Chapter 5
Monarchico e catholico, partidario e defensor de formas de constituição politica, religiosa e social que representam grave desigualdade e graus infinitos de hierarchia; por outro lado e ao mesmo tempo, empenhando-se, sempre apaixonado, em assegurar nas leis do estado os direitos populares, sobretudo aquelles que, conferindo ás classes trabalhadoras a independencia economica, mais solidamente lhe outorgam a unica base efficaz de soberania e igualdade--José Estevão parecerá, a quem quizér esboçar o systema das suas ideias, contradictorio ou fraco, sem coragem de levar ás ultimas consequencias os principios que professava, ou negando-os repetidas vezes pela acceitação de principios oppostos, em relações essenciaes da communidade politica. Contradicções e fraquezas d'esta natureza, se as tivesse, justifical-as-ia plenamente o seu tempo. Justificava-as uma epoca em que não era facil determinar o quinhão do passado e o das aspirações do futuro em toda a extensão da mentalidade humana. O passado não fôra arrazado totalmente, e, pelo contrario, ao fim de diversas tentativas e experiencias, mostrava-se indestructivel e vantajoso em muitos dos seus elementos, o que perturbava as energias reformadoras; e o futuro não lograva apresentar-se tão isento de sombra e duvida que fosse possivel conceder-lhe sem hesitação ou exame, de coração leve, quanto elle pedia.
Mas, para comprehendermos a attitude politica de José Estevão nos diversos aspectos que apresentou, não carecemos de recorrer á invocação do espirito de incerteza e fluctuação que a vitalidade e respeito das tradições, em conflicto com os impulsos revolucionarios, communicava á maioria das nações da Europa. Reflectindo, acharemos que a concepção politica de José Estevão era, na verdade, coordenada, sem atraiçoar a boa logica ou prejudicar o caracter, e muito menos sem os devaneios romanticos de radicalismos que a destituissem de efficacia e capacidade pratica. A historia encarregou-se de mostrar até que ponto a mais alta elevação do sentimento politico póde coexistir com um opportunismo attento e flexivel, mas no fundo incapaz de corromper-se, sejam quaes forem as transigencias a que o pendor e instancia do momento possa coagil-o. O desenvolvimento e victorias successivas e progressivas do socialismo moderno nas monarchias da Belgica, da Allemanha, da Inglaterra e d'outros paizes, confrontado com movimentos parallelos nas republicas, quer da Europa, quer da America, tem-nos dado e continua a dar-nos abundantes e elucidativos exemplos da possibilidade de coexistencia da realisação de radicalissimas aspirações sociaes com instituições politicas e religiosas obsoletas, muitas condemnadas, e quasi todas n'um declinar de popularidade que as ameaça de morte. A observação dos factos, já longa e variada, inclina antes á demonstração de que a emancipação politica e religiosa dos povos, a transferencia plena da soberania para os elementos activos das nações e a libertação de todo o dogmatismo, para serem duradouras, estaveis e beneficas em toda a extensão, necessitam de ser precedidas de constituição social adequada. O primeiro passo na conquista das liberdades democraticas será a conquista do pão, como um direito e não como uma esmola. Sem isso, a oppressão e a tyrannia jámais se afundam; e medram, ou sob mantos d'arminhos ou nas casas fortes do capitalismo republicano, ou se chamem _trust_ ou se intitulem czar. Quem sabe que desillusões não nos prepara a lucta terrivel do imperialismo e da democracia?! Quem póde assegurar-nos que um novo cesarismo não vae avassalar o mundo?!... Não se estará gerando um novo dragão d'esse consorcio infernal do capitalismo e dos armamentos monstruosos? E, se elle vencer, que doçura e supremo bom senso não coroará a memoria d'aquelles, como José Estevão, que por vezes nos teriam parecido hesitantes e timidos, sómente porque uma agudissima sensibilidade, revelando-lhe a justiça intima das cousas, os livrou de cair em extremos?!...
Paraphraseando o lema d'um agitador notavel da Inglaterra[11], que se insurgiu contra o egoismo industrial do seu paiz, talvez não nos affastassemos muito da verdade resumindo em tres palavras a concepção social e politica de José Estevão:--O altar, o throno e a choupana. Inspirado pelo deslumbramento da gloria do passado e pela sua força e opulencia, ao mesmo tempo exaltado por uma febre de justiça que não lhe deixava repouso emquanto não a visse triumphante, vibrando d'indignação perante toda a vilania, teria sonhado um estado de trabalhadores vigorosos, e sãos e dignos, na plenitude de bens do mundo e da consciencia, coroada a fortuna d'essas communidades felizes por um governo e por um culto resplendentes de magestade e nobreza. Porventura quereria que á elevação do sentimento correspondesse a grandeza das suas manifestações exteriores e a symbolisasse, na sumptuosidade e nos ritos, nos palacios, nas magistraturas e nos templos, satisfazendo necessidades indeclinaveis do coração humano.
[11] Oaslter.
De sua natureza mudaveis e sujeitas a infinitas contingencias, importam todavia muito pouco as concepções politicas, em face da sublimada inspiração moral que inflamou o genio de José Estevão e dominou todo o seu ser. «É mr. Lamartine,» disse elle, «um poeta que carpiu todas as miserias da humanidade, que exaltou todas as suas glorias, que excitou todos os seus melhores instinctos, que levantou a coragem dos povos, que acalmou as suas demasias, que suspendeu com a sua palavra todas as paixões revolucionarias da França; esse homem cuja composição moral e intellectual é no meu presentimento como o simulacro da fortuna politica e dos futuros governos da Europa...» Era assim que José Estevão, julgando pintar a physionomia alheia, traçava fielmente a propria imagem, e, honrando o nome estranho, entretecia a corôa de gloria que convém á sua propria fronte. Disse, felizmente, a sua eloquencia o que a nossa adoração seria incapaz de traduzir. N'essas curtas palavras, legou-nos um retrato precioso.
Procuremos agora observal-o com a pausa e carinho que um sentido culto exigem.
II
CARACTER E ARTE
CARACTER E ARTE
I
Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleição moral de José Estevão e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuação e fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo para as organisações nimiamente sensiveis e promptas em responder ao incitamento estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade invencivel, sentiu-as para lhes resistir e não para se lhes render. N'uma crise em que o principio da liberdade, traduzido na pratica ordinaria e nos costumes em relaxação e despejo, emancipando de toda a tutela rigorosa da antiga constituição social, religiosa, politica, moral e litteraria, facilmente induzia a uma indisciplina absoluta, obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixões, crimes e aberrações, em que a phantasia e não raro a vaidade precipitava a gente moça, mal precavida de experiencia e reflexão, é maravilha o poder de sacrificio e o esforço constante d'um homem para fazer prevalecer na sua terra o imperio da justiça.
A tentação era temerosa. Muitos, aliás de valor, lhe cederam, caindo em culpas e desgraças que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento lhes teria poupado. A crença romantica encontrava boas razões para toda a sorte de desordem. Não triumphava a liberdade? Para que constrangimentos? Era necessario perseguir até á anniquilação todos os despotismos, os canones da moral como os da egreja, o absolutismo estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem limites dos reis. Porque não poderia cada um abandonar-se sem peias nem reservas ás tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? Não seria até um erro contrarial-as? Não seria uma violação das leis naturaes e um aggravo á felicidade humana? Não era do concurso de todas as liberdades que havia de resultar a harmonia dos homens e o progresso das sociedades? No espirito de muitos dos seus hallucinados sectarios, a liberdade não significava a simples abolição de privilegios odiosos e instituições oppressivas, caducas e corrompidas, para as substituir por outras que conviessem a aspirações sociaes mais nobres e conformes com a dignidade humana; era o desregramento, a ausencia de preceito que interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as acções, um absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade de pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes e da familia, liberdade d'acção e até de inacção, de indifferença e cynismo, exaltações mysticas, egoismos abjectos e cobiças sordidas, para tudo isso encontraram explicação bastante as philosophias liberaes d'astuciosa commodidade. Aviltamento e nobreza eram pólos da esphera moral que iam a apagar-se; já ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma estranha e nunca vista concessão, as paixões sairam como doidas das prisões em que as continham encarceradas os espectros de deveres inexoraveis, e vinham expandir-se á luz do sol, ora em bem, ora em mal, e sempre impetuosamente.
A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice, e portentoso, deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo, brilhante, d'esse estado d'espirito que, se para muitos foi exaltação merecida, se para a humanidade foi uma crise de renovação e renascimento necessaria e fertil em beneficios, foi tambem para outros fonte amarissima de desenganos, de tristeza e desgraça, que tantas vezes se refugiou na morte, e por todas as nações da Europa determinou, invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com fortuna varia para os destinos dos povos.
Não ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a litteratura; nenhum os reflecte tão claramente e, talvez por isso, porque os expõe na mais transparente lucidez, é ao mesmo tempo effeito das correntes estabelecidas e causa da sua propagação, moderando ou accelerando, pela revelação plena do que encerram d'atraente ou de repulsivo, as tendencias de que andar impregnada. Nem a estatistica, com a seccura, desligação, insufficiencia e abstracção dos seus dados, nem a propria historia com as longas narrativas, em que o espirito e inclinações do historiador facil e ingenuamente favorecem ou prejudicam a reproducção exacta dos acontecimentos, supprem a litteratura na arte de guardar integra e perfeita a memoria do estado mental e tendencias sociaes de determinado momento, collocando-nos em contacto directo com os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos em movimento e acção. Ora a litteratura romantica que José Estevão respirou nos melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu coração, a litteratura romantica, na sua constituição moral, distinguiu-se pela adoração de duas divindades, que serviu com ardor e brilho incomparavel:--a felicidade do homem e a natureza. Dos tormentos e miserias geradas pelo absolutismo oppressivo de todas as actividades e impulsos que se afastassem dos seus mandados, veio-se, pela reacção natural dos organismos opprimidos e atrophiados, ao extremo opposto, passando-se do idealismo da uniformidade ao idealismo da liberdade sem limites, do abuso da regra á desinvoltura da dissolução; e, para que os homens se curassem de males e de futuro vivessem felizes, concluiu-se pela exigencia d'uma emancipação não menos absoluta do que a sujeição precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e imperio! Não constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mágoas e dôres se transformariam em alegrias e riso e força! E viu-se então uma expansão do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela fecundidade, pela grandeza, pelo arrojo da ambição e pela extensão dos horisontes, inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de miragens celestes. O homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligações d'um mundo decrepito e abominavel, amava livremente, pelas florestas virgens, pelos ermos e pelas ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas pela paixão e nos seus fachos gloriosamente consumidas; e os cavalleiros e os santos e os martyres surgiam, por milagre e em exercitos, das profundezas da terra, armados de coragem infatigavel e sedentos de sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu sangue e do seu peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe, não temendo convenções nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e auctoridade que não fosse a sua propria inspiração; e entraria nas espheras da mais alta beatitude. Não era assim em toda a natureza? Não viviam d'esse modo os animaes bravios e as plantas?!... E havia porventura felicidade que não possuissem, harmonia que não realisassem?!...
