Introdução á archeologia da peninsula Iberica

Part 15

Chapter 153,572 wordsPublic domain

Os povos confederados, segundo a citada inscripção, invadiram o Egypto e chegaram até Memphis. Foram porém derrotados pelo pharaó ou pelos seus generaes. O principe Mormuiu perdeu o arco, a aljava e as sandalias juntamente com as suas joias de ouro e prata e utensilios de bronze. Os povos do mar deixaram tambem objectos de ouro e prata, espadas, facas, couraças e cnemides. Pela importancia e qualidade dos despojos se avaliará o subido grau de civilisação a que tinham chegado, ha mais de tres mil annos, todas estas gentes convisinhas do Mediterraneo[193].

Os povos da Peninsula, pelo menos os das regiões meridionaes e orientaes, acompanharam de certo os seus visinhos das ilhas do Mediterraneo e do norte da Africa nos estadios da civilisação que successivamente percorreram. Por aquellas mesmas regiões se encontram vestigios das construcções cyclopeas dos povos pelasgicos. Nas ilhas Baleares abundam os _talayots_ analogos ás _nuraghas_ da Sardenha. A par com estas construcções de fórma pyramidal vêem-se outras á maneira de barcos com as quilhas voltadas para cima, e que não são senão as _mapalia_ ou _magalia_, que os getulos ou numidas do tempo de Sallustio construiam no seu paiz: «_ædificia oblonga incurvis lateribus tecta quasi navium carinœ sunt_»[194]. Os sardos e os iberos usavam a longa tunica negra e roçagante á moda dos médas, que, por este costume, se differençavam dos outros povos nomadas, celtas, scythas e germanos, cujos vestidos se lhes cingiam aos corpos e apenas lhes cobriam as pernas. Finalmente o _cetra_ ou escudo pequeno redondo era usado pelos libycos, iberos e bretões[195].

De quanto deixamos ponderado parece-nos concluir-se com grande probabilidade: 1.º Que na epoca da pedra polida a Peninsula sería habitada pela raça de Cro-Magnon, pelo mesmo tempo existente na parte meridional da França e na septemtrional da Africa; 2.º Que esta raça é ainda hoje representada pelos beréberes; 3.º Que ha tres mil e mais annos os povos libycos e pelasgicos estavam já tão civilisados que podiam invadir o Egypto e medir-se com os exercitos dos pharaós; 4.º Que os habitantes da peninsula Iberica, pelo menos os de certas regiões, deveriam estar tambem similhantemente civilisados, e ter portanto ultrapassado a idade da pedra.

NOTAS DE RODAPÉ:

[165] _Dictionaire universel du_ XIX _siècle_ par P. Larousse, verb. BASQUE.

[166] _Ethnologische Schriften._

_Dolichocephalo_, de _dolichos_, longo, e _kephalê_, cabeça. _Brachycephalo_, de _brachus_, curto, e _kephalê_, cabeça. _Orthognata_, de _ortho_, direito, e _gnathos_, maxilla. _Prognatha_, de _pro_, para diante, e de _gnathos_, maxilla.

[167] Thucydides, VI, 2.

[168] Virchow. _Les peuples primitifs de l’Europe. La revue scientifique de la France et de l’étranger_, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º 1, juillet 1874, pag. 12. Vej. tambem Steur, _Ethnographie des peuples de l’Europe_, verb. LIGURES.

[169] _La vie du langage._ Pariz, 1875, pag. 213.

[170] _La linguistique._ Pariz, 1876, pag. 87 a 106.

[171] _Dictionnaire universel du_ XIX _siècle_, verb. LANGAGE.

[172] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. IV, pag. 314 a 323.

[173] _Crania ethnica_, pag. 7.

[174] _Crania ethnica_, pag. 21 e 22.

[175] Pereira da Costa, _Noticia sobre os esqueletos descobertos no Cabeço da Arruda_, Lisboa, 1865.

[176] Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa 1869.

[177] Mac-Pherson, _La Cueva de la Mujer_, 1.ª e 2.ª parte, Cadiz, 1870-1871.

[178] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. V, pag. 62.

[179] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._

[180] _Les peuples primitifs de l’Europe. La revue scientifique de la France et de l’étranger_, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º 1, juillet, 1874, pag. 12.

[181] _Crania ethnica. L’espèce humaine._ Pariz, 1877, pag. 248.

[182] Vej. cap. IV, pag. 61. O femur de Alhama parece ser um _femur de pilastra_ como os dos esqueletos dos guanchos e dos outros da raça de Cro-Magnon. As _tibias achatadas_ ou _platycnemicas_, os _peroneos clausteados_ e os _cubitos arqueados_ caracterisam tambem a raça do Cro-Magnon.

[183] F. M. Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tom. VII, pag. 353. Esta Memoria sahiu depois na _Revista de Anthropologia_ de Madrid com o titulo; _Los aborigenes ibericos ó los beréberes en la Peninsula._

[184] _L’anthropologie._ Pariz, 1876, pag. 486.

[185] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. IV, pag. 38 a 62.

[186] _Congrès internacional d’Anthropologie et d’Archeologie prehistoriques_, 2.ᵉ session, 1867.

[187] _L’espèce humaine._ Pariz, 1877, pag. 240. Depois dos tempos geologicos, mas ainda nos prehistoricos, a passagem dos beréberes da Africa para a Europa não era impossivel pelas aguas do Estreito, pelo Mediterraneo ou pelo Atlantico. Entre as conchas fosseis, achadas em França na estação de Laugerie-Basse, algumas ha que não poderiam ter sido trazidas senão da ilha Wight. Ora durante a epoca do rangifer não havia communicação por terra entre a França e a Inglaterra. Idem, pag. 242.

[188] Topinard, _L’anthropol._, 451.

[189] Anatole Roujou, _Recherches sur les races humaines de la France_. Pariz, 1874, pag. 86.

[190] Tubino, Mem. cit.

[191] Steur, _Ethnographie des peuples de l’Europe avant Jesus-Christ_. Bruxelles, 1873, tom. III, pag. 193.

[192] Tubino, Mem. cit.

[193] Tubino, Mem. cit.

[194] Sallust. Bell. Jugurth. in princip. Ácerca dos talayots e das navêtas ou casas com a fórma de barcos ás avessas, da ilha de Menorca, veja-se o artigo do sr. Fernandez Duro, no jornal _La Academia_, n.º 12, que deu motivo a uma carta do auctor, publicada no mesmo jornal, tom. II, n.º 10.

[195] Steur, op. cit., tom. II, pag. 118. Rougemont, _L’âge de bronze_, pag. 286.

CAPITULO X

ORIGENS ETHNICAS

(CONTINUAÇÃO)

_Se os vasconços descenderão dos beréberes.--Insufficencia das provas allegadas.--Hypotheses da unidade e da pluralidade iberica.--Razões favoraveis a esta ultima.--A philologia e a historia.--A Iberia do Caucaso comparada com a peninsula Iberica.--Os iberos e os povos com quem estavam relacionados.--Difficuldade de determinar os antigos povos peninsulares.--Asserções vagas dos auctores.--Necessidade de resolver o problema por methodos novos.--Até que ponto as invasões historicas esclarecem as prehistoricas.--O Mediterraneo e o Atlantico, vias principaes por onde vieram as civilisações á Peninsula.--Relacionam-se estas vias com as duas correntes das emigrações asiaticas.--A distribuição geographica dos dolmens peninsulares caracterisa uma das civilisações, vindas pelo Atlantico.--Os monumentos pelasgicos caracterisam outra, vinda pelo Mediterraneo.--Antinomia d’estas duas civilisações.--Outras antinomias entre o occidente e o oriente já nos tempos historicos.--As mais antigas das minas de cobre.--Analogias entre os povos antigos da Iberia e os da America.--A civilisação da epoca do cobre.--Os ciganos e os antigos fundidores do cobre e do bronze._

Broca e outros dos modernos propendem, já o dissemos, para classificar os vasconços entre os representantes actuaes da raça de Cro-Magnon, que, nos tempos prehistoricos povoara o sudoeste da França, a peninsula Iberica e o norte da Africa. N’esta hypothese os vasconços seriam pois os ultimos restos dos antigos beréberes, que em epocas remotas passariam da Africa á Europa. A dolichocephalia dos craneos dos antigos e modernos habitantes das provincias vascongadas é o unico facto até hoje conhecido e allegado em favor de tal idêa. Ora a insufficiencia d’esta prova demonstra-se claramente, porque, se os vasconços, por serem dolichocephalos, descendessem dos antigos beréberes ou da raça de Cro-Magnon, seguir-se-hia que todos e quaesquer craneos dolichocephalos pertenceriam á mesma raça: o que seria absurdo. Por outra parte sabe-se hoje que os vasconços francezes são brachycephalos. Por consequencia tão licito parecerá suppôr que os vasconços, primitivamente dolichocephalos, se tornariam, em parte, brachycephalos por effeito dos cruzamentos, como affirmar a inversa, isto é, que os vasconços primitivos teriam sido brachycephalos, e que, por influencia de raças estranhas, se tornariam depois, na região mais sujeita a essas influencias, dolichocephalos[196]. A esta consideração accresce outra não menos ponderosa, e vem a ser que a similhança da lingua vasconça é com idiomas asiaticos e americanos e não com os da Africa septemtrional.

A opinião mais geralmente seguida é ser o euskara a lingua ou antes um dos idiomas dos antigos iberos, que se conservaria entre os vasconços pela resistencia maior que estes povos offereceram á dominação romana, e por serem aquelles em quem menos sensivel se tornou a sua influencia modificadora[197].

Tomando por fundamento as provaveis analogias entre os modernos vasconços e os antigos iberos, pretendeu Guilherme de Humboldt reduzir ao euskara de hoje as designações locativas das regiões da Peninsula que suppunha haverem sido habitadas por estes povos. Este systema, segundo o qual os antigos iberos constituiriam um povo unico e com uma só lingua, teve numerosos sectarios durante muitos annos. O _iberismo_ oppunha-se ao _celticismo_, pois affirmava que na Peninsula, depois da invasão dos celtas, prevalecera a lingua e o caracter iberico.

Mas recentemente Charnock, Van-Eys e outros têem provado o muito que Humboldt se afastara da verdade nas suas interpretações[198]. Em vista dos interessantes resultados da critica moderna, a hypothese da unidade cede o passo á hypothese da pluralidade dos povos ibericos. Os resultados obtidos pelos philologos estão concordes com as indicações da historia. Com effeito, escriptores de todas as epocas descrevem-nos os iberos, os habitantes das varias regiões da Iberia, com costumes, nomes, idiomas e alphabetos differentes[199]. As tradições restantes representam-os divididos em tribus, sem grandes relações entre si, ao que obstava a diversidade de sangue e de linguagem. Quando os celtas invadiram a Peninsula, a maior parte d’essas tribus não chegaram a confederar-se contra o inimigo commum. Algumas até se alliaram com elle contra os povos visinhos; outras permaneceram solitarias e impassiveis no meio da conflagração geral.

Apezar do influxo de sangue estranho, já de celtas, já de phenicios, já de carthaginezes nos povos peninsulares, os romanos encontram tamanhas difficuldades para subjugar a Iberia, como para unifical-a sob o imperio das mesmas leis. Ora vencedores, ora vencidos, luctam por espaço de dois seculos, e, sómente Julio Cesar consegue em fim fazer aceitar as leis romanas e o mesmo governo aos povos subjugados.

Durante quatro seculos mantem-se a união da Peninsula pela força das armas, e mais ainda pelo commum interesse dos seus habitantes em conservar a civilisação que Roma lhes impozera e ao mundo antigo. Mas, depois da destruição do imperio, rotos os laços que estreitavam os povos, renovam-se as sub-divisões da Hespanha em pequenos estados, differentes uns dos outros pelas religiões, leis e costumes. Mais tarde, estabelecida a unidade religiosa, o elemento monarchico chega a ligar por vezes n’um só todo as varias partes desaggregadas. Mas a esta força oppõem-se sempre mais ou menos, por uma ou por outra fórma, as resistencias derivadas das differenças originaes. Ainda hoje a Hespanha se esforça para conservar unidas as suas provincias, e para obrigal-as a se regularem pelos mesmos codigos, e a se organisarem pelos mesmos principios administrativos. Difficil empreza! Hoje, como em epocas passadas, resistem poderosamente a esse grande esforço os sangues diversos que gyram nas veias dos peninsulares. A pluralidade das origens dos velhos iberos ainda agora se patentêa nos ultimos dos seus descendentes!

Demonstrada, em opposição á unidade, a pluralidade iberica, segue-se naturalmente investigar que povos seriam esses collectivamente designados pelo nome de iberos. E primeiro que tudo vejamos até onde se póde determinar a origem da palavra Iberia.

Junto do Caucaso, na lingua de terra que separa o mar Negro do mar Caspio, no logar actualmente occupado pela Georgia, houve um paiz homonymo com a Peninsula. Chamavam-lhe os latinos _Iberia_ e _iberes_ ou _iberi_ aos seus habitantes. Muitos rios a regavam, em cujos areaes, bem como nos dos rios de Hespanha, diziam antigos auctores abundarem palhetas de ouro. A um d’elles, o rio Arak, chamavam _Arago_, nome commum ao affluente do Ebro na Hespanha. Em correspondencia a este ultimo, citava Strabão o rio Ibero. Finalmente ambas as Iberias, ricas de metaes, foram exploradas em eras remotas.

Acham interpretadores da Biblia que a Iberia do Caucaso, e não a nossa, como erradamente escreveram auctores portuguezes e hespanhoes, teria sido povoada por Tubal e Mesec, filhos de Japhet e netos de Noé. Nos dois irmãos personificava Ezechiel os scythas que em tempo de Cyaxara reinavam na Asia Anterior, e tinham por berço a Scythia iberica, e concorriam com vasos de bronze aos mercados de Tyro. Alguns dos antigos, desde Homero, qualificam de grandes exploradores e fabricantes de metaes os povos da Iberia Caucasica ou das regiões proximas, abundantes de minas de prata, cobre, ferro, etc. Os chalybes, habitantes do paiz de Thermodoon, inventaram o processo de temperar o aço, designado entre os gregos usualmente pelo nome dos inventores[200].

Taes analogias suscitam naturalmente a idêa de que um povo, emigrado da Iberia do Caucaso, estabelecendo-se nas regiões do nordeste da Hespanha, ahi continuaria a explorar os metaes, applicando a certos rios, e porventura a outros logares, os nomes dos rios e logares que tinha deixado, e designando todo o paiz que viera occupar, ou antes explorar, com o de Iberia, por se chamar assim o seu proprio paiz natal. A preponderancia d’este povo faria depois com que se extendesse a toda a Peninsula e ainda mais além o nome da parte onde elle dominava.

Na antiguidade havia já quem seguisse esta opinião. Outros eram porém pela contraria, sustentando que os iberos da Europa teriam colonisado e denominado a Iberia da Asia. Outros, finalmente, julgavam que entre os iberos da Asia e os da Europa não havia similhança nenhuma nem na linguagem nem nos costumes, e só o nome seria commum. Appiano, contemporaneo de Trajano e de Marco Aurelio, menciona todas estas tres opiniões[201]. A primeira é a mais geralmente seguida; porém não falta quem prefira a ultima, estribando-se nos caracteres iranios dos iberos asiaticos, e na falta de taes caracteres entre os iberos occidentaes, que pertenceriam a uma raça estranha ao grande tronco indo-europeu[202]. A verdade é que, na actualidade, a anthropologia não sabe ainda com certeza classificar estes povos. Ha razões para crer que seriam formados pela mistura da raça turania e da irania. Em fim os argumentos philologicos até hoje apresentados não têem mais força que todas as analogias que mencionámos, como provas da procedencia caucasica dos iberos europeus, e particularmente quando se pretende substituir aquella origem pela incertissima Atlantida de Platão[203].

A Iberia e os iberos apparecem-nos na transição da prehistoria para a historia sem que se lhes possa rastrear as origens. Os mais antigos dos geographos gregos chamavam Iberia ás regiões para áquem do Rhodano. Assim o declara Strabão[204]. Com effeito, Eschylo, escriptor do seculo V antes de Jesus Christo, e Avieno, que escreveu a _Ora maritima_ no seculo IV da nossa era, porém com documentos pouco posteriores á fundação de Marselha pelos annos de seiscentos antes de Christo, indicam o Rhodano como limite da Iberia.

Mas, por outra parte, não faltam egualmente razões para crer que os antigos chamavam em particular iberos aos habitantes do litoral mediterraneo desde o Segura até aos Pyreneus[205]. Parece portanto que o nome de iberos, pertencendo primitivamente a estes povos, se extenderia depois a outros que no resto da Peninsula, e ainda para além dos Pyreneus, se alliariam com elles, e mais por interesses commerciaes ou outros, do que por similhanças ethnicas.

No tempo da guerra de Troia, onze ou doze seculos antes de Christo, os siculos invadiam a Sicilia e expulsavam os sicanos. Ora a origem iberica dos sicanos é attestada por Thucydides, Philisto de Syracusa, Ephoro, Dyonisio de Halicarnaso e outros[206]. Os primeiros d’estes auctores concordam em que os sicanos habitavam nas margens de um rio chamado Sicano, que, segundo a opinião geral, sería o Jucar, que desemboca no Mediterraneo ao sul de Valencia. Avieno e Hecateu fallam de certa cidade chamada Sicana, que no seculo VI antes de Jesus Christo existiria nas margens de um rio[207].

Alguns dos nomes dos povos antigos parece derivarem dos rios, cujas margens elles habitavam. Assim é que os _tartessos_ tomariam o nome do rio _Tartesso_, hoje Guadalquivir; os _sordos_, _sordones_ ou _sardones_ do rio Sordo da Gallia Meridional, perto dos Pyreneus: os _sicanos_ do rio _Sicano_, e finalmente os _iberos_ do rio _Ibero_, hoje _Ebro_, que percorre as provincias hespanholas de Aragão e da Catalunha.

Induzidos pelas similhanças onomasticas, pretendem alguns que os sardos seriam tambem iberos. Dos sordones ou sordos das costas do Mediterraneo, ao norte dos Pyreneus, procederiam os sardos. Estes, com o nome de _Shardana_ apparecem já mencionados nos monumentos egypcios do seculo XIV antes de Jesus Christo, ao que nos referimos no capitulo antecedente. Na Corsega menciona Seneca os iberos que fallavam e trajavam á moda dos cantabros da Hespanha[208]. Como hespanhol que era por nascimento, Seneca não deveria enganar-se em tal observação. Comtudo, na opinião de outros, os sardos antes pertenceriam á familia dos liguros.

Aqui temos outros povos, antigos como os iberos, com elles relacionados e cujas origens são egualmente obscuras. Muito antes da guerra de Troia, alguns dois mil annos talvez antes do nascimento de Christo, os liguros, segundo Thucydides, expulsavam os sicanos das margens do rio Sicano da Iberia e os obrigavam a refugiar-se na Sicilia[209]. Avieno refere as fontes do Tartesso ou Betis ou Guadalquivir á lagôa ligustica[210]. Ora, as fontes d’este rio correspondem ás abas das serras que pelo oriente limitam a provincia de Jaen, ao norte das quaes, na provincia antiga de Murcia, passa o rio Jucar, em direcção ao Mediterraneo, onde desagúa ao sul de Valencia. Concordam portanto os dois textos, seis seculos anteriores a Jesus Christo, na região da Peninsula que os liguros habitavam. Accrescente-se ainda que Estevam de Byzancio, compilador do seculo VI da era christã, soccorrendo-se provavelmente de documentos muito anteriores, põe não longe do mesmo rio Tartesso a cidade de _Ligustina_, cujos habitantes diz serem _liguros_[211], e ter-se-ha a convicção de que estes povos occuparam uma parte determinada da Peninsula.

O imperio dos liguros dilatou-se pela Gallia e pela Italia, particularmente pelas regiões litoraes mediterraneas até ao rio Arno. No periplo que chamam de Scylax, anterior a Aristoteles, distinguem-se os liguros propriamente ditos, que habitavam a leste do Rhodano, dos liguros e iberos misturados, que habitavam para a parte do occidente, entre o Rhodano e Ampurias, cidade da provincia hespanhola da Catalunha[212].

Tacito no primeiro seculo da era christã classificava os siluros da Grã-Bretanha entre os povos ibericos, por terem a côr morena e os cabellos crespos dos iberos. Suppunha-os oriundos da Hespanha. A _Ora maritima_ confirma até certo ponto o parecer de Tacito, mencionando na Hespanha o monte Siluro[213]. A côr morena, o cabello farto e crespo eram geralmente considerados como caracteres ethnicos dos iberos. N’um epigramma que o ciume inspirara a Catullo, apostropha este poeta a um celtibero nos termos seguintes: «... Ó filho cabelludo da Celtiberia, Ignacio, que não tens outro merito senão o de possuires uma barba espessa e uns dentes que fazes alvos á força de fricções de urina. ...»[214].

Se attendermos a que os liguros são geralmente havidos como iranios, e á presupposta origem caucasica dos iberos, acharemos grande difficuldade em separar completamente do tronco iranio ou indo-europeu os iberos. Por outra parte não se póde tambem negar a existencia dos caracteres ethnicos referidos e de outros, que differençam os iberos dos povos decididamente iranios, em meio dos quaes viviam. Mais adiante se verá que taes factos se explicarão plausivelmente, admittindo que os iberos resultariam da fusão das raças mongolica e caucasica, para o que estavam adequadamente situadas as regiões que separam o mar Caspio do Mar Negro, berço provavel dos iberos occidentaes.

Mas estes povos ninguem hoje poderá sustentar que fossem os primitivos da peninsula Iberica, habitada já na idade da pedra, como se prova pela paleontologia humana e pela archeologia prehistorica. Os homens de San Isidro e da Cesareda não seriam por certo iberos, e já na idade dos metaes é possivel que tambem o não fossem os primeiros dos exploradores do cobre, como adiante veremos. Quaes seriam pois os predecessores dos iberos? É muito para notar-se que, na epoca da pedra polida, no tempo em que as cavernas serviam de habitações ou de sepulturas, a analogia dos objectos encontrados n’uma caverna da Alhama de Granada, na Andaluzia, e n’outra caverna de Dijon, em França, auctorise a suppôr que povos da mesma raça ou representantes da mesma civilisação habitariam estas duas partes remotas, mas comprehendidas na região que mais tarde foi conhecida pelo nome de Iberia, tomada esta palavra na mais lata das accepções. Catão o antigo, pretende que os medas, persas e armenios fossem os primitivos dos habitantes da Peninsula. Na opinião de Herodoto seriam os syginnos. Mas a verdade é que todo o exame e discussão dos textos dos auctores não chegarão a dar-nos outras indicações mais que as que deixámos expostas com relação aos iberos.

As memorias escriptas, só por si, não bastam pois para a determinação dos povos que em epocas remotas, anteriormente aos iberos, habitaram a Peninsula. A solução do problema ficará reservada á critica moderna, que, pela interpretação racional dos factos, achará a luz que nos falta em tantas trevas. Á philologia sobre tudo compete subministrar-nos os principaes dos elementos para a historia verdadeira e positiva das origens ethnicas. Mas o atrazo d’esta sciencia, na parte respectiva á Peninsula, priva-nos por ora dos seus poderosos recursos. Egual importancia tem n’este ponto a archeologia. São poucos tambem os subsidios que ella nos presta, mas ainda assim os unicos de que podemos lançar mão n’este estudo interessante.

Primeira e previamente, para fazer idêa do numero, importancia e procedencia das invasões prehistoricas, importa-nos considerar aquellas que se effeituaram já nos tempos historicos[215]. Ora, estas ultimas foram de povos que se distribuem naturalmente por tres classes: 1.ª Africanos (phenicios, carthaginezes e mouros); 2.ª Asiaticos (iberos, celtas, arabes e alguns dos barbaros da idade media); 3.ª Europeus (gregos, romanos, outros dos barbaros da idade media e normandos). Effeituaram-se tantas invasões no espaço de trinta seculos, pouco mais o menos. Por tres vias differentes entravam os invasores na Peninsula. Pelo Mediterraneo, a mais frequentada de todas, viriam os iberos, os phenicios, os carthaginezes, os gregos, e algumas vezes os romanos e os normandos. Pelo Atlantico, celtas, normandos e outros dos povos septemtrionaes. Pelo Atlantico e pelo Mediterraneo, por uma e por outra parte do Estreito de Gibraltar, arabes e mouros. Em fim pelos Pyreneus entrariam por algumas vezes os celtas, romanos e barbaros.