Introdução á archeologia da peninsula Iberica

Part 13

Chapter 133,670 wordsPublic domain

Fig. 75

IDOLO DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

No Museu da Escola Polytechnica ha um similhante idolo masculino de bronze, pertencente ao sr. Judice do Algarve, e talvez n’esta provincia descoberto.

Apparecem tambem no Alemtejo bodes ou cabras de bronze tão imperfeitos como os idolos e provavelmente da mesma epoca. Os fragmentos adherentes aos pés indicam que estas grosseiras imagens estariam fixas a outros objectos. Conservam-se dois bodes de bronze na bibliotheca de Evora. Outro similhante, foi achado ha alguns annos no Redondo, districto de Evora[156]. Os idolos de dois sexos e as cabras de bronze serão talvez os vestigios de alguma antiga religião introduzida na Peninsula em epoca desconhecida. Os egypcios, os phenicios e outros povos da antiguidade rendiam culto aos elementos masculino e feminino, symbolisados em Isis e Osiris, em Baal e Astarté. A cabra era tambem objecto de adoração no Egypto. Aqui o sol e a lua representavam o principio masculino e o feminino. Já vimos que em certas inscripções da Andaluzia se vêem figurados estes dois astros[157]. O costume, antigo e commum na Peninsula e em tantas partes da Europa, de celebrar com fogueiras e dansas a noite de S. João ou o solsticio do verão, parece tambem a alguns um vestigio da religião phenicia. Mas é provavel que d’uma civilisação mais remota herdassem os phenicios e outros povos este e outros costumes religiosos.

[Illustração: Fig. 76

Fig. 77

Fig. 78

IDOLOS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

[Illustração: Fig. 79

Fig. 80

CABRAS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

Os primeiros dos exploradores das minas de cobre na Peninsula, os primeiros dos que fabricaram os velhos machados de cobre devem ser anteriores aos phenicios e ao tempo em que estes colonisaram alguns dos logares septemtrionaes da Africa e meridionaes da Hespanha no seculo XII. As condições de um povo que explorava o cobre com martellos de pedra, e se servia de machados grosseiros d’aquelle metal não concordam de modo nenhum com o que sabemos ácerca da civilisação adiantada dos phenicios e dos povos mediterraneos no tempo da fundação das primeiras das colonias tyrias. A nossa epoca do cobre foi portanto anterior aos phenicios e aos etruscos, conclusão a que chegára Desor na Suissa, relativamente á epoca do bronze, pela falta de objectos de ferro nas palafittas d’aquella epoca. Mas se na Suissa não é possivel determinar, presumir ao menos que, povo ali introduziria o commercio do bronze, na Iberia a exploração e fabríco do cobre parece naturalmente relacionarem-se com algum dos povos da Asia, e de uma região onde as minas de cobre eram tambem exploradas.

Se os bronzes das palafittas da Suissa e das terramaras da Italia se hão de julgar anteriores á epoca do ferro e portanto mais antigos que os etruscos e phenicios, a que remotissimas eras se não reportarão os machados de cobre da Peninsula? Mais adiante examinaremos as razões que fazem provavel a opinião de que as primeiras explorações das minas de cobre na America, na Hungria na Transylvania e na Iberia fossem contemporaneas e talvez resultantes de uma antiga civilisação turania irradiante da Asia para as outras partes do mundo[158].

Á epoca do cobre succedeu a do bronze, quando um povo navegador e commerciante introduziu na Peninsula ou os instrumentos de bronze ou o estanho para se fabricarem. É possivel que esta introducção fosse por algum povo anterior aos phenicios e etruscos. Se a hypothese de Nilsson acha contradictores na sua applicação á Scandinavia, com mais força de razão se poderá impugnar relativamente á peninsula Iberica. É porém certo que o uso do bronze se prolongou durante a colonisação phenicia, dilatando-se até pela epoca romana. Ninguem ignora a importancia que teve Cadix no commercio do estanho que os phenicios iam buscar a Cornwals. Ora, sendo a Peninsula abundante de cobre, não deixaria portanto de haver fabricas de bronze n’aquellas e n’outras colonias phenicias. Strabão falla de espadas de bronze, feitas em Cadix[159]. Na Sardenha têem apparecido até hoje oito matrizes de fundir armas de bronze[160]. O punhal de bronze e o punho de outro de ferro do mesmo typo, achados na Galiza, provam que um mesmo povo, na mesma epoca, ou em epocas proximas, fabricaria armas de bronze e de ferro. Em taes condições estavam os phenicios, pelo menos durante os ultimos tempos da sua existencia nacional.

As Baleares, como a Sardenha, como a Etruria, foram de certo focos, d’onde irradiaram para longes terras, pelo commercio, os objectos de bronze. Strabão diz serem os habitantes das Baleares optimos fundidores, e exercitarem esta arte desde o tempo da occupação d’aquellas ilhas pelos phenicios[161].

O sr. Chantre, n’uma obra recentemente publicada, colligiu innumeros factos que o levaram a classificar em dois grupos principaes os jazigos do bronze: 1.º As _fundições_; 2.º Os _thesouros_. A estas duas classes já bem determinadas convem accrescentar certas estações ou centros habitados, ainda mal definidos, e muitas sepulturas em raso campo, cuja presença nenhum signal apparente indica. «Uma fundição consiste ordinariamente n’uma simples cavidade aberta na terra, encerrando o material mais ou menos completo de um fundidor de bronze: barras de metal, escorralhas, restos, escorias, objectos usados inteiros ou partidos, moldes, pinças, ás vezes objectos novos sahidos do molde e por acabar. Taes fundições têem apparecido em muitos logares da Europa, mas particularmente em França, Saboia e Allemanha»[162].

Os thesouros constam unicamente de objectos novos sem terem servido, ás vezes ligados uns aos outros, e tão eguaes que de certo sahiriam do mesmo molde. Encontram-se em pequenas cavidades, feitas de proposito para os esconder. Os mais importantes appareceram nos Alpes.

Da uniformidade das fundições, encontradas na Europa, e de occuparem sempre logares solitarios, distantes das povoações, conclue o sr. Chantre que os fundidores pertenceriam a uma mesma casta nomada, que percorreria a Europa, e talvez outros continentes, exercendo a sua arte. Esta idêa parece-lhe confirmada pelas circumstancias respectivas aos thesouros, que seriam depositados em escondrijos por aquelles que os traziam, até a um regresso que muitas vezes circumstancias fortuitas e imprevistas impediriam.

Além d’estes factos, ha outros que parece egualmente provarem a existencia de origens unicas do bronze. A composição d’esta liga é a mesma por toda a parte. Os objectos encontrados, seja qual fôr o logar onde o tenham sido, denotam tres periodos differentes da epoca do bronze; 1.º aquelle em que apparece como raridade no meio de gentes occupadas a polir a pedra: 2.º aquelle em que o metal chega a substituir definitivamente a pedra para certos usos, em que lhe é manifestamente superior: 3.º aquelle em fim em que o ferro vem fazer concorrencia ao bronze e chega a supplantal-o. Allega-se tambem a falta da exploração do cobre na Europa. E de tudo isto conclue o sr. Burnouf, reproduzindo segundo cremos, a opinião do sr. Chantre, que a origem do bronze sería estranha á Europa, e n’uma região indeterminada da Asia. Admitte porém que, pelas differenças locaes, se ha de distribuir a Europa em tres grupos: o do Oural; o do Danubio e o do Mediterraneo[163]. Não reflectiu o auctor que ao primeiro d’aquelles grupos correspondem antigas minas de cobre exploradas pelos tchoudes; ao segundo as minas da Hungria e Transylvania; ao terceiro finalmente as da peninsula Iberica. Cornwalls, e porventura alguma outra região ignorada forneceriam o estanho aos fundidores do bronze.

Não será hoje facil, unicamente pelos vestigios encontrados, resolver os problemas que nos offerece a metallurgia da epoca do bronze. Entretanto ha certos factos conhecidos que, approximados e comparados uns aos outros, deixam entrever a possibilidade de uma solução. Herodoto falla de uma casta ou corporação de fundidores ambulantes, provenientes da Asia[164]. Durante a idade media ainda a mesma raça frequentava as villas e aldeias da Europa, odiada e perseguida por todos. Com o desenvolvimento da industria cada vez se tornaram menos frequentes as apparições d’estas tribus errantes. Comtudo ainda ha poucos annos uma percorreu a Hespanha e Portugal, acampando fóra das povoações e demorando-se em cada estação emquanto lhe davam trabalho. Esta gente é da casta dos ciganos, e pelo mesmo nome ou pelos correspondentes designada nos differentes paizes.

Segundo Herodoto, os _sigynnos_ seriam os mais antigos dos habitantes da Peninsula e, na oppinião de alguns auctores, seriam tambem os _ciganos_ da antiguidade. Com effeito _syginnos_, _tzigeuners_, _ziguener_, em Allemanha, _tchingenés_, na Turquia, parecem variantes do mesmo nome. Mas, se já entre os antigos iberos havia ciganos, sel-o-hiam tambem os sicanos ou sequanos, iberos que na Sicilia precederam os siculos? No ultimo capitulo d’este livro diremos algumas palavras mais ácerca d’esta questão obscurissima da ethnologia peninsular.

NOTAS DE RODAPÉ:

[139] Pelo menos Desor não os menciona, estampando e descrevendo minuciosamente os instrumentos de bronze. Vej. _Les palaffittes ou constructions lacustres du lac de Neuchatel_.--Pariz 1865.

[140] Lubbock, _L’homme préhistorique_, pag. 53.

[141] Idem, pag. 54.

[142] Lenormant, _Les premières civilisations_, tom. I, pag. 87 e 88.

[143] Vej. a pag. 27 d’este livro a classificação proposta.

[144] _L’âge du bronze_, pag. 179.

[145] Lubbock, op. cit. pag. 233.

[146] Rougemont, op. cit. pag. 32 e 33.

[147] Lubbock, op. cit. pag. 233.

[148] Lenormant, op. cit. pag. 106.

[149] Idem, pag. 86.

[150] _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal y los aborigenes ibericos, Museu español de antigüedades_, tomo VII.

[151] _Lo preshistorico en España, Anales de la sociedad española de historia natural_, tomo I, cuaderno 2.º pag. 210.

[152] _Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos eu Galicia. Museu español de antigüedades_, tomo IV, pag. 64.

[153] _Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos en Galicia. Museo español de antigüedades_, tomo IV, pag. 64.

[154] J. F. N. Delgado, _Noticia das grutas de Cesareda_.

[155] Op. cit.

[156] A cabra, encontrada no Redondo e pertencente hoje ao sr. Dr. Sanches da Gama, appareceu juntamente com moedas romanas e vasos de barro debaixo de uma pedra, perto da villa de Redondo, districto de Evora. O possuidor da cabrinha conserva tambem algumas das moedas que diz serem do imperador Filippe. O individuo que fez o achado insiste em que todos estes objectos estavam juntos debaixo da mesma pedra. Difficil parecerá attribuir á epoca romana a cabrinha do Redondo, cujo lavor todavia é menos imperfeito que o das que se conservam na Bibliotheca de Evora e as fig. 79 e 80 representam. O sitio do achado foi junto de certo ribeiro, distante um kilometro de Montoito.

[157] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._

[158] Diz Lenormant que, no tempo em que os aryos e os semitas eram ainda pastores, florescia na Asia anterior uma civilisação exclusivamente turania e kuschita. A de Susiana sería anterior á de Babylonia, pois que os chaldeus a denominavam por excellencia o _paiz antigo_. As gentes turanias que a povoavam, já vinte e tres seculos antes de Christo, emprehendiam remotas conquistas. _Les premiéres civilisations_, tom. I, pag. 108.

[159] Rougemont, _L’âge de bronze_, pag. 121.

[160] _Revue d’anthropologie_, 1875, pag. 508.

[161] Strabão Geograph. lib. III. «... _funditores tamen sunt optimi, aiuntque eam artem eos magnopere exercuisse, ex quo tempore Phœnices eas insulas occuparunt. Hi primi hominum feruntur gestasse tunicas laté pretextas._»

[162] Emile Burnouf, _L’âge du bronze, Revue des deux mondes_, 15 juin 1877, pag. 752 a 782.

[163] Ibidem.

[164] E. Burnouf, loc. cit.

CAPITULO IX

ORIGENS ETHNICAS

_Os finnicos e os vasconços.--Os seus idiomas agglutinativos.--Origem turania dos finnicos.--Será commum aos vasconços?--Provas deduzidas da philologia e da anthropologia.--Hypothese de Retzius e sua classificação das raças humanas.--Refuta-se esta hypothese.--Opiniões dos philologos ácerca da linguagem vasconça.--Os mais antigos dos craneos da Peninsula e da Europa.--Craneos fosseis de Néanderthal e de Gibraltar.--Outros do Cabeço da Arruda, Cesareda e Cueva de la Mujer.--Maxillas.--Raça de Cro-Magnon.--Sua dístribuição geographica.--Povoaria a peninsula Iberica?--Será representada ainda hoje pelos beréberes?--Factos comprobativos.--Necessidade de novas observações.--Os beréberes e os antigos egypcios.--Povos mediterraneos.--Sua civilisação ha tres mil annos.--Extender-se-hia á Peninsula?--Conclusões._

Nos extremos da Europa, entre os pantanos da Finlandia, no meio das brenhas e fraguras dos Pyreneus, remanecem, com os nomes de _finnicos_ e _vasconços_, os ultimos representantes de duas raças estranhas. Parece que outros povos mais civilisados, a quem teriam de ceder o passo e de abandonar os logares amenos e apraziveis, onde em principio habitariam, os foram de tempos a tempos repellindo e internando para as suas vivendas actuaes. O insolito da linguagem, dos costumes, das propensões, em summa do typo ethnico, em todas as epochas tem feito com que lhes attribuam maior antiguidade que aos outros povos da Europa. A linguagem, sobre tudo, torna-se por extremo notavel, pelo seu caracter agglutinativo, entre idiomas, que, por serem flexivos, correspondem a um grau superior de cultura e desenvolvimento intellectual.

Convém saber que os philologos modernos admittem tres phases distinctas na evolução da linguagem: o monosyllabismo, a agglutinação e a flexão. Ainda hoje alguns povos se conservam na primeira d’estas phases; outros persistem na segunda; outros, em fim, mais perfectiveis, mais dispostos a modificar-se, obedecendo á lei do progresso, elevaram-se á terceira. Ora, assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien (porque n’outras provincias da China a linguagem offerece o curioso phenomeno da transição da primeira para a segunda phase) assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien parece incapaz de passar do monosyllabismo á agglutinação, e muito mais á flexão, assim tambem o finnico e o vasconço têem conservado até hoje, no meio e em contacto de povos que fallam idiomas flexivos, a sua antiga linguagem agglutinativa.

Com razão pois se tem considerado estes dois povos como subsidios importantes para a solução do problema das origens ethnicas da Europa. Porquanto, determinada a raça ou determinadas as raças d’onde procederam os finnicos e os vasconços, conhecer-se-hiam desde logo os predecessores dos mais antigos dos povos que a historia menciona. Aos vasconços, isolados como estão, e distantes de outros povos com idiomas agglutinativos, não se lhes póde rastejar a stirpe, mas quem seguir attentamente os passos e vestigios dos povos finnicos para as partes orientaes, lá irá encontrar a mesma raça na Asia; pela Siberia occidental, dilatando-se até ao rio Jenessei e até aos montes Altai. E pois se vê confinar ahi, da parte do nascente, com mongoes propriamente ditos, e, da parte do sul, com turcos e tartaros, não é muito que se tenham os finnicos como um ramo do grande tronco mongolico, e se designem tanto a estes, como aos outros povos com que se emparentam, pelo nome generico de _turanios_, da região que parece ter-lhes sido berço, para os distinguir dos aryos ou _iranios_, povos oriundos não do Turan, mas do Iran.

Procederiam, porém, os vasconços egualmente do Turan, e pertencerão por conseguinte á raça mongolica? O caracter agglutinativo da linguagem, só por si, não basta para demonstrar identidade de origem ou de raça. Homens brancos, amarellos e negros fallam idiomas agglutinativos em varias partes do mundo. Mas Luciano Bonaparte e Charancey julgaram achar outras analogias particulares entre o finnico e o vasconço, e entenderam que seriam ambos da grande familia das linguas turanias do norte da Asia[165]. No campo da anthropologia cuidou Retzius ser commum a finnicos e vasconços a mesma fórma do craneo. Assim a identidade ethnica d’estes povos parecia provada por duas das sciencias que mais competentemente o poderiam fazer.

Deixaremos aos philologos a analyse e discussão da prova philologica, por exigir conhecimentos geraes de linguistica e especiaes dos idiomas agglutinativos. Mas, para bem se avaliar a prova anthropologica, importa-nos dizer algumas palavras ácerca da hypothese de Retzius.

A côr da pelle, da iris e do cabello, por uma parte, e por outra parte a distribuição geographica, têem servido de elementos fundamentaes á maior parte d’aquelles que tractaram de classificar as raças humanas. Todavia nem Blumenbach, nem Cuvier, nem Morton, nem Agassiz, nem qualquer dos auctores de classificações principalmente fundadas nos caracteres referidos, deixaram de prestar a devida attenção aos da fórma e capacidade do craneo. Tal é com effeito a importancia d’estes caracteres, que, relativamente aos de outros orgãos, muito bem poderemos consideral-os como subordinadores.

Retzius foi quem primeiro classificou as raças humanas sómente pelas mais apparentes das differenças anatomicas observadas nos craneos. A classificação do celebre medico sueco, ha poucos annos fallecido, é tão simples como engenhosa. Todos os craneos humanos são ou _dolichocephalos_ (alongados), ou _brachycephalos_ (arredondados). Admittida esta divisão geral, as raças humanas, segundo o auctor, dividir-se-hiam tambem em raças dolichocephalas e raças brachycephalas. Cada uma d’estas classes se subdividiria em raças _orthognathas_ (com maxillas verticaes) e em raças _prognathas_ (com maxillas inclinadas de trás para diante e de cima para baixo)[166].

No tempo de Retzius os mais antigos dos craneos que na Scandinavia se conheciam eram brachycephalos; e, como os dos finnicos o fossem tambem, e se julgasse o mesmo dos vasconços, suppoz aquelle anthropologo que a Europa, antes de ser habitada pelos povos actuaes da raça iranía, o teria sido por outros da raça turania, dos quaes o maior numero sería destruido pelos primeiros, e o resto afugentado para as vertentes dos Pyreneus e para as regiões pantanosas da Finlandia.

Outro povo, não menos antigo, na opinião de alguns procedente da Peninsula, e, portanto, aparentado com os vasconços, seriam os liguros. No tempo de Herodoto e de Hecateu de Mileto habitavam uma parte da Italia. Antecedentemente haviam fundado Genova, e em epoca ainda mais remota, mil e trezentos ou mil e quatrocentos annos antes de Jesus Christo, passavam á Sicilia com o nome de siculos; e expulsavam d’ahi os sicanos, bem como, alguns seculos antes, os haviam já expulsado das margens do rio Sicano da Iberia[167]. Os liguros tinham mediana estatura, olhos e cabellos negros e a cabeça redonda. Como por estes caracteres parecesse não pertencerem ás raças iranias, associaram-os tambem aos vasconços e finnicos, reportando-os á raça mongolica e constituindo com todos a população primitiva da Europa. Os liguros seriam dos povos autochtonos totalmente destruidos, chegando a perder-se a sua linguagem, que ninguem hoje sabe qual fosse, mas que, segundo a hypothese, deveria pertencer ao grupo das agglutinativas, e assimilhar-se, portanto, ás dos finnicos e dos vasconços[168].

Todas as apparencias pareciam pois em favor da hypothese. Povos de raça mongolica, taes como os finnicos, liguros e vasconços, habitariam em epocas remotissimas a Europa. Viriam depois os aryos que destruiriam os liguros e porventura outros povos, cuja memoria se perdesse, e deslocariam os finnicos e os vasconços para a Finlandia e para as vertentes meridional e septemtrional dos Pyreneus.

A hypothese de Retzius importava necessariamente: 1.º A brachycephalia dos mais antigos dos craneos humanos fosseis da Europa; 2.º A brachycephalia das raças mongolicas ou turanias; 3.º A brachycephalia dos finnicos, liguros e vasconços; 4.º finalmente, a dolichocephalia das raças aryas, e portanto da maior parte dos actuaes europeos. Contra a opinião de Retzius está hoje demonstrado: 1.º Que os mais antigos dos craneos humanos fosseis encontrados na Europa são dolichocephalos; 2.º Que a brachycephalia não é caracter exclusivo da raça mongolica ou de qualquer outra, mas que em cada raça ha uns craneos brachycephalos e outros dolichocephalos, predominando porém uns mais outros menos conforme os grupos ethnicos; 3.º Que os finnicos são brachycephalos, mas os vasconços hespanhoes dolichocephalos; 4.º Que entre os aryos ha tambem craneos redondos ou brachycephalos. Além d’isto a diversidade dos typos ethnicos dos finnicos e dos vasconços não consiste unicamente na fórma do craneo. Os primeiros têm grande estatura, cabello muito louro e olhos azues: os segundos são morenos com olhos e cabellos de côres escuras.

Destruida a prova anthropologica, resta-nos a prova philologica. Já dissemos que reservariamos aos philologos a analyse e discussão d’este ponto. Entretanto, limitando-nos aos argumentos de auctoridade, poderemos ainda mostrar que a prova não tem o valor que alguns lhe attribuiram. Com effeito, sendo extremamente communs na Asia, Africa e America os idiomas agglutinativos, tanto se póde relacionar o euskara (lingua dos vasconços) com o finnico da Europa, como com qualquer das innumeras linguas da mesma classe d’aquelles tres continentes. E na verdade todas essas hypotheses têm seus propugnadores. O atraso da philologia comparada e a imperfeição dos methodos de demonstração fazem possivel a defesa de todas as opiniões.

Modernamente porém vae prevalecendo a tendencia para reunir no mesmo grupo o euskara e certas linguas da America. A analogia, segundo Pruner-Bey, está na indole geral da linguagem euskara, na construcção da grammatica, e finalmente no systema de numeração. Whitney, sem affirmar decisivamente a analogia do vasconço com os idiomas americanos, entende que no Velho-Mundo não ha nenhum que lhe seja tão similhante[169]. Hovelacque, posto que censure aquelles que não hesitam em suppôr intimo parentesco entre o chippeway e o lénâpé ou outras linguas da America e o euskara, confessa comtudo haver certas analogias de conjugação entre os verbos das primeiras e os da segunda. Nota mais uma particularidade commum aos idiomas dos vascongados e de alguns povos americanos e vem a ser a composição por syncope. O vasconço faz, por exemplo, de _ortz_, nuvem, e de _azantz_, ruido, _ortzanz_, trovão ou, litteralmente, ruido da nuvem[170]. Em fim Max-Müller reune o vasconço, o georgiano e as linguas agglutinativas da America no mesmo grupo que chama das linguas _holophrasticas_, terceiro das agglutinativas, e colloca a lingua dos finnicos separadamente no segundo grupo das linguas turanias[171].

Mais adiante veremos que não sómente a philologia, mas tambem a archeologia propende a estabelecer interessantes relações entre os habitantes prehistoricos da Iberia e os de certas regiões da America. Por agora, inutilisado o fio que Retzius propozera, para servir de guia no labyrintho das origens ethnicas da Europa em geral e mais em particular da Peninsula, buscaremos outro que nos offerecem os ultimos descobrimentos da paleontologia humana.

Dentro dos limites d’esta sciencia, que não passa ainda para além da idade quaternaria, os vestigios dos primeiros habitantes da Peninsula correspondem ás estações prehistoricas de San Isidro, perto de Madrid, e da pedreira de Forbes em Gibraltar. Consistem os primeiros em instrumentos de silex, os quaes, pelas fórmas e lascado, se assimilham de tal sorte áquelles que se tem descoberto em Saint-Acheul, que mui naturalmente se reportam á mesma epocha, isto é, aos primeiros tempos da idade quaternaria, o que tambem se prova com a grande espessura do deposito que é de vinte e um metros bem medidos. O craneo achado em Gibraltar tem os caracteres anatomicos da mais antiga das raças até hoje conhecidas. Importa-nos pois saber qual foi esse typo humano, e quaes os elementos por onde os naturalistas fixaram os seus caracteres fundamentaes.