José Estevão

Chapter 7

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Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, já não encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presença dos representantes da nação, que «não estava disposto em nome de palavras, em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a coalisões sem necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido forte e robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»[24].

[24] _Discursos_, pag. 309.

Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado povo portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a fazenda; do que se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas, restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza constituiu-se para nós, como para muitos outros povos, o primeiro elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não desconhecendo a situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse explendido crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupção dos homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro, deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto de magistrado pela blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas não mudou nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo, inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e attitudes foi identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente», disse, «a geração que inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os feitos e para os homens d'esse tempo começára já a posteridade. Á pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa geração resgatar o tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que lhe abrandassem a severidade dos vindouros»[25]. E elle vinha pagar o seu tributo á redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás illusões. Tambem caíra em falta; justo era portanto que partilhasse tambem da penitencia.

[25] Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 149.

No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do problema economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o grande pensamento d'aquelle seculo»[26]. E dezoito annos mais tarde, em 1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por diversos modos estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes mais activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe em suas naturaes faculdades»[27].

[26] _Discursos_, pag. 43.

[27] _Discursos_, pag. 319.

Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do governo, pois quanto existia na administração publica para promover as industrias ou abrir communicações era por tal modo desmaselado, rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e entregues á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a esforços inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de Lisboa ao Porto é a maior medida que se podia tomar para imprimir nova vida a esta nação... é o primeiro manifesto de adhesão á moderna economia das nações»[28].

[28] Artigo publicado na _Revolução de Setembro_ de 2 de setembro de 1852. Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 123.

Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não tinha duvida. O passado e o presente não se contradiziam, completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da administração e da politica nacional,--não era outra cousa a regeneração; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de quem sem reservas e constantemente consagrára á sua patria todo o coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na carta que dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de 1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não busqueis por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no exilio o pão estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem ingenuo e um cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das suas convicções profundamente democraticas, chega com as suas sympathias a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta respeitosa affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias e a dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»[29].

[29] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 125.

Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação das obras alheias e um exame de consciencia _coram populo_, a justificação do seu passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que n'ella influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de superior importancia para elucidação da sua vida:

«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras, torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes nossa, uma pelo direito do berço, outra pelo direito do resgate, conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade. Foi-se o legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se amparára, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As instituições teem entre nós resistido por longo tempo á acção desregrada dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as prisões, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de maior provação esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande admoestação para os partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem poder, tambem teem vida, e são chamados a contas. É no interior dos seus archivos, e não sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das prosperidades dos povos. Acabou-se já um reinado depois do systema constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, não o foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos pelos acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens, imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso seculo? Démos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar? Levantámos cada classe á altura a que ella podia subir? Honrámos a geração a que pertencemos, a nação que nos deu o nome? Responda cada um a si, responda á sua consciencia que é o mesmo que responder a Deus. E seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo leal e resoluto»[30].

[30] Artigo publicado no _Campeão do Vouga_ em 17 de novembro de 1853.

A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada amargura; em cada passo no caminho da aspiração o assaltam e torturam desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração uma empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida, deshonesta não era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos homens, á satisfação de muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão indispensavel para que se mantivessem quietas e não fossem impedimento á realisação de mais altos destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de se usar a corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á corrupção.

Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma voz intima o tranquillisava:

«Folheio os fastos parlamentares, ás vezes sem intuito, ás vezes com o intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma questiuncula, de saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas que não traga de lá a mais intima, a maior satisfação que póde trazer um homem probo e um homem de consciencia; acho a minha coherencia, toco-a, encontro-a, sae-me a cada pagina de cada livro; e eu, tendo uma fraca memoria de todos os meus actos, respondo pela logica d'elles, porque confio no meu caracter e na minha consciencia»[31].

[31] _Discursos_, pag. 189.

«Antes da dissolução da camara era equivocamente regenerador. Mas, depois da dissolução, depois que achei no governo caracter politico, entidade politica, tenção politica, plano politico, coragem e decisão de iniciativa, decidi-me e fui regenerador até que a regeneração acabou, porque hoje essa denominação de regeneração e não de regeneradores, tudo isso até certo ponto póde servir para fins mas não diz nada»[32].

[32] _Discursos_, pag. 274.

Aproximava-se aquella terrivel «conformidade excessiva com os acontecimentos» que M.me de Stael promettera e fôra como uma pesada maldição. Imaginára José Estevão uma transformação politica sem perda do caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterição ou quebra da elevação moral, a riqueza aureolada de nobreza e isenta de toda a mancha de degradação em sordidez; e o que a situação lhe offerecia era a dissolução do caracter em proveito de fatalissimas baixezas, que iam a tornar-se invasoras e absorventes.

