Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P.
Chapter 3
Chegámos a _Bethania_, que hoje terá sessenta casas, que mais parecem covas de coelhos, que habitaçaõ de homens, por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos foy grande Povoaçaõ, hoje nem o que foy mostra. Entrámos logo na casa de _Simaõ Leproso_, que saõ duas Capellas de pedra, bem lavradas, no Lugar donde _Christo Senhor nosso_ ceou com _Lazaro_ resuscitado, e Maria Magdalena o ungio. Está hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys: e naõ faltará que alimpar, quando neste Lugar se houver de dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver quaõ maltratados saõ estes Lugares dos Mouros, e Turcos, naõ desmaya a devoçaõ, e Fé dos Catholicos, porque consideramos, que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos. Daqui fomos a visitar o sepulchro de Saõ Lazaro, de que tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de boa vontade abrem a porta. Entrámos por huma escada de quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar, em que estava sepultado, quando _Christo Senhor nosso_ o resuscitou. He Lugar de muita devoçaõ, considerando as lagrimas de _Christo Senhor nosso_, de _Maria_, e de _Martha_, e dos mais, que estavaõ com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de _Saõ Lazaro_; e ainda que está tudo arruinado, bem mostra ter sido casa de homem principal, e visitámos a casa de _Maria_, e de _Martha_, que estaõ destruidas. No caminho está huma pedra, em que dizem, esteve sentado _Christo Senhor nosso_ atè que chegou _Martha_, e disse: _Domine, si fuisses hîc, &c._ Tudo o [~q] referi está fóra da Cidade de Bethania, ainda que esteve dentro naquelles tempos, por ser entaõ Cidade grãde, e hoje muito pequena a Povoaçaõ. Della sahimos, e subindo por hum outeiro como trezentos passos, chegámos ao Lugar adonde foy _Bethfage_. Delle mandou _Christo Senhor nosso_ aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez a sua entrada solemne, e triunfal em _Jerusalem_. Naõ ha aqui algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui se vem algumas casas da Cidade de _Jericó_, que todas saõ poucas. Está edificada em campina raza, que vaõ acabar nas margens do _Jordaõ_. Está distante de Jerusalem trez legoas, poucos mais, ou menos. Tambem se vê deste sitio hum lago, que terá de comprimento trez legoas, pouco mais, e de largo duas. He este lago do _Rio Jordaõ_, e nelle se acaba, pois naõ tem outra corrente, nem sahida. Chama-se o _Mar morto_; e debaixo delle estaõ aquellas malditas, e infames Cidades _Sodoma_, e _Gomorrha_: e se vê tambem outro monte, que estará quasi huma legoa distante, a que _Christo Senhor nosso_ se retirou, e nelle jejuou quarenta dias, e quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o _Jordaõ_ por esta parte, que está de _Jerusalem_ oito legoas, pouco mais, principiaõ os montes de Arabia.
Sahimos do Lugar de _Bethfage_, e subimos ao alto do _Monte Olivete_, levando o rosto para o Septentriaõ, e declinado ao Poente, passando pela Igreja da _Ascensaõ_, baixámos ao Lugar, adonde vendo _Christo Senhor nosso_ a Cidade de _Jerusalem_, chorou sobre ella, dizendo: _Si cognovisses, & tu, &c._ e descendo ao Valle de _Josaphath_, subio à Cidade, e _Templo_, entrando pela _Porta Aurea_, que agora está no muro cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento com ramos de palmas, e os meninos cantando: _Hosanna in excelsis_.
Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta representaçaõ, em que o _Guardiaõ_, que representava a _Christo Senhor nosso_, e doze Religiosos os _Apostolos_, sahiaõ paramentados de _Bethfage_, e mandava o _Guardiaõ_ a dous Religiosos, que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a, subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste, e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e versos a este proposito, ordenavaõ na Dominga de Ramos esta triunfal, e solemne Procissaõ, e o sahiaõ a receber da Cidade muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e lançavaõ ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros; e Turcos estavaõ como pasmados vendo esta Procissaõ, sem perturbarem aos Christãos, o que parecia milagre, e o era certamente, por naõ terem mãos, nem linguas para os impedir, por _Deos nosso Senhor_ o naõ permittir; e subindo ao _Santo Cenaculo_, que era entaõ Convento seu, proseguiaõ o Officio daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco mandou, que se não fizesse.
_Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos atè lá chegar._
Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo caminho, que ha da _Santa Cidade de Jerusalem_ à de Bethleem, que saõ duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos da _Santa Cidade_ ao nascer do Sol, pela porta de Jaffa, e passando pela _Fonte de Salamaõ_, e _casa de Bersabè_ sua mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espaço de huma legoa delle tudo saõ herdades, vinhas, oliveiras, frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de Profétas, e algumas já foraõ Igrejas. Vimos em hum campo grande quantidade de pedras taõ pequenas como graõs, e do seu feitio; e se conta, que a _Virgem Senhora nossa_ vendo semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse delles; e que elle zombando respondera, que naõ eraõ grãos; que eraõ pedras, e assim saõ atè hoje. Eu os vi, e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande arvore, que me pareceo _Aroeira_, e lhe chamaõ _Terebintho_. Tomámos ramos com devoçaõ, porque à sua sombra dizem que descançára a _Virgem Senhora nossa_. Vimos tambem o _sepulchro de Rachel_, que os Mouros, e Turcos guardaõ, e usaõ delle Mesquita. He fermoso edificio, situado em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de muita, e boa agua, em que os _Santos trez Reys_ tiveraõ grande alegria, por lhes apparecer a _Estrella_, que se escondera, antes que entrassem em _Jerusalem_, e dalli os guiou atè o Lugar aonde estava o _Menino Deos_ no portal de _Bethleem_. Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa adonde esteve _Elias_. Ha por esta parte muitas antigalhas dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz, e desejada Igreja, e Cidade de _Bethleem_.
Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos acompanharaõ, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos, e oraçoens, dando muitas graças a Deos pelo Mysterio do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos aquella _Santa Cidade_; e assim continuámos, até chegarmos a ella, e à porta da Igreja, que está fóra da dita _Cidade_, que agora terá pouco mais de sessenta visinhos. Entrámos pela porta principal da Igreja, que está defronte da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a entrada do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de Saõ Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove, ou dez; e fizemos oraçaõ na Igreja, que he da Invocaçaõ de _Santa Catharina_. Esta Igreja, Convento, e Igreja grande do _Santissimo Nascimento_, fazem hum corpo, e na de _Santa Catharina_ dissemos Missa no dia que chegámos.
Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com tochas accezas, baixámos por huma escada, que está na parede, e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas, em que estaõ fabricadas na penha viva estas Capellas. Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado o _sepulchro de Santo Eusebio_, discipulo de _Saõ Jeronymo_; mais dentro dous passos em huma Capella o _sepulchro de Santa Paula_, e de sua filha _Eustochio_; e de fronte na mesma Capella o _sepulchro de Saõ Jeronymo_; mais dentro huma Capella, adonde _Saõ Jeronymo_ viveo muito tempo, e traduzio a _Sagrada Biblia_. Todos os dias se visitaõ estes Santos Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas, Versos, e Oraçoens em cada huma destas Estaçoens, e se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e entrámos por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos à Capella do _Santissimo Nascimento_, e nos pareceo, quando entrámos, que entravamos no Paraiso.
Esta Santissima Capella em que a _Virgem Mãy de Deos, e Senhora nossa_ pario ao _Filho de Deos_, está fabricada, como as outras, na penha viva. Terá como doze palmos de comprimento, de largura quatro, e dous estados em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo Moysaico. Ha nella hum Altar de huma só pedra, vaõ por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo _Jesu Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos verdadeiro_. Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar dissémos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos adiante está o Lugar, como huma piasinha de marmore quadrada, mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum pedaço de penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde dizer) do resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a vista corporea, aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar à vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.
Entre o Lugar do _Santissimo Nascimento_, e _Santissimo Presepio_, está hum Altar de marmore, que sinala o Lugar, em que os Reys offereceraõ os seus dons. Eu como musico tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos, para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao _Menino Jesus_, a sua _Mãy Santissima_, e ao glorioso _Saõ Joseph_, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que se acharaõ naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre, excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.
Nos lados do Altar do _Santissimo Nascimento_ ha duas escadas, porque subimos à _Capella mòr da Igreja_ principal, porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que referi, estaõ debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima, ainda que em parte está despida da sua fermosura, porque todas as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com taboas de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte tiraraõ para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves, a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e saõ quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ assentadas vigas de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito curiosas pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra, e sobre elles em hum lado está lavrada de riquissimo Moysaico a geraçaõ de _Christo Senhor nosso_, como a escreveo _Saõ Mattheus_, e do outro lado, como a escreveo Saõ Lucas; tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.
Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o _Menino Deos_ foy circumcidado. Nesta fermosa Igreja se diz Missa algumas vezes, e naõ sempre; porque os Turcos quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito porcos, está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos terrados da Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em que os _Santos Pastores_ estavaõ, quando o Anjo lhes disse, que _Christo nosso Salvador_ era nascido, cantando: _Gloria in excelsis Deo_. Está de _Bethleem_ como a terceira parte de huma legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estavaõ as vinhas do _Balsamo_, no tempo de _Salamaõ_, que se chama _Engadi_. Está pouco mais de huma legoa de _Bethleem_.
Desta _Santa Casa_ sahimos como cem passos, e entrámos em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde estiveraõ escondidos a _Virgem Senhora nossa, o Menino Deos_, e _Saõ Joseph_, quando o _Anjo_ lhes disse, que fugissem para o _Egypto_, por Herodes procurar o _Menino_ para o matar. Nesta cova dizem, que dando a _Virgem Senhora nossa_ de mamar ao seu _bemditissimo Filho_, lhe cahira do seu purissimo _Leite_ na terra; pelo que todos levaõ desta terra por devoçaõ, para dar às mulheres, que tem falta de leite, e lançada em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, confórme a fé da que o usa.
Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer, e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade, sem que seja necessaria recompensaçaõ; ainda que todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande caridade, com que trataõ a todos sem differença. A mayor parte dos edificios desta Casa edificou _Santa Paula_ em tempo de _Saõ Jeronymo_. Aqui habitaraõ atè morrerem. O que está aruinado se pòde reparar, porèm naõ o permittem os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos. Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras arvores, frutas, e hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis. Tem hum dormitorio para os Peregrinos, à maneira de huma nave, em que se podem hospedar atè duzentos. Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como quem deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos retirar: e tornámos para a _Santa Cidade de Jerusalem_ pelo mesmo caminho, chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcançamos com a vista, de Lugar taõ Santissimo.
_Da Igreja do Monte Calvario, e Santo Sepulchro._
Vistos os Santuarios da _Santa Cidade de Bethleem_, pedimos ao Senhor Guardiaõ nos procurasse a entrada no _Sagrado Monte Calvario, e Santo Sepulchro_; e ajustado o dia, e hora com o _Subasi_, Governador da _Santa Cidade de Jerusalem_, que tem as chaves desta _Santa Igreja_, que sempre está fechada, e sómente se abre quando elle quer, ou quando o Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar Religiosos, ou Peregrinos, ou alguma das naçoens Christãas; e chegado o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo _Subasi_ com o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta desta _Santa Igreja_ sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos, e hum Christão da terra, que se chama _Ánà_, muito bom homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano, e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda a Palestina, e Syria. Chegámos sete Peregrinos, que eramos, que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e perguntando-me o nosso interprete, pois era o primeiro, o como me chamava? Respondi, que _Alberto_; porque parecesse nome Tudesco, e naõ _Hespanhol_, por ser de perigo, que elles saibaõ, que somos Hespanhoes, porque entendem, que vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano, os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome, que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove _zequies_ de ouro, que vale cada hum sete centos e cincoenta, e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma. Paga se sómente este dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja; e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum, ou dous maydines.
Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista naõ pòde estar ociosa, pelo muito que ha, que ver, e venerar. A primeira cousa he o Lugar, aonde _nosso Redemptor_ foy ungido para o sepultarem; e à maõ direita, na mesma nave, està o _Santissimo Calvario_, à maõ esquerda na nave do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o _Sepulchro do nosso Redemptor_; e no meyo da Igreja o Coro, que tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo se sentàraõ juntos os quatro Patriarchas da Christandade. Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor. As naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente, e Poente saõ redondas, à maneira de Colisseo. A Igreja he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico. As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas de marmores, agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a fermosura esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta falta.
As naçoens Christãas, que ha em _Jerusalem_ de diversos Reynos, e Provincias, e Linguas, saõ estas.
_Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas. Abexins. Surianos. Maronitas._
De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos, repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua, e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ sempre accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos Religiosos de Saõ Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio, Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar atè trinta pessoas.
Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja, e os Peregrinos, que estaõ dentro, dando-lhes de comer, e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta, cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta fallaõ, e se lhes ministra o necessario, e se vê hum pedaço da Igreja; por ella fazem oraçaõ os que estaõ de fóra. Tal ordem tem dado o Turco, para que estejaõ conformes, e como germanadas estas naçoens, humas com outras, que se huma alampada se estiver apagando, e o visinho a quizesse atiçar por devoçaõ, o condemnariaõ em muitos cruzados; e assim com este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete na obrigaçaõ, ou devoçaõ do outro.
A todos saõ communs os _Santuarios_, para os poderem visitar em qualquer hora, que quizerem, porque estaõ continuamente abertos; e como sempre està fechada a porta da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de grande contentamento, e devoçaõ o poder entrar livremente, de dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ. Em todos os Santuarios tem todas as naçoens suas alampadas, huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.
Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa procissaõ nesta Santa Igreja com vèlas accezas, cantando o Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos, e chegando o Religioso, que està paramentado, nos diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que ganhámos.
A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se chama o _Carcere de nosso Salvador_, no qual esteve em tanto, que os Judeos esperavaõ, que a Cruz, e o lugar em que se havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante visitámos huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a _Christo Senhor nosso_, lançáraõ sortes sobre as suas vestiduras. Mais adiante entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos, chegámos à Capella de S. Helena, mãy do Emperador Constantino, em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze degraos, feitos na mesma penha do _Monte Calvario_, e he o Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo, cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chamaõ-se estas Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ bem fabricadas, e muito espaçosas, ainda que debaixo da terra, que corresponde ao Calvario.
Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde està hum pedaço de huma columna, em que Christo Senhor nosso esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui subimos por dezanove degraos, e fomos ao _Santo Monte Calvario_, e nos pareceo, que entràvamos no Paraiso. Estando no alto, vimos huma Capella, que saõ duas estancias a modo de tribuna, que corresponde à primeira nave da Igreja. A primeira he o Lugar Sacratissimo, em que o _Filho de Deos_ foy levantado na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve fixada. Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e beijámos, como Santuario taõ admiravel. Metemos dentro os nossos braços nùs, e assim digo, que terá de fundo como trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das cruzes dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e outra cruz. Ha entre a de _Christo Senhor nosso_, e a do mào Ladraõ, _huma abertura_ na penha de sete palmos de comprido, e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar da _Invençaõ da Santa Cruz_. Esta se abrio quando _Christo Senhor nosso_ espirou. Na outra parte da Capella, a trez passos, està o Lugar em que cravaraõ a _Christo Senhor nosso_, estando a Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e puzeraõ no sitio referido. Donde isto succedeo está huma memoria de jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama da _Crucifixaõ_, toda está cuberta de marmore, e jaspe finissimo com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico, de que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas as naçoens de Christãos. Dissemos Missa na parte da _Crucifixaõ_, na sexta feira seguinte ao dia, em que entràmos, e foy a da _Paixaõ secundùm Joannem_; e este Altar se divide com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de devoçaõ, que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando, que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou neste Santissimo Lugar. A parte donde _Christo Senhor nosso_ foy encravado, està entregue ao cuidado dos Religiosos de Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre estaõ neste Sagrado Lugar rezando, e cantando. Saõ virtuosissimos Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He taõ agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do _Sagrado Monte_, que não se enfada, ou cança alguem de estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ aqui alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias, vendo, e considerando o _Calvario_, e _Santo Sepulchro_, porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!
Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo da primeira nave, e veneràmos huma pedra grande, pegada na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo; e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas de todas as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido _Christo Senhor nosso_ para o sepultarem, por seus devotos servos, _Nicodemus_, e _Joseph ab Arimathea_, assistindo a _Virgem Senhora nossa_, e as mais _Santas Mulheres_, e o amado Discipulo _Saõ Joaõ_. Este Santo, Lugar està defronte da porta da Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e os que estaõ fóra, por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as Indulgencias. Daqui ao _Santo Sepulchro_ haverà quarenta passos para a parte do Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia possuem os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e sómente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua fórma he esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada, em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo della está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso. Nesta pedra, dizem, que o _Anjo_ estava sentado, quando fallou às _Marias_, dizendo-lhes, que já _Christo Senhor nosso_ resuscitára. Por esta Capella se entra a outra taõ pequena, que a porta terá quatro palmos de alto, e trez de largo. Á maõ direita está o _Santo Sepulchro de nosso Salvador_, donde esteve o seu _Santissimo Corpo_, e delle resuscitou. He hum Altar como huma arca, cuberta com huma pedra marmore. Sobre este preciosissimo _Sepulchro_ dissémos Missa; e naõ cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm o mais gozaõ todos, tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem muitas alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela misericordia de Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e foy grande alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho: _Surrexit, non est hîc, ecce locus ubi posuerunt eum_; sinalando com o dedo o lugar adonde esteve o _nosso Salvador_. Move certamente os nossos coraçoens esta verdadeira representaçaõ.