Uma antecipada promessa de perdão incitava ao desmando. A percepção da necessidade e eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as paixões e subordinando a natureza á consciencia, o que, na verdade, se manifestou desde o começo d'esse extraordinario movimento, era ainda frouxa e sobretudo vaga, incerta, ora tentando galvanisar concepções mortas e sentimentos corrompidos, ora modelando novos deuses sem consistencia, hoje nascidos e amanhã desfeitos em pó. E nas ondas incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem bussola almas nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos infernaes, com uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da embriaguez e do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspirações. Deveriam ter sido legião as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos errados e fataes que a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella que, de facto, e involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia como criminoso ou arriscado e indigno. E o perigo de tentação era tanto mais grave quanto era certo que, na atmosphera revolta do romantismo, o mundo mal acautelado contra a distincção de limites em que é licito moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos, prostrado d'assombro, semi-louco e em delirio d'admiração e imitação, via erguerem-se a alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem sabe? valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar á humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma é capaz de exaltar-se.
Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se, proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o coração, o pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.
Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja soberania a nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas palavras e pelo respeito que lhe votou, é decisiva e, em certo modo, quasi milagrosa. A sensibilidade de José Estevão e a riqueza das suas faculdades, até uma sensualidade manifesta[12], deveriam determinar um extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um enfraquecimento de vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de proposito e emprehendimento. A pujança do temperamento explicaria e desculparia hesitações e tibiezas, o abandono a impressões passageiras, traições frequentes á fé jurada em espirito ou em palavras, desvios e tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia inalteravel no combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.
[12] «Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do Porto, o batalhão academico, como todas as demais forças fieis, seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára comsigo um pequeno cordão de oiro, talvez uma recordação de familia; mas em Lobios desfez-se d'elle, não para occorrer a alguma das suas muitas necessidades de occasião, mas sim para satisfazer a sua gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar _gemas_. Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes _gemas_, basta dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então por 600 réis uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques Gomes, _José Estevão, Apontamentos para a sua biographia_. Porto; Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.
N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as ruinas do passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas germinava e só de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe de suspeitar as affirmações vigorosas e triumphos resplendentes com que no final do seculo XIX a renascença idealista seria coroada pelo estudo paciente da historia, pela penetração da estructura psychologica das sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela consequente creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos, deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras, e convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão, pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa resurreição de Lazaro, doente de descrença e perversão, das feridas de luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a revolução, José Estevão foi, na verdade, um precursor abençoado, alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sãas se fortalecem para superiores destinos.
II
«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão[13]. «Os heroes são excepções monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de vermos os seres da nossa especie exceder as condições ordinarias da nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa sempre cara. Os heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo: que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre, ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou lh'a deixa apontada á indignação publica para que os aborreçam.»
[13] Discurso sobre o apresamento da _Charles et George_.
O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina encarnação do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando, ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, «excepções da natureza», de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por «excederem as condições ordinarias da nossa existencia», affirmava, peremptoriamente e sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa sempre cara, e «os heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.» Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o vimos dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra da nação, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que instantemente nos aponta a sua sepultura, não para a aborrecermos mas para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regiões o genio o erguia e em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao deparar-lhe com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico e consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em homens d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos, passaria na terra agitada de paixões, sem que o heroismo o pervertesse, e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma sollicitação de baixeza jámais responderam.
Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias, ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, não ha senão tres soluções da crise moral, em que necessariamente tem de debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as aspirações e as tentações do mundo. Perante os conflictos eternos do bem e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas vê abertas:
--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples contemplação, passiva e paciente, por effeito da identificação com a alegria do universo, ou na acceitação da dôr, como inexoravel, e procurando então a salvação em si, descrendo da possibilidade de modificar a fatalidade e se lhe oppôr;
--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que só na dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e
--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de proceder e tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.
Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.