Não era isso que elle sonhára e esperára, porque muito nobremente considerava que «os partidos teem tanta difficuldade em viver como em envelhecer, mas o envelhecer é uma cousa que custa muito para se fazer com dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condição, mas envelheça com amor ás suas ideias, com amor ás suas tradições e aos seus principios»[33]. Comprehenderia a necessidade da transformação que o correr dos annos importava, foi a isso de certo que elle chamou o envelhecer e declinar; repugnava-lhe porém a apostasia, e contra ella protestava.

[33] _Discursos_, pag. 275.

Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido, juntando-se e atraiçoando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade á causa publica por cobiças deprimentes e a devoção generosa, isenta e nobre aos interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da virtude dos partidos e confiando ainda no civismo e na rectidão onde quer que habitassem, afastado da vileza dos bandos mas crendo, incorregivel, na pureza de consciencias d'eleição, invocava a união e esforço dos homens de boa vontade para salvação da patria. E na _Carta aos eleitores_, de 15 d'abril de 1861[34], deixou-nos esboçado este seu ultimo sonho.

[34] Vid. Jacintho Augusto de Freitas Oliveira, _José Estevão_. Lisboa, 1863. Pag. 349.

«Para o futuro», dizia, «pertencerei de certo ao partido, que começa a formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal, que nos inspira sem nós o sentirmos, e que mesmo do berço dirige as coisas publicas e domina até os homens da mais forte vontade. Este partido será um producto de todos os partidos que ora existem; ainda com um nome politico mas sem substancia doutrinal, producto alcançado, não pelo concerto de individualidades, de coalisões ephemeras, de parcerias ambiciosas, mas pela trituração da opinião publica, pela acção da consciencia universal, pela solibilidade das pequenas paixões e das importancias artificiaes no grande e irresistivel sentimento nacional, que transforma tudo quanto lhe convém assemelhar, e destróe todas as heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe não servem. Este partido não se parecerá em caracter com nenhum dos partidos existentes, nem se filiará nas glorias de nenhum d'elles, nem será um engenho politico incapaz d'acção propria e embargante da acção dos outros, em seu gremio ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas todos os que se não curvam ás suas idolatrias. Este partido será a ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra dos homens ou a sua creação podésse ser contrariada por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situação.»

De desengano em desengano, chegára á condemnação do partidarismo e á sua expropriação por utilidade publica. Outra cousa não era esse derradeiro sonho d'um partido totalmente expurgado das doenças que os caracterisam, a todos, e apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A grandeza da aspiração obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o que sómente dentro do seu peito existia.

Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a visão liberal se dissolvia, tinha morrido.

Se vivesse, assistiria, não «á ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas», mas á desagregação da grande maioria das capacidades, determinada pela satisfação da miseria politica em todos os seus modos. Como o grande capitão da India, «mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor do rei», José Estevão, incapaz de abdicar dos principios e aspirações que o exaltavam no anceio d'uma era politica de bemaventurança, e simultaneamente comprehendendo a necessidade, por condição humana e imposição da realidade, de tolerar e conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixões que lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria amargamente os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, não podendo conciliar o que é de sua natureza irreconciliavel, mal com as illusões, rainhas do seu coração, por causa do mundo que ellas haviam de regenerar e não regeneravam, e mal com o mundo, por causa das illusões cujo imperio elle havia de respeitar e incessantemente desacatava, proseguiria na fé dos apostolos e na tristeza dos vencidos.

Naufragio algum o curaria d'illusões. Haviam de renascer, e era justo que renascessem. Embora não lhes assistisse aos ultimos triumphos, assegurava-lh'os a crença e a justiça. Das que o possuiram, nascidas n'um rubor d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de crepusculo, ficaria na terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas, essas illusões da epopeia liberal, que, embora se dissipassem quasi estereis para as garantias da liberdade individual e para o reconhecimento das liberdades publicas, conduziram ao cumprimento de tão altos deveres de humanidade, como a abolição da pena de morte, e ao fortalecimento de tão solidas bases democraticas, como a abolição dos morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente protegido pelo systema de successão e partilha adoptado pelo codigo civil. Não foi baldado o heroismo dos que por ellas combateram.

IV

Em 1840, o oraculo mysterioso da ordem, invocado por José Estevão e interrogado sobre o numero de partidos que havia na camara dos deputados, respondeu: «No paiz ha dois partidos e duas facções, e n'esta camara um partido e uns poucos d'illudidos[35]».

[35] _Discursos_, pag. 88.

Quem tão solemnemente lhe ouvia os segredos, estaria entre o numero dos illudidos, por decreto dos avisados e prudentes que combatia, senão até pelo reconhecimento intimo, esclarecido em repetidos desenganos. E, todavia, esse filho da illusão que como ella deveria ser innocente e ephemero, o cavalleiro phantasma que com suas correrias impetuosas surgia em meio de todas as pelejas e deveria confundir-se e afugentar-se facilmente na supposta inconsistencia do seu ser, voltava sempre, atraiçoando-a e negando-a de continuo, terrivel e audaz, renascido das tenues sombras em que o julgavamos dissipado, para semeiar o terror entre os fortes e os grandes, verdadeiros potentados da terra. Tremiam dos seus vaticinios e anathemas os que mais seguros se reputavam; e os mais frios e incredulos erguiam-se da prostração e desanimo, despertando pela harmonia d'aquella voz divina. O illudido, que pela fatalidade da sua natureza viéra ao mundo condemnado á derrota, era a cada passo o vencedor, exaltado pelo clamor das multidões, derrubando na passagem muita grandeza falsa, desfazendo idolos e reduzindo a pó mentirosas virtudes que pretendiam cobrir-se com os trajos da dignidade.

Singular poder! Sendo tamanho, profundamente temido dos que flagellava e ardentemente adorado dos que protegia, é na sua constituição d'uma tão homogenea espontaneidade, d'uma ingenuidade tão constante e perfeita, que quasi escapa á analyse e se torna impossivel decompol-o e observal-o nos seus elementos.

Não póde sem impropriedade ou violencia applicar-se a palavra arte á eloquencia de José Estevão. Arte oratoria, esta disposição reflectida e determinada dos pensamentos e a escolha meticulosa de termos que os exprimam, tendo em attenção o effeito que hão-de produzir sobre o ouvinte e amoldando-se para esse fim a caracteres e tendencias psychologicas, previamente estudados e astuciosamente explorados, o calculo da impressão,--essa arte não a teve José Estevão. De todo a desconheceu.

A sua palavra corre como correm os rios, rebentando onde um impulso natural os fez rebentar, sem nada cuidarem dos obstaculos ou inclinações propicias que os esperam, escavando aqui e amontoando acolá, ora derrubando e destruindo, ora fertilisando e fazendo crescer, resultando de tudo afinal belleza e explendor, dos destroços e ruinas como das creações magnificas. Logica, gradação d'argumentos por sua progressiva intensidade, crescendos de força arranjados com sabedoria, o caminhar a uma méta que nunca se perde de vista e para a qual nós dirigimos os passos, regulando-os e guardando-lhes toda a viveza e celeridade para o derradeiro lanço decisivo, a famosa arte de persuadir, levada ao fastigio em remotas eras por talentos assignalados com justiça nos annaes da humanidade,--isso é cousa que em vão se procurará nos discursos de José Estevão. Muitos d'elles e dos mais celebres podiam baralhar-se, trocando o fim pelo principio e o meio pelos extremos, e ficariam igualmente bellos, sem perderem um atomo da energia d'acção sobre o nosso espirito. Examinando-os, teremos talvez de concluir que esse homem que tantas vezes persuadia e sempre subjugava, não fallou para persuadir nem para subjugar, mas apenas para dizer a verdade e por amor d'ella, para a dizer tal qual no seu entendimento e sobretudo no seu coração se revelava, por uma necessidade indomavel e intima, e não para no impulso prender ou esmagar os estranhos. Por vezes, poderemos convencer-nos com boas razões de que quem tão duramente castigou e tão nobremente enalteceu, nunca pensava em castigar ou enaltecer o quer que fosse, e apenas buscava dar satisfação a surdas e indistinctas exigencias da consciencia, que não lhe permittiam ficar quieto e calado. Se esse modo de ser redundou em uma arte sublime, não foi por seu querer, não foi porque o procurasse; e tudo quanto a critica poderá descobrir na observação e meditação das suas obras, será, não a sua arte, que a não teve, mas os caracteres e fundamentos da sua eloquencia, o que é differente.

Gabavam-lhe a imaginação. Era famosa. De facto, abundou no seu temperamento e sempre lhe assistia, nas cousas graves da vida e nas mais vulgares, no convivio quotidiano com os amigos e nos grandes lances da fortuna nacional.

Fallando de D. Fernando I, no parlamento, ia dizendo:--«Este rei fraco e versatil tinha uma filha formosa...». Corrige-lhe o erro Almeida Garrett.--«Não era formosa», diz-lhe n'um aparte. «Não seria», replica de prompto José Estevão. «Julguei que fosse contra as prerogativas da corôa chamar feias ás princezas[36]».

[36] _Discursos_, pag. 118.

O segundo discurso do Porto Pireu é uma torrente de imaginação, rebentando em borbotões, incessante, colorindo e animando toda a oração, e dando-lhe um relevo primoroso. A historia da _ordem_ e a enumeração dos que José Estevão ia vendo no Pireu, incidentemente, em diversos momentos do discurso, marcam até hoje o apogeu do explendor do parlamento portuguez, e não é facil conceber como nem quando será excedido, porque soffrem sem deslustre a aproximação das mais bellas paginas d'esse genero legadas por qualquer epoca ou civilisação.