Chapter 2
É claro que não havemos de fazer, agora e aqui, a biographia de Mestre Gualdino ou Gualdim ou Galdino Paes. N'esse ponto, é justo louvar as diligencias e os trabalhos de Costa (_Historia da Ordem_, etc.) e de Viterbo (_Elucidario_), que reuniram interessantissimos documentos sobre o Templario portuguez. Segundo o primeiro, Galdino nasceu em 1118 e morreu em 1195. Era filho de Payo Ramires e de D. Gontrade Soares, nomes que denunciam uma origem visigoda. Pelo pae, era bisneto de Ayres Carpinteiro que lhe trazia uma bella tradição de fidalguia authentica.
N'um velho livro de linhagens anda dispersamente registada esta prosapia:
--«Este Ayres Carpinteiro onde (d'onde) vem os Ramirãos foi casado com Amiana de Selharis e de Tevora e fege nella Ramiro Ayres...»
Ramiro casou com Orraca Peres, filha de Gontinha Eres e de Dom Pedro Affonso de Doreas--«que fez Manhente,»--e o seu primogenito foi Dom Payo Ramires. Casou Dom Payo, a primeira vez, com Dona Orraca de Caldelas de Galiza, de quem teve o alcaide Dom Vasco Paes,--«e desque morreu esta mulher a D. Payo Ramires casou com a irman de D. Payo Correa o _Velho_ e fege nella o mestre D. Gualdim Paes do Templo e D. Gomes Paes de Piscos: e este mestre D. Gualdim Paes fez Tomar e Pombal e Castelo de Almoyrol e poboou outros muitos logares que ganhou á ordem, e foi muito forte em armas e leixou ao Templo o que agora ha, e em Abelamar (talvez em _alem-mar_)».
Goes, que gostâmos sempre de consultar n'estas historias, não parece ter encontrado nos Paes, do seu tempo, pelo menos, uma genealogia muito antiga, pois que abre o «titulo» com Payo Rodrigues que--«foi um cavalleiro muito honrado em tempo delRei Dom Affonso o quinto, e foi filho de Pedro Esteves, Alcaide Mór de Portel»--. São outros, evidentemente. Tambem da semente d'elle, como dizem os geneologos, não seria facil haver noticia, espalhada, como ficaria, clandestina ou ganceira, pela Syria e pelo Ribatejo, nas aventuras e desmandos das campanhas do Templario.
Segundo Cunha, nasceu o Mestre em Braga e--«n'ella se conserva ainda hoje uma rua com o nome de D. Gualdim, em que é tradição que nasceu»--.
Corrigem outros, observando que alli fôra Procurador ou Mestre da Casa do Templo, que lá existira,--o que é demonstrado por um documento citado no _Elucidario_ de Viterbo,--mas que em Marecos, depois Amaraes e hoje Amares, a 10 kilometros de Braga, é que realmente nascera o Mestre, que fôra até o primeiro a usar e a nobilitar o titulo de Marecos, da herdade que foi o nucleo da povoação.
Convem dizer, pois que não tem sido dito até hoje, que outro velho codice geneologico põe uma sombra de duvida n'esta gloria da pequena povoação minhota, dizendo, um tanto obscuramente:--«E o meestre dom galdim paez do tempre e seu irmaão _forom naturaaes dapardar de braa_». Mas sendo justa a hesitação na leitura indicada na compilação da Academia (_Port. monum. hist._), não será talvez muito aventuroso ler:--_da par de Braga_,--restituindo á antiga Marecos, o seu Templario. E já agora avivemos o registo de um pequeno episodio que n'esta altura nos offerece esse codice.
Uma neta do irmão de Galdino:--Dona _Estevaynha_ ou Estevaninha Paes casou com Dom Martim Annes de Riba da Visella, neto, pela mãe, de um grande fidalgo Dom Soeiro Mendes o Gordo que a tivera de uma barregan e que fazendo-a herdeira--«mui bem e mui compridamente em seus beens»--a casára com Dom João Fernandes de Riba da Vizella.
Diz então o codice:--«E este meestre dom galdim paaez do tempre fez muyto bem e deu grandalgo a este dom Martim Annes de riba davizela quando casou com esta dona steuaynha paaz sobredita».
Martim Annes foi--«mui priuado delRei dom afonso de portugal, filho delRei dom sancho o uelho».
Por ordem do Rei foi cercar a irmã d'este, a Infanta Dona Thereza, a Montemór o Velho, e derrotado, cahiu n'um paul entre aquella villa e Coimbra. Quando lhe acudiram:--«non se pode sofrer que non morese do sangui que del tirarom as çameçugas».
Dá, ainda, uma tradição constante, e parece confirmar a inscripção de Thomar, que Galdino fôra creado na côrte do primeiro Rei portuguez, e por elle armado cavalleiro na batalha de Ourique, em 1139. É sómente dez ou mais annos depois d'esta data, que nos apparece nos documentos, e já como Templario graduado, consequentemente depois do seu regresso do Oriente.
Segundo Cunha e os diplomas reunidos por elle, seria, até, sómente na era de 1199, correspondente ao anno de 1161, que pela primeira vez nos appareceria como Mestre, na doação que lhe faz o Rei:--_tibi Magistro Gualdino_,--de certas herdades cultivadas e por cultivar junto de Cintra; mas Santa Rosa de Viterbo (_Elucidario_) encontra-o muito antes, em 1148, figurando como _Mestre_ da Casa Templaria de Braga, n'uma concordata feita com esta, e em 1157 como _Mestre_ absoluto ou Geral dos Templarios em Portugal, succedendo a Dom Pedro Arnaldo, que abdicou n'esse anno e morreu no seguinte. Terá Viterbo lido bem aquella primeira data? A interrogação parecera impertinente em relação ao erudito investigador, se um facto muito positivo a não auctorisasse. Esse facto é a tomada de Ascalonia, expressamente indicada na inscripção. Essa tomada, é claro que não foi a de Saladino aos christãos, que só se realisou em 1187. Foi a dos christãos aos turcos. Estava lá, então, Galdino; isto é, estava no Oriente em 1153, que é a data d'esta conquista. (Michaud, _Hist. des Croisades_, t. II.)
Estava, e demorou-se ainda. Estando em 1157 em Portugal, e sendo feito, então, Mestre geral dos Templarios Portuguezes, partiria em 1152, ou pouco antes, mas já partiria, então, como templario graduado, se é verdadeira a data de 1148, attribuida por Viterbo á concordata de Braga, o que, de resto, não repugna inteiramente á inscripção.
Inclinamo-nos a crer que foi realmente em 1157 que Galdino voltou, sendo então elevado ao cargo de Mestre geral, ou, como a inscripção diz:--de Procurador do Templo, em todo o Portugal, tendo partido, como simples Mestre da Casa de Braga, em 1152, ou pouco antes.
Dos castellos alludidos na inscripção, dois,--o de Idanha e o de Monsanto,--são-lhe doados em 29 de novembro da era de 1203 (1165), chamando-se-lhe tambem Mestre:--_vobis Magistro Gualdino_--.
A ideia vulgar da hierarchia monastico-militar póde parecer extraordinario que elle seja designado simplesmente como _Procurador_, em outubro da era de 1207 (1169), quando lhe são doados, e á Ordem, os castellos de Zezere, de Thomar, e ainda o de Cardiga--«com todas as herdades que alli fizeste e rompeste»--devendo notar-se que n'esse mesmo anno como tal se apellida tambem, na doação:--«de toda a terça parte que pela graça de Deus poderem adquirir e povoar desde o rio Tejo por deante--»para o sul, é claro, aos--«cavalleiros chamados do Templo de Salomão»--nas pessoas dos de Portugal e de--_vobis Fratri Gualdino in Portugalia rerum Templi Procuratori_--.
Mas esta qualidade de _Procurator_, referida á gerencia regional ou provincial dos diversos agrupamentos da Ordem, não era inferior, e muito menos incompativel, com a categoria de _Magister_, a bem dizer a de Superior de cada Casa ou Commenda, com tendencias para substituir aquella pela separação das diversas communidades nacionaes.
Não foi Galdino o unico _cruzado_ portuguez; mas é dos raros cujos nomes se apuram. Se das suas façanhas no Oriente resa sómente a inscripção, outros e diversos documentos a corroboram brilhantemente na historia patria.
XI
[Figura: Claustro da sé de Lisboa.]
Leitura:
--_Esta sepultura é de dona (?) Ignez Eannes, sobrinha de Vicente Domingues Bolhão_.
Tem um certo interesse de occasião esta inscripção modestissima, agora que vae celebrar-se o centenario de Santo Antonio de Padua, mais propriamente: de Lisboa. _Bolhões_ eram a familia d'elle. Vicente Bulhão se chamou o avô, ou, melhor, Vicente Martins _dito o Bulhão_, o que devia desconcertar um pouco os genealogistas, no esforço de engrandecer e nobilitar a alcunha que se tornou patronymico:--_Vicenti Martinii dicti Bulhon_,--segundo a nota obituaria que elles encontraram--«no livro de mão da Kalenda da Sé antiga de Lisboa».
D'este Vicente, veiu Martim Bulhão,--_Martinus Bulhon_, resava a mesma nota,--que, desposando Theresa Taveira, teve os seguintes filhos:
--Pedro Martins de Bulhão, do qual, nota semelhante á citada, dizia:--_6 nonas julii obiit Petrus Martinii dictus de Bulhon_,--tendo vivido na primeira metade do seculo XIII; d'elle procedeu um personagem relativamente illustre, o confessor da Rainha Santa, capellão de Dom Diniz e lente de theologia da Universidade: Dom Domingos Martins, conego de Santa Cruz.
--Fernão Martins de Bulhão, o nosso futuro Santo Antonio;
--Vicente Martins de Bulhão;
--Feliciana Martins Taveira;
--Maria Martins Taveira, freira, que morreu tambem com ares de santidade, em 18 de fevereiro de 1240.
Mas é claro que o Vicente da inscripção não é nem o primeiro nem o segundo. É, porém, da familia, neto de um ou bisneto do outro, segundo Monterroyo.
Teve duas irmãs Vicente Domingues, que casaram fidalgamente: uma, Dona Sancha Martins Bulhão, com Dom Soeiro Fernandes Alam, que viveu no tempo de Dom Affonso III e Dom Diniz, e com o qual se orgulham os Soares de Albergaria; a outra, Dona Dordia, que foi mulher de Pedro Martins Botelho, de Riba de Vizella, e depois de Reymondo,--como quem diz Raymundo,--de Portocarrero.
Mas nenhuma d'estas senhoras parece ter-nos dado a Ignez da inscripção, cuja paternidade modestamente se escondeu na prosapia do tio, especie de conservador ou agente official dos negocios das colonias extrangeiras em Lisboa.
Uma Ignez se encontra, proximamente, na familia; mas é Ignez Dias Bulhão, procedente da geração da Dona Dordia, e que Dona Leonor Telles, a rainha bigama, considerava sua parente.
Temos, pois, de nos contentar com o facto do tio nos authenticar a antiguidade da inscripção, que obsequiosamente nos forneceu o estudioso e dedicado secretario da _Arte Portugueza_, sr. D. José Pessanha.
XII
[Figura: Thomar. Igreja de Santa Maria dos Olivaes, na parede da segunda capella, á direita.]
Leitura:
--_Obiit frater gvaldinvs magister militum templi portugalie E. MCCXXXIII, III.^o idvs octobris. Hic castrvm Tomaris cum multis aliis popvlauit. Requiescat in pace. Amen._
Versão:
--_Morreu Frei Galdino, Mestre dos Cavalleiros do Templo em Portugal, na era de 1233, terceiro dos idos de outubro. Este castello de Thomar, com muitos outros, povoou. Descance em paz. Amen._
No movimento, um pouco desordenado, diga-se de passagem, das celebrações apotheosicas, centenaes ou não, que ultimamente se tem manifestado entre nós, pensaram alguns cavalheiros de Thomar em promover uma que attrahisse as attenções e a concorrencia de forasteiros á formosa cidade do Nabão, bem digna realmente de ser mais conhecida e visitada. Tiveram, então, a feliz idéa de tomar por thema o nome e a memoria do valente Templario portuguez, Galdino Paes, tão deploravelmente esquecido tambem, e de quem póde dizer-se que foi, alem de fundador de Thomar, um dos mais intrepidos e persistentes cooperadores da fundação de Portugal.
Sob aquella idéa se reanimou o empenho do meu amigo e distincto director-professor da Escola Industrial d'aquella cidade, sr. Manuel Henrique Pinto, de encontrar a jazida dos restos do glorioso Templario. Aproveito a occasião para dizer, com reconhecimento, que o sr. Pinto tem sido o meu mais dedicado e caloroso auxiliar n'esta colheita de _calcos_ de inscripções portuguezas. Honra lhe seja, que n'isso não é a mim, mas á Historia e ao paiz, que presta um bello serviço.
Obtendo licença para sondar as paredes d'aquella interessantissima e vetusta igreja de Santa Maria do Olival ou dos Olivaes, que por si dava assumpto para uma soberba monographia sobre a historia da architectura nacional, o sr. Pinto, com dois amigos egualmente interessados n'esta pesquiza, começou-a e teve a fortuna de, ás primeiras tentativas, encontrar a pedra (naturalmente um dos lados do sarcophago), em que está, nitida e graciosamente cavada a inscripção de que tirou e me enviou o magnifico _calco_, em poucos minutos reproduzido pelo lapis primoroso e firme de Casanova. Como se vê, a inscripção não offerece hesitações ou duvidas de leitura ou de contemporaneidade, esta ultima perfeitamente flagrante, para quem conhece a epigraphia tumular do tempo, com as suas cruzes espalmadas (_pattées_) iniciaes, com as maiusculas oscillando entre o romano e o gothico, com o seu _pautado_, até com a sua redacção dos velhos obituarios e livros de calendas, monasticos. Lê-se ao primeiro relance. Que o til ou plica que ornamenta um dos XX da _era_, não suggira reparo. Tem o mesmo valor que os do _e_ (era), do _m_ (mil) ou dos _cc_ (duzentos): isto é, nenhum tem. O Viterbo do _Elucidario_ já advertiu esta especie de mau habito decorativo, inconsciente.
A _era_ é indiscutivelmente a de 1233, correspondente ao anno de Christo de 1195. Sempre se lucrou, com a idéa do centenario, ficarmos definitivamente sabendo que o grande Templario morrêra em 1195, a 13 de outubro. Teria então setenta e sete annos, se tambem acertou Costa (_Hist. da Ord._), quando o dá nascido em 1118. Cedo fizera Galdino a sua iniciação de Cavalleiro do Templo nas longinquas campanhas da Syria; mas, por mais cedo que n'aquelles tempos se fosse homem, é claro que andam erradas algumas datas das suas doações e fundações. Apparecer-nos elle como Mestre,--_tibi Magistro Gualdino_,--em 1161, isto é, aos quarenta e tres annos, na doação das casas e herdades cultivadas e por cultivar junto de Cintra, não repugna, comtudo.
Em 1169, isto é, aos cincoenta e um, é que recebe toda a terça parte que podér adquirir e povoar desde o Tejo por deante, em doação «a Deus e aos cavalleiros chamados do Templo de Salomão», como Procurador d'elle em Portugal:--«_vobis Fratri Galdino in Portugal rerum Templi Procuratori_»,--e mais os castellos da foz do Zezere, de Cardiga, e o de Thomar, com todas as herdades--«que fizestes e rompestes». Já anteriormente, em 1165, lhe haviam sido doados,--_vobis magistro Gualdino_,--e á Ordem, os castellos de Idanha e de Monsanto, e antes ainda, seguramente,--«aquelle castello que se chama Ceras»--e a Redinha. Rigorosamente, estas doações não eram mais que as confirmações reaes das fundações, das conquistas e das explorações agricolas, com que o activo Templario e os seus freires iam acrescentando e consolidando, dia a dia, a patria christã e portugueza.
XIII
[Figura: Portalegre; Convento de S. Bernardo (seminario), na casa do capitulo (arruinada). Lapide de marmore, com a figura de uma abbadessa esculpida e em volta a inscripção.]
Leitura:
--_Aqui jaz Dona Branca de Vasconcellos, a primeira abbadessa que foi d'este mosteiro, a qual ensinou as mo(n)jas d'elle, do começo de suas profissões. E falleceu aos 23 dias do mez de outubro de 1537._
Seria uma das filhas de João Rodrigues Ribeiro de Vasconcellos?
Diz Goes:
--João Roiz Ribeiro de Vasconcellos, filho d'este Ruy Vaz, foi senhor da Casa de seu pae, e foi casado com _Dona Branca_ de Meneses, filha de Ruy Gonçalves da Silva, Alcaide Môr de Campo Maior e Ouguella, de quem houve... «_e outras que são freiras_».
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