Introdução á archeologia da peninsula Iberica
Part 8
Apesar da sua remota antiguidade e do seu prognathismo, o craneo de Menton, pelo angulo facial, pela proeminencia de _vertex_, pelo grande volume da parte posterior, etc., assimilha-se aos craneos da mais perfeita das raças actuaes. Comtudo para contrapôr a este facto que tenderia a provar a invariabilidade do typo humano durante largos periodos de tempo, ha os craneos de Neanderthal, de Forbes’Quarry, de Brux, de Eguisheim e as maxillas encontradas na caverna de La Naulette e n’outros logares. Estes vestigios, de epocas mais remotas, demonstram a diversidade anatomica dos homens a quem pertenceram, em relação ao typo humano da actualidade.
Nos paizes, onde mais se cultivam os estudos prehistoricos, têem-se explorado as cavernas para colher os numerosos e importantes vestigios que ellas contêem do homem primitivo. Na Peninsula muitas estão já exploradas, mais em Hespanha que em Portugal, mas ha ainda muitissimas para explorar. Falta sobre tudo comparar os resultados obtidos e aquelles que por ventura se possam obter, para lançar alguma luz por entre as trevas espessas que involvem ainda hoje os tempos anteriores á historia.
Em 1865 Luiz Lartet explorou as cavernas do terreno jurassico da Sierra Cebollera, no termo de Torrecilla de Cameros, Nieva de Cameros e Ortigosa, nas mais notaveis das quaes, na superior e na inferior da Peña de Miel e na Lobrega, encontrou machados, facas, raspadores, ceramica e alguns utensilios de osso, pertencentes á epoca neolithica ou da pedra polida. As cavernas exploradas attribuia-as Lartet a tres diversas idades: 1.ª do rhinoceronte, mas de uma especie differente do _R. tichorhinus_ que parece não ter atravessado nem os Alpes nem os Pyreneus. 2.ª Do boi primitivo, e unicamente d’elle, porque na Peninsula não apparecem vestigios do rangifer nem da maior parte dos mammiferos que nas cavernas da França lhe andam associados. 3.ª Das especies domesticas. Das cavernas da primeira idade suppoz o explorador que não seriam habitadas pelo homem na epoca do rhinoceronte. Nas da segunda idade achou instrumentos de osso e de pedra lascada, similhantes áquelles que em França caracterisam a epoca mesolithica, e nas da terceira idade depararam-se-lhe mais numerosos os silex polidos, os instrumentos de osso mais perfeitos, a ceramica, etc.[62]
O Capitão Brome explorou muitas cavernas do monte Calpe na bahia de Gibraltar. Pela situação geographica d’estas cavernas, os fosseis e os productos da industria humana aqui encontrados têem grande importancia para o estudo das origens ethnicas e das emigrações dos povos primitivos. Conheceu-o o governo inglez, e incumbiu os srs. Busk e Falconer de estudarem tão curiosos vestigios prehistoricos. N’uma d’aquellas cavernas, que chamam _Genista_, acharam estes naturalistas restos fosseis da _hyena crocuta_, especie africana ainda existente, do leopardo, lynce, gato do Cabo, cervo de Barbaria e de uma especie de ibex. Porém, como os instrumentos encontrados pertencem á epoca neolithica, é possivel que o homem habitasse as cavernas de Gibraltar posteriormente áquelles animaes. O celebre craneo da Pedreira de Forbes, similhante ao de Néanderthal, é que póde ser anterior á epoca da pedra polida e, portanto, contemporaneo de uma fauna differente da actual[63].
O sr. Vilanova explorou na provincia de Valencia as cavernas de Parpalló, na falda occidental de Monduber, no termo da cidade de Gandia; de Cova Negra entre as aguas de Bellus e a cidade de Jativa na margem esquerda do rio Albaida; de San Nicolás, no termo da Olleria; de Avellanera, no termo de Catadau, na falda septemtrional de Matamon; e finalmente das Maravillas, no termo de Gandia. Encontrou o explorador grande variedade de ossos, dentes, conchas, paus de veado, facas e pontas de frecha de silex, ceramica, etc. Estas cavernas attribuiu-as o sr. Vilanova á epoca paleolithica. Basta porém a presença da ceramica e dos animaes domesticos para se conhecer que seriam habitadas na epoca neolithica. O sr. Tubino tambem affirma que, sómente pelos fragmentos de silex, se não podem classificar as cavernas de Valencia na epoca paleolithica[64].
O sr. Mac-Pherson explorou a Cueva de la Mujer, situada n’um cerro chamado Mesa del Baño, junto do estabelecimento thermal de Alhama de Granada, a cincoenta metros sobre o rio Marchan. Em duas memorias, illustradas com muitas estampas, deu o explorador curiosa noticia dos vestigios descobertos em duas explorações successivas, uma no deposito superior, outra no deposito inferior d’esta caverna. Os vestigios foram fragmentos de ceramica, alguns tintos de encarnado com almagre; facas e lascas de silex; ossos furados para servirem de amuletos ou adornos, furadores ou puncções de osso; fragmentos de conchas; craneos humanos, ossos e dentes de varios animaes, alguns abertos no sentido longitudinal, talvez para lhes extrahirem a medulla; carvão e cinza; um bracelete feito de uma concha (fig. 47), etc.[65]
Nota-se grande similhança entre estes vestigios, os das cavernas de Gibraltar e de Albuñol na Andaluzia, e os das estações prehistoricas da epoca da pedra polida em Portugal, taes como a Fonte da Ruptura e a Pena de Setubal, a Cova da Estria, etc. No museu da Escola Polytechnica ou na Commissão geologica, talvez em ambas as partes, se conservam tambem fragmentos de louça tintos com almagre. Da exploração da caverna de Albuñol pelo sr. Gongora já demos noticia n’um dos capitulos anteriores[66].
Em Portugal têem-se emprehendido menos explorações que em Hespanha. Comtudo as do sr. Delgado nas cavernas de Cesareda, pelo cuidado com que foram feitas, pela minuciosidade e exactidão das noticias que publicou, serão em todo o tempo dos mais importantes subsidios para o estudo d’esta parte da prehistoria peninsular.
A Cesareda é um planalto de calcareo, situado ao norte da linha divisoria d’aguas do Tejo, a seis kilometros da costa do mar, e além do sopé septemtrional da serra de Monte-Junto. A Casa da Moura, a Lapa furada e a Cova da Moura foram as tres cavernas exploradas na Cesareda, e descriptas em 1867 pelo sr. Delgado. A primeira é de todas tres a mais importante, não sómente pelas suas dimensões, mas tambem pelo numero e variedade de restos humanos e de animaes que se descobriram. Consta interiormente a caverna de duas salas irregulares com abobadas em alturas differentes; a da sala de fóra mas baixa e inclinada, a da outra sala, muito alta e similhante a um zimborio. Dá entrada para a caverna um poço vertical rectangular, com uns quatro metros de profundidade, e tres na sua maior largura.
Verificou-se haver na sala de fóra dois depositos de idades differentes sobrepostos. No superior abundavam os ossos humanos e os utensilios e instrumentos de pedra polida, de osso, de ponta de veado e de barro. Pelo contrario no deposito inferior appareceram apenas alguns silex lascados, o fragmento de um puncção de osso e um craneo humano mesocephalo. Entre os objectos achados no entulho superior da sala exterior da Casa da Moura é muito para notar-se o fragmento de um osso longo, provavelmente um humero humano, cheio de terra amassada com vertebras pequenas e ossiculos que pareceram de morcego. Na sala interior appareceu tambem outro fragmento de osso humano longo, similhantemente cheio de terra amassada com ossos de morcego[67].
