Judas: Romance lirico em quatro jornadas

Chapter 1

Chapter 13,612 wordsPublic domain

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JUDAS

DO MESMO AUCTOR

Theatro:

_A Flôr dos Trigaes_, comedia original em um acto, em verso--Theatro de D. Maria II.

_Aspasia_, drama original em quatro actos--Idem.

_Samuel_, idem--Idem.

_A Tesoura_, monologo--Idem.

_A Charada_, sainete original--Theatro do Gymnasio.

_Casados-Solteiros_, comedia original em tres actos--Idem.

_O Vicio_, peça original em cinco actos--Theatro do Principe Real.

Em livro--Edições esgotadas:

_Religião do Amor_, versos.

_O Padre_, romance intimo.

_A Pança_, contos.

_A Lei da Exauctoração Militar_, poemeto.

_Cyrilleida_, analyse de uma critica á «Velhice do Padre Eterno.»

_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia.

A entrar no prélo:

_O Rabbi da Galiléa_--(Vida de Jesus)--Romance.

_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia--2.ª edição.

Em preparação:

_Consciencia Libertada_--Evangelho do Futuro.

_Lendas de Israel._

Augusto de Lacerda

JUDAS

ROMANCE LIRICO

EM

_QUATRO JORNADAS_

LISBOA

Antiga Casa Bertrand--JOSÉ BASTOS

_73, Rua Garrett, 75_

1901

_Exemplar n.º_ 461

Todos os direitos d'este livro são propriedade exclusiva e reservada do seu auctor.

Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro

_Il n'y a guère de détails certains en histoire; les détails cependant ont toujours quelque signification. Le talent de l'historien consiste à faire un ensemble vrai avec des traits qui ne sont vrais qu'à demi._

Ernest Renan--Vie de Jésus

PRIMEIRA JORNADA

EM 8 DE NISAN

PRIMEIRA JORNADA

EM 8 DE NISAN

A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a casa de Simão, o _Leproso_. Tem esta a forma tipica de uma piramide rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos canteiros roseiras de Jerichó.

Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.

A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...

Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao descanso e á meditação.

Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras, de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um bando de pombas brancas.

Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e patriarchas.

Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.

A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:--é ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda, Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor. Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: _Jehovat_. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.

Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.

Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.

GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:

Eleazar, meu caro, honrado ebionita, Recebe de um amigo a cordeal visita.

ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos, franzino e melancólico.

És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja Teus passos dirigiu assim, para que eu veja Á porta do modesto e humilde lavrador Aquelle que possue o nome de doutor Notavel e profundo?

GAMALIEL

É pobre a moradia, Amigo?--Não encerra a vil hypocrisia, Ornamento dos maus e da nefanda casta, Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.

ELEAZAR

É que a virtude leva ás almas refrigerio Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio; Pranto suave, meigo e virginal e ardente, Que uma estrella chorou silenciosamente...

GAMALIEL

É que a bondade espalha a sua luz divina E pura, como o Sol que a todos illumina...

E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se conservou:

O que tenho a dizer-te é coisa de segredo. Escuta-me portanto aqui.

ELEAZAR

Porquê? Tens medo De que minhas irmãs...?

GAMALIEL

O assumpto é muito grave, E receio que a dôr ainda mais se crave Nas almas feminis do que na tua.

Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de casa, accode logo ao secreto chamamento.

Amigo, Uma nova cruel:--o Mestre...

ELEAZAR, estremecendo

Algum perigo É imminente?

GAMALIEL

Aquella estupida gentalha Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha Prepara com misterio o plano vingador, E está na posição terrivel do condôr, Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora, Em casa de Kaiapha...--É sabbado hoje? Embora! --... O Conselho procura, extravasando o fel, Garantir-se o poder no povo d'Israel.

ELEAZAR

Prendendo o Mestre?

GAMALIEL

Sim! Razões tem para tudo O seu pensar feroz, indómito e agúdo! Amor divino? Qual! Apenas o receio De perder o logar no execravel meio: D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma, E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!

N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e que se expande, emfim, n'uma invocação:

A Virgem de Sião suspira ha muito já!... --Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat! Que é feito do vigor da tua fala, Isaías? E das lamentações sinceras, Jeremías? Profeta Ezequiel, a tua voz potente Jámais ribombará por todo o Oriente, Fazendo estremecer o despota cezareo, Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario, Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma, Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!

ELEAZAR, com o olhar vago:

Vergonha! opprobrio!...

GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo civico:

Ai! desde que um idumeu Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu, E nos hombros depoz o manto purpurino... Maldito! que deixaste um rasto viperino, Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo, O teu nome recorda o luto e um acervo De horrores!--Certo dia, ousaste no portal Da casa do Senhor dar poiso á _immortal_ Aguia romana!...--Vil, nascido de idumeus, O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus! ... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia! --Do nome do tiranno o filho honra a memoria. Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta... Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?... --Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros; Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros, Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia! E ao passo que na morte o hebreu se contorcia, E filhas e mulher's davam á luz o pranto, O incendio voraz lavrava o Logar Santo! --Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga, Revolvendo o punhal na apodrecida chaga! Seja procurador Coponio, ou seja Marco, Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco Onde vivem, senís, as rãs do servilismo... É provincia romana; e viva o cezarismo!

E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando, convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.

ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:

Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor, D'esta funda apathía e d'este grande horror! Judéa, serás livre! Elias não morreu, Porque revive n'um que tem o verbo seu, E elle ha de trazer a guerra e o exterminio! Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!... Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia! O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a Sem minimo temor da colera dos ceus!

GAMALIEL, n'um clarão de esperança:

Já temos o preciso: um _Homem_!

MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:

Não!--Um _Deus_!

Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma.

É bello o teu falar, mas como de cegueira Pelo amor patrio estás vencido! De maneira Que apenas bastaria um pulso valoroso Para despedaçar o monstro ambicioso De fausto e de poder que se revolve além, N'aquella babylonia? Então, Jerusalem, Movida por um braço, embora resoluto, Poderia colher o ambicionado fructo Da plena liberdade em meio da revolta? --Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta! A Judéa prefére a honra em mil pedaços, Cheia de timidez, crusando inerme os braços, Inhabil para a lucta e com horror á morte... A tribu de Levy, aquella cujo porte, Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria Coragem ao vencido e alguma simpathia Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo. --Onde encontraste, irmão, o excitante novo, Que possa dar alento a quem succumbe exangue, Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?

GAMALIEL

Ha sempre em casos taes...

ELEAZAR a força d'um athleta!

MARIA

Tem muito mais poder o verbo d'um profeta! Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição Das coisas divinaes a toda a multidão, Que se contorce afflicta em negro paroxismo, Descrente de Moysés, propensa ao paganismo. Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra, Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra, Pesada, como o arado á terra bemfasejo, Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!

GAMALIEL

E quem te diz que não? Eu julgo indifferente Que tenhamos no Mestre aquelle descendente Do nome de David ao mundo promettido Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido. Porque bem vejo a força enorme, o poderío Que exerce na cidade. É mais que prestadío Á Patria um homem tal!

ELEAZAR

A sua mão convulsa, Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa Para longe do sitio ás preces consagrado...

MARIA

E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!... --Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes E que mercadejava as graças corporaes; Ascende até o amor aos pobres, ás creanças, Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...

ELEAZAR

Quando, porem, troveja irado, mais parece Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!

MARIA Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...

ELEAZAR

Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...

GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que foi sentar-se junto da fonte:

Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso, E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.

ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez opprime no intimo:

O Mestre não virá. Alegra-me a certeza De que foge ao Conselho a ambicionada preza. Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros Ainda não chegou nem um dos companheiros Do Mestre.

GAMALIEL

Vae o Sol no termo da viagem: Torno para a cidade.

E novamente em segredo:

Eleazar, coragem! No teu silencio tens a minha vida e a tua.

ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:

Se te constar, porem, que o plano continúa E mais se desenvolve...

GAMALIEL Hei de dizer-te, amigo.

ELEAZAR, saúdando-o:

Que não te fuja Deus!

GAMALIEL, saúdando-o:

Fique o Senhor comtigo!

Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão no solo poeirento.

ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos proprios pensamentos:

Ninguem pode roubal-o á proxima agonía. Morrerá na cidade. A horrivel profecia Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte... Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!

Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.

MARTHA

No que pensa o meu irmão?

ELEAZAR

Em nada penso.

MARTHA

Duvido. Ha n'esse olhar definido Vislumbre d'inquietação.

SIMÃO

Se tu pensas na lavoura, Fazes mal, que o dia de hoje, Emquanto o Sol não nos foge, Prohibe que, scismadora, A mente se occupe assim De coisas que não respeitam A Deus.

MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:

Aquelles que engeitam O pensar, mesmo o ruim, São como as ondas brutaes, Que lançam á rocha dura A espuma de cuja alvura Ellas são as mães e os paes...

SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:

Sempre has de ser renitente Em respeitar a doutrina De Moysés!

MARIA, com amargo sorriso:

O que ella ensina É por vezes incoherente. De ouvil-a já estou cançada, E nem assim me convence.

MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:

Não falas?

SIMÃO

Deixa-o! Que pense, Uma vez que isso lhe agrada!

ELEAZAR

Mas como sois curiosos Do que se passa por fóra De vossas almas!

MARTHA

Agora Vem discursos lamentosos, Recriminações, aposto! Grande mau!

ELEAZAR sorrindo contrafeito:

Grande creança!

MARTHA picada no seu amor proprio:

Não te inspiro confiança?

ELEAZAR condescendente:

Inspiras, sim.

MARTHA

Pois não gosto De segredos--Que tristeza!... Não percebo! Porque, em summa, Não vejo razão nenhuma Para tal! Não ha riqueza? A nossa vida, porem, É feliz; a privação Nunca nos veio affligir, Nem ameaça o porvir, Não é verdade? Simão, Este bom velho leal, Que tanto e tanto nos ama, Dá-nos meza, casa, cama, E conselho paternal; Tu retribues a amizade, Auxiliando-o na vida. Achámos uma guarida Nas trevas da orfandade: Temos familia! Por isso Para nós a vida é clara Assim como a luz. A seara É verdadeiro macisso De pão; agua na fonte; Lenha nas faldas do monte... Nada vejo, d'importancia, Que não tenhamos. Então, Quero saber o motivo Por que estás tão pensativo...

E rindo muito:

E com cara de chorão!

ELEAZAR

E tenho de que sorrir?

MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse:

Quem pensa é como quem sonha... E como a vida é risonha, Quando se pode dormir!...

ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:

A minha alma atribulada Profundo misterio aninha... Sê caridosa, irmãsinha, Não me perguntes mais nada!

MARTHA afastando-se logo com muito despeito:

Ai! não pergunto!

SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois:

Uma idéa, Que talvez seja bem dita: Vou fazer uma visita Ao José d'Arimathéa. Vem commigo. Pode ser Que tenhas n'este passeio O prompto e seguro meio Da tristeza espairecer.

ELEAZAR

Dizes bem.

SIMÃO

Acceitas?

ELEAZAR

Sim.

SIMÃO

Afinal é sempre o velho Quem dá o melhor conselho!

ELEAZAR ás irmãs:

Adeus!

E beijando Martha, que o evita d'arremeço:

Tu foges de mim? Não vens beijar-me, teimosa! É então uma vingança?

MARTHA, deixando explodir o seu despeito:

São arrufos... de _creança_!

ELEAZAR beijando-a á viva força:

São os espinhos da rosa!

Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio.

MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois, appreensiva, com vago receio:

Nunca o vi assim como hoje...

MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse:

«Espairecer»... Puro engano! O pensamento não sae... É como a sombra que vae Correndo atraz de quem foge...

MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais proximo d'uma cotovia.

Como o tempo está formoso E se prepara, amoroso, Para a Paschoa d'este anno!

N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira da fonte. Um beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha.

Achamos isto um encanto! Como elles acham, porem, Que tudo é feio.

MARIA

Elles, quem?

MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido erguido para o olhar da irmã:

Os Dose, que gostam tanto De dizer mal de Judá. A Galiléa! Não ha Para elles outro mundo! Têem sincera affeição, Tributam amor profundo Ao paiz de Salomão!

MARIA desculpando-os:

A sua terra natal... --Todos dizem que em verdade É um paiz ideal A Galilêa.

MARTHA

Quem ha de Duvidar, se elle inspirou Os galanteios doirados D'aquelles apaixonados... --Como elles, ninguem amou!

Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.

«É formoso o meu amante, Formoso como nenhum, E como o cédro elegante... É formoso o meu amante, Formoso como nenhum...

«São de perfumes e odores Suas faces purpurinas, Dois ramalhetes de flores... E suas mãos dois primores Das pedrarias mais finas.

«O seu corpo deslumbrante Do marfim o brilho tem... --Eu aqui... Elle distante... Onde está o meu amante, Filhas de Jerusalem?»

Olhando de fito para a irmã:

Esta idéa é mesmo linda!

MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae deslisando:

Amôres...

MARTHA

Muito falados! Olha que outros bem-amados Como estes não houve ainda! E quando elle se transporta, Descrevendo a sua amante? Não pode ser mais galante! Queres ouvir?

MARIA

Que m'importa!...

MARTHA

«És formosa entre as formosas! Como tu não ha nenhuma! Tens no rosto duas rosas... És formosa entre as formosas! Como tu não ha nenhuma!

«Duas pombas tens no olhar Onde transluz a bondade. Os teus cabellos sem par Fazem-me sempre lembrar As cabrinhas de Galaad...

«Tua bocca é tão fagueira! Quando sorrís com ternura, Julgo vêr n'uma ribeira, Unidinhas em fileira, Ovelhas de casta alvura!

«Oh! que suaves martirios Em tuas caricias francas! São teus seios--que delirios! --Como duas corças brancas A pastarem entre os lirios!»

Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da liteira; sem ser presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua escrava e confidente Geda.

Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente, avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.

Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de Tiberio, illustre messallina--_lassata, sed non satiata_. A tunica azul celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica do perfil das medalhas de Agrippina.

CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má nota da velha Roma:

Muito bem!

Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio, dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta detem-se.

Que formosa poesia Cheia de amor e de melancolia! Ha quem diga no Lácio Que é impossivel encontrar primores Que não sejam de Ovidio nos «Amores» Nos «Epodos» de Horacio... --É que ninguem conhece quanto val' A doce poesia oriental! --Isso é de Salomão?

MARTHA muito a mêdo:

Senhora...

CLAUDIA

Pois eu sou tão lisongeira, Para ouvir-te apeei-me da liteira... E foges?--A razão?

E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:

Tambem me odeias, tu, gentil creança? --Quando ha de fazer-se uma alliança Entre Roma e Judéa? Ganhariamos todos, com certeza: Nós, simpathia; vós, delicadeza. Darei a Poncio a idéa.

Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos e os punhos cerrados:

Conheces-me tambem?

MARIA por entre dentes:

Perfeitamente.

CLAUDIA

Se não me engano, a tua alma sente Por mim o mesmo affecto... Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada Com Poncio, devo estar acorrentada A um odio tão directo?

MARIA fitando-a resoluta, mas serena:

É que tu desconheces o rancor Que tem toda a Judéa ao vencedor! Fossem mil as nações Caídas sobre nós! Odio profundo Teriamos então a todo o mundo E ás suas gerações! --Ninguem pediu que ouvisses o falar Da minha irmã. De mais, vindo escutar Fizeste muito mal... És Claudia; quer dizer: alguma coisa Que nos merece tédio, e que repoisa Sobre um vil pedestal Todo feito de lama e impudicicia! Justamente porque és uma patricia Deves ter o criterio De não brincar co'as cinzas ainda quentes, Porque nós detestamos intendentes E amantes de Tiberio!

Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a irmã.

CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo derretido: