeza!...
GEDA
Tens então grande saúdade De Roma?
CLAUDIA
Sim. Dizes bem: É saúdade esta amargura, Pois outro nome não tem O que sinto na Judéa Onde Poncio me exilou. --Que horas podem ser? Vê lá.
GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á clépsydra. Repõe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de Claudia:
Salvo engano, gottejou A segunda hora de prima...
CLAUDIA
Por Saturno, é muito cedo, Pois não é?
GEDA
Tambem eu cria Ser mais tarde.
CLAUDIA boceja largamente.
Agora, em Roma, Ouve-se ainda a folia Da multidão buliçosa, Que de toda a parte assoma, Soltando ao vento a harmonía Da sua voz descuidosa...
Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e de idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve, olhos negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga onde as rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto; sandalhas amarellas; mãos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro consulta.
CLAUDIA indolente, para Geda:
Ali tens quem me trouxe para o _exilio_! Se não dormem Plutão nem Proserpina, Hão de cedo chamal-o ao domicilio Onde cáem as victimas da Morte!
Muito ironica:
Que inspiração divina Eu tive ao escolher este consorte!
Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e adiantando-se para Poncio, que não a viu:
Que novas trazes, Poncio?
PONCIO sem se voltar, continuando a lêr:
É de Tiberio Foi-me enviado este papyro honroso.
CLAUDIA em sobresalto infantil:
O quê?! Novas de Roma?
PONCIO
O grande imperio Continúa radiante e venturoso. Foi porém necessario reprimir, No principio do anno, Certa conspiração que fôra urdida Pelos amigos do traidor Sejano. A mensagem termina Aconselhando a que use da violencia.
E lê pausadamente, accentuando muito as palavras:
«Aprende em mim como o poder se eleva E como se elimina Todo aquelle que tenha a impudencia De attentar contra a posse d'este manto. Faze como eu tambem: Reprime a todo o custo a rebeldia. Talvez no Templo se conspire. Emquanto Mostres sabedoria, Espirito sensato, forte e agudo, Podes contar comigo. Recommenda a Claudia, Poncio amigo. Por Jove, te saúdo».
Põe de parte o papyro e reclina a fronte na mão.
CLAUDIA que em silencio ficára appreensiva:
O que vaes responder?
PONCIO sem se mover:
Já respondi.
CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle:
Permaneces?
PONCIO
Decerto, pois me cumpre.
Na perna esquerda sobrepõe a direita, fazendo-a oscillar por longo tempo.
CLAUDIA não podendo conter a intima revolta:
Bella esperança! Hei de viver aqui, Segundo me parece, eternamente! --Casou Venus com Marte e foi o Amor O que nasceu da conhecida união; Casei comtigo, audaz procurador, A principio amoroso, bom, cortez... O que nasceu, por fim, d'este consorcio? Nasceu a Insipidez!
PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia:
Pela divina _Isis_ que estás louca, Ou requintas de véras em maldade!
CLAUDIA
Talvez seja melhor Não despertar do Nilo a divindade! --N'estes ultimos annos tenho sido Verdadeiro modelo de matrona... Sabes que ambiciona A minha alma fugir a tal desterro, E não queres pedir a demissão! Imaginas talvez ser este o meio De garantir a minha honestidade? Pois olha, estás em erro! Não me curvo a pressões tão aviltantes. Se não fôr satisfeito o meu desejo, Perderei todo o pejo... --Inda possuo algum, valha a verdade!-- E para me vingar bem cruelmente Serei mais leviana do que d'antes!
PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio:
Tu não vês que deixarmos a Judéa Não seria prudente? Tiberio é para nós inexcedivel Em attenções, e dá-me como prémio A confiança. Bastaria a idéa Da minha demissão, para de vez Nos expulsar do resumido grémio Dos seus affeiçoados, e talvez Depois se transformasse em vingador... --Pede outra coisa, Claudia; nunca peças O que julgo insensato. Somos grandes aqui; nenhum valor Teriamos na côrte. Não te esqueças Da sorte de Coponio, Rufo e Grato, Ao voltarem a Roma. Pede outra coisa, Claudia, que por certo Has de ser attendida. Não me digas, porém, que vá trocar Aquillo que é seguro pelo incerto.
CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:
Mas que m'importa, a mim, o teu logar, Se eu desejo viver onde se viva? Em Roma, na cidade portentosa, Onde qualquer escrava é mais altiva Que uma nobre judía virtuosa! Onde Gelanio, o deus das gargalhadas, Desinfecta as emmanações palustres Da tristeza! onde as pedras das calçadas Falam até de tradições illustres! Quero fugir d'este mortal supplicio Para onde o meu ser se espanda e vibre; Participar no seductor bulicio, E ver á tarde o Sol beijar o Tibre! Assistir como outr'ora aos festivaes No grande circo onde o valor impéra; Vêr athletas sanguineos, triunfaes E ouvir os rugidos d'uma féra! Beber o doce vinho de Falerno, Ser cortezã, de novo rir e amar... Dêem-me vida longe d'este Averno, E que m'importa, a mim, o teu logar!
PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:
O que uma vez escrevo, escripto fica!
Depois, mais brando:
Não fugirei ás ordens de Tiberio. De mais, coisa nenhuma justifica Em solidas razões o que me pédes.
E volta á primitiva posição.
CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera:
Disseste?
PONCIO indifferente:
Disse.
CLAUDIA
É caso firme e assente Permanecer?
PONCIO
Que dúvida!
CLAUDIA
Não cédes Nem aos meus rogos?
PONCIO
Não.
CLAUDIA muito a sério:
És imprudente... --Sabes que fui amante de Tiberio?
PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expressão:
Tenho ouvido dizer.
CLAUDIA
Não desconheces Que se é meigo, tambem é vingativo O meu caracter. Pois talvez um dia Desappareça o teu falar altivo. Tiberio, com certeza, Muito embora já tenha algumas cans, Ha de ainda lembrar-se da belleza Das suas cortezãs...
PONCIO franzindo lévemente o sobr'olho:
Não comprehendo bem. Com isso tudo O que vens a dizer?
CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa:
Que te saúdo...
E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as prégas do reposteiro.
Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que veio do andar terreo pela escada exterior.
O OSTIARIO
Poncio, recebes agora?
PONCIO erguendo-se:
E quem é que me procura?
O OSTIARIO
O sacerdote judeu Hanan.
PONCIO surprezo, como comsigo:
Hanan procurar-me Na Torre Antonia, a esta hora? --Ostiario, succedeu Alguma coisa?...
O OSTIARIO
Não sei. O povo está socegado.
PONCIO depois de reflectir:
Manda entrar o sacerdote Para aqui mesmo.
Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz como comsigo:
Cuidado!...
Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio. Senta-se novamente na cadeira.
A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar illumina. Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e robusto--o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha. Meão d'estatura, barba cerrada e não comprida onde abundam as brancas, assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabeça; chinellos muito usados. Dir-se-ía que tal modestia d'aspecto foi um calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e aspera a expressão da velhacaria e do mando.
O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a que vamos assistir.
HANAN que se adiantou até á presença de Poncio, curvando-se perante elle:
Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto Amavel transparece um juvenil composto De puro entendimento e de vigor e saúde. No falar respeitoso, humilde na attitude, O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia Protestos de leal e eterna simpathia.
PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso:
O alamo gigante, ao estender os braços Como para cingir Apollo, que os espaços Domína, mostra quanto é grande na affeição, Mas fructos não produz: É como a adulação. --Hanan, ouvir-te-ei attentamente.
HANAN fingindo não ter percebido:
Vim Para que tu me dês auxilio.
PONCIO ironico:
Como assim? De noite? acompanhado?
HANAN
Este homem ouve, e cala Tudo o que ouvir. Demais, é-nos preciso.
PONCIO voltou-se um pouco, lançou um rapido olhar a Judas, e depois, encostando o braço á meza e com a cabeça reclinada na mão:
Fala.
HANAN muito submisso de começo:
Embora nos vencesse a furia dos romanos Em tempos que lá vão; embora muitos damnos Haja soffrido o povo heroico d'Israel, Ás suas tradições conserva-se fiel, Na crença do seu Deus respeito manifesta. Religião sómente é hoje o que lhe resta, Porque tudo entregou ás mãos do vencedor; Por isso ha de manter, altivo e com fervor, O que elle considera um virginal trofeu! --Dize-me então se é justo ou não é justo que eu Procure lealmente ao povo garantir A crença de Moysés, agora e no porvir.
PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle desdem dos romanos pelos povos vencidos:
Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo: Do leito has de saír com mais celeridade Para zelar melhor a tua propriedade, E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros, Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros.
HANAN offendido, elevando a voz:
Duvídas de que seja o meu falar sincero? Julgas que estou mentindo, e em nada considero A minha crença?
PONCIO olhando para elle de fito, severamente:
Olá!...
HANAN matreiro:
Desculpa-me. Prometto Não me exaltar de novo, ó Poncio.
PONCIO sem desviar d'elle o olhar:
O mel do Hymetto Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.
HANAN muito submisso:
Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta: Aquella sã doutrina, a doutrina impoluta Que nos deixou Moysés, o grande fundador Da nação, que livrou das garras do oppressor O povo escravisado, e que á ditosa grei Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei! A doutrina sublime, erario de virtudes, Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes Provações...
PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:
Vaes falar d'alguem profeta novo, Que anda por'hi talvez a amotinar o povo Contra os amigos teus?--Pois hei de protegel-o. Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello D'esse homem.
HANAN refreando a cólera:
Mas porquê? Terás razões secretas?
PONCIO
Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas, Ao falarem de ti.
HANAN com ironia e falsa humildade:
Então! sê razoavel E mostra coherencia, ó tiranno implacavel! Um cadaver de mais, um cadaver de menos, É coisa que não leva aos teus dias serenos Nenhuma inquietação, nenhum remorso.
Animando-se pouco a pouco:
E quando Um sacerdote probo e honesto e venerando Em nome da Judéa a morte solicíta Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?!
Esplodindo, francamente:
De cumprir o dever percebo o que te afasta: Quem te fala sou eu, que tu odeias!
PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se:
Basta! Sabes que essas razões não oiço, nem toléro, E que digo uma vez que não, quando não quero! --Como o poder de Roma aos homens do Conselho Tirou todo o poder de tingir de vermelho N'um banho sanguinario os corpos fraternaes, Privados de lavrar sentenças capitaes Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan, Que eu poderia, qual infame barregã, Despejar a vergonha á rua, como o lixo, Para satisfazer depois o teu capricho? Porque uma voz protesta e clama contra o vil Conselho que assoberba o povo e que, febril, Anda a espiar na sombra, a procurar o instante Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante; Porque um homem possue a civica ousadia De guerrear talvez a tua hipocrisia, Venerando ancião, tiveste uma lembrança: Transformar o meu voto em arma de vingança Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma!
Agarrando no pilo:
Pois digo-te que nunca has de caír na lama Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente, A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!
E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.
HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:
Eu não falo por mim; eu falo por Moysés, Cuja doutrina tem sido calcada aos pés D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha Só para dizer mal dos grandes e dos ricos; Que dirige a palavra aos seres impudícos, Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões; Que anda em nome de Deus a conceder perdões A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino, Se atreve a inculcar como um ente divino!
PONCIO tranquillo, sorrindo:
Quem sabe?... Pode ser...
HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:
O quê?!
PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras: