Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P.
Chapter 4
Esta Capella do _Santo Sepulchro_, ainda que por dentro he quadrada, por fóra he redonda, e tem as paredes cubertas de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de columnas, sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No alto de huma parte está o retrato da Emperatriz _Santa Helena_, e da outra o do Emperador _Constantino_ seu filho, de rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos, que quasi naõ se parecem, por estarem maltratadas da antiguidade, e do tempo.
Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à maõ esquerda, estaõ duas pedras redondas de marmore postas na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em huma esteve _Christo Senhor nosso_ depois de resuscitado, na outra a _Santa Magdalena_, quando lhe appareceo em figura de Hortelaõ, e lhe disse: _Noli me tangere_. Daqui fomos à Capella, e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que dizem, appareceo _Christo Senhor nosso_ a sua _Santissima Mãy_. Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos, está hum pedaço da columna, em que _Christo Senhor nosso_ foy açoutado. Com esta Estaçaõ acabámos de visitar esta Santissima Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em procissaõ, e sós. He de grande contentamento ouvir pela meya noite a todas estas naçoens dizerem Matinas, cada h[~u]a na sua lingua, e canto.
Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor, e no mais alto della, que he parte do _Sagrado monte Calvario_, visitámos huma Capella, adonde _Abraham_ offereceo o sacrificio; e outra, que está perto, adonde _Melchisedech_ offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso _Convento de Saõ Salvador_, nelle estivemos alguns dias, esperando ao nosso _Trucimaõ Atala_ para ajustarmos a nossa vinda. Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos Sagrados montes _Sion_, e _Olivete_; e chegando à Santa Cidade de Jerusalem quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do _Cayro_, dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos se chamava _Fr. Mattheus Salerno_, homem nobre do Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario de _Jerusalem_; e o principal dos Hespanhoes, Fr. Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na continuaçaõ destes exercicios, que nunca enfadaõ, mas antes nos daõ recreaçaõ espiritual, por espaço de dez, ou doze dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas joyas para o serviço do _Santo Sepulchro_. Muitas toalhas, corporaes, e demais cousas para o Altar, e celebraçaõ das Missas, que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e Italia. Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro com huma alampada, que offerecia o Grão Duque de Florença. Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.
Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso _Atala_ nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; porèm o _Padre Salerno_ disse, que de nenhum modo queria andar por mar a costa da Palestina, porque já entrava o Inverno; pelo que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o acompanhar: e tendo eu assistido hum mez na _Santa Cidade de Jerusalem_, e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada; e agradecemos ao Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe tambem cada hum a esmola, que podia, e naõ a que desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da nossa entrada na _Santa Cidade_, escritas em pergaminho, com o sello do _Santo Cenaculo_.
_Da nossa sahida da Santa Cidade de_ Jerusalem.
Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de _Jerusalem_, e o Padre Guardiaõ ajustou com _Atala_, e outros Mouros visinhos de _Jerusalem_, que nos levassem a _Damasco_, caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos, (por naõ permittirem, que os Christãos andem a cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos destes faziaõ jornada para _Alepo_; trez para _Constantinopla_; dous, que eraõ o _Padre Salerno_, e seu Companheiro Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado _Irmaõ Juliaõ_, e nòs Pedro Tudesco, e Nicolao Polaco, para Veneza.
Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa bençaõ, e abraçando com muitas lagrimas a todos os Religiosos, sahimos acompanhados de todos muitos passos fóra da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas, começamos a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos a _Santa Cidade_, os Sagrados montes _Sion_, e _Olivete_, e nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista. Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde _Jeremias_, vendo a Cidade, e chorando, compoz as Lamentaçoens.
Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas de _Jerusalem_, e nella esperámos huma caravana de trinta e trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada em sua companhia. Nesta Cidade foy que a _Virgem Senhora nossa_ achou menos ao seu Filho _Christo Jesus_ de tenra idade, e tornando a _Jerusalem_ a procurallo, o encontrou no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada por esta parte de _Judéa_, e entrámos na Provincia de _Samaria_. Neste dia fizemos noite na Cidade de _Sichar_, a que os Mouros chamaõ _Nablos_. Aqui está o poço, donde _Christo Senhor nosso_ fallou à _Samaritana_; naõ o vi, porque entrámos já de noite; porèm meu companheiro o vio, que ficou a traz com parte da companhia, e disse que naõ tinha agua. Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na rua, porque nos naõ déraõ pousada; e no dia seguinte, pela tarde, continuámos a jornada.
Nesta Cidade de _Sichar_ prégou _Christo Senhor nosso_ dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa, e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada de dous mil visinhos. Está entre dous montes, e o principal he o _Garisim_. Tem hum valle, dos fermosos que se podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes, passando por este valle, entendi que as naõ haveria no tempo da Samaritana; porque havendo-as, naõ buscaria taõ longe a agua. Aqui habitou _Jacob_ com seus filhos, e gados, e deu a _Joseph_ por melhor huma herdade, como diz a _Santa Escritura_. Na Cidade nos mostraraõ a sua casa. Toda esta Comarca de _Sichar_ he fertilissima de paõ, gados, e de tudo o necessario para a vida humana. Ao outro dia chegámos à Cidade de _Sebaste_, Cabeça do Reyno, e Provincia de _Samaria_; nome que teve em outro tempo; agora está destruida, ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas partes della estaõ cahidas; porèm o que está em pé, he taõ bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar desta Igreja, dizem, foy degollado o grande _Saõ Joaõ Bautista_ por mandado delRey Herodes. He digno de consideraçaõ particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos Reys, destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o que tambem se vê em toda a Palestina, pois vimos Cidades, pelos caminhos que andámos, que antigamente foraõ populosas, e insignes; e hoje só se vem pedras, e algumas paredes. Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ destruidas por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui nos disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha comnosco, ficando muito a traz, a roubáraõ os Arabes. Naõ sey que assim fosse, o que posso dizer he, que já mais a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar.
Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de _Samaria_, entrámos na de _Galilea_. Da Santidade della basta dizer, que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas. Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a Igreja cahida entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea, chamada _Janim_, em o lugar adonde Christo Senhor nosso sarou aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro celebrados montes. O _Carmelo_, [~q] está ao Poente do nosso caminho, junto ao Mediterraneo. O _Hermon_, [~q] está à parte de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde _Christo Senhor nosso_ resuscitou o filho da Viuva; agora he pequena Villa. O monte, a que está contigua a _Santa Cidade de Nazareth_, adonde encarnou o _Filho de Deos_. Naõ subimos a este lugar, bem que estava perto, por[~q] o naõ permittiraõ os nossos Mouros; e sómente vimos branquear as ruinas dos edificios. A ditosa casa, em que a _Virgem Senhora nossa_ concebeo ao _Filho de Deos_, que estava nesta Cidade, a trouxeraõ os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a collocáraõ em _Loreto_, tendo primeiramente sido levada a duas partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ cheyos os livros, e na Igreja em que está, já naõ ha parte adonde se ponhaõ tantas memorias. Tem muita riqueza de pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizeraõ Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe naõ excede alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta camara Angelical com huma fermosa Igreja, e está no meyo della. As paredes de fóra estaõ cubertas de marmore lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da _Santissima Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa_. Por dentro estaõ descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois cremos, que foraõ tocadas milhares de vezes por _Christo Senhor nosso_, e sua _Santissima Mãy_ Tem no meyo hum Altar donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chaminé, adonde a _Virgem Senhora nossa_ guizava a sua ordinaria comida. Está esta ditosa chaminé cuberta de prata, e outras riquezas.
Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de muitas naçoens. Esta Santa Casa he frequentada de muita gente, que a visita, de toda a Christandade.
Desta Santa Cidade de _Nazareth_ sahio a Virgem _Senhora nossa_ pejada, acompanhada do seu _Esposo Santissimo Saõ Joseph_, a escreverse na Cidade de Bethleem, pelo edito, e mandato geral do Emperador _Cesar Augusto_, por ser esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de _David_; e alli pario a seu _Unigenito Filho_, e do _Eterno Pay_. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco mais, ou menos.
O outro monte he o _Thabor_. Ao pé delle chegámos, e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro no alto do monte, adonde _Christo Senhor nosso_ esteve com os seus Discipulos _Saõ Pedro_, _Saõ Joaõ_, e _Santiago_, e se transfigurou ante elles, e de _Moysés_, e _Elias_. Nelle ouvio a voz do _Eterno Pay_, dizendo: _Hic est Filius meus dilectus, &c._ Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por nelle se mostrar _Christo Senhor nosso_ glorioso, e resplandescente com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso, e bem proporcionado na sua postura, alto redondo, e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto à maõ naquelles Valles.
Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao Norte, e chegámos ao mar de _Galilea_, que se chamou _Tiberiades_. Ainda que se chama _Mar_, naõ o he; porque a agua he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de doze legoas. Neste _mar_, ou _lago_, fez Deos milhares de maravilhas. Aqui estavaõ pescando _Saõ Pedro_, e _santo André_, e em outro barco _Saõ Joaõ_, e _Santiago_, quando os chamou _Christo Senhor nosso_ para que o seguissem, e que os faria pescadores de homens; e deixando as suas redes, o seguiraõ. Ha na ribeira deste lago muitas Povoaçoens, que em outro tempo foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre _Capharnaum_, _Corozaim_, e _Bethsaida_. Ao presente sómente se vem as suas ruinas. Junto a este lago fez _Christo Senhor nosso_ o milagre de dar de comer às turbas, que o seguiaõ, com cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este cinco legoas, pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais de duas. A agua he do _Rio Jordaõ_, que nelle entra, e sahe correndo, mais de quarenta legoas atè o _Mar morto_, em que se recolhe, e naõ torna a sahir. Na sua ribeira ha muitas fontes. Pousàmos esta noite, e tarde, que chegàmos, junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos _Saõ Pedro_, _Santo Andrè_, seu irmaõ, e _Saõ Filippe_. Alegria grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois _Christo Senhor nosso_ aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa de cem visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo, muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde _Christo nosso Redemptor_ o comeo algumas vezes, e por ser bonissimo, e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome, que tinhamos.
No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por asperas montanhas, e chegàmos antes do meyo dia ao celebre _Rio Jordaõ_, que ainda que nesta parte naõ foy o _Bautismo de Christo Senhor nosso_, com tudo por nelle se celebrar, nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento. Apeàmonos todos contra a vontade dos Mouros, e com grande ancia chegàmos à agua, bebendo toda a que podémos, lavando nella cabeça, rosto, e mãos; e nos parecia, que tinhamos desejo de nos converter em peixes, para naõ sahirmos de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado, e se pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito doce. Passàmos por huma ponte de pedra bem lavrada, e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que se chama _Aguas Meronas_, que saõ do mesmo rio.
Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do _Monte Libano_, huma chamada _Jor_, outra _Daõ_, e dellas toma o nome de _Jordaõ_. Estas fontes deixamos à maõ esquerda, quando vamos de _Damasco_ a _Tyro_, e _Sydonia_.
Passado o rio Jordaõ, entràmos na _Syria_, que commummente se chama _Suria_, e em trez dias chegàmos a _Damasco_. Naõ vimos cousa notavel neste caminho, sómente encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos, acompanhados de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia, que faziaõ jornada para o _Cayro_. Neste mesmo caminho me lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao, sómente por passatempo, e foy rindo com os seus companheiros. Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos; porque se descobre assentada ao pè do _Monte Libano_. He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos, passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que entràmos, vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos, com provimentos necessarios. Entràmos, e andàmos grande parte della primeiro que chegassemos à pousada, que foy na _Alfandega_, sempre a pè porque naõ consentem os Turcos, que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas sómente nos permittem jumentos.
Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim de comestivel, como de sedas, brocados, panos, tèlas, &c. que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua Povoaçaõ, pouco menos, que a de _Sevilha_. Por fóra naõ parecem as casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas. Ha nella, como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas, bem edificadas, e todas tem à porta fonte, para se lavarem, os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por fóra vimos muitas, porque dentro naõ podemos entrar na fórma que està dito.
Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os Peregrinos enfermàraõ, porque dormiamos no chaõ, e em mao aposento; porèm Deos me reservou pela sua misericordia, com saude, para tratar delles. Havia naquelle tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado _Bernardo_, Consul dos Italianos, que nos deu nestes dias de comer regaladamente, com que reparàmos o damno, que experimentàvamos de naõ ter comido de _Jerusalém_ atè àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque ainda que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens para os Christãos, passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e estrevarias em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro, e hum Religioso de _Saõ Francisco_, que o _Baxà_ ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de Turcos, ou Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas para a nossa jornada.
Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli estivemos a sua _Paschoa_, que durou trez dias, em que todos andavaõ muito alegres. Em hum destes hia eu por huma rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande destreza para os que estavaõ naõ ficarem atropellados. Levava hum alfange nù, e estava bastantemente borracho, pelo que abrio a cabeça a hum Mouro com huma só cutilada. Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro, que tive de receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo suas festas, sem que nos offendessem. Naõ deve esta Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada de Turcos, Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os officios tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece esta Cidade o ser Cabeça da _Syria_. O que nella ha que ver de devoçaõ, he a casa de _Ananias_, Discipulo de _Christo nosso Redemptor_, em que lhe fallou, e mandou, que fosse buscar a _Saõ Paulo_ já convertido, que estava orando, e o foy a bautizar, e confortar. Mostráraõ-nos o muro, por donde a este _Santo Apostolo_ o lançáraõ os Christãos em huma alcofa, e assim escapou delRey _Aveta_, que o queria matar. Mostráraõ-nos tambem em huma praça huma pedra cercada com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ Jorge, quando foy a matar a Serpente. Sómente escrevo o que vi, e o que nos disseraõ.
Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza, e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem à Cidade de _Tripoli_, donde nos haviamos de embarcar, que tambem está na _Syria_. Alcançámos ainda em _Damasco_ a Festa de _Todos os Santos_, e o dia dos Fieis Defuntos, e dissemos Missa no aposento do Consul encerrados, e era quanto celebravamos, esperavaõ de fóra _Mouros_, _Turcos_, _e Judeos_, que vinhaõ a negociar, para nos naõ perturbar.
Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho mais direito para _Tripoli_; e nos disséraõ, que pelo _Monte Libano_, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano, naõ fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de _Damasco_. Vimos _Tyro_, e _Sydonia_; passámos por _Baruth_, e por suas hortas fresquissimas. Por este caminho seraõ como quarenta e cinco legoas de _Damasco_ a _Tripoli_.
He esta ribeira da _Syria_, de excellente terra, grandes montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christãos Maronitas, que vivem no _Monte Libano_, junto a _Tripoli_. Ha por estes montes perdizes, e outras caças de Europa; e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do _Libano_ ao Mediterraneo.
Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho estreito aberto nas penhas, e chegámos a hum rio, que passámos por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos. Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e outro Arabigo, em que se faz memoria dos Emperadores _Marco Antonio_, e _Marco Aurelio_. Chama-se o rio _Caõ_, por certa fabula dos Gentios, que dizem, que este Caõ, que era de pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra, ou alguma fatalidade, e depois o lançáraõ no rio, que tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey. Cada hum crea o que lhe parecer.
He este _Monte Libano_ muito grande, e atravessa muita terra de Damasco atè o mar. Tem muitos braços, e o principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta, que toda estava cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para o _Templo de Salamaõ_. Ha nelle boas vinhas, e o vinho dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia, que chegámos a _Tripoli_ choveo muito, pelo que naõ sahio huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande desejo de a alcançarmos. Deos nosso Senhor parece que a guardou por sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que havia outras naos para _Constantinopla_, e para outras partes de _Italia_, e _França_, esta vinha em direitura a _Veneza_.
He a Cidade de _Tripoli_ na _Syria_ muito boa, e de fortes casas. A sua Povoaçaõ está em trez montesinhos, junto ao mar; ainda que o porto está desviado meya legoa. He fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens, palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil. He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante, e India Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para Veneza nove Mercadores Italianos, que vinhaõ da India, a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por caminhos de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma: pelo que trazem o que haõ de comer, e beber em camellos, que commummente costumaõ trazer mil em companhia.
Recolhemonos em _Tripoli_ em h[~u]a casa de Religiosos, e Peregrinos, que he como hum Convento, em que estaõ ordinariamente trez Religiosos de _Saõ Francisco_, mandados pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como Curas dos Mercadores Italianos, que alli estaõ.
He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos. O Padre Guardiaõ nos acompanhou a todos, Religiosos, e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e excepto os Religiosos, nos embarcàmos sete Peregrinos.
_Da nossa viagem de Tripoli atè Veneza._
Sahidos do porto de _Tripoli_, navegámos, e pouco a pouco chegámos à Ilha de _Chypre_, passando à vista de _Famagusta_, Cabeça deste Reyno; e démos vista de _Candia_, costeando pela Turquia, até chegar à _Morea_, à vista de _Modon_. Daqui caminhámos a _Zante_, em que estivemos dez dias, e logo a _Corfu_, adonde estivemos e celebrámos a Festa do _Nascimento de Christo Senhor nosso_. He esta Ilha de _Corfu_, huma das mayores forças, que os Venezianos tem na _Grecia_; e como tal, he de muita consideraçaõ, por ser como chave de Italia.
Passámos a costa de _Esclavonia_, _Albania_ e _Dalmacia_, e chegàmos à agradavel Ilha, e Cidade de _Lesna_, e nos hospedáraõ os Religiosos de _Saõ Francisco_ no seu Convento por espaço dos cinco dias em que houve no mar grande tormenta. Fallaõ aqui os naturaes a lingua _Esclavonica_, ainda que entendem a _Italiana_. A Cidade he pequena; tem boas, e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de _Istria_ à Cidade, e Bispado de _Parenço_, e sahindo da nao em hum barco, passámos a _Veneza_, a que ha quarenta legoas, adonde chegámos com saude, e alegria, e a Deos démos as graças por nos levar, e trazer de taõ Santa viagem, e jornada taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de _Tripoli_ a _Veneza_ a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro do anno 1589. e desde que della sahimos, atè que tornàmos, passáraõ cinco mezes, e cinco dias.
_Da jornada, que fizemos de Veneza atè Sevilha._