O sr. Delgado admitte, como cousa provavel, que os habitantes da Casa da Moura fossem anthropophagos. A sua opinião tem por fundamento os factos seguintes: 1.º Serem muito mais numerosos os ossos longos que os chatos ou curtos. 2.º Acharem-se alguns partidos no sentido longitudinal. 3.º Faltarem á maior parte as extremidades articulares. 4.º Terem pertencido a maior parte das maxillas a individuos novos, e algumas a crianças de tenra idade. 5.º Parecerem alguns excavados por dentro. 6.º Não ter apparecido senão um craneo inteiro, porém muitos partidos em fragmentos pequenos[68].
Esta questão da anthropophagia dos habitantes das cavernas, durante os tempos prehistoricos, tem sido muito debatida. É obvia a sua importancia. A existencia de tal costume importaria necessariamente a idéa de degradação e inferioridade moral. Spring é quem mais tem querido persuadir que os homens prehistoricos, teriam sido anthropophagos, estribando-se n’alguns dos factos observados na Casa da Moura, já antecedentemente conhecidos de outras cavernas.
Na opinião de alguns auctores as provas adduzidas para qualificar de anthropophagos os habitantes das cavernas são insufficientes. Os ossos podem partir-se sómente pela acção do peso da terra que os cobre. A fractura operada em taes circumstancias é transversal. Porém sob a influencia da atmosphera, segundo affirma Dupont, é possivel tomarem os fragmentos a fórma de lascas alongadas, similhantes áquellas que resultariam da fractura intencionalmente feita pela mão do homem. Os esquimaus contemporaneos partem ainda hoje os ossos compridos com os calhaus rolados. Por muitas vezes os percutem nas extremidades para fazer saltar fóra as epiphyses. Depois fendem o corpo do osso com o mesmo calhau. Em certas cavernas têem apparecido ossos partidos por esta fórma, nos quaes se observam os vestigios das percussões que padeceram. Porém nos ossos humanos ainda se não apontaram taes vestigios. É possivel que estes ossos, apparecidos em tantas cavernas e mencionados como provas de anthropophagia, não sejam senão restos de corpos ali enterrados. Acharem-se tão divididos em fragmentos é um facto que se explica ou pelo peso da terra e pela acção do ar, ou por terem entrado as féras dentro das cavernas para revolver a terra e partir os ossos. As cavernas que o homem hoje explora o têem sido já antecedentemente pelas raposas e texugos. A raposa, dizem, chega a exhumar as ossadas, por mais antigas que sejam, para as roer no tempo da neve ou em quanto nutre os filhos; isto é quando a fome a obriga a supprir a falta de alimentos com substancias em que a materia organica deve ter quasi inteiramente desapparecido. Esta causa sería pois sufficiente para explicar a falta das extremidades articulares nos ossos longos, e o desgastamento do canal medullar, observados pelo sr. Delgado[69].
Razões ponderosas obstam a que se considere a anthropophagia costume geral dos habitantes das cavernas. Excepto em condições excepcionaes, como sob o imperio da fome ou de instinctos depravados ou corrompidos, nenhum animal se alimenta com as carnes de qualquer cadaver de um individuo da sua mesma especie. Esta repugnancia deriva provavelmente da lei geral da conservação especifica, segundo a qual, os individuos da mesma especie não podem destruir-se uns aos outros. Os selvagens anthropophagos são excepções. D’alguns se sabe entre os quaes se tem conservado este costume, somente pela razão de não terem carne de animaes para se alimentarem. Em certas ilhas do Pacifico cessou a anthropophagia logo que os navios europeus as forneceram de gados que antecedentemente não tinham[70].
Dos sentimentos de horror, de medo, de nojo que entre as mais antigas das nações civilisadas inspiravam os cadaveres, a ponto de se julgar impuro o individuo que tivesse tocado algum, concluiremos a incompatibilidade da anthropophagia com as condições sociaes de qualquer povo, entrado na via do progresso e capaz de se elevar pelo desenvolvimento das faculdades intellectuaes e moraes, a um grau superior de civilisação e cultura.
Alguns dos craneos inteiros ou mutilados, descobertos em Hespanha na Cueva de la Mujer da Alhama de Granada, e em Portugal no Cabeço da Arruda e nas cavernas de Cesareda pareceu ao sr. Quatrefages reproduzirem alguns dos mais proeminentes dos caracteres do celebre craneo de Forbes’Quarry em Gibraltar, e poderem attribuir-se ao cruzamento de individuos d’aquella mesma raça com os de outra raça differente. Taes foram as razões que induziram o sr. Tubino a referir ao mesmo periodo da epoca neolithica as estações prehistoricas de Alhama, de Cesareda e do Cabeço da Arruda[71].
NOTAS DE RODAPÉ:
[61] Burgmeister, _Histoire de la création_. Pariz 1870, pag. 591 e 592.
[62] Vilanova, _Prehistorico español--Epoca neolithica--Museo español de antigüedades_, tomo 1.
[63] Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tomo VII, 1876.
[64] Vilanova, Mem. cit. do _Museo español de antigüedades_ e dos _Anales de la sociedade de historia natural_.
[65] G. Mac-Pherson, _La Cueva de la Mujer_. 1.ª e 2.ª parte.
[66] Vej. cap. IV, pag. 57.
[67] Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa 1867.
Animaes das cavernas de Cesareda:
_Erinaceus_ _Canis lupus_ _Felis_ _Arvicola_ _Lepus_ _Cervus_ _Vespertilio_ _Canis vulpes_ _Myoxus_ _Mus_ _Equus_ _Ovis_.
[68] Ibidem.
[69] Dupont, _L’homme pendant les âges de la pierre_. Pariz 1872.
[70] M.ᵐᵉ Clemence Royer, _Les rites funéraires aux époques préhistoriques_. Pariz 1876.
[71] _Crania ethnica._ Tubino, _Loc. cit._ Vid. o cap. III d’este livro a pag. 27.
CAPITULO VI
OS MEGALITHOS
_Os megalithos.--Especies varias.--Menhires.--Fins para que serviriam.--Alguns symbolisavam a Divindade.--Alinhamentos e cromlechs.--Pedras balouçantes.--Algumas serviriam de altares.--Dolmens.--Differenças entre os de Portugal, Andaluzia e Galiza.--Distribuição geographica d’estes monumentos na Peninsula.--Tumulos.--Differem essencialmente dos dolmens.--Serviram de sepulturas.--Lei da distribuição geographica dos tumulos.--Cueva de Mengal.--Cueva de la Pastora.--Lei da antinomia dos monumentos megalithicos e cyclopeos.--Tumulos da provincia de Alava.--Castros da Galiza e de Traz-os-Montes.--Cava de Viriato em Vizeu._
As antas ou dolmens, bem como outros monumentos, rudemente fabricados de grandes pedras, eram ainda ha pouco tempo attribuidos aos celtas. Chamavam-lhes _altares ou monumentos druidicos_, por julgarem que teriam servido para as ceremonias do culto, usadas por aquelles povos, cujos sacerdotes n’algumas partes se denominavam _druidas_. Tal era a opinião dos archeologos do seculo passado e da primeira metade d’este seculo, seguida pelo nosso Martinho de Mendonça de Pina, da Academia da Historia, na dissertação que escreveu do assumpto[72].
Porém modernamente demonstrou-se por uma parte haver taes monumentos em paizes aonde os celtas não chegaram, e por outra parte que, pertencendo estes já aos tempos historicos, aquelles, pelo contrario, estavam envolvidos nas trevas da prehistoria, não se sabendo ao certo quem, quando e para que os construira. A fim portanto de prevenir qualquer opinião anticipada e por ventura erronea, convencionaram os archeologos dar-lhes o nome de _Megalithos ou Monumentos megalithicos_, o que significa apenas serem feitos de grandes pedras, verdade a todos manifesta[73].
Dos megalithos ha varias especies, taes como o _menhir_, o _cromlech_, o _dolmen_, o _tumulo_ a _galeria_ e a _pedra balouçante_[74].
O _menhir_ é o monolitho alongado, vertical, pousado no chão ou enterrado em pequena ou grande profundidade. O da communa de Plouharzel, um dos mais altos da Bretanha, tem doze metros. Mais de vinte e dois metros de altura tinha outro que parecia presidir aos numerosos megalithos da peninsula de Locmariaker. Jaz actualmente por terra, partido em quatro. De todos os conhecidos, os das regiões centraes da Asia são os unicos comparaveis aos da Bretanha na altura.
Em Hespanha, na provincia de Galiza, no municipio de Esgos, ao norte da egreja parochial, eleva-se á altura de onze metros um menhir formado de quatro pedras sobrepostas. Na mesma provincia ha outras pedras alongadas, verticaes, porém de menor altura, que o sr. Sivelo classifica tambem entre os menhires. Tal é o do municipio de Lobios, na Serra de Gerez, o qual tem seis metros de altura[75].
O sr. D. Manoel de Assas julga serem menhires certas pedras que lhe consta existirem na provincia de Navarra. Na Andaluzia, entre Baena e Bujalance, provincia de Jaen, ha o celebrado _Menhir de las Virgenes_, do qual os camponezes cantam:
Jilica jilando puso aqui este tango y Menga Mengal lo volvió á quitar[76].
Em Portugal consta haver duas alas de pedra e um menhir proximo, no caminho de Cepães a Fafe, no districto de Braga[77]. Em Castello de Paiva ha outro muito notavel. Compõe-se de seis marcos ou pilares, de tres pedras cada um, sobrepostas, tendo as ultimas pedras de cima a sua _extremidade oblonga_. Os pilares eram sete, mas o setimo jaz cahido por terra[78]. Este monumento, bem como o primeiro que mencionámos da Galiza, parece não ter sido levantado em epocas muito remotas.
Quem, e com que fim erigiria os menhires em tantos logares da superficie da terra habitada? A nenhuma d’estas perguntas responde a archeologia. «Ao menhir, diz Rougemont, podiam aquelles que o erigiam fazer significar tudo o que bem lhes approuvesse. Ora, na maior parte dos casos, é mui difficil, para não dizer impossivel, descobrir os motivos determinantes da erecção de taes monumentos. Quando porém se podér rastejar a verdade será sómente pelos testimunhos da historia, pelo exame attento da fórma dos menhires, ás vezes assaz complicada; pelo modo por que estiverem situados nos valles, ou nas montanhas, ou nos tumulos; pelas relações em que estiverem com outros monumentos circumvisinhos; e finalmente pelos rudimentos de esculpturas ou de inscripções, que por ventura contenham, traçados por mão inexperta»[79]. Resta accrescentar o exame dos objectos que estiverem sepultados junto ou por baixo de taes monumentos, e que pareçam contemporaneos. Assim é que as ossadas humanas e restos de carvão, achados ao pé de alguns menhires em França e na Grã-Bretanha, fazem suspeitar d’essas pedras que seriam monumentos funerarios; outros, como os de Tredion (Morbihan) e de Loudun (Vienne, Poitou), parece terem antes servido de idolos por terminarem á maneira de cabeça, posto que disforme.
Levantar uma pedra para commemorar um facto importante, é costume que a historia nos prova existir em differentes povos, e que póde até nascer espontaneamente, em qualquer estado social, em gentes que não tenham communicado entre si. O menhir é a fórma primitiva da columna monumental com inscripção e baixo relevo. Ora se estes monumentos apparecem no seu estado perfeito em povos mui differentes e incommunicaveis, que muito que na sua fórma primordial nascessem espontaneamente n’um estado social inferior? Da mesma sorte as pedras brutescas antecederam os cippos com ornatos e inscripções; e dos rudes vasos d’argilla, feitos á mão e seccados ao sol, por varios povos primitivos, derivaram por differentes modos, obras notaveis da ceramica na China, no Egypto ou na Etruria.
Ha porém certas particularidades dos usos e costumes que parece antes haverem sido transmittidas de um a outros povos, do que apparecidas espontaneamente em diversos logares habitados da superficie da terra. Tal é, por exemplo, commemorar o numero de inimigos mortos por um guerreiro, collocando outras tantas pedras de roda do seu tumulo, como faziam iberos e tartaros orientaes. É possivel que o principio d’este costume esteja na origem commum da civilisação dos dois povos, posto que de raças differentes, ou então n’um povo asiatico que por suas emigrações influisse egualmente nos turcos orientaes e nos iberos transmittindo tanto a uns como a outros as suas ceremonias funerarias.
Muitos dos menhires, erguidos com um fim diverso e mais elevado, qual era o de symbolisarem a Divindade, tornaram-se objectos de adoração. Prova-nos a historia que os phenicios, os arabes, os egypcios, os assyrios, os gregos primitivos e outros povos representavam por meio dos obeliscos ou pilares de pedra os principaes dos seus deuses; entre alguns, como foram os scandinavos, a mesma palavra significava _idolo_ e _pedra_[80]. Ainda, depois de convertidos á religião christã, certos povos continuaram a adorar os seus antigos menhires, vendo-se obrigados os ministros do culto a mandar esculpir cruzes n’esses monumentos para fazer cessar, transformando-a em adoração religiosa, uma idolatria que o habito perpetuava de geração em geração. Presentemente continuam os camponezes a ungir com azeite e a ornar de flores os pilares dos famosos alinhamentos de Carnac, bem como as pedras balouçantes. Os recem-casados vão ainda hoje no districto de Brest esfregar o estomago pelo menhir de Kerloaz, que tem onze metros de alto, para impetrar de algum deus obsoleto o dom da fecundidade[81].
Têem alguns confundido os menhires com as _petras fictas_. Estas, como se prova com documentos antigos, serviam apenas para demarcar as terras. A palavra _Fito_, só por si, significava _Marco levantado_[82].
Os menhires dispostos n’uma linha unica ou em muitas linhas parallelas fórmam os alinhamentos. É dos mais notaveis e conhecidos o de Carnac na Bretanha, feito de onze series de pedras não afeiçoadas, mui differentes em tamanho e altura, a maior das quaes se eleva vinte e dois pés acima do terreno circumjacente. As outras em proporção d’esta são muito menores. As avenidas, hoje mutiladas, parece terem tido outr’ora muitas milhas de comprido.
Quando os menhires fórmam um circulo ou uma oval ou outra curva, a esse grupo megalithico chama-se _cromlech_. Entre os alinhamentos e os cromlechs não ha differença essencial. A alguns, como ao de Carnac, se dará um ou outro d’aquelles nomes, conforme o sentido em que se considerarem as pedras. Do centro para a circumferencia cada serie é uma linha recta. Em roda do centro, formando curvas concentricas, as series são circulares. Assim no primeiro caso chamar-se-ha ao grupo um alinhamento, e no segundo caso um cromlech. Com effeito ao grupo megalithico de Carnac dão uns o primeiro, outros o segundo d’estes dois nomes.
O _loghan_ ou _pedra balouçante_ é o menos commum e o mais enigmatico dos megalithos. Como o seu nome o está dizendo, consiste n’uma pedra enorme, posta em taes condições de equilibrio, que, por effeito de qualquer impulso, se move e oscilla. Ou tem por base outra ou outras pedras, ou o proprio solo onde se appoia. É muito notavel a _Piedra grande_ de Boariza na provincia de Santander em Hespanha (fig. 48).
A uns cem passos ao noroeste da _Piedra grande_ está a _Piedra chica_, outra pedra balouçante, mas de menores dimensões. O sr. D. Manuel de Assas dá noticia de outra a oeste da villa de Luque, provincia de Cordova, e de mais duas nas ilhas de Bayona de Galiza[83].
[Illustração: Fig. 48
PEDRA BALOUÇANTE DE BOARIZA, NA PROVINCIA DE SANTANDER.]
Na provincia de Santander ha outra pedra balouçante que inexactamente tem passado por dolmen.
[Illustração: Fig. 49
PEDRA BALOUÇANTE DE ABRA NA PROVINCIA DE SANTANDER.]
Eis aqui a descripção que de tão notavel megalitho nos dá o sr. Amador de los Rios: