Chapter 1
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OS NOSSOS ESCRITORES
VI
JAIME DE MAGALHÃES LIMA
POR
JOSÉ AGOSTINHO
CASA EDITORA DE ANTONIO FIGUEIRINHAS 1911
Deposito Geral: LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.or 119, Rua do Almada, 123 PORTO
OS NOSSOS ESCRITORES
VI
Comp. e imp.--Typ. Universal de Figueirinhas & C.ª Rua das Oliveiras, 75--Porto
OS NOSSOS ESCRITORES
VI
JAIME DE MAGALHÃES LIMA
POR
JOSÉ AGOSTINHO
CASA EDITORA DE ANTONIO FIGUEIRINHAS 1911
Deposito Geral: LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.or 119, Rua do Almada, 123 PORTO
SUMARIO
Uma monstruosidade do Passado--A Meza Censória--Torquemada e Escobar--A critica com o constitucionalismo--Como a Meza Censoria persiste--A hypocrisia--Que critica a Republica recebe das mãos da Monarquia--O que ela é, em geral--Como ha de haver Arte livre?--Como ha de haver escritores e editores?--Os unicos trabalhadores livres--O faciosiamo na politica e nas letras--José Caldas e Joaquim Costa--Emilio Littré e Augusto Comte--Madame Comte e Clotilde de Vaux--Uma liberdade que a Republica tem de conquistar--O heroismo português--Trabalhadores independentes--Verdades sobre Garrett--Verdadeiros livres-pensadores--Camilo, Inacio Pizarro, Pedro de Lima, Jorge Artur, Hamilton, J. A. Vieira, S. Dias, A. da Costa, A. T. da Silva Leitão e Castro, P. da Cunha, J. de Lemos, A. da Conceição, Guilherme d'Azevedo--Os Magalhães Lima--O dr. Sebastião de Magalhães Lima--Jaime Lima e o seu refugio--A sua vida moral e mental--Ideias de Malebranche, Pascal, Moutesquieu, Guyau, Amiel e Fouillée--Constant Martha e Lucrecio e Epicuro--Jesus-Cristo e Tolstoi--A Terra--Impopularidade voluntaria--Heroismo perfeito--Filósofo na poesia, sociólogo no romance, pensador na crítica--_Apostolos da Terra_--Amostras de estilo--_Via Redentora_--_Vozes do meu lar_--Um belo excerto--Eduardo Schuré--Defeitos--Melchior de Vogüé--O que seria desejavel na obra de J. de M. Lima--O romancista--Superioridade notavel--Julio Dinis e Camilo--A unica lei duravel da estetica positivista--Uma animação de Lessing--Lessing e Winchelmann--A influencia de Platão e do pintor Oeser--J. de M. Lima e Balzac, Victor Hugo, Flaubert e Tolstoi--Eça de Queiroz e Julio Dinis--O romance _Na paz do Senhor_--Qualidades excelentes--Nem Pangloss nem Baudelaire--Tipos verdadeiros--Os romances _No Reino da Saudade_ e _Sonho de Perfeição_--Verdadeiros modelos--O critico--_Menor e servo S. Francisco d'Assis_--Esquecimento das obras de Prudenzano e Pardo Bazan--Guerra Junqueiro--Leonardo Coimbra--Superioridade de J. M. de Lima--_Alexandre Herculano_ e _José Estevão_--Nem Planche nem Sainte-Beuve--Balzac e Werdet--Alfredo de Vigny--José Estevão, Danton, Robespierre, Lamartine e Mirabeau--Fernandes Tomás e A. José d'Almeida--A conclusão dum belo livro--Serenidade nos processos criticos--Porque destacamos a figura de J. de Magalhães Lima.
Uma das monstruosidades do passado, e ainda com predominio no presente, é a escravidão da conciencia. Horror e vergonha da Humanidade, foi Meza Censoria, depois de ser cátedra e pulpito, fogueira e pôtro, fôrca e anátema.
Julgou sempre sem autoridade de juís, porque foi sempre verdugo. Nunca pôde ser lei pura, porque foi sempre suplicio e ignominia, patibulo.
Para cometer o seu crime com prestigio, com absolvição plena dos seus rancores, abrigou-se em todos os refugios sagrados e vestiu todas as túnicas luminosas: a túnica de Jesus-Cristo, a pretexta de Catão, o manto de Sócrates.
Tudo lhe serviu para armadura, escudo, auréola e máscara.
Entre nós, como em toda a Europa, esse monstro alapardou-se na rigidês da ortodoxia intolerante que apedrejou Fénelon, e mordeu o calcanhar branco de S. Francisco d'Assis. Deu a Torquemada o báculo do pescador Pedro e a Escobar o principado de S. Francisco Xavier. Ululou, queimou, deturpou, assolou, enxertando a alma negra de Atila na haste aromal do Evangelho, voz e guia da Humanidade em jornada.
Veio, entretanto, a Liberdade no constitucionalismo. Como vitoria? Infelizmente mais como vingança do que como evolução. As verdadeiras vitorias não se vingam: destróem, mas construindo. A liberdade do constitucionalismo foi principalmente represalia e assim a velha intolerancia não se extinguiu: deslocou-se, dissimulada, cavilosa.
Extinguiram a Meza Censoria? Decerto, mas não se extinguiu o espirito do faciosismo, meza censoria latente e multipla que perpetra os mesmos crimes contra a liberdade do pensamento e do sentimento.
O regimen constitucional opôs á intolerancia a intolerancia, ao odio o odio, ao despotismo sanguinolento, odioso em suplicios fisicos, a tirania da opinião preconceituosa sobre todo o trabalho mental.
E esta com um involucro repugnante: a hipocrisia. Todos são livres de opinião! clamaram os caudilhos de Mousinho da Silveira. Entretanto, quem ficáva deveras livre era só a opinião dos dirigentes do regimen.
Divergir corajosamente dela era o escandalo. Se a obra intelètual não ficava suprimida de direito, ficava-o de facto, tão excomungada, tão deprimida, que ninguem a lia.
Esta tirania mental e moral criou entre nós a critica, como da Monarquia a acaba de receber a joven Republica.
Os atuais governantes já a devem ter lobrigado no seu antro, onde esperamos que a hão de sanear. Diz-se liberal e é absolutista. Diz-se justiceira e é pessoalista e sètaria. Apregôa independencia, e acarinha apenas vaidades individuais. Guia-se pela influencia dos habilidosos e audazes. Flagela os cabotinos e, afinal, para alcandorar muitos deles, ou desdenha dos honestos, ou beneficia estes com epítetos de misericordia, que são afrontas flagrantes, ignobeis.
Não tem, não póde ter, meios termos: ou turibulo ou chicote. Não arranca das trevas um desconhecido de merito, mas arraza de lentejoilas muitos nulos.
E, entretanto, todos se queixam de que a nossa literatura e a nossa arte tombam em decadencia.
Mas, porque não, se Portugal se tem regido sempre pela peor tirania, pela adulteração da Liberdade?
Como querem Arte livre sem critica livre? Como querem os escritores e os editores que o publico leia, se os poucos não analfabetos do país, em vez de lêrem _tudo para discutir tudo_, ainda têm diante dos olhos o seu _Index_ conforme o partidarismo apaixonado que os domina?
Quem ha de trabalhar num _meio_ assim? O verdadeiro trabalhador? Mas esse não procura nunca os criticos vulgares. Procurá-los é confessar baixeza, é ter até de oferecer deprimidamente jantares ou ceias, ou joias, a troco de elogios, é renegar implicitamente toda a ciencia e filosofia moderna, toda a razão e toda a fé e sentimento; é aceitar um qualquer partidarismo intolerante; é pôr a Arte debaixo da tutela de qualquer efemero fetiche; é condenar-se a ser escravo do erro, se ele domina, ou da paixão se ela triunfa.
Ficam, pois, só vitoriosos e livres os maus trabalhadores, os que não têm sinceridade, os que não têm principios.
Em vão a Ciencia e a Razão lhes dizem que a Republica, por exemplo, em todas as suas demolições é compativel com todos os grandes principios, até com os dum elevado espiritualismo; que se póde ser cristão e ser democrata, obrigando o Estado a separar-se da Egreja dentro da justiça pura; clamando ao atual governo que não páre, que êrga o verdadeiro edificio da liberdade, que vá, pouco a pouco, demolindo e construindo, dando golpes energicos á Burguezia da agiotagem e erguendo os humildes, o Povo, dentro da conciencia desoprimida.
Eles não ouvem, nem pódem ouvir, tanto na vida politica como na vida artistica. Convém-lhes perturbar. Merece-lhes todo o apoio o Capitalismo que exploram. O que os preocupa é vencer depressa. Nunca é um ideal, porque este, quando sincero, é feito de toda a justiça, dentro de toda a austera tolerancia. O que os atrai é a popularidade e ela, embora mais tarde por vezes de nada sirva, lisongeia agora o amor-proprio de quem nem possue talento nem caráter, de quem não é democrata se não para poder ser plutocrata.
E estes séticos de hontem e acomodaticios de hoje é que fazem a Critica contemporanea, raras vezes digna. Vemos que elogia ignobilmente, e incondicionalmente, só o correligionario, ás vêses de ha minutos, ou só o que é audaz no pedir, ou só o que é habil no grangeio de amizades entre plumitivos, ou o que, algumas vezes, encontra a peso de oiro uma trombeta passiva e estrepitosa a aturdir a opinião, os ingenuos, os simples e, emfim, por contagio, os proprios cultos e inteligentes!
Onde está, pois, o lugar dos grandes e verdadeiros trabalhadores?
Raras vezes aparece. Para o corajoso e liberrimo cristianismo de José Caldas lhe não negar a primasia de democrata, foi preciso que a Republica tivesse dado o exemplo da sua gloriosa imparcialidade, fazendo, do grande homem de letras, seu ministro em Roma. Assim, para Joaquim Costa na Espanha, morrendo na velha fé, ter a apoteose admiravel que foi o seu enterro, justiça triunfal a um lutador de sempre, foi preciso que o partido republicano espanhol emudecesse os intolerantes negros e escarlates com a luminosidade e generosidade da obra do extinto, gloria peninsular e mundial.
Mas, que admira, se na França Emilio Littré deprimiu, não ha muitos anos, a progressão moral de Augusto Comte, favorecendo com azedumes e sofismas o odio estreito da Madama que nunca perdoou ao marido o predominio espiritual e as graças angelicas de Clotilde de Vaux? Não se esqueceu então Littré do valor mental de Comte só porque supôs apostasia sétaria o que era progressão psicológica? Poderemos nós ser superiores ao amado _figurino_?
Nada de estranhar é, pois, que tenhamos ainda, não já oficial, mas sempre prepotente, uma perfeita e absurda Meza Censoria.
D'aí esta decadencia mental e moral, toda reflètida na pequenês da Critica.
D'aí um dos grandes problemas da liberdade a conquistar. Talvês a Republica o venha a resolver lentamente, com profundas angustias intimas, tão crueis como as de tantos que, na melhor das intenções, para não excitarem os ódios dos cégos e dos furiosos, aparentam crer que a politica póde impôr a fé ou o ceticismo religioso, a velha ciencia, ora dogmatica ora metafisica no seu materialismo, ou a moderna, essencialmente positivista, sim, mas porque não abre só os olhos da Razão, e dá emfim liberdade cientifica e pura aos do Coração.
* * * * *
A boa alma portuguêsa, resplandesce de continuo em prodigios de heroismo. E o heroismo em Portugal está em toda a parte. É condição etnica. É atributo de povo celta, beijado de perto pelo mar profundo e carinhoso.
Apezar de a nossa critica ter raras conciencias livres, houve sempre, e ainda ha, trabalhadores intelètuais que sofrem pelo seu ideal sem transigencia com o flagelo da impopularidade. Nem todos se bandeiam com os favores da opinião desvairada. Nem todos procuram na politica, além dum talher, um carimbo com esplendor de corôa. Ha ainda alguns que não perdoam a Garrett elogiar-se a si proprio nas gazetas, e que, só porque ele foi orador primoroso, homem do mundo, legislador feliz, não vão negar que o _Arco de Santana_ é mediocre, que as suas poesias liricas nunca excedem as de Soares de Passos, Simões Dias e João de Deus, e que, se não fôra o seu destaque politico, a beleza lapidar do _Fr. Luis de Sousa_, da _D. Branca_, das _Viagens_ e do _Camões_, não teria encantado tanto aquêles mesmos que não viram no feroz Padre Macedo, caceteiro torvo de D. Miguel, o primeiro poeta didático de Portugal e da Peninsula.
Ha muitos ainda que não descem á construção astuta da sua imortalidade, pondo-se á frente de todos os movimentos com probabilidades maiores de vitoria, vestindo-se de apostolos e de leões, segundo o lance, ora usando óculos de profeta, ora vestindo mantos de senadores com um rochedo de Patmos á mão direita.
Por Deus, que ainda ha, e haverá sempre, em Portugal verdadeiros livres-pensadores e por isso heroicos, sem reclamo na sua abnegação e laboriosidade intrepida.
Anulam-nos? Respondem, trabalhando. Morrem ignorados na liça, ou sistematicamente deslembrados? A sua agonia é um sorriso; a sua resignação ilumina as gerações porvindoiras, e dessa luz vem a mais tarde a justiça inteira.
Assim sucedeu ao próprio Shakespeare, esquecido durante dois seculos. Assim, entre nós, sucedeu ao cronista Brandão que Alexandre Herculano rehabilitou.
Assim foi visto, em plena gloria de Garrett, aquele alto poeta, que Camilo festejou, Inacio Pizarro de Morais Sarmento, tão companheiro no olvido--sempre temporario dentro da justiça dos povos--de Pedro de Lima, de Jorge Artur, de Hamilton, de José Augusto Vieira, de Simões Dias, de Antonio da Costa, de Antonio Tomaz da Silva Leitão e Castro, de Pereira da Cunha, de João de Lemos, de Alexandre da Conceição, de Guilherme de Azevedo, e de tantos, por vezes suplantados por homens muito menores.
E, atualmente, não sabemos doutro mais elevado de intelèto, mais verdadeiramente pensador e artista, do que Jaime de Magalhães Lima.
Quem é?
Ninguem em Portugal desconhece os Magalhães Lima. Um velho austero e popularissimo em Aveiro usou esse nome, legando-o a dois homens singulares de meritos, a dois irmãos: Sebastião e Jaime.
O primeiro entregou-se á onda do povo, dominando, arrastando por vezes os espiritos com um verbo ora romantico, ora rigido, talvez intolerante, mas talvez no intimo cortado de duvidas profundas. Expandiu-se brilhantemente no jornal, no opusculo, algumas vezes no livro. Galgando as fronteiras, bebeu no estranjeiro as sinteses mais sedutoras e novas, propagou-as com valor, com fé, com tenacidade, deu-se com elas todo á politica, fez-se combate e a seguir meditação para voltar a ser luta, ora quebrantada de melancolia, ora amargurada de deceções.
É evidente que esse homem teve logicamente a popularidade que, afinal, nunca mendigou. Não a evitou, embora não a suplicando. Não a desamou, embora pedindo-lhe por vezes ou mais justiça ou mais cordura.
Jaime ficou no seu lar e no seu jardim, ao pé das suas flores e das suas brumas. Como? Egoistamente? Fruindo a fortuna, o prestigio paterno, o renome do irmão, o livre amor da Arte? Responde por nós Sebastião de Magalhães Lima, numa tarde melancolica, nevoenta como uma utopia, dentro do seu pequenino gabinete da _Vanguarda_:
--Quem me dera ter a elevação mental e moral de meu irmão Jaime!
Eis uma definição alta e independente, digna como a Justiça sem mácula.
Jaime de Magalhães Lima refugiava-se: não fugia da luta. Do refugio, fez o estudo; fez a conciencia. Leu ali tudo, ouviu todos, e depois ouviu-se a si mesmo dentro de toda a liberdade. Tutela mental não a aceitou a ninguem; se a procurou mais tarde, foi porque a encontrou no caminho como voz de conciencia alheia que concorda com a nossa.
Não se esqueceu da frase de Malebranche: Todos pretendem ter razão, ao seguirem afinal as sugestões dos seus sentidos. Compreendeu cêdo aquêle perigo que apontou Pascal no imperio do amor-proprio, imperio que significa o maior ódio á verdade, e viu, com o mesmo grande homem, que o principio da moral é esforçarmo-nos sempre por pensar bem.
Como literato, afês-se a ver a critica pelos canones suaves de Montesquieu, mais tarde ampliados por Guyau e, entretanto, a sua alma lavada avistava, e logo palpava, sem tortura, por livre intuição do fundo da sua Arte, as verdades de Amiel quanto ao _ideal_ e ao _real_, quanto ao cèticismo, pai seguro da tirania, por mais que êle prégue a liberdade. Encontrou tão luminosos limites á teoria da _superioridade da áção sobre o sonho_ do referido Guyau, valetudinario antes dos 30 ânos, e morto aos 34, todo impelido sempre mentalmente pelo espirito de Fouillée, como ensanchas generosas para a delicadeza de Constant Martha, esse homem estranho que chegou a provar a religiosidade do poeta Lucrecio e do proprio Epicuro.
Nesta liberdade sã viu Jesus-Cristo no libertarismo genial de Tolstoi. Compreendeu que, assim como a arte da Grecia é um alento na mais larga vida da civilização cristã, assim a arte devida ao cristianismo palpita na sociedade futura, trazendo já a vitoria do espiritualismo nas lucubrações livremente experimentais da Ciencia.
Entretanto, o seu refugio não lhe fês esquecer a Terra, _meio_ indestrutivel das manifestações da sua alma, e amou-a, e cantou-a, e não lhe negou um culto sadio e amoravel.
Mas tudo isto não rogando favores do publico, nem os da bolsa nem os da fama.
Resignando-se com a relativa impopularidade duma obra profunda, independente de faciosismos, livre de conveniencias estreitas. Não procurando o plumitivo hiperbólico, o correligionario maleavel, o agitador apoteótico, o reclâmo do amigo, a furia do inimigo, o escandalo do indiferente, nada do que atrái atenções, do que provoca discussões, do que escalda temperamentos.
Tudo isto como um regato no ruido dos passos, embora como um grande rio no poder de corrente. Tudo isto duma maneira silenciosa, ainda que penetrante, como os bons arômas.
E, nisto, vindo as cãs, e com elas a pureza maior, a elevação da filosofia esoterica, a radiosidade da arte, a paz perfeita do coração, a santidade e maior verdade da palavra, não veio a popularidade.
Não admira. Ilogico seria o contrario. Tolstoi precisou de escandalizar a Europa, embora involuntariamente, para se reconhecer como era um genio moral e mental. Jaime de Magalhães Lima, avisado pelo exemplo do Mestre do Caucaso, não póde ser precipitado na justiça pelo escandalo involuntario sequer. A sua modestia, verdadeira a ponto de ser excessiva, até desse destaque o afasta. Facilmente se vê quanto ha de heroico na virtude perfeita, e o notavel escritor é dos poucos que ao talento superior junta a virtude sincera.
* * * * *
Jaime de Magalhães Lima, com aquelas barbas de neve, com o olhar plácido e franco dum velho cristão, vegetariano, simples em todos os habitos, é um poeta-filosofo, um romancista-sociologo e um critico-pensador.
Como poeta, não escolhe o verso: maneja com fulgor e nitidez uma prosa opulenta e, ao mesmo tempo, substancial. A sua poesia é a sua fé no maior amor de todos. Combativa? Sempre, mas porque é inabalavelmente tolerante. A combatividade raivosa denuncia ou doença da alma ou enfermidade pessima do caráter. Jaime de Magalhães Lima tem a saude perfeita e tranquila no corpo e na conciencia.
Quais os seus poêmas? Abramos um: _Apostolos da Terra_. É um rosario de melodias doces e profundas á Natureza. Em cada melodia a emergencia duma verdade, por vêses tão heroica que é a confissão duma culpa, só insignificante aos olhos dos nulos. Mas isto numa enorme e solida ciencia, como numa erudição rara. Isto, com um estilo original e sincero, vernáculo e vivo, como o atestam as seguintes rápidas amostras.
Na _Sede de Brancura_: «Tem sêde de brancura a nossa alma, de brancura que corra como o sangue e seja casta como a madrugada.
A neve, o diamante, aguas e nuvens são brancas, mas debalde lhes pedimos que palpitem e ministrem comunhão na translucida essencia do seu brilho.
Desliga-as do bater dos corações uma calma frieza sem piedade, como se fôssem estranhas ao seu ritmo, ou passassem de longe, ignorando a constante agitação d'amor que os faz pulsar».
Na _Irmã do Mar_: «Misterio!... É bem salgado o mar e a seara é dôce. Encerra o trigo a esperança de crescer, o latejar do sangue e do calor que alimenta a beleza a mais gracil e a conciencia austera e redentora na profunda expressão do seu poder. É corrosivo o mar e, destruindo, nem ás pedras perdôa, desunindo a liga cristalina que se fês na pureza sublimada d'altos fógos. E vivem ambos, a seára e o mar, na eterna agitação do seu anceio!... Quem sabe?! Talvês sôfram ou se exaltem no delirio do mesmo amor, sagrado por destino de quem sem êrro guia os sóes e o mundo no triunfo divino da Harmonia».
E o mesmo alto ideal, puro sentimento, e por vêses estudo de árduos problemas, nos outros poêmas em prosa, _Via Redentora_ e _Vozes do meu Lar_. No primeiro dêstes, e tambem para exemplo do estilo do notavel escritor, bastam estes periodos do belo canto que é _A Enxada_:
«O cavador ergueu-a novamente. Rompe o sol; sobre os carvalhos loirejou fulgores; dissipa a treva na montanha; beija certamente a lamina polida; e a enxada, em sagrada ancia de triunfo, inunda o arvorêdo e a seára de clarões de estrêla. Batisou-a o fogo no rubor da forja, e deu-lhe a pureza, diamantina voz, para entoar os cantos da luz celeste».
Não ha aqui tanta espiritualidade moderna e sã como no melhor trabalho de Eduardo Schuré?
Não é aquêle estilo simples, limpido, espontaneo e, ao mesmo tempo, magnifico de eufonia e graça?
Comtudo, será o escritor sem defeitos? Não, até porque, como é logar-comum dizer, os tiveram Milton, Dante e Camões. Por vêses, ha na sua prosa poetica raptos que se esquecem demais de quem os póde ver. Fógem demasiadamente do espirito dos mediocres, o que contradiz involuntariamente, mas de facto, todo o seu generoso e completo amor aos humildes. Neste ponto ha bastante da pecha principal de Melchior de Vogue: aristocracia involuntaria dentro da elevação ardente duma Arte que só pretende, afinal, fecundar a alma do Povo, porque até, não sendo assim, seria descabida.
D'aí, algumas obscuridades no estilo, raras, muito raras, dignas de emenda, porém, e ainda o uso aqui e ali de epitetos eruditos, mas gastos, crispados de sonoridade emfatica.
Ás vezes, um mal grave--a como que convição de que mais escreve para si proprio do que para o seu tempo e para a sua geração.
E porisso, apezar de frequentemente cristalino, limpido, adoravel de verdade, de sentimento de vida, nestes poêmas em prosa destôam a espaços requintes preciosos, só acessiveis alguns aos espiritos altos e muito cultos. Este defeito não aféta demais a obra no valor intrinseco: priva-a de ser frutifera em toda a sua intensidade, o que é sempre deploravel num _meio_ como o nosso, assim inculto, esteril, carecido de verdadeiras obras.
A filosofia de Jaime de Magalhães Lima reclamaria trabalhos de muito graduada perfeição plastica, a começarem quase sem estilo, como quem palestra com crianças e simples. Só assim este povo, tão atrazado e desorientado, mas tão inteligente e bom, poderia, pouco a pouco, perlibar o mel precioso, colher todo o dôce impulso da verdade livre, compreendendo e vivendo o que a má fé certa de invejosos ou de sètarios aponta com facilidade como arte egoista ou impenetravel, se não como devaneio lunático.
Já como romancista, o seu intento de dar o verdadeiro realismo lhe inspira uma arte superior na comunicabilidade, uma fórma sempre transparente e, comtudo, original.
Os seus romances, depois dos de Julio Dinís e alguns de Camilo, são os mais perfeitamente portuguêses da nossa literatura de ha 60 ânos. Não são muito lidos. Nem por isso deixam de ser modelares.
Jaime de Magalhães Lima entendeu, como poucos, o romance moderno, sem as taras do excessivo romantismo, ou do excessivo realismo, inversão positiva do primeiro.
Espiritualista corajoso, muito superior, não desprezou a unica lei duravel talvês da estetica positivista: «A Arte deriva do sentimento e idealisa a realidade».
A rigor, não poderia êle dizer como Lessing: «Se Deus tivesse a verdade na sua mão direita e na esquerda o amor sempre inquieto da verdade, e me dissesse:--Escolhe!--eu, ainda que me condenasse a enganar-me eternamente, optaria pela esquerda. Pai--dir-lhe-ia eu--a verdade é só para ti». Não. Jaime de Magalhães Lima não tem a febre da verdade, porque a encontrou plenamente, e disso está convencido. Outra febre sagrada o empolga: é a de ensinar a verdade que professa, ensiná-la na doutrina e no exemplo.
Falamos em Lessing, e o nome deste ingente torturado traz á memoria o do critico Winckelmann, seu colaborador radioso na purificação e dignidade maior da critica alemã.