Introdução á archeologia da peninsula Iberica

Part 6

Chapter 63,723 wordsPublic domain

Em Hespanha, na provincia de Castella a Velha, ha uns depositos muito notaveis que, mais bem estudados do que até hoje o têem sido, esclarecerão talvez com importantes factos a epoca das estações de Argecilla e do Cabeço da Arruda. Esses depositos, constituidos principalmente por ossos, e em tamanha quantidade que têem sido exportados para França a fim de se lhes darem applicações industriaes, encontram-se n’uma região de trinta a quarenta leguas quadradas nos confins das provincias de Leão, Valhadolid e Palencia. Com os ossos, affirma o sr. Vilanova, apparecem machados toscos e polidos, ceramica grossa e fina, vidro irisado por decomposição, objectos de ouro e outros metaes, esculpturas de osso, etc. Dos restos organicos menciona os paus, mandibulas e ossos largos dos cervos; cabeças d’estes mesmos animaes inteiras ou sem maxilla inferior; alguma aberta intencionalmente na base pelo homem a fim de lhe extrahir a massa encephalica, portanto em condições analogas ás d’aquellas que se tem descoberto nas _palafittas_ ou cidades lacustres da Suissa. Alguns dos paus de veado são lavrados ou polidos ou desgastados, bem como os das mencionadas estações prehistoricas. Em fim o sr. Vilanova cita ainda além dos objectos indicados, dentes de javali com riscas, entalhos (contadores?) e varios ornatos; cabos de pau de veado, cilindros da mesma materia com desenhos e furados n’uma das extremidades talvez para servirem de ornato ou de amuleto; algum chifre do grande cervo, no qual se teria aproveitado a natural disposição de uma das pontas para o empregar como instrumento de lavoura, e mil outros objectos de osso

«Os ossos sem lavor apparecem pela maior parte quebrados, alguns intencionalmente, outros com signaes de longo transporte. Em geral, estes restos organicos encontram-se em jazigos de côr cinzenta, misturados os naturaes com os lavrados, e em profundidade que não passa de dois ou tres metros»[45].

Com uns objectos evidentemente prehistoricos acham-se tambem outros de metal, vidro ou barro da epoca romana. As estações de Castella a Velha são portanto importantissimas, e é muito para lamentar que até hoje não tenham sido estudadas pelos archeologos hespanhoes. Ha grande analogia entre os depositos de Castella a Velha e as _terramaras_ da Italia. Teriam sido, como estas, habitações lacustres, comparaveis ás _palafittas_ da Suissa?

As facas de silex, mais communs em Portugal, são lascas estreitas e compridas, algum tanto recurvadas no sentido do comprimento. Têem a face concava muito lisa, a convexa formada por tres superficies inclinadas entre si em angulos muito obtusos. N’esta face vêem-se pois quatro arestas longitudinaes, duas formadas pela união d’aquellas tres superficies entre si, e outras duas, que são os bordos, pela união de cada uma das superficies externas com a face concava. Os bordos são acuminados e cortantes. N’uma das extremidades vê-se o bolbo de percussão, ou a parte onde percutiram o nucleo ou matriz de silex para fazer saltar a lasca inteira. Adiante do bolbo de percussão notam-se algumas depressões que poderiam servir para fincar os dedos e segurar a faca. Estes instrumentos poderiam ser applicados para fins differentes, taes como destacar a carne dos ossos dos animaes, cortar as pelles, etc. Todavia algumas ha tão delicadas e tão frageis que parece teriam sido antes usadas como symbolos, opinião cuja probabilidade, relativamente a outros objectos, adiante mostraremos.

No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas facas d’este mesmo typo, apparecidas em differentes logares com outros objectos de pedra polida[46].

Lubbock explica mui clara e satisfatoriamente o modo de fabricar as facas e outros objectos de silex. Quem percutir com um martello arredondado a superficie plana de um silex produzirá uma fractura conoide, cujo tamanho dependerá em grande parte da forma do martello. A superficie da fractura formará um cone com o vertice correspondente ao ponto percutido. Supponhamos agora que não se percute a superficie plana, porém o angulo de um silex prismatico, a fractura será em principio semi-conoide, mas tornar-se-ha depois achatada, e poderá continuar-se com essa fórma na extensão de mais de 0ᵐ,20. Obter-se-ha assim uma lasca de silex, similhante á folha de uma faca, mas com uma secção triangular. D’esta sorte, arrancados os quatros angulos primitivos da massa prismatica de base quadrangular, poderão ainda destacar-se do mesmo modo os oito angulos restantes e assim por diante.

[Illustração: Fig. 18

Fig. 19

PERCUTOR ACHADO NO ALEMTEJO.]

Para que do silex, por meio da fractura, se obtenham taes resultados, importa que elle seja fresco, isto é, recentemente extrahido da terra. Por isso os homens prehistoricos exploraram esta rocha em grande escala, furando poços e abrindo galerias, alguns e algumas de grandes dimensões. Os instrumentos de que se serviam eram uma especie de picaretas feitas de ponta de veado. Em Portugal algumas se têem encontrado de pedra.

No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas lascas de silex, colhidas em varios sitios onde esta rocha foi explorada e fabricada. Vieram da Matta de Otta, da Charneca de Sacavem, do Arieiro de Telheiras, do Alto de Foz da Ponte, etc. Ignoram-se porém as circumstancias especiaes d’esses logares, que muito conviria saber para determinar a epoca e as circumstancias especiaes das varias officinas.

Têem apparecido n’algumas estações prehistoricas os instrumentos empregados para polir ou para lascar o silex. São tambem de silex. Os polidores têem cavidades de varias formas, onde pelo attrito se alisava a superficie das armas de pedra. Os percutores eram afeiçoados de sorte que se podessem apertar na chave da mão. Tinham tambem cavidades de fórma concava para o artifice fincar n’ellas os dedos, e percutir assim com mais força (fig. 18 e 19).

[Illustração: Fig. 20

MACHADO DE FELDSPATH POLIDO, DA PROVINCIA DO ALEMTEJO.]

Das armas de pedra aquellas que mais numerosas apparecem tanto em Portugal como em Hespanha e em toda a parte, são os machados. Não foram encontrados, é verdade, nas explorações do Cabeço da Arruda e das grutas de Cesareda; mas, em compensação, acham-se em todas as provincias, onde, desde tempos immemoriaes os camponezes lhes chamam pedras de raio, e os guardam com grande veneração pelas virtudes que lhes attribuem.

Acham-se com frequencia nos dolmens. Na Memoria que ácerca d’estes monumentos escreveu o sr. Pereira da Costa vem desenhados oito com varias fórmas e dimensões[47]. São os typos mais communs em Portugal. Variam tambem muito as pedras de que os machados são feitos. Predominam o silex, o schisto, a amphibole, a diorite e o calcareo. Em Cantanhede appareceram alguns de jade, rocha não existente em Portugal, nem no resto da Europa, segundo dizem. No Alemtejo encontram-se os machados de pedra em muito maior numero que nas outras provincias[48].

[Illustração: Fig. 21

Fig. 22.

Fig. 23

INSTRUMENTOS DE PEDRA DA CAVERNA DE ALBUÑOL E DE MAFRA.]

No museu da Universidade de Coimbra conservam-se muitos machados de pedra provavelmente de selvagens modernos. Ignora-se d’onde procederam e a epoca em que foram depositados n’aquelle estabelecimento. Além d’estes, ha um notavel, pela perfeição com que foi fabricado: appareceu na Cegonheira, perto de Bordalo, nas circumvisinhanças e a oeste de Coimbra.

São do mesmo typo os machados de diorite e de jade, descobertos em Argecilla e os que appareceram na caverna de Albuñol, Andaluzia[49]. Aqui porém encontraram-se dois, um inteiro e outro partido, mui differentes dos typos communs em Hespanha e Portugal. É possivel até que não sejam machados, mas outros instrumentos de pedra, conforme a opinião do sr. Gongora, que assim os denomina.

Alguns instrumentos se têem colligido em Portugal com a fórma curva, quasi de crescente (fig. 23). Na Commissão geologica conservam-se quatro d’estes instrumentos curvos de calcareo branco e molle, achados um em Mont’Abrão, e os outros tres nas immediações de Mafra, e tambem um fragmento egualmente de calcareo que parece de outro similhante objecto, fragmento encontrado na Casa da Moura, uma das grutas de Cesareda. Outro muito curvo, porém de diorite e de maiores dimensões, apparecido em Thomar, pertence hoje ás collecções do museu da Escola Polytechnica. É notavel esta fórma. Seriam picaretas?[50] Parece que os de Mafra, por serem de calcareo sem dureza, e portanto improprios para se empregarem como armas ou como instrumentos, teriam antes servido de insignias. Muitas facas de silex são tambem tão delgadas que talvez não tivessem outro fim. As que appareceram no concelho de Ancião partiram-se logo na occasião em que foram encontradas, por effeito dos choques que soffreram. O apparecerem algumas com objectos de bronze persuade até certo ponto a opinião, segundo a qual alguns d’estes objectos prehistoricos passariam de uma a outra idade, não com os usos que em principio tiveram, porém como emblemas, como symbolos sagrados, por trazerem á lembrança uma grande antiguidade ou os primordios da especie humana.

Não ha motivos para suppôr alguns dos objectos de osso, encontrados em Portugal nas estações prehistoricas, anteriores á epoca neolithica. Na casa da Moura, uma das cavernas da Cesareda, appareceram varios puncções, uma grande faca partida e um cabo de osso. A faca tem n’uma das faces uma excavação á maneira de meia cana, que é parte do canal medullar. O cabo não passa de um fragmento de um osso grande, cuja fórma natural aproveitaram sem o afeiçoarem. A superficie está desgastada pelo attrito da mão. Parece ter servido para encabar algum machado ou outro instrumento de pedra, da mesma sorte que empregavam para este mesmo fim as pontas de veado. E na Casa da Moura se encontrou tambem um cabo d’esta ultima especie (fig. 24). Similhantes ao outro de osso appareceram dois na Fonte da Ruptura em Setubal e um na Azambuja, perto da Penha de França. Todos se conservam no museu da Escola Polytechnica.

Na Fonte da Ruptura appareceram ossos transformados em puncções, algum ou alguns dos quaes, pelo grande comprimento, parecem de ave ribeirinha.

[Illustração: Fig. 24.

CABO DE OSSO DA CASA DA MOURA.]

Estes instrumentos, designados pelo nome commum de _puncções_, (fig. 25 e 26) poderiam servir de pontas de frechas ou de dardos e para outros fins differentes. Apparecem com frequencia nas estações prehistoricas e todos os archeologos os conhecem. Pelo contrario deveria ter um fim certo e determinado um instrumento tambem de osso, apparecido na Fonte da Ruptura, em Setubal, e que não consta haver-se encontrado n’outras partes. É um osso macisso de fórma cylindrica, adelgaçado em metade do seu comprimento para se introduzir n’outro osso vasado, cuja capacidade interior corresponde áquella parte menos grossa do cylindro macisso.

O sr. Pereira da Costa julga que este instrumento serviria para abrir furos em pelles. Collocadas as pelles sobre o orificio superior do cylindro vasado, facilmente se atravessariam pela parte mais delgada do cylindro macisso. Sería este ou outro o uso de tão singular objecto? Ninguem o saberá dizer hoje com certeza. Acharam-se na Fonte da Ruptura dois d’estes furadores. Chame-se-lhes assim interinamente.

[Illustração: Fig. 25

Fig. 26

PUNCÇÕES DE OSSO DE ALMERIA E DA FONTE DA RUPTURA.]

Na caverna de Albuñol na Andaluzia appareceram puncções de osso e uma folha de faca ou canivete, furado na base, tambem de osso. No Cabeço da Arruda em Portugal encontrára o sr. Pereira da Costa uma faca similhante de osso, porém muito comida do tempo ou do uso que tivera[51].

[Illustração: Fig. 27

Fig. 28

FURADOR (?) DA FONTE DA RUPTURA.]

[Illustração: Fig. 29

FACA DE OSSO DE ALBUÑOL.]

Na anta de Bellas appareceu um fragmento de cylindro de osso, vasado por dentro, e por fóra muito lavrado. Sería parte de um copo, ou de um ornato de algum objecto de fórma cylindrica?

[Illustração: Fig. 30

FRAGMENTO DE OSSO SEMI-CYLINDRICO DA ANTA DE BELLAS.]

Outro fragmento similhante tambem de osso lavrado achou-se na Furninha do Cão (Peniche?). Ambos se conservam no museu da Escola Polytechnica. Têem apparecido em Portugal muitas placas de schisto negro, com lavores similhantes aos do fragmento anterior n’uma das faces. São furadas umas em um, outras em dois pontos, n’uma das extremidades.

No museu da Escola Polytechnica, além d’aquella que appareceu em Monte Real (fig. 31), conservam-se mais duas de Vianna do Alemtejo, quatro de uma anta de Pavia, e finalmente outra da anta de Bellas; na Commissão geologica o fragmento de outra placa da Cova da Estria (fig. 32). Na collecção de archeología do Instituto de Coimbra outra apparecida em Ancião. Em fim na bibliotheca publica de Evora mais duas, n’uma das quaes se vê o mesmo lavor da fig. 31, e n’outra apenas umas listas em zig-zag, similhantes ás do fragmento de osso da anta de Bellas.

As placas de schisto riscadas parece terem sido usadas pelos constructores das antas, por se encontrarem algumas d’ellas nas antas de Bellas e de Pavia. Em Bellas, Ancião, Monte Real e Cova da Estria encontraram-se juntamente facas de silex do typo das fig. 16 e 17, o que tambem demonstra terem sido usadas tanto umas como outras na mesma epoca e pelo mesmo povo.

[Illustração: Fig. 31

PLACA DE SCHISTO DE MONTE-REAL, LEIRIA.]

[Illustração: Fig. 32

FRAGMENTO DE UMA PLACA DE SCHISTO DA COVA DA ESTRIA.]

Estes objectos são desconhecidos dos archeologos. Não têem sido desenhados, nem outros nenhuns similhantes, nos livros de archeologia prehistorica; excepto na grande obra _Reliquiæ Aquitanicæ_, onde a pag. 186 vem um instrumento comparavel ás placas de schisto. É de basalto e tem a fórma de um machado. N’uma das extremidades vê-se um orificio e no bordo correspondente oito entalhos que formam uma especie de serrilha. Appareceu na Pensylvania. Os auctores das _Reliquiæ_ entendem que sería uma especie de machado que se ligaria a um cabo, passando o cordão ou corrêa pelo orificio e fixando-se nos entalhos[52].

A placa de schisto (fig. 31) tem, além do orificio, um entalho no bordo, e algumas têem mais de um orificio e de um entalho. Por analogia concluiremos que as placas de schisto poderiam tambem ser uns como machados que se ligassem por meio dos orificios e dos entalhos a cabos de madeira. Mas a delicadeza d’estes objectos, e não estarem gastos do attrito, faz crivel que serviriam apenas de amuletos ou insignias ou emblemas ou objectos de culto na epoca dos dolmens, bem como as facas de silex contemporaneas (fig. 16 e 17).

[Illustração: Fig. 33

BACULO DE SCHISTO DA SEPULTURA DE MARTIM AFFONSO.]

Em fim convem notar que a machadinha de Argecilla (fig. 8 e 9), é analoga ás placas de schisto e serviria talvez para o mesmo fim, bem como outra de calcareo com a fórma de coração, achada na Cova da Estria (fig. 34).

No museu da Escola Polytechnica ha uma especie de baculo (fig. 33), tambem de schisto negro e com ornatos parecidos aos das placas (fig. 31). Appareceu na Sepultura de Martim Affonso juntamente com facas de silex, como as da fig. 16 e 17, e com a ponta de lança (fig. 15.) Sería talvez insignia de grau superior, pois não se sabe de outra similhante[53].

Convém notar que na parte inferior ha um pequeno espaço liso, por onde talvez se introduzisse n’algum cabo ou haste de pau. É extremamente comparavel esta insignia áquellas que denominaram bastões de commando, feitas de pau de rangifer, e muito communs nas estações prehistoricas de outros paizes. Dir-se-hia que, não habitando o rangifer na Peninsula, os homens se veriam aqui obrigados a substituir aquella materia pelo schisto. Mas a coexistencia das placas, baculos de schisto e dolmens está demonstrando ter sido o uso d’estes objectos muito posterior á epoca do rangifer. Quanto aos ornatos triangulares, foram muito communs na epoca da pedra polida. A ornamentação com linhas curvas representa já um progresso da arte, posterior ao emprego exclusivo da linha recta. Mas advirta-se que a superficie dos triangulos, coberta de traços que se cruzam, formando pequenos quadrados, não é nada commum na epoca neolithica, e póde até considerar-se caracteristica dos objectos de schisto achados em Portugal. Na Scandinavia, como se vê da obra de Nilsson, têem apparecido enxadas de ponta de veado, com figuras de animaes (cervos?) esboçadas, e junto d’estas figuras os triangulos cobertos de traços cruzados como os das nossas placas e baculos. Os dolmens da Scandinavia são tambem aquelles que mais se assimilham aos de Portugal. Adiante veremos as conclusões que se hão de tirar d’estes factos importantes.

[Illustração: Fig. 34

MACHADINHA DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.]

Que as placas de schisto não serviriam de certo para os fins a que se applicaram os machados de pedra claramente se prova com o achado de um objecto similhante, mas de calcareo que a fig. 34 representa em tamanho natural. Tem a fórma de um coração, com quanto os orificios e os entalhos da base mostrem com certeza que deveria ligar-se a um cabo ou haste de pau para representar o antigo e talvez já obsoleto machado de pedra. A molleza do calcareo, provando que este objecto não poderia servir para qualquer trabalho em que tivesse de se empregar um machado, confirma a hypothese de que estas e outras reliquias prehistoricas não seriam mais que emblemas ou insignias para as ceremonias do culto ou para quaesquer outras, e que se enterrariam com aquelles a quem tivessem pertencido. Assim temos já as facas de silex, as picaretas com fórma de crescente, as machadinhas de schisto e de calcareo, a que é applicavel a nossa hypothese, e que, sem ella, não teriam razão de ser, nem outra explicação possivel.

[Illustração: Fig. 35

FRAGMENTO DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.]

Achou-se tambem na Cova da Estria um fragmento cylindroide do mesmo calcareo esbranquiçado e sem dureza com duas riscas transversaes n’uma das extremidades e tres riscas obliquas do lado da outra extremidade (fig. 35). Impossivel parece apresentar no estado actual da prehistoria uma opinião certa ácerca do fim para que tal objecto serviria na epoca dos dolmens. Sería um contador ou uma insignia de graduação determinada?

Do mesmo calcareo é uma conta de collar, achada na anta de Bellas, (fig. 36), e tambem duas bolas encontradas na Cova de Estria. Acharam-se mais na anta de Bellas duas contas de schisto (fig. 37). Outras similhantes a estas ultimas e da mesma materia appareceram na Casa da Moura.

No dolmen de Vauréal, em França, descobriu-se um esqueleto de mulher e junto d’elle as contas de um collar, umas feitas de osso, outras de schisto e um amuleto com a fórma de machadinha que parecem ter pertencido ao mesmo collar[54]. Se não fôra a grande similhança das placas de schisto do typo da fig. 31 como o instrumento de basalto da Pensylvania, poderiam antes considerar-se como amuletos ou insignias de collares, bem como a peça cordiforme de calcareo (fig. 34); porém a existencia dos entalhos tanto em uns como em outros, faz mais provavel a opinião expendida.

[Illustração: Fig. 36

CONTA DE CALCAREO DE BELLAS.]

[Illustração: Fig. 37

CONTAS DE SCHISTO DE BELLAS.]

N’algumas das estações prehistoricas de Hespanha e de Portugal têem apparecido juntamente com os objectos descriptos ou outros similhantes, vasos de barro ou fragmentos de louça. Os mais imperfeitos são os vasos hemisphericos da Casa da Moura, sem lavores nenhuns, com a superficie aspera, feitos á mão, antes da invenção do torno, ou por quem não tivesse este instrumento. Estão cheios de uma substancia amorpha que parece haver-se solidificado dentro dos vasos. Seriam alimentos depositados juntamente com os cadaveres? Acreditariam já os antigos habitantes da Casa da Moura o dogma da resurreição?

No alto do Mont’Abrão, na Pena de Setubal e na Fonte da Ruptura da mesma cidade appareceram fragmentos que denotam muito maior adiantamento das artes da ceramica, não sómente pela qualidade do barro, mas tambem pela regularidade dos ornatos. Alguns são cobertos de um verniz vermelho (fig. 38, 39 e 40).

Outros similhantes fragmentos se conservam tambem nas collecções da Commissão geologica e do museu da Escola Polytechnica, encontrados em Santa Eulalia, perto de Monte-Mór-o-Velho, em Barcarena, etc.

A fig. 41 representa um fragmento da ceramica prehistorica da Andaluzia, achado na caverna de Albuñol, e que parece contemporaneo d’aquelles que ultimamente dissemos terem sido encontrados em varias estações prehistoricas de Portugal.

Ha grande similhança entre taes fragmentos e os que se encontraram no tumulo de West-Kennet no Wilt-shire. A fig. 39 é quasi uma copia do desenho de um d’aquelles fragmentos estampados, descriptos e publicados por Lubbock. Por onde se confirma que a estação da Pena de Setubal e outras estações correlativas de Portugal e Hespanha foram com effeito occupadas na epoca neolithica ou premetallica.

[Illustração: Fig. 38

Fig. 39

Fig. 40

FRAGMENTOS DE LOUÇA DE MONT’ABRÃO, PENA E FONTE DA RUPTURA.]

[Illustração: Fig. 41

FRAGMENTO DE CERAMICA DE ALBUÑOL.]

Outros achados feitos na caverna de Albuñol da provincia da Andaluzia dão-nos mais alguma idéa dos costumes e do estado social dos homens que habitavam a Peninsula n’esses tempos remotos. A caverna, conhecida pelo nome de _Cueva de los murcielagos_, tinha sido explorada em 1831 com o fim de extrahir d’ella o guano formado pelos excrementos dos animaes que lhe deram o nome. Não se revolveu o solo n’esta primeira exploração; portanto ficaram intactos os objectos que ali estavam sepultados. Em 1857 constituiu-se uma companhia para explorar os mineraes de chumbo que suppunham haver na caverna. Logo no principio das excavações appareceram á entrada tres esqueletos, um dos quaes cingido com diadema singelo de ouro puro (fig. 42).

Continuando a excavação pelo interior da caverna, acharam os mineiros doze cadaveres, postos em semi-circulo á roda de um esqueleto de mulher muito bem conservado, vestido com uma tunica de pelle, apertada com corrêas, e adornado com um collar feito de anneis de esparto, de um dos quaes pendia um dente de javali lavrado na ponta, e dos outros conchas furadas.

[Illustração: Fig. 42

DIADEMA DE OURO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.]

O esqueleto a que pertencia o diadema de ouro tinha uma veste curta de tecido fino de esparto, (fig. 43). Os vestidos dos outros eram tambem de esparto, porém de tecido mais grosseiro, (fig. 44). Alguns tinham gorros de tecido similhante (fig. 45), e calçado tambem de esparto, á maneira de alpercatas. Cada um dos tres esqueletos tinha uma bolsa de esparto, cujo tamanho variava entre seis e quinze pollegadas (fig. 46).

Em fim, na parte mais remota do interior da caverna acharam os mineiros outros cincoenta esqueletos tambem vestidos e calçados de esparto. Juntamente com as ossadas havia facas e machados de pedra, lanças e frechas com pontas de silex pegadas a toscos paus com um cimento fortissimo; vasos de barro, e colhéres de madeira trabalhadas á pedra e ao fogo. O sr. D. Manuel de Gongora, annos depois, encontrou ainda o diadema de ouro e outros objectos, que algumas pessoas curiosas guardavam, e poude mandal-os desenhar e gravar para lhes dar publicidade na sua interessante Memoria[55].