Part 9
D. Maria de Noronha, filha herdeira de D. Pedro da Costa, armeiro-mor, casou com D. Luís da Costa, que era filho de D. António da Costa, que era bastardo de D. Álvaro da Costa «Queimado», deão da Guarda e, por este casamento, foi também armeiro-mor, e teve deste matrimónio a D. António Estevão da Costa e Sousa.
D. António Estevão da Costa e Sousa, filho de D. Luís da Costa, armeiro-mor por sua mulher, herdou a casa de seu pai e ofício de sua mãe e foi armeiro-mor, casou com D.ᵃ Madalena Luísa de Mendonça, filha de D. António José de Melo, de quem teve a D. José da Costa e a D. António José da Costa.
D. António José da Costa casou com D.ᵃ Antónia Rosa de Melo, foi servir na Índia, e pereceu no naufrágio da fragata _Vencimento_ em 1748.
Destes nasceu D. José Francisco da Costa e Sousa, que foi armeiro-mor pela morte de seu tio paterno D. José da Costa. Casou com D.ᵃ Maria José de Sousa e Macedo, filha do primeiro visconde de Mesquitela. A este sucedeu seu filho:
D. Luís da Costa e Sousa de Macedo, que casou com D.ᵃ Maria Inácia de Saldanha Oliveira e Dão, filha dos primeiros condes de Rio Maior. Foi elevado a conde de Mesquitela em 22 de janeiro de 1818 e a par do reino em 1826. Deste matrimónio nasceram:
—D.ᵃ Maria Amália, a 10 de março de 1809;
—D.ᵃ Maria José, a 2 de março de 1811;
—D. João Afonso, a 11 de fevereiro de 1815;
—D. Luiz António, a 25 de outubro de 1816;
—D. Pedro, a 14 de maio de 1821;
—D. António, a 24 de novembro de 1824.
D. João Afonso da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque foi décimo segundo armeiro-mor, segundo conde de Mesquitela e primeiro duque de Albuquerque por carta de mercê de 1886. Não casou; faleceu sem sucessão em 24 de setembro de 1890 e sucedeu-lhe seu irmão.
D. Luís António da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, atual conde de Mesquitela e senhor do morgado de Albuquerque em Azeitão.
Os títulos de que gozam estes Sousas de Macedo têm as seguintes datas:
Ofício de armeiro-mor, 27 janeiro de 1522;
Barão de Molingar e par de Inglaterra, 28 de junho de 1661;
Senhor de Mesquitela, 23 de dezembro de 1665;
Barão de Mesquitela, 27 setembro de 1666;
Visconde de Mesquitela, 28 de maio de 1754;
Conde de Mesquitela, 22 de janeiro de 1818;
Duque de Albuquerque, em 1886.
XII
O palácio da Bacalhôa, alojamento real—Hóspedes célebres
D. José I, por ocasião dos exercícios militares no acampamento dos Olhos d’Água, veio estabelecer-se com a corte e ministros em Azeitão e alojou-se no palácio da Bacalhôa.
O conde de Oeiras hospedou-se na próxima casa da quinta da Palhavã. Era um pequeno edifício, bem situado, com certa nobreza de formas e bom gosto, residência de família abastada, que vivia no campo. Ao andar nobre e à capela da vocação de Nossa Senhora do Cabo, dava serviço uma escadaria e varanda de cantaria. Hoje é por terra.
O rei, no dia 1.º de dezembro de 1767, data de Vila Fresca de Azeitão um alvará de providências sobre o depósito público, e outro ordenando certas disposições disciplinares para o colégio dos Nobres.
No dia 5 respondeu ao breve do papa Clemente XIII.—«_A quo die illa inciderunt_», de Roma, 31 de agosto do mesmo ano.
No dia 11 de dezembro D. José faz passar um alvará de descoutamento da parte norte da serra da Arrábida, atendendo às queixas dos cultivadores, a quem a caça e os animais bravios, criados no terreno defeso, destruíam as searas e plantações.
O conde de Oeiras aproveitou, como seu amo, o remanso do campo, para responder ao breve—«_Etsi plurimce_»—que o pontífice romano tinha dirigido ao—«_Dilecte Fili Nobilis vir Comes Oeyrensis_»—«_Datum R091103 apud Sanetam Mariam Majorem sub annullo Piseatoris die XXXI Augusti MDCCLXVII_». A resposta é datada—«_In oppido de Azeitão V die mensis decembris anno Domini MDCCLXVII._»
Também de Azeitão e no mesmo dia o conde de Oeiras responde ao arcebispo de Niceia, núncio em Madrid, que em 28 de outubro enviara os breves para Portugal[66].
* * * * *
É de crer que o palácio, por ocasião da pousada ali do rei D. José, ainda estivesse mobilado; depois disto, entregue a feitores e rendeiros, nu de quaisquer móveis, foi caindo a pedaços até ao estado de ruína em que se acha. Como por esquecimento, existiu numa das salas, até há poucos anos, um formoso armário de bela talha em carvalho, que foi retirado para Lisboa depois da morte do duque de Albuquerque. Mesmo nisto a sorte quis dar à Bacalhôa uns laivos do castelo de Alvito; na primeira sala deste palácio há um móvel, espécie de grande contador, não comum nas formas e que não é de todo mau, ainda que muito inferior ao da Bacalhôa, por ser aquele apenas obra de marchetaria a duas madeiras.
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Em 1838 o marquês de Saldanha, marechal e depois duque do mesmo título, descontente do governo, veio para a Bacalhôa, de que então era senhor o conde D. Luís da Costa, casado com D.ᵃ Maria Inácia, irmã do marechal; habitou por meses o palácio, sendo-lhe companheiro o conde da Cunha.
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Disse quanto sabia.
APÊNDICE
A que se faz referência na nota da página 36
O Sr. Theodoro Rogge, ilustre professor alemão e amador distinto e enthusiasta de faianças, veio a Portugal e, no seu regresso à pátria, deu a lume no periódico «_Blätter für Kunstgewerbe_» (Ano de 1895, caderno 3.º e 4.º) um excelente artigo sobre alguns azulejos que encontrou no nosso país e que julgou dignos de menção especial. Tão pouco se tem tratado em Portugal deste género de cerâmica que me pareceu conveniente tornar conhecido aquele interessante escrito, de que se fez tiragem em folhas separadas, das quais e respetivas estampas o ilustre professor me brindou com um exemplar, cuja tradução segue:
Tiragem separada do _Jornal da arte_. Ano de 1895, caderno 3.º e 4.º
Arte cerâmica e decoração em Portugal
Em Portugal a cerâmica serve para fins decorativos pelas maneiras mais variadas, começando nos mais simples objetos de necessidade imediata, como o fogão, os ladrilhos toscos do chão e análogos, e rematando nos magníficos azulejos de faiança artisticamente arranjados tanto sobre o ponto de vista do arquiteto como do pintor.
O emprego destes azulejos (ladrilhos fabricados de argila cozida e esmaltados de um só lado) imprime nos edifícios portugueses uma graça especial, dando-lhes ao mesmo tempo solidez e beleza.
Em geral nos paízes do sul as paredes das casas não são construídas tão solidamente como no nosso norte, sendo apenas as molduras das portas e das janelas e os cunhais das casas construídos de pedraria rigorosamente talhada, enquanto o grosso das paredes é fabricado, sem grande prodigalidade de argamassa, de pedras irregulares, tais como as pedreiras as fornecem. Nestas circunstâncias o emprego de ladrilhos vidrados para abrigar as paredes contra a inclemência do tempo torna-se quase uma necessidade absoluta.
Tão frequente é o uso dos azulejos que eles constituem um característico do país, podendo até dizer-se que poucas igrejas e casas há onde eles se não encontrem. Ora formam as molduras dos portais das casas e dos jardins, ora constituem a decoração alegre dos vestíbulos e das escadarias.
Em muitas casas, e até em bastantes pobres, as paredes interiores são forradas de azulejos pelo menos até 1 metro de altura. Frequentemente os azulejos são empregados para decoração das fachadas desde a base até ao telhado, ora com pinturas simples, ora enfeitadas com quadros da mão de artistas, muitas vezes também cobrem eles as torres e cúpulas, sendo o seu luzir ao brilho do sol meridional de um efeito verdadeiramente esplêndido.
Os azulejos são quadrados de 0,13m até 0,16m de lado, sendo de formas e dimensões mais variadas do que as molduras dos quadros. O que dá um valor artístico e especial a estes artefactos, ás vezes aparentemente toscos, é a ligeireza e elegância do desenho, muito em harmonia com a própria índole do material. Como já disse, os azulejos são de terra de majólica, de pouca espessura, cozidos e pintados antes de serem esmaltados.
A tinta é rapidamente absorvida pela argila, sendo impossível destruir ou emendar o desenho; o esmalte, sobreposto depois, dá a tudo muito brilho e duração. Sendo limitado o número de tintas que resistem ao processo da fabricação, a variedade das cores não é grande, mas este facto mesmo produz uma harmonia de composição, que redunda em especial proveito da cerâmica. A cor mais vulgarmente usada é o azul, derivando daí (azul, ou asur é o nome árabe de _Japis-lazuh_) a designação dos ladrilhos; há, contudo, autores que derivam a palavra do árabe _zallaja_, que significa _liso_, _polido_.
A fabricação dos azulejos deve-se, sem dúvida alguma, como tantos outros processos da arte cerâmica, aos mouros, divulgando-se em todos os países onde penetrou o seu domínio. No princípio foram destinados a substituir os mosaicos bizantinos nas mesquitas; empregaram-se, porém, mais tarde, também na decoração dos edifícios cristãos. O desenho estava originariamente distribuído em chapas unicolores de diferentes tamanhos e formas, sendo pouco depois adoptado o sistema típico atual.
Como parece, os azulejos começaram a divulgar-se no século XI, se não mais cedo, mas os mais antigos, que ainda existem na península ibérica, os da Alhambra em Granada pertencem ao século XIV[67].
Com respeito à coloração pode afirmar-se que, em Portugal, nos primeiras tempos do fabrico só se empregaram tintas inteiras sem matiz, sendo mesmo raras as cores alegres (_de lustre_).
Depois da introdução das faianças italianas da Renascença, a sua influência na decoração dos azulejos não tardou a fazer-se sentir. São disto claro exemplo os magníficos azulejos do sumptuoso palácio da Bacalhôa em Azeitão, uma vila amena perto da margem sul do Tejo, em cujo sítio antigamente os fidalgos portugueses costumavam veranear.
Segundo as pesquisas profundas de Joaquim Rasteiro, português, acerca daquele interessante monumento de arquitetura portuguesa[68], a construção dele foi começada pela infanta D.ᵃ Brites, passando a propriedade mais tarde às mãos de Afonso de Albuquerque, filho do célebre herói da Índia, que consideravelmente alargou as decorações do palácio e jardim com azulejos de cores. «Afonso de Albuquerque, filho do grande vencedor dos índios, edificou em 1554, reinando João III», diz uma inscrição sobre o portão principal do átrio.
O palácio com seus jardins constitui um verdadeiro museu de todas as espécies de faianças que se podem imaginar. Encontram-se ali o azulejo unicolor servindo para decorações no género munífico, o azulejo liso com ornamentos multicolores, o azulejo lustrado (estampado em relevo) à maneira dos espanhóis, os azulejos formando quadro simbólico, histórico ou mitológico, o medalhão à maneira dos de Luca della Robbia, de baixo ou alto relevo, de _terra cota_ simples, ou colorido, ou esmaltado, com festões de frutos, ou simples grinaldas de folhas.
A galeria do lado ocidental do palácio, que dá para o jardim, tem revestimento de azulejos até à altura de 1m72. No meio de um desenho em azul, amarelo, verde maçã e castanho, sobre fundo branco, com friso de ovados, veem-se personificações dos rios Mondêgo, Nilo, Danúbio e Douro com ricas bordaduras, tudo obra de mão de verdadeiro artista e de inexcedível brilho e magnífico efeito[69].
Os pavilhões do jardim, as paredes e as galerias do lago artificial, no canto sudoeste daquele, são igualmente providas de ricas decorações em azulejo. Até os bancos e os alegretes das flores são revestidos de azulejos, posto que alguns destes mais simples e unicolores, formando uma espécie de mosaico. Os azulejos, que ornam as colunatas do lago são verdes com ornamentos de _lustre_, estampados em relevo cavado. No centro de uma destas paredes encontram-se as armas dos Albuquerques igualmente em azulejo. O pavilhão central, dos três situados no lago, tem não só azulejos de desenho ornamental, mas também três quadros figurais notáveis pelas suas formas e pelas suas cores. Um representa o rio Tejo, outro Suzana no banho. No fundo deste último quadro vê-se um palácio, em cujo pórtico se acha inscrito o ano de 1565. As chapas de _terra cota_ (azulejos) que cobrem as paredes deste pavilhão estão colocadas com os cantos para baixo [<>], excepto os ladrilhos dos quadros, cujas juntas são verticais e horizontais. A colocação especial dos azulejos motivou uma mudança agradável do desenho, sendo ainda aumentada pelo emprego de azulejos de desenhos diferentes.
Apresento no caderno 4.º um dos desenhos unicolores daquele pavilhão.
Toda a parede a oeste do lago, com a sua extensão de cerca de 30 metros e com a sua considerável altura, é coberta de azulejos verdes em baixo relevo, de muito valor artístico[70]. Um Neptuno lançando água, nichos e medalhões em relevo alto servem para dar mais vida ao extenso quadrângulo. O diâmetro dos medalhões é de 54 centímetros, com as grinaldas de flores e frutos de 78 centímetros. O muro sul do jardim, costeando o caminho do palácio para o lago, tem doze medalhões de baixo relevo, correspondendo a outras tantas pirâmides colocadas no alto do muro. Os relevos representam heróis da antiguidade, Alexandre, Cipião, César, Aníbal e outros. O conjunto de toda esta construção representa obra de mestre, de um arquiteto talentoso bem certo do efeito desta maneira decorativa.
Portugal é rico em ruínas grandiosas, muito pitorescas e, pela maior parte, desconhecidas no estrangeiro, como os castelos de Obidos, Leiria, Tomar e Palmela. Do último ainda se levantam ao belo céu azul as colunas isoladas de alguns arcos, e ali encontrei magníficas decorações de azulejos muito bem adaptadas às largas dimensões da igreja. Azulejos isolados, tais como se encontram nos museus da arte industrial, quase sempre de origem espanhola, não podem dar senão uma ideia muito imperfeita da magnífica harmonia e da arte genial com que os azulejos naqueles tempos foram aproveitados para a decoração. Na estampa junta vê-se o sistema de desenho empregado por cima das janelas e entre as colunas dos arcos.
A estampa, em cores, deste caderno apresenta o detalhe do desenho formado de dezasseis ladrilhos. Este desenho, como a sua roseta central, lembra alguma coisa os modelos romanescos, que provavelmente ainda se conservavam tradicionalmente nas oficinas e que, nesta igreja de caráter romão dos tempos da Renascença, estão muito no seu lugar. Os frisos, porém, pertencem à Renascença pura, sendo pela maior parte formados por filas de folhas. A mesma estampa mostra uma parte composta de dois azulejos. Todos os ornatos mostram as mesmas cores, azul ou amarelo, contornados de azul sobre fundo branco, sendo não raras vezes o fundo enchido com a cor suplementar, o que faz aparecer o ornamento em branco.
O mesmo desenho de azulejos encontra-se em alguns outros edifícios do país, por exemplo na catedral de Portalegre, no Alentejo, fundada em 1565. Mas o sistema da composição dos azulejos é sempre variado, sendo deveras surpreendente a diversidade de desenhos que se podem arranjar com os mesmos ladrilhos. É claro que para isso se precisa uma mão experimentada, sendo especialmente difícil o fecho dos cantos. Os operários daqueles tempos tinham um exame especial com respeito ao assentamento dos azulejos.
A catedral de Portalegre, cuja torre teve a cúpula revestida de azulejos, contém no seu interior ainda muitos outros desenhos bonitos e notáveis de azulejos, como o representado no caderno 4.º. O artista desenhou uns retângulos e serviu-se apenas do azul e do amarelo, mas aplicando estas cores tão bem com respeito ao espaço que ocupam que, longe de parecerem desarmónicas, exaltam o efeito uma da outra[71]. O desenho da fita é também tirado daquela igreja.
Do século XVI existem ainda muitos azulejos lisos em Portugal; estampados em relevo encontram-se no convento da Pena e no palácio real de Sintra. As chaminés gigantescas deste último, que antes parecem pagodes da Índia, eram ornadas de azulejos estampados, desenhados por Duarte de Armas, pintor do rei D. Manuel.
Nos séculos XVI e XVII fabricaram-se azulejos magníficos. Ao lado de ornamentos, de vasos com flores, de arabescos, aparecem quadros figurais, emoldurados em ricos desenhos arquitetónicos, tudo apenas em dois tons de azul, contornados da mesma cor. Os quadros representam cenas bíblicas, feitos heróicos da história portuguesa, caçadas, touradas, danças, cenas bucólicas e viagens. Estes trabalhos distinguem-se muitas vezes pelo talento do autor, mostrando sempre elegância e ligeireza do pincel, surpreendendo especialmente as figuras pela sua correção anatómica e boa representação do nu.
Forma isto um notável contraste com a moderna produção deste género na Alemanha, onde a figura humana é mal tratada até à caricatura. Da mesma época tenho de mencionar um túmulo[72] no mosteiro da serra da Arrábida, em que o revestimento azulejado da cúpula ainda está completamente conservado. Na sacristia da catedral de Portalegre todas as paredes são vestidas de azulejos, representando cenas da vida de Santa Maria, emolduradas de riquíssimas decorações da Renascença, arabescos com hipocampos, _arnorettos_ e festões.
Também em algumas igrejas de Lisboa existem interessantes quadros em azulejo daquela época, mas a maior parte ficou destruída no grande terramoto de 1755.
Atualmente a fabricação de azulejos em Portugal restringe-se, infelizmente, a estampar os ladrilhos de padrões rotineiros, perdendo-se deste modo todo o encanto artístico, que tanto distingue as produções antigas. Não me foi possível verificar se em Portugal existiam oficinas especiais para a fabricação dos azulejos, parecendo-me por isso, que sejam produto das olarias e fábricas de porcelanas. Ainda hoje uma rua de um bairro antigo de Lisboa tem o seu nome derivado daquela indústria.
As olarias tinham por patronas Santa Justa e Santa Rufina e governavam-se por um regulamento antigo, que tratava de quatro espécies de faiança, branca, vermelha, amarela e outra chamada «da Maia».
Por ocasião da vinda de Filipe III de Espanha a Portugal, em 1619, os operários das fábricas de faiança construíram também um arco de triunfo, como os outros artistas.
João Batista Lavanha, no seu livro sobre as festas celebradas nessa ocasião, descreve o arco dos oleiros. No meio de diferentes emblemas alusivos à arte, via-se a figura alegórica da olaria estendendo a mão esquerda sobre o torno do oleiro, com a mão direita levantava um vaso semilhante àqueles que então se fabricavam em Lisboa pelos modelos chineses. Por baixo da figura lia-se o seguinte verso:
«Aqui monarca excelso soberano vos oferece a arte peregrina fabricado no reino lusitano o que antes nos vendeu tão caro a China.»
Noutro quadro estava representado um navio da Índia descarregando caixotes com porcelanas chinesas. Outros barcos estrangeiros carregavam porcelana portuguesa, vendo-se ao longe iguais saindo a barra.
Pode-se concluir daí que naquela época (1620) a arte estava bastante adiantada, não só imitando-se a louça chinesa, mas exportando-se até os produtos portugueses.
Em apoio do que disse sobre a origem mourisca dos conhecimentos dos portugueses a respeito das artes cerâmicas, posso acrescentar que rara é a designação de qualquer vaso que não derive do árabe. Assim, albarrada, alcadefe, alcatruz, almofia, almotolia, bacio, barranha, bateia, bátega, botija, copa e copo, jarro, taça, etc. É notavel que entre estes nomes não só figuram os de vasos de uso doméstico e comum, mas ainda alguns de objetos exclusivamente de luxo, como, por exemplo: albarrada, que designa um determinado vaso de flores e jarra, pote de flores, ainda hoje muito em uso em Portugal.
Não posso deixar de mencionar a louça de Extremoz com as suas formas originais, tendo como as _alcarazzas_ do sul de Espanha, a propriedade de darem à água bastante frescura, em consequência da evaporação do líquido transpirando pela argila porosa e não vidrada.
Tradução do Dr. Hugo Mastbaum.
Para se avaliar do interesse com que na Alemanha se busca saber quanto pode importar a qualquer ramo da atividade humana, sirva de exemplo o trabalho do professor Theodoro Rogge, que foi capaz de encontrar num jornal, essencialmente dado ao comércio e à política (_Jornal do Comércio_, de Lisboa), o escrito de autor obscuro e desconhecido, sobre a Bacalhôa, quase ignorada. Nunca supus que aquele meu trabalho valesse ser lido por um estrangeiro no seu país e, ainda menos, que eu merecesse as frases lisonjeiras que o ilustre professor me dirige. Não tive a honra de tratar com o Sr. Rogge, nem mesmo o gosto de o encontrar na sua viagem a Portugal, por isso mais me prendem as suas palavras de benevolente aplauso.
Ao meu amigo Dr. Hugo Mastbaum agradeço cordialmente o obséquio de me fazer conhecido pela tradução o escrito do seu ilustre compatriota.
J. R.
FOOTNOTES
[1] Nota do autor: Resende, _Vida e Feitos de D. João II_.
[2] Nota do autor: Guarienti, _Abecedario pittorico_.
[3] Nota do autor: Carta do Sr. Ramalho Ortigão a J. R.
[4] Nota do autor: _Vite de più eccellenti pittori, scultori ed architetti_, de Giorgio Vasari.
[5] Nota do autor: Von Albrecht Haupt, _Die Baukunst der Renaissance in Portugal_, 1890.
[6] Nota do autor: L. 4.. da Chancel. de D. Jogo 1, fl. 24. Na Torre do Tombo.
[7] Nota do autor: O infante D. João vinha algumas vezes à sua quinta. De Azeitão a 13 de abril de 1440, data ele um alvará, proibindo, a requerimento de Diogo Mendes de Vasconcelos, comendador de Sesimbra, a pastagem de gados na ribeira da Yena (hoje Aiana). Num outro alvará, de Azeitão também, datado do dia 16 do mesmo mês e ano, reestabelece o juiz da mesma ribeira, para livrar e conhecer os ditos feitos (questões de esgotamento de terras, pastagens e regime de águas) e que apreme e constranja os lavradores da dita ribeira, que respondam perante ele. Este juiz deveria ser um lavrador. Tombo de Sesimbra, fl. 123 v. e 124.
[8] Nota do autor: L. 1.0 dos Místicos, fl. 53 v. Na Torre do Tombo.
[9] Nota do autor: L. 5.º da Chancel. de D. Manuel, fl. 21 v. Na Torre do Tombo.
[10] A escritura existe no cartório dos Srs. condes de Mesquitela, senhores do morgado dos Albuquerques. O título 3.0 do livro 4.0 da ordenação Manuelina tem por título: _«Que nenhum faça contratos nem distratos, em que ponha juramento, nem boa fé». Archivo pittoresco, vol. V._
[11] _Economista_, jornal de Lisboa, n.ᵒ 1:097 de 1885.
[12] Nota do autor: Carta mandando criar em vila a aldeia de Vila Fresca. Lisboa, 5 de dezembro de 1759.
[13] Nota do autor: Alvará de Lisboa, 16 de agosto 1786.
[14] Nota do autor: A Arruda foi criada vila em 1574, e, desde os primeiros tempos da monarquia, é chamada vala, mas pelos mais antigos documentos se pode mostrar que esta vila quereria dizer granja, quinta. Em 1255 o mestre Paio Peres Correia e o comendador de Mértola, Gonçalo Peres, dão ao frei Estevão Mendes aquele campo que é chamado vila da Arruda. Em 1300 a Arruda é dada à rainha D. Isabel, recebendo a ordem de Santiago em troca a quinta da Horta Lagoa no termo de Santarém. Em 1236 já o mestre Paio Peres tinha trocado com o sobrejuiz Pedro Martins o usufruto da Arruda pelas herdades que este tinha nas lezírias da Toureira. Mais tarde, em 1300, a rainha D. Beatriz deu à ordem de Santiago a quinta da Rebaldeira em troca da Arruda. Depois ainda Afonso IV troca a Arruda pela herdade da Anisa no termo de Alcácer, isto em maio de 1329. NB. Os dois contratos atrás, de 1300, um é de 14 de junho, outro de 3 de outubro.
[15] Nota do autor: «_Et qui habuerit aldeam, et uno jugo de bois et xxxx oues et uno asino et duos lectos, comparei caualum._» Foral de Sesimbra, de Palmela e todos os do tipo de Évora.
[16] Nota do autor: A divisa do infante D. Henrique escrevia-se «_Talent de bien fere_», por _faire_.