Chapter 2
É que um e outro foram dois excessos, dois exageros combatentes e por certo Jaime de Magalhães Lima, que tanto preza Carlyle, se apaixonou, conhecendo o primeiro, pela orientação alegorista do segundo, todo embebido na alma angelica de Platão, mas tambem muito tolhido pela estetica exangue do pintor Oeser. Porém,--di-lo a sua obra--soube achar o meio termo, como, especialmente no romance, pôs no seu logar Balzac e Vitor Hugo, e saudou a magnificencia de Flaubert sem deixar de amar a concisão espiritual de Tolstoi.
Tendo esta pujança moral e mental, não se iludiu com o cinismo brilhante de Eça, ora acrata ora aristocrata, nem se algemou na idealização, por vêses excessiva, de Julio Dinís, embora este seja o nosso verdadeiro e grande realista, o Maior dentro dos sentimentos nacionais.
A prova do que afirmamos assim está em qualquer dos romances de Jaime de Magalhães Lima.
_Na Paz do Senhor._ A analise póde, a espaços, ter demasias, hoje repelidas na morte plena do zolismo.
Não demasias de crueza moral, mas de pormenores que já o Eça detestava no fim da vida.
Mas é rigorosa, metódica, pura. O _meio_ emerge inteiro e real, nosso. Não é só o descritivo magistral e animado que o revela: são, principalmente, os carateres e o enrêdo.
O que não ha é o predominio pascóvio dos òtimismos á Pangloss (degeneração do romantismo), nem os pessimismos sádicos dos Gourmont (realismo triunfante). O meio é _real_, tem aspétos bons e maus, e a moralidade, deixando os sermões, aliás brilhantes, da _Cabana do Pai Tomás_, resulta lógica, sem vergonha de existir, sem medo de cair no ridiculo.
Tipos verdadeiros, excelentes: o Valadares, tão nosso, o Antonio Carvalhaes--que a Republica vai ter pela prôa nas proximas Constituintes--o Monteiro, o Mirandinha, o Frederico e o Prospero, este mais vulgar do que os criticos imaginam. Realidades puras: a D. Rosa, o Carlos de Macedo, o Duarte de Melo e a mulher, a Isabel e o seu Basilio--nada parecido com o lustroso mandrião do Eça. A abnegação do Frederico, principalmente, soberba de verdade. Não é um corruto, mas tambem não é um santo. Não é um genio, mas tambem não é um espirito mediocre. O seu sacrificio tem a nódoa dum egoismo, mas é humano dentro duma conciencia iluminada.
E no _Reino da Saudade_ e no _Sonho de Perfeição_, a mesma larga vida concècional, o mesmo espirito de religiosidade cristã, mas purissima, caratéres nitidos, descrições primorosas, noção profunda da vida agricola, da burguesia-esponja, do preconceito-pôlvo, da paixão-álcool.
Tudo assim, egual, perfeito, espontaneo, sem desmandos gritantes, sem covardias morais, sem claudicancias do inteléto. E eis o que sobeja para dar ao nosso romance um rumo seguro e radioso que na França, apezar dos romances-poêmas e dos romances-sociais da escola hodierna, espiritualista-positivista, ainda não foi traçado com gesto definitivo. Mas esse rumo, se o não querem ver, ha de impôr-se. Se o árabe diz a verdade, quando afirma _que os cães ladram, mas a caravana passa_, menos se iludirá quem vaticinar caminho seguro á caravana, só porque coaxam algumas rãs, chamando _desfastios_ aos _Contos do Natal_ de Candido de Figueiredo, ou a qualquer deliciosa revelação da arte verdadeiramente portuguêsa á qual Jaime de Magalhães Lima não dá só muito trabalho, como muito talento e muita conciencia.
* * * * *
É lógico que mentalidade tão robusta e sentimento tão sincero dêm um critico notavel. Tal o é Jaime de Magalhães Lima no livro e no jornal, e com o esplendor dum eminente e livre sociólogo, dum democrata livre, sincero, altissimo.
Neste ponto, a nosso ver, a sua obra-prima é aquêle livro, cheio de modestia e luz, d'amor e verdade, chamado _Servo e Menor S. Francisco d'Assis_. Bem sabemos que o critico se inculca como simples decalcador de Sabatier, como, de passagem, sabemos com estranheza que, lendo Macdonell, Howel, Lechwer, etc., se esqueceu de Prudenzano e da amoravel Pardo Bazan, nada despiciendos na psicologia admiravel do Patriarca mais republicano da Egreja.
Mas, em toda essa obra sadia e profunda, o seu espirito clarividente, por mais que o oculte, surde com evidencia gloriosa. A narrativa de honesto biógrafo denuncia a vida filosófica de quem a faz, e essa é por vêses muito mais afim do espirito imaculado do Santo, modelo de Democracia pura, do que o do proprio Sabatier, apezar de mentalidade prodigiosa.
Admiradores conhecidos de S. Francisco d'Assis são Guerra Junqueiro e todos os modernos poetas de alma. Um orador brilhante, coragem real no nosso _meio_, Leonardo Coimbra, rasgada democracia numa conciencia livre, terá dito, ou poderá dizer-nos ainda, muito da elevação cientifica que vive na espiritualidade do imortal revolucionario de Assis. Nenhum, porém como Jaime de Magalhães Lima fês, do espirito do Santo, o seu proprio espirito.
Nenhum, pois, quanto a nós, póde exceder o valor modelar da sua critica em assunto que é todo da sua alma, na crença convicta, no anceio intimo, no aperfeiçoamento progressivo da bondade, vida livre e fecunda da sua inteligencia e do seu coração.
Estudando Alexandre Herculano e José Estevão, Jaime de Magalhães Lima não pretende fazer estudos integrais. Colhe alguns aspétos, para ele predominantes, e, como _vê_ sem preconceitos e tem uma linguagem nobre, pura, original, deixa dois livros primorosos, perfeitos, completos.
Não tem, não póde ter, a dureza rigida de Gustavo Planche. Este, como dizia o justiçador de Balzac, Edmundo Werdet, era--egoista, de coração de aço, de torso do Antinous, de pernas de argila, implacavel com tudo que não fosse obra sua, de estilo corréto, mas seco e frio.
Jaime de M. Lima é forte, mas tolerante, magestoso mas simples como os patriarcas biblicos.
Ninguem póde tambem esperar dele a venalidade de Sainte-Beuve, o seu espirito de intriga, capaz de felonias como a que perpetrou com o enorme poeta Alfredo de Vigny, o pessimista dolorido.
A grande bondade de Jaime de M. Lima, genializada por uma intensa paciencia, afastam-no da cólera, e a sua desambição perfeita livra-o por completo de transigencias com o logar-comum e com o estrondo sètario.
Assim, José Estevão é por êle rehabilitado contra os fanaticos de qualquer campo.
Não, o fogoso tribuno não foi Danton, vulcão, impeto cégo, catapulta muitas vezes salpicada de sangue.
Não foi, porém, Robespierre, razão fria, espiritualismo e egoismo, astucia e fé em aliança assombrosa.
Com o vigor do primeiro, não teve a sua impudencia: com o bom-senso do segundo, não teve a sua hipocrisia.
Foi muitas vezes Lamartine, até no pleno gosto artistico e no sonho, e foi nos raptos bastante Mirabeau; um Mirabeau com a visão melhor da moderna sociologia, e portanto sem a mascara disforme do homem-tempestade.
No fundo, a sua eloquencia era toda de bondade, como a de Fernandes Tomás em 1820, como a de Antonio José de Almeida no nosso tempo.
Se trovejava, os seus raios eram farois, não eram agentes de cega ruina.
Parece esta a conclusão sintetica do belo trabalho de J. de Magalhães Lima sobre José Estevão.
A figura de Alexandre Herculano não a viu com a minucia, tantas vezes arbitraria, de Taine; viu-a com a verdade ampla dum patriota e crente que nunca esquece o que a patria e a fé representam na grandeza da Humanidade.
Assim, a conclusão do seu trabalho sobre o maior e mais austero vulto do nosso romantismo deriva sem esforço, luminosa na sua singeleza, das belas paginas em que estudou o grande escritor e grande cidadão--_Alexandre Herculano_, diz, _a todos honrou igualmente, engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do povo português_.
Dizer isto, depois de o provar sem estridor como sem desfalecimento de fé, com vistas sempre originais e sinceras, num estilo belo, com profundas noções cientificas em todos os aspétos encarados, significa uma obra primacial, uma obra de eleição, e, na essencia, uma completa obra de propaganda da Verdade Maior.
Não aparece o lenhador, e sim o semeador.
O machado e o bisturi trocam-se pela charrua paciente e pela luz do sol sem nuvens.
O critico não é a torrente cataduposa: é o rio poderoso, mas placido, que nunca reflete nas aguas pedaço de céo que não seja amorosamente azul.
Mas, se o supondes lago apático, enganais-vos: a sua serenidade é cheia de vida, e tanto que as suas aguas, porque são perfeitamente puras, são adoravelmente limpidas.
Ás vezes até, a profundidade da vida lhe dá murmurios de oceano: é o salmo intenso das crenças perfeitas.
É a Conciencia livre, a qual, por mais serena que se eleve, tem sempre muito de Mar e como que de abismo.
Compreende-se talvês agora como é que este crente é, afinal, um avançado socialista, um ardente libertario.
Como seu irmão Sebastião, procura a Patria Nova. A diferença está apenas nos caminhos.
Aquêle quis ver primeiro em terra o Trono que machadou durante 30 ânos.
Jaime nunca se preocupou com as velharias do Passado. Sem as ferir diretamente, rasgou com coragem e fé a verêda do Futuro e, parecendo conservador, é o mais avançado revolucionario.
Porisso a sua nobre tolerancia é o mais valente grito de guerra.
Quem assim é tolerante tem a certeza de que o Erro cái de per si á simples aparição de toda a Verdade.
* * * * *
Jaime de Magalhães Lima é talvês assim, visto como que num simples instantaneo.
Fotografado em todos os seus aspétos, seria o mesmo que pedir para êle em vida uma estatua, mais justa do que a de alguns, nunca tão livres de conciencia e honestos de verdadeira arte como este escritor, que é notavel por isso mesmo que muitos teimam em não o notar.
Nem o nosso caráter nem o dêle--e este muito menos--se comprazem com o mais justificado fetichismo.
Para êle, como para nós, a obra é valor da ideia e não do homem.
O espirito hoje perfeito foi imperfeito, evolute, e, resplandescente agora, tem ainda sêde de perfeição maior. Não ha grandes nem pequenos, se não de momento. O verme de hoje ha de ser colosso ámanhã. O gigante da atualidade foi anão nas trevas do passado.
Apontar Jaime de Magalhães Lima dentro da justiça perfeita, não é, pois, elogiar o individuo: é apelar para um belo manancial de ideias e sentimentos de amor e verdade.
Ha de um dia a literatura dar-lhe o lugar devido. Isso não nos preocupa. O Futuro dignifica sempre o Passado. O que nos póde doer é que muitas almas sequiosas desconheçam tão bela fonte de noções moraes e mentais e se privem, por ingratidão mesquinha do _meio_, do pão artistico e espiritual que uma obra tão superior, como a de Jaime de M. Lima, lhes póde ministrar com grandes frutos para a Democracia e para a Verdade.
Esse prejuizo causa horror.
Estão secas as fontes verdadeiramente cristalinas da nossa Arte. Em vês delas, superabundam chafarizes exóticos, canalisando e repuxando aguas duvidosas.
Quem desconhece o intoxicamento moral que elas semeiam?
Quem não compreende que a nossa jóven Republica precisa de as vedar em beneficio da boa saude da querida Patria Portuguesa?
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