Isabel d'Aragão a Rainha Santa Historia sucinta da sua vida, morte e excelsas virtudes
Part 1
Produced by Pedro Saborano
ISABEL D'ARAGÃO
A
RAINHA SANTA
HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES
DEDICADA AOS FIEIS
COIMBRA GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA 1921
ISABEL D'ARAGÃO
A
RAINHA SANTA
HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES
DEDICADA AOS FIEIS
COIMBRA GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA 1921
PRÓLOGO
Muito se tem escrito ácerca da vida da excelsa e virtuosissima D. Isabel d'Aragão, Esposa d'el-rei D. Dinís; mas impunha-se ha muito a publicação dum folheto, como este, que sendo conciso na sua descrição não deixasse de relatar os factos que mais distinguiram Aquela que a cidade de Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protectora.
O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fieis, com grande economia de preço, um livrinho de leitura facil e corrente, ao alcance de todos, onde a historia sagrada da Rainha Santa possa deixar bem arreigada no espirito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente maravilhosa, que lhe concedeu logar na côrte celestial.
As notas que colhemos foram, principalmente, extraídas do monumental trabalho de investigação historica do Ex.^o Sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, na sua tão apreciada obra _D. Isabel d' Aragão_.
* * * * *
A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal e por muitas terras de Hespanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em parte alguma do nosso país se realizam festas tão pomposas em honra dum santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50:000 pessoas por essa ocasião.
É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, principalmente, recorrem á protecção da Rainha Santa na sua fervorosa suplica, e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é já poderoso linitivo para a sua dôr a lembrança de que Ela nunca desamparou os infelizes com a sua divina graça.
Isabel d'Aragão tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu tambem uma prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento que o seu corpo sagrado repousasse no mosteiro de Santa Clara desta cidade, onde Ela esteve clausurada e donde foi trasladado o seu corpo para o novo mosteiro do mesmo nome.
É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memoria sagrada da Sua excelsa Padroeira.
CAPITULO I
Nascimento da Rainha Santa
Da côrte de Aragão ao Trono de Portugal
A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada Protectora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), no ano de 1271.
Filha do Principe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que seu avô, El-rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discordia com D. Pedro de Aragão, imediatamente se congraçou com este, passando ambos a viver na mais doce harmonia.
Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a harmonia e a concordia entre os desavindos, facto que mais tarde, quando Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenças entre seu esposo El-rei D. Dinís e seu filho D. Afonso IV.
A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs á consideração de todas as côrtes da Europa, facto que despertou em bastantes principes o desejo de possuirem como esposa tão excelsa senhora.
Foi á côrte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinís a gloria de ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.
* * * * *
O casamento de D. Dinís com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro de 1282 e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Êste auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regosijo para todos os portugueses, antevendo estes os enormes beneficios deste casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o país com demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação.
A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas, custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel deixava em todos os corações que muito a estremeciam.
De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria á sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bençãos nupciais.
Em Coimbra, onde a esse tempo residia a côrte juntamente com a principal nobresa do reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos régios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que, mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro--o sagrado corpo que todos hoje veneramos--e que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção.
As manifestações de regosijo com que a cidade recebeu os régios consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuida por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da nação portuguesa, e de que Coimbra comparticipou em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.
Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros por ela prestados á indigencia, aos órfãos, ás viúvas e ás donzelas abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua coroa de gloria; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificencia sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem duvida, a fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero dos eleitos do Senhor.
CAPITULO II
Actos de Caridade
Se durante a vida de El-rei D. Dinís a acção da Rainha Santa foi um constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua viuvês, a sua acção tornou-se verdadeiramente exemplar.
O numero de factos que desde então assinalam tão gloriosa existencia na terra, mais e mais fazem arreigar na alma do povo a convicção dos designios de Deus por Ela tão santamente interpretados.
Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira Clarista e volvendo os olhos piedosos para um mais largo horisonte, consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando hospicios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua protecção, muitas infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcançaram na terra a felicidade que só sabem gosar as almas puras e simples.
Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da viuvês, foi trocar os faustos das glorias terrenas pela humildade da clausura a que, como já dissemos, livremente se sujeitou.
* * * * *
Junto dos seus Paços riais corriam vagarosamente as obras para a fundação do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se por demandas entre os frades Cruzios e D. Maior Dias, fundadora daquele convento, e que certamente ficariam incompletas se não fosse o auxilio e protecção que a Rainha Santa dispensou para a sua rapida conclusão.
Uma vez concluido, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste convento um asilo para órfãos e para a pobresa envergonhada, chamando para junto de si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem as crianças desvalidas!
A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuido por forma a satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante empregava-o no ministerio da caridade visitando os asilados, a quem não só consolava com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira curando as chagas que lhes corroiam o corpo.
Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação dispendia a Rainha Santa quasi toda a sua fortuna. Com o auxilio de Deus, a quem firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para se desempenhar da sua nobre missão. Os proventos de que dispunha parece que tinham o condão de se multiplicar e, se algumas vezes houve em que o seu socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, então eram as Rosas que, adquirindo a forma de oiro reluzente, premiavam os seus actos de caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o pão aos famintos!
Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.ª o sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da Universidade de Coimbra[1], constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais altos beneficios em favor dos desprotegidos.
CAPITULO III
Morte da Rainha Santa
Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos monarcas.
Quando a Rainha Santa soube de tal resolução imediatamente se resolveu a partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho acompanhado de toda a Côrte.
Êste propósito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inuteis rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha Santa, despresando esses bons conselhos e animada sómente em restabelecer a paz entre os reis desavindos--filho e neto--, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas cheia de animo para cumprir a sua carinhosa missão.
Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saude exigia.
Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma pústula que rapidamente lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o seu estado e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria receber os ultimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua ultima hora, e erguendo o pensamento até ao Ceu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiastico:
Mãe de graças e Misericordia Maria piedosa e forte: Livra a minha alma, recebe-a Na hora da minha morte.
A seguir recita com visivel comoção algumas orações; os olhos fecham-se lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, solta do seu veneravel corpo, subia aos céus a receber o premio das suas virtudes, descançando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gosará a bemaventurança com que Deus premeia os seus eleitos.
* * * * *
É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está recebendo o premio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dôres humanas, e que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa devoção.
CAPITULO IV
Trasladações
I
Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fôsse trasladado para a Sé de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de El-rei procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em pratica o desejo ali expresso.
Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de El-rei.
O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo dum sol abrazador.
As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente da decomposição do cadaver.
Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação da sua omnipotencia.
Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se então scenas comovedoras e lancinantes entre a população citadina. Todos á porfia queriam beijar o ataúde onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora, ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade!
Quando o ataúde deu entrada na igreja de Santa Clara muita gente supôs que o corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do publico. Tal se não deu; no dia seguinte, 12 de Julho, é que se celebraram os oficios divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a solenidade e com a assistencia de alguns Prelados, Professores da Universidade, Rei, Cabido e muitos religiosos das diversas ordens.
Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava o tumulo de pedra que em sua vida também mandara construir _(fig. 1)_.
Foi dentro dêste precioso moimento de pedra, ricamente cinzelado, que se colocou o ataúde tal qual veiu de Estremoz, envolvido numa pele de boi e com um pano de brocado repregado por cima.
Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o arcebispo de S. Tiago de Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela visitou esta cidade, sendo em seguida fechado o tumulo com a pesada pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da Rainha Santa com habito de freira.
Assim se conservou até ao dia 26 de Março de 1612, 276 anos depois da sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontifice.
[Figura 1: Túmulo de Pedra]
Esta cerimonia, que se tornou necessaria para se proceder ao processo de canonização de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra D. Afonso de Castelo Branco, e tendo como assistentes D. Martim Afonso, Bispo de Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois medicos, um cirurgião e algumas testemunhas a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos mortais da Rainha Santa.
Pedimos licença para trasladar para aqui o relato que sobre esta cerimónia encontramos no autorizado livrinho--_Historia Popular da Rainha Santa Isabel--Protectora de Coimbra_.........
«Subindo à capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com todo o cuidado por fóra, acharam-no exactamente como havia ficado 276 anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Áquela cujos restos ali estavam encerrados.
«Ninguem sabia se o tumulo continha sómente os ossos da santa Esposa de D. Dinís, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse.
«Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.
«O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela vermelha que havia sido repregada por cima.
«Com dificuldade se despregou a taboa superior do ataúde, cortaram-se à tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada em Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido colocados pouco antes.
«Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que viam!
«O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a cabeça coberta de louros cabelos, perfeitamente seguros na pele, a boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa. Vestia o habito de estamenha das freiras de santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saia aroma suave.
«Á vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, dizendo: _Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder_.
«Feito pelos medicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se lavrou o auto competente».
II
Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do rio Mondego muito grave se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. Como as invernias ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes do convento, as religiosas reciavam, e com razão, ficar sepultadas sob os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que enriqueciam a Igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo da Rainha Santa.
Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. João IV ouvir os rogos das religiosas claristas e mandou erigir no monte da Senhora da Esperança um novo convento para sua habitação.
As obras deste grandioso edificio, que se prolongaram durante muito tempo, foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649 e só no dia 29 de Outubro de 1677, 28 anos depois, êle estava apto a receber as referidas religiosas.
Por ordem do Principe regente D. Pedro, 2.º filho de D. João IV, procedeu-se no dia 27 de Outubro daquele ano á abertura do túmulo da Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Côrte, 8 Bispos. Professores da Universidade e muitos religiosos das diversas ordens de Coimbra. Como se verificasse que o caixão que guardava o corpo da Rainha Santa estava um tanto deteriorado, logo se procedeu á construção dum outro que o substituisse e para o qual foi mudado o corpo da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta operação quiz o acaso que se soltassem algumas pregas das roupagens que envolviam os despojos de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a mão direita desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em tão perfeito estado de conservação que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser osculada, como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema felicidade de ali estar reunidos.
Duraram os preparativos da trasladação para o novo convento ainda 2 dias e, em 29 de Outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida procissionalmente, acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de atravessar por entre duas alas compactas de povo que se estendiam até ao novo convento.
Como a essa data não estivesse ainda concluida a Igreja que hoje admiramos, foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala existente ao fundo do côro, colocando-se então no precioso e riquíssimo túmulo de prata _(fig. 2)_ que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais notaveis Prelados desta diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje se guarda o precioso tesouro que Coimbra venera com o maior respeito e o mais devotado amor!
* * * * *
Concluida que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho de 1696 a nova trasladação da Rainha Santa para a tribuna da Capela-mór, lugar em que esteve durante muitos anos e donde teve de mudar-se por causa da invasão dos francêses.
[Figura 2: Túmulo de Prata]
No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso país, apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e, apressadamente, retiraram tambem do seu lugar o tumulo da Rainha Santa, o objecto da sua mais estremecida estima, indo ocultá-lo numa cela do dormitorio, a última do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta confiança o entaiparam sob um arco que engenhosamente foi disfarçado com uma cortina de alvenaria.
Aí se conservou o tumulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que se estabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu lugar com grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de Coimbra que anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada Protectora, da sua excelsa Padroeira.
* * * * *
Infelizmente não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo da Rainha Santa.
Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo para o côro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele ano, foi D. Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu séquito, foi aberto o caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa de D. Dinís.
Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de 1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando aqui esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912 conservou-se sempre o tumulo da Rainha Santa no referido côro.
Como a esta data o convento de Santa Clara não tivesse já quem zelosamente pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local onde êle estava não oferecia as necessarias condições de segurança, podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer residencia neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa desta Confraria que o tumulo fôsse mudado para o lugar que lhe era mais proprio, a tribuna da Capela-mór da Igreja, lugar onde agora se conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a fidelidade a forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar ocasião de presenciar tão emocionante como piedoso acto, cuja descrição respigamos dum jornal desta terra[2].
«Do côro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado para a tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riquíssimo túmulo de prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.