Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica

Part 8

Chapter 84,119 wordsPublic domain

Seu filho Luís foi _um fidalgo de notáveis paradoxos_, no dizer de Sousa[54], que o levaram aos cárceres da torre de S. Julião. Seu neto João Guedes roubou-a e maltratou-a.

Conta assim o autor anónimo de um nobiliário manuscrito, que tenho à vista[55]:

«João Guedes de Miranda Henriques, sendo _muchacho_, mal aconselhado de uns criados, entrou em casa de sua avó D.ᵃ Maria _Teresa_[56] de Mendonça e Albuquerque, de quem ele era herdeiro, e a descompuseram, ferindo-a e maltratando-a infinito, tendo quase oitenta anos, e lhe tomaram as chaves e lhe roubaram mais de 80.000 cruzados[57] entre dinheiro e joias de preço e bons diamantes, que tinha herdado de seu irmão Luís de Mendonça, que foi vice-rei da Índia. Com este cabedal fugiram para Castela, onde se puseram com ele seguramente e, estando já muito pela terra dentro, os dois motores deste negócio, que eram pai e filho, criados, que mal aconselhavam a este cavalheiro, os tentou o demónio a tornarem a Portugal a cobrarem uns duzentos e tantos mil reis, por não estar ainda de todo satisfeita a sua ambição, ou, parece, permitiu Deus, fosse para castigo da sua culpa, porque mal tinham passado a raia, quando, pelas armas, que traziam, os prenderam, tempo a que chegavam as ordens para que os prendessem. Trouxeram-os para a prisão da corte, de onde foram a padecer a forca de Santa Bárbara, em que lhes ficaram as cabeças para memória do seu delito. O furto se tornou a Portugal se lo restituiu, e João Guedes de Miranda Henriques veio oculto e se homiziou em casa do embaixador de França.»

Se Luís de Mendonça foi ambicioso de riquezas, a modo de em sete anos de vice-reinado alcançar cabedal enorme, sua irmã foi uma avarenta, que só viveu para entesourar.

VIII

A D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque sucedeu seu filho Luís Guedes de Miranda Henriques, que outros apelidam de Miranda e Lima, casado em 1673 com D.ᵃ Maria de Ataíde, filha dos segundos condes de Vale de Reis. Por seu pai cabia-lhe o cargo de estribeiro-mor, todavia, o regente D. Pedro e ainda depois de entronizado, recusou-lhe a posse do lugar, e tão solto foi de palavras e ações por este facto, que lhe valeu ser encerrado na torre de S. Julião.

Em 1712 ainda havia filhos menores de Luís Guedes, de quem este não tinha a tutela. No dia 2 de dezembro, Manuel Carvalho de Ataíde[58], moço fidalgo da casa de sua majestade e comendador da ordem de Cristo, parente de Luís Guedes, data de Sernancelhe uma procuração a Pedro Vieira da Fonseca, residente na quinta de Azeitão (Bacalhôa), para poder comprar um pinhal para o menor Francisco de Assis, e outra a Manuel Salgado de Araújo, advogado da casa da suplicação, para cobrar de Luís Guedes de Miranda 80$000 reis mensais de alimentos para cada um dos filhos menores deste, compreendido Francisco de Assis, dos quais Manuel Carvalho era curador.

Não parece que Luís Guedes se detivesse na sua quinta, ou mesmo na Extremadura, pois se encontram até fins de 1718 procurações para determinados negócios do morgado datadas de Murça[59].

De Luís Guedes de Miranda e D.ᵃ Maria de Ataíde nasceram:

—Pedro Guedes, que morreu moço;

—Francisco de Assis, de quem só acho a notícia atrás dada, e

—João Guedes de Miranda Henriques Mendonça e Albuquerque, «_o muchacho_», que espancou e roubou a avó D.ᵃ Maria Josefa. Ao que parece, enlouqueceu mais tarde, tirando-se-lhe a administração da casa, conforme uma provisão régia, de que falarei. Digo parecer haver enlouquecido, porque os documentos desta época, para guardarem conveniências, muitas vezes encobrem más ações com palavras de significado bem diverso. João Guedes casou em 30 de janeiro de 1707 com D.ᵃ Francisca de Noronha, filha dos terceiros condes de Aveiras.

Em 15 junho de 1721 Fernando de Morais Madureira Machado Pimentel tomou posse do morgado da Bacalhôa por procuração de João Guedes. A 28 do mês seguinte já sua mulher D.ᵃ Francisca de Noronha data de Lisboa ocidental uma procuração para arrendamento de uma propriedade do morgado, _em virtude da administração de que a encarregou_ seu primo _o Sr. João Guedes de Miranda e Lima_. Desconheço a conveniência de D.ᵃ Francisca dar a seu marido o tratamento de primo.

Em março de 1726 estava João Guedes em Azeitão; em 1728 era ausente, havendo deixado procuração a seu filho Luís, imediato sucessor; no ano seguinte, porém, estava na sua quinta com a família e o padre João Lopes Nogueira, seu capelão. Em 1730 continuou a residir no palácio. D.ᵃ Francisca tem a administração da casa e daqui arrenda a herdade da quinta da Corona, na freguesia de Nossa Senhora A Bela em Santiago do Cacém, a herdade da Júlia e outras propriedades na ribeira do Guadiana, em Mourão, Moura e Monsaraz. No ano seguinte ainda aqui reside, dando de arrendamento a herdade do Miranda no termo de Alcácer, e entre as condições há a do rendeiro pôr em Azeitão, ou na quinta do Montijo, as pitanças, que eram: 12 porcos de dois anos, 6 marrãs de um ano e 30 galinhas. Os porcos eram avaliados a 3$000 reis e as marrãs a 1$500 réis, no caso de não agradarem os da herdade.

Em 29 de janeiro de 1732 um decreto do rei, e despacho do desembargo do paço do dia 31 ao provedor das capelas, interdizia João Guedes por demência. Transcrevê-lo-ei:

«D. João, etc. Faço saber a vós provedor dos orfãos e das capelas _destas cidades_[60] que, sendo-me presente que João Guedes de Miranda Albuquerque Mendonça lhe sobreveio demência tal que necessita pronto remédio pelas contínuas e públicas discórdias, que comete contra o decoro da sua pessoa, e que também se deixa enganar de vãs palavras, que com promessas fantásticas lhe tiram dinheiro em prejuizo de suas rendas, o que devia evitar; atendendo às qualidades que concorrem na sua pessoa: hei por bem e vos mando entregueis a administração de sua casa a sua mulher D.ᵃ Francisca de Noronha, por ter por certo a fará como convém, fazendo primeiro termo de dar contas todos os anos, perante o juiz dos orfãos, a que tocar cumprir. Assim el-rei nosso senhor o mandou pelos doutores Gregório Pereira Fidalgo da Silveira e António Teixeira Álvares, ambos do seu conselho e seus desembargadores do paço. José Maria de Faria o fez. Lisboa ocidental 31 de janeiro de 1732.»

Até fim de 1747 encontra-se D.ᵃ Francisca de Noronha em Azeitão ou em Lisboa ocidental dirigindo os negócios de sua casa, como _tutora e administradora da pessoa e bens_ de seu marido João Guedes de Miranda.

Destes esposos nasceram:

—José Guedes, e

—Juliana de Noronha, que morreram crianças;

—Luís Guedes de Miranda Henriques, que em 1741 casou com D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, filha dos terceiros marqueses de Fronteira D. João e D.ᵃ Helena.

Em maio de 1749 já encontro procurações do novo administrador do morgado de Afonso de Albuquerque. Diz-se ele:

Luís Guedes de Miranda Lima de Mendonça e Albuquerque, senhor das Vilas de Murça, Brunhais, Água Revés, Torre de D. Chama, comendador e alcaide-mor das vilas de Cabeço de Vide, Alter Pedroso e Granja do Hospital e capitão de dragais, etc.

Luís Guedes pouco tempo teve o morgado, falecendo em dezembro de 1757. Residiu sempre em Lisboa, administrando-lhe os bens de Azeitão, um feitor que, com procuração de seu amo, intervinha nos contratos enfitêuticos.

Não sei que de Luís Guedes e D.ᵃ Madalena houvesse filhos; no entanto, esta dama por morte de seu marido ficou cabeça do casal e com a administração do morgado de Azeitão até fins de 1782, conforme uma serie de procurações todas datadas de Sete Rios, lugar da sua residência.

O terramoto de 1755 arruinou a sacristia e lançou por terra as torres da freguesia de S. Simão, e a corporação administrativa da igreja, depois de pedir inutilmente a Luís Guedes a sua reconstrução, teve de recorrer aos meios judiciais para obrigar os senhores do morgado a cumprirem a cláusula da escritura de 1570, em que Afonso de Albuquerque lançara sobre o vínculo os encargos da conservação do templo. Este litígio foi em tempo da administração de D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, e pelos documentos, que tenho à vista, durou desde agosto de 1765 até meado de 1768. Os advogados da igreja foram D. Francisco António Vannicelli e José Luís Soares de Barbosa, pai do conhecido poeta Bocage, ambos com banca em Setúbal. D.ᵃ Madalena recusava-se a pôr o edifício no primitivo estado, querendo restaurar o que julgava absolutamente necessário. No dia 3 de julho de 1768, de Lisboa fez uma proposta para levantar só uma das torres e reparar os demais estragos.

Parece haver-se chegado a acordo, apeando-se a frontaria até ao portal e construindo-se a torre atual, que é de um talhe estranho ao mais do templo.

Desconheço o título por que D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas teve por demorados tempos a administração do morgado.

Se Luís Guedes de Miranda e Albuquerque não deixou filhos legítimos, teