Judas: Romance lirico em quatro jornadas
Chapter 3
JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando dominar-se:
O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. Reparo em que lhe dás toda a attenção.
JUDAS
Medonho! --A infamia de Caím.
JOÃO
É proveitoso, e muito! Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito, No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã, De falar d'esse crime o qual desde manhã Tanto me preoccupa.
Muito ironico:
Á tua consciencia Não pode causar damno esta coincidencia... És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... --Mas devo confessar-te...
JUDAS sereno e sempre sentado:
O quê?
JOÃO
Que estou ancioso De ha muito por que tu expliques o motivo, Que te obrigou a ser cruel e offensivo Para quem te consagra uma affeição fraterna.
Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:
O que possues em ti, Judas, que assim governa O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo No misterio que abriu na tua frente um abismo Cercado de fataes e nús despenhadeiros, Affastando-te assim dos nossos companheiros, Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.
E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:
Somos na união eguaes a esta corda, Que as estrigas de linho unidas fortemente Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente. Na sólida affeição, unificados, somos Assim como n'um fructo os solidarios gommos. --Desfia-se, porem, a corda, ao que parece; E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...
JUDAS com affectada bonhomía:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.--Mas quando penso Que o teu profundo mal pode tornar immenso O crime, e que será depois intempestivo O arrependimento... Em summa, não me esquivo A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha: Nunca simpathisei comtigo; não se amanha Com a tua frieza a ardencia do meu peito. É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito A observar-te.
JUDAS
A mim?!
JOÃO
E sabes o que vejo? Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!
JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.--Mas quem nasceu, Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu Por vasto cortinado; aquelle que na infancia Aprendeu a olhar com summa repugnancia Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre, Muito melhor que tu ha de entender o Mestre. Não podem comprehendel-o os rudes corações Selvagens como o teu!
JUDAS
Chiméras, illusões...
JOÃO
Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres Supplícas com aspecto humilde uma parcella P'ra o Mestre!--Na verdade, é preciosa e bella Tanta dedicação! Provoca o elogío! --Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío O teu olhar matreiro, o brilho da avareza A dar-lhe um tom sinistro?--Odeias a pobreza! Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!
JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o olhar ameaçador:
João!
JOÃO cruza os braços e sereno:
Podes bater, amigo! Por que esperas?
Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E João, agora ainda mais excitado:
E chamas illusões! e vens chamar chiméras Ao que é verdade núa e positiva?!--Agora Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora; No actual momento em que até eu vacílo, Presentindo que não poderá ser tranquillo O futuro do Mestre e de nós todos, mudas Em odio declarado essa frieza, Judas?! Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso? Confessa que proveito, ou que terrivel goso Encontras n'essa infamia abjecta!
Desesperado pela indifferença apparente de Judas:
Que supplicio! Não poder arrancar-te ao menos um indicio! Não poder descobrir a causa que assim léva O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva! Ah! não poder, depois do que disseste aqui, Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!
E senta-se, febril, n'uma das camilhas.
JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe emfim com muita ironía:
Está bem! muito bem! Ao menos, esperava Que soubesses deter a incandescente lava, Que todo me queimou, transformando em carvão A minha consciencia... embora de _ladrão_.
Resoluto, firme, altivo:
Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino; Mas isso que te importa? Um ser tão viperino, Como eu, só tem logar no meio da ralé, E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!
JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:
Acalma a excitação, Judas. O principal Resume-se, ao presente, em confessares qual A origem do teu odio. É isto o que eu te peço, É isto o que eu desejo.
JUDAS n'um brusco impulso de independencia:
Isso é que não! Confesso Á minha consciencia o que me vae no peito! Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito De desvendar em mim reconditos misterios? Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios! --Pediste por acaso ao mar em que nasceste Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo? Pois o meu coração como elle é tão profundo, Que se alguem pretendesse abrir uma passagem, Teria de morrer submerso na voragem!
João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas verdadeiras intenções:
Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça Conseguirei vergar esta alma tão submissa. Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis... Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis, Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos, Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos... Depois quando vier o derradeiro instante, Desamparado, nú, febril, agonisante, Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas, Em vez de maldições, tem palavras bemditas, Para quem desprezou teu pobre coração, Deixando-o succumbir como se fosse um cão! --Adeus e para sempre.
Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:
Acceita em pensamento O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! --Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.
E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:
Canalha!
JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria consciencia:
Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse Pedir ao exagero o auxilio necessario Para augmentar de vulto o crime involuntario, Ou a leviandade alheia á malvadez. Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez Arrastar pelo mundo uma existencia nua De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...
Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de Bethania.
ELEAZAR indicando João aos companheiros:
Eil-o aqui está! E nós á tua espera!
SIMÃO PEDRA
São horas de partir para a cidade.
JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu pensamento entregue ao Mestre:
Não deve ser pequena a caravana!
MATHEUS
Junto do Mestre, o povo delibera Acompanhal-o.
SIMÃO PEDRA
O que é grande imprudencia!
JOÃO
Grande imprudencia?!
SIMÃO PEDRA
Os nossos companheiros Em vão procuram com docilidade Suster o passo á gente leviana...
JOÃO
E porquê? Não são elles verdadeiros Defensores do Mestre?
SIMÃO PEDRA
Mas reflecte...
JOÃO
O povo quer seguir-nos? Pois que venha!
SIMÃO PEDRA
Mas pode provocar algum tumulto. É preciso que a dentro da muralha Evitemos qualquer indisciplina.
JOÃO
Tu que dizes? Que pensamento occulto Encerram taes palavras? Será crivel Que te arreceies da imbecil gentalha, Que anda a rosnar as suas ameaças Contra a força que temos, invencivel, Justiceira e tremenda?!
SIMÃO PEDRA
E porque não? Onde possues algemas e mordaças Para conter as furias imminentes? Pode acaso fugir-se a uma traição? Reflecte bem: devemos ser prudentes, Evitando que Hanan tenha pretexto Para exercer emfim uma vingança, Roubando ao Mestre a preciosa vida.
JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:
Não tens portanto uma unica esperança Em ver surgir a aurora promettida? --Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto Do Profeta, que vamos afinal Assistir ao enorme vendaval, Que ha de causar a todo o mundo espanto! Da Lei não ficará nem uma linha, E as pedras do Templo hão de cahir! Eu antevejo, amigos, o porvir, Que de instante a instante se avisinha! Como cães a ulular, de toda a parte Hão de saír as abominações! Entre espadas de fogo e maldições, Vae tremular um sólido estandarte! Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus Ribombará como um trovão gigante, E o vento ha de levar para distante, Onde não haja terra, mar, ou ceus, As ultimas parcellas do monturo A que chamamos hoje humanidade! Álerta! vae rugir a tempestade! --Confia em Deus! Espera no futuro!
Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:
Gamaliel?!
GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.
Eu proprio. E vejo que cheguei A tempo de lembrar que existe de uma Lei A rispida crueza, a inquebrantavel força, E que por mais que a tua exaltação retorça O positivo, elle ha de emfim prevalecer! Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder. --O perigo é enorme.
Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:
Ouvide: Nicodemo, Um homem de honradez e que respeita em estremo O vosso Mestre, não me occulta o que se passa A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça, Fazendo-se abortar o plano vingador!
TODOS em sobresalto:
Um plano?!
JOÃO
Como?!
SIMÃO PEDRA
Dize!
MATHEUS
É de grande valor O que disséres.
JOÃO
Sim! deves dizer-nos tudo!
E acercam-se d'elle ainda mais:
GAMALIEL pausada e custosamente:
Hanan possue no genro o seu melhor escudo. Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote, Foi para ter alguem que cegamente vote Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança Dos homens do Conselho estima e confiança.
E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:
Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta, Por elles foi votada a morte do Profeta!
SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:
O meu presentimento!
MATHEUS, convulsamente:
Infamia!
JOÃO, n'um grito:
Cobardia!
ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:
É tempo de calcar aos pés a tirannía!
Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se, animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio.
GAMALIEL
Tende serenidade!
JOÃO
Oh! não, Gamaliel!
ELEAZAR
Liberte-se de vez o reino d'Israel!
GAMALIEL
Que poderá tornar-se em grande mar vermelho, Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!
JOÃO
As espadas de Roma, as furias de Tiberio, Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio! O povo ha de gritar, raivoso, leonino, Rasgando a face impura ao despota assassino!
GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:
Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto No livro da experiencia, amigos, que é de pranto A minha pobre offerta á causa alevantada! Vós não podeis brandir a rutilante espada; Nem elle, todo amor, consentiria nunca Na transfiguração do verbo em garra adunca. Parti, pois que é preciso apparecer ao povo, Mas fugide a que venha um incidente novo Aguçar ao tiranno o sanguinario intento. Entrae com desassombro a porta do aposento Onde finge dormir, silencioso, o crime; Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime O seu rancor feroz!
SIMÃO PEDRA tambem resoluto:
Seja o que Deus quizer!
JOÃO
Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher, Pode esfriar em mim a indignação!
GAMALIEL
Piedade!
ELEAZAR
Vamos!
MATHEUS
Jerusalem!
SIMÃO
Coragem!
JOÃO
Na cidade Havemos de formar com os nossos companheiros Possante legião d'impávidos guerreiros!
E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho Gamaliel.
Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada, Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de Jerusalem.
MARTHA
E uma vez que partiram Para a cidade, afinal, Entreguemo-nos agora Ao que julgo essencial: Tratemos da nossa casa.
MARIA, indolente:
Espera. Não tenhas pressa...
MARTHA
É que está tudo em desordem, E o nosso irmão começa Dentro em breve a murmurar Que ninguem aqui trabalha!...
MARIA
Martha, vae tu repoisar, Que eu tratarei do preciso.
MARTHA
Não teimes, que me aproveito Do teu conselho.
MARIA
Careces De alguns momentos no leito; Deves estar fatigada.
MARTHA
E não te enganas. Ergui-me Ao romper da madrugada...
MARIA
E foste uma das primeiras Que se juntaram co'os Dôse No Monte das Oliveiras, Onde passaram a noite, Como é costume.
MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:
E não ficas De mal comigo?
MARIA
Porquê? Se em nada me prejudicas...
E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:
O que ha de novo, Judas?
JUDAS
Nada sei...
MARTHA muito admirada:
Não quizeste partir para a cidade?
JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:
Como vês, não parti... pois que fiquei.
MARIA
E porquê?
JUDAS
Porque o somno que me invade Exige para o corpo algum repouso. Vae alto o Sol; de ha muito manifesta Que brilha no seu ponto mais radioso, E que são horas de dormir a sesta.
MARIA, sem o fitar, serena:
E vaes dormir?
JUDAS cerrando as palpebras:
O Livro dos Proverbios Alguma coisa diz... «Quem se julgar Com pequenos desgostos, exacerbe-os A dormir, a dormir... e a sonhar...» --Se durmo, para onde é que foge a vida? Para fóra de mim quem a conduz? Encontrará descanso na guarida Para onde, ao apagar-se, vae a luz? Ao despertar depois, quem reacende No cerebro o fulgor que relampeja? Quem é que nos dá vida ou que a suspende A seu prazer?
MARTHA com muita convicção:
É Deus...
JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:
Talvez que seja.
MARTHA surpreza:
Talvez?!
Muito baixinho ao ouvido da irmã:
Extranho o Judas!
JUDAS
Sim, talvez; Porque não julgo prova de criterio, Antes se me affigura insensatez, Explicar um segredo co'um misterio.
MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção, melodiosamente:
Anda a tua alma fugida Ao bom caminho da crença... Quem foi que d'elle a affastou E que dentro em ti deixou Uma escuridão immensa? Hontem á noite... (Desculpa Se acaso te contrarío Ao falar agora d'isto) Por todos nós foi mal visto, Judas, o teu desvarío. De tão modesta homenagem Não era merecedor Aquelle Mestre sublime Em cujo rosto se exprime A bondade e o amor? --Anda a tua alma fugida Ao bom caminho da crença. Que Deus de novo a conduza E o brilho reproduza Na tua alma, treva immensa!
Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o convencido, diz então baixinho á irmã:
Não responde. Pode ser Que facilmente consigas Descobrir toda a verdade.
MARIA, querendo esquivar-se:
Eu?
MARTHA
Com palavras amigas Interroga-o, porque, em summa, Custa ver n'um coração, Que deveria ser meigo, Semelhante ingratidão.
E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, observa-a.
MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo a si propria:
É mais prudente...
E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:
JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:
Maria, Pareces que vaes fugindo...
MARIA baixando o olhar:
Para não te incommodar, Quando estiveres dormindo.
E retira-se tambem, fechando a porta castamente:
JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:
É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. Provem este rancor, que ella sente por mim, Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito! --Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo, Ainda que me sinta a resvalar no lodo!
E erguendo-se, impetuoso:
E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços! Quando o trovão ribomba altivo nos espaços, Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho! Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho! --... Mas quem me diz não ser este sinistro plano Improficuo, ou então summamente leviano! Se elle fugir á morte, ao estertor final, Por um processo occulto e sobrenatural, Contra mim lançará todo o furor do ceu, Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!
Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:
Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz, O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz, Ó Deus, entoaria, agradecido a ti, Uma canção igual aos psalmos de David, Transformando o meu peito em grande tabernaculo! --Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!
Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um sorriso malevolo, animando-se:
E se, como se diz, elle não fôr divino? Se obedecer, como eu, á força do destino?... --Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso E possante vigor d'um corajoso pulso!
Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:
Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime. E como poderei matar, sem ver o crime? Armando um braço vil? comprando uma consciencia? É pouco, é muito pouco... e é tudo!--Que demencia! Quem poderá saber onde reside a féra, Que tenha peito humano e garras de pantéra?
Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca espumando:
--Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha, Que vive silenciosa em tua negra entranha, Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! Genio amante do crime e á virtude adverso, Que mora num covil... e zomba do Universo! Eu quero conhecer o amigo dos devassos: Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!
Com grande desanimo:
Nem elle me protege! E eu preciso, emfim, D'um ser bastante infame!
BENJAMIM com muita humildade:
Aqui me tens, a mim...
JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:
Quem és tu?
BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:
Sou alguem que te escutava. O tempo, como vês, não desperdiço... Não perguntes quem sou. Aqui me tens, Amigo, ao teu serviço.
JUDAS sem o largar:
Ignoro quem tu sejas, mas se acaso Divulgar o meu odio tencionas, Juro que em curto praso No fio de uma lamina abandonas Co'o meu segredo a vida!
BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:
Cala a bôca! Não blasfemes de coisas respeitaveis. Venho fazer propostas acceitaveis, Dizer tudo o que sinto, E só respondes co'uma furia louca! Se me has de receber com effusão, Achando em mim o teu melhor amigo, Alevantas a mão, Ameaçador como um guerreiro antigo! É ser ingrato!
JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:
Dize-me o que sabes!
BENJAMIM sinceramente:
Ora! sei que a tua alma se abalança, Depois do que houve aqui hontem á noite, A seguir o caminho da vingança. Naturalmente, sentes-te offendido Co'a resposta que teve o teu reparo Tão justo e merecido...
JUDAS como comsigo, satisfeito:
Portanto, ignora...
BENJAMIM
É isto amigo?
JUDAS, rapido:
É isso!
BENJAMIM explicando:
Eu hontem ouvi tudo junto á porta... --Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens, Humilde, ao teu serviço.
JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes com Josué.
Mas se eu não sei...
BENJAMIM agora senhor de si:
Não sabes? Pois sei eu. O Mestre será morto, em poucos dias; Depende só de ti, fica sabendo!
JUDAS nervosamente:
Que dizes, fariseu?
BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que parece devorar-lhe as palavras:
Ouve: É tremendo O odio que lhe tem todo o Conselho, O qual procura o instante mais propicio De pôr em exercicio O plano da prisão, do julgamento...
JUDAS
E da morte?
BENJAMIM
E da morte! O que, porem, No actual momento Ao sacerdote Hanan muito convem É prendel-o em segredo, Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo De que o povo alevante alguns protestos... Á prudencia conforme, Assim procederá.
JUDAS animado, satisfeito:
Dize-me então...
BENJAMIM
É urgente saber onde elle dorme. Tu sabes com certeza!
JUDAS hesitando, vagamente acobardado:
Mas...
BENJAMIM
O quê? Não queres a vingança, Judas?
JUDAS
Quero...
BENJAMIM
N'esse caso, aproveita o bello ensejo, Que outro não tens melhor. Sendo sincero E grande, como julgo, o teu desejo, Não deves recusar o que proponho. --Ouviste? Muito bem! Reflecte agora, Este sitio não é muito seguro... Aguardo te lá fóra!
Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem.
JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas depois:
De que serve hesitar, se me apresentam Como satisfazer o meu anceio? Basta que eu seja um cumplice d'Hanan, Um traidor simplesmente... Nada mais...
Com rude franqueza:
--Na mão direita a Infamia, A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!
Com funda ironia:
A sentença fixei: «Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.» --Não saberá, que eu nada lhe direi!
Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.
MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:
Julguei ouvir falar...
JUDAS
Aqui? Foi puro engano.
E notando um movimento esquivo de Maria:
Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno Com a minha presença?
MARIA condescendente:
Oh! não...
JUDAS caricioso:
Deixa-te pois Ficar junto de mim, que facilmente os dois Teremos na conversa um passatempo. Fica.
E mentalmente:
Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.
Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...
JUDAS