Judas: Romance lirico em quatro jornadas
Chapter 2
Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo. A todo o sentimento o da maldade encimo, Se acaso á minha face o insulto e o desdem Me forem arrojados por alguem! Uma frase, um olhar--tanto me basta; Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta, Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança, Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança!
Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado sorriso de maldade:
Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus Esta disposição d'espirito, e os meus Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria Que o insulto nem sempre é uma gloria!
MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:
Eu não pedi perdão...
CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo independente da patriotica filha d'Israel:
E quem diz tal, judía? Fui eu que perdoei...--Offendes-te?
MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder:
Maria...
CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:
_Maria_... Nome formoso, Que tem um rythmo éoleo! Merece logar honroso, Por Jove, no Capitolio!
E volta para a liteira.
A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:
Nunca te vi assim...
CLAUDIA
Diverte me a bondade, Ás vezes...
O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito:
A caminho!
Os lecticarios põem a liteira aos hombros.
CLAUDIA
Á porta da cidade Haveremos de estar antes da noite. Anceio Por que termine em bréve este infeliz passeio, Sem novo encontro mau.--Ó palida judía, Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia Tem saúde até lá, que o ferro vingador Detesta a gente magra, e tem maior furor Ao trespassar um cólo arredondado e terno...
MARIA
Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!
Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a comsigo para casa.
Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras de feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo dos braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um pouco alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o olhar para as coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, conserva-os erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. Claro é que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos manifestam-se.
BENJAMIM
Não ha que duvidar: chegaram todos.
JOSUÉ
Viste bem, Benjamim? seria engano...
BENJAMIM
Engano o que? Se affirmo, se até juro Ter visto o Mestre e os dose companheiros. Tomaram pela horta do Simão, E em bréve hão de estar n'aquella casa.
E approxima-se da casa do _Leproso_. Detem-se; prestando attenção, ouve a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com _Hossannas!_ a chegada do Rabbi da Galiléa.
Eu não te digo?... O povo já começa A correr ao encontro. Dentro em pouco, Vae por esta Bethania uma celeuma, Que nem no Templo em dia de festejo! Eis portanto o momento ambicionado De cumprirmos as ordens recebidas...
JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar:
Mas Benjamim...
BENJAMIM
O que é?
JOSUÉ
Sinceramente, Vou achando pesada esta incumbencia. É que nós somos dois: elles são tantos!...
BENJAMIM
Em verdade te digo; principío A estar arrependido de indicar-te Para meu ajudante n'esta empreza! Hanan mandou que fossemos prudentes: Devemos ter prudencia. Hanan mandou Que tomassemos nota do que vissemos: Tudo o que virmos lhe será contado. Hanan mandou que fosse descoberto O melhor paradeiro onde, em segredo, Se podesse prender o Nazareno, Muito em segredo, sim, para evitar Protestos e tumultos: pois, meu caro, Havemos de encontral-o!
JOSUÉ
Estás bem certo?...
BENJAMIM velhacamente, animando-o:
E não vejo que mal nos ameace. O ex-Grande Sacerdote é simplesmente Quem se entrega aos revezes d'este jogo. Se perde ou ganha, o caso é lá com elle; E nós de qualquer forma ganharemos Não só a consciencia de homens probos, Leaes respeitadores de Moysés...
JOSUÉ unctuosamente:
O que á minha alma traz doce conforto...
BENJAMIM
... Mas tambem o dinheiro promettido, Que não menos conforta as nossas bolsas.
JOSUÉ com desinteresse hypocrita:
Tens um sistema de encarar a vida!...
BENJAMIM
É forçoso que nós nos convençamos De que, se os bons principios se defendem, Tambem se deve garantir ao corpo A delicia das bôas digestões... Á custa do dinheiro do Conselho! --Ouve portanto o que é mister cumprir: Tu vaes para a cidade; a bréve trecho Procurarás o ex-Sacerdote... E então Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros Chegaram a Bethania era sol-posto; Que decerto aqui ficam toda a noite, E que eu não deixarei de estar álerta.
JOSUÉ
Perfeitamente.
BENJAMIM
Espéra! De manhã, Logo que vejas os clarões do dia, Has de esperar por mim...
JOSUÉ
Que sitio indicas?
BENJAMIM
Não distante da entrada principal Do Templo. Dado o caso que eu não chegue, Commigo has de encontrar-te...
JOSUÉ
E onde?
BENJAMIM
Aqui.
JOSUÉ
Muito bem!
BENJAMIM
Percebeste?
JOSUÉ
Que pergunta! Como quem desenrola o «Pentateuco» E passa a vista pelo que elle diz. --A proposito: guarda-me estes rôlos.
BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:
Tens razão. As Sagradas Escripturas Iriam pezar muito no caminho. Mas deves ir com um, pois é preciso Para te dar o aspecto d'homem sério.
JOSUÉ
Ao romper da manhã...
BENJAMIM
Vae-te! Vem gente!
E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.
Quatro homens assomaram á porta do _Leproso_; são Eleazar acompanhado de João, Simão Pedra e Matheus.
João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre, na grande extensão da superficie das aguas.
Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora, paternal.
Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo, de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por uma expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi homofona, de homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou sensibilisa, e que tem da vida uma noção segura.
Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi grande o percurso que fizeram os romeiros.
JOÃO resfolegando:
Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!
MATHEUS
E ficam bem á vista os muros da cidade... Não sei o que adivinho!...
JOÃO
Ao largo esse receio! Muito mais me entristece a nuvem má que veio Escurecer ao Mestre o doce olhar...
SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma intimidade muito amiga:
Meu caro, Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo O tempo que passou a este em que hoje estamos: O verbo illuminando a treva e os recamos Do manto a que se abriga uma ambição enorme; As contorsões finaes do animal disforme Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés, Rojando-se afinal vencido a nossos pés!
ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae n'alma:
E julgas que não tarda em despontar o dia Tão desejado?
SIMÃO PEDRA
Eu?! Pois quem duvidaría? --A doutrina do Mestre é como o grão de trigo, Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo. Que mais cuidados tem o bom do lavrador? Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor, Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão, A força e o poder da multiplicação. Se o lavrador depois no campo seu repára E vê brilhar ao sol a refulgente seára, Exclama, commovido: Abençoada terra, Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!
ELEAZAR, quasi a medo:
Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?
SIMÃO PEDRA
Quem passa pela estrada e attenta no crescer Do risonho trigal, diz logo, reverente: Bemdito quem dispoz na terra esta semente!
ELEAZAR, depois de grande hesitação:
Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...
SIMÃO PEDRA
Nunca!
ELEAZAR
Nem fugireis?
JOÃO que se erguera, rapido e violento:
Nenhum de nós!
Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte. Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, dando ás palavras uma intenção reservada:
Nenhum... Dos que têem do Mestre a patria por commum! Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios Nunca hão de vacilar perante os sacrificios. Se acaso o Mestre fôr levado de vencida, Qualquer de nós dará por elle a propria vida! Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André, Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé, Iago, o publicano, ou Simão Pedra?--Não! Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão? --Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.
JUDAS
Não falaste de mim...
JOÃO muito secco e terminante:
Por méro esquecimento.
E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.
ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:
Pareceu-me o contrario...
SIMÃO PEDRA triste e confidencial:
É sempre assim co'o Judas...
Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma d'essas creaturas que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se conservar no nosso espirito a idéa de repulsão que a principio nos dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos, braços e peito cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na cólera.
JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:
Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas As tuas aggressões áquelle que te présa! Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa. De injurias contra mim tu sempre estás faminto! Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto... (E crê que muita vez isto me vem á idéa) ... Ter nascido em Judá e não na Galiléa? Sou culpado de quê? De ter a pélle escura? De ter cabello negro? Isto é para censura?
MATHEUS conciliadôr:
Mas se elle já te disse...
JUDAS
E eu digo que, em verdade, Prefiro lealmente o odio a esta _amizade_!
E volta aos seus pensamentos dominantes.
MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:
Vinde ceiar, que são horas. Não quereis?
SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha
Nem se duvída!
MARTHA
Pois deixae-vos de demoras, Aliás vae-se a comida! --Uma ceia improvisada Mas nem por isso mesquinha, Podeis crêr.
SIMÃO PEDRA
A caminhada Que fizemos foi damninha... Por aguçar o appetite.
MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:
Dize que venham depressa, Porque, faltando ao convite, Sem vós a ceia começa!
JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um tom de voz inaudivel para Judas:
Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa Que para ser dos bons não falta a coisa alguma... Talvez que seja assim como dizeis. No entanto, Se para o seu olhar o meu olhar levanto... --É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso! Pensando sempre! Em quê?--Amigos, bem conheço Que pode ser fatal este misterio vivo! Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo... --Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro: Não procederam bem.
SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:
Porquê?
JOÃO em tom leviano:
O embusteiro Apenas retribue a prova de amizade Gastando em seu proveito o que é da sociedade.
SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda mais severo:
Já não te quero ouvir nem mais uma palavra! No teu peito leal um sentimento lavra Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo. Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!
ELEAZAR conciliador:
Então!
MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do _Leproso_:
Menos calor!
JOÃO repêso, meigo, supplicante:
Oh! cala-te, por Deus! Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano... Proveio o que me ouviste apenas de um engano... Simão Pedra, desculpa!
Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão Pedra, aguardando o desenlace.
SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:
Eu sei que és razoavel. Já tinha como certa a confissão louvavel, Que logo surgiria á simples ameaça...
JOÃO abraçando-o effusivamente:
Devemos collocar ao longe o que a desgraça Procura intrometter no nosso coração!
MATHEUS
O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão, Mas tens dentro do peito os risos da bonança!
SIMÃO PEDRA
Não voltes a magoal-o.
JOÃO
Hei de mudar, descansa.
Encaminha-se para casa, mas
SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se passára:
E fala-lhe, João: não vês como ficou?
JOÃO com bonhomía:
Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!
JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:
Eu vou.
Mas fica, e só os quatro entram para casa.
Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos; apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo.
JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:
Porque motivo, ó Deus, esta injustiça? Desegualdade sem razão, medonha! Uma alma pura, virginal, submissa; Outra, vertendo em lagrimas peçonha! --Ah! fatal e profundo sentimento, Que tens do abismo a attracção e o horror! És para mim dulcissimo tormento, E sendo um grande amor... não és amor! Um desejo voraz, ardente, furia, Que a força da vontade não arranca! Tem sonhos de volupia, de luxuria, Com as palpitações da carne branca! Transforma o ideal em verdadeiro E a minha alma timida conduz A seductor e vago paradeiro, Onde eu estreito um cólo e uns braços nús! Não morrerás? não has de ter um fim, Ó tenebrosa e infernal tortura, Que pareces viver dentro de mim A construir a minha sepultura? --Quem te ordena que leves a maldade A fazer-me avançar para o impossivel? Porque segrédas tu que a castidade Nem sempre pode ser irresistivel Ás seducções frenéticas do amor? E porque vens mostrar-me, sensual, Certa nudez, e em todo o seu fulgor Um monte de oiro junto d'um punhal? --Como és infame! Sim! Com violencia Levas minh'alma fraca aos empurrões. E, como a Daniel, a Consciencia Queres deitar á cova dos leões! --Oh! nunca! Podes crêr que te resisto! Hei de salvar minh'alma moribunda, Arrancar-te de mim, e, depois d'isto, Escarrar-te no corpo, besta immunda!
E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do interior da casa.
Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e espera que encha.
Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.
Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que se dirige para casa, onde entra a passos lentos.
A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos. Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a porta.
Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida...
Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que esse vulto é Benjamim.
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE _NISAN_
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE _NISAN_
Estamos em casa de Simão de Bethania.
A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação para o interior.
Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial, onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela; pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria, pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a influencia do triclinio nos costumes da Judéa.
A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.
No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o _Leproso_. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços de pão levedo em frente de cada commensal.
Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento as Sagradas Escripturas.
João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,--medita e lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam Judas.
MATHEUS
De ha muito que não como, e sem lisonja o digo, Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo! Não achas?
SIMÃO PEDRA
Fabricado em casa do Simão...
SIMÃO
Obrigado. Outro copo?
SIMÃO PEDRA
O vinho é de Ascalão. Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.
SIMÃO
Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma Para onde vão toneis sobre toneis!
MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois d'aspirar o bom perfume:
Pudera! O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.
SIMÃO apresentando outra infusa:
Temos agora aqui magnifica cerveja.
SIMÃO PEDRA
De cevada?
SIMÃO
Não é.
MATHEUS
De peros?
SIMÃO
De cereja Cultivada em Ramá.
Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez em silencio e com recolhimento.
SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:
Olhae como é profundo Este segredo!
MATHEUS
Qual?
SIMÃO PEDRA
Por um processo immundo, Pela fermentação, consegue-se tirar Da materia um licor tão grato ao paladar.
JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que continúa lendo:
Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. Ha certas podridões que geram peçonhenta Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. Entrando pela vista, é digirida na alma! E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila Provem d'esse veneno horrivel que distila Muito perto de mim com lugubre misterio. Inutil procurar um doce refrigerio, Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!
Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros pensamentos.
Judas voltou á leitura sempre silencioso.
SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:
Nunca ouvi tal falar da bôca do João.
SIMÃO PEDRA tristemente:
E o caso é que tambem começo a achar razão A tudo que elle diz.
Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.
MATHEUS
O Judas, francamente, No que hontem se passou, deu prova de demente, Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!
SIMÃO
Hontem?
MATHEUS
Á noite.
SIMÃO
O quê? Dizei-me, por favor. Não sei do que falaes.
MATHEUS
Passou-se tudo aqui. Durante a ceia. Não ouviste?
SIMÃO
Não; sahi, Mas foi por pouco tempo.
SIMÃO PEDRA muito confidencial:
Então eis o motivo... --Durante toda a noite esteve pensativo E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa Com palavras banaes e frias. Tão submersa Tinha em meditações a alma, que ninguem Deixou de perceber...
SIMÃO
Percebi eu tambem Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto A fiel expressão d'um intimo desgosto.
SIMÃO PEDRA
Maria, aquella honesta e bôa rapariga, Desejando seguir a usança muito antiga No povo do Senhor, a de render um preito De sincera amizade e natural respeito Ao viajante illustre a quem se dá guarida, Abeirou-se da mesa, e, muito commovida, Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento De nardo puro. Então, infame sentimento De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro E alegre como nós, aquelle companheiro Reputado fiel, só tem uma censura Para galardoar a prova de ternura: --«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo, Saberia guardar tambem zelosamente A importancia da venda a todos pertencente, Entregando-a depois em meu e vosso nome Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»
SIMÃO como assombrado:
Mas isso foi um insulto! E o mestre?
SIMÃO PEDRA
Respondeu Brandamente, como é velho costume seu.
SIMÃO
Nem siquer suspeitaes a causa?
MATHEUS
Tarde ou cedo, Alguem desvendará por certo este segredo.
E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando, encaminhando-se por fim para mais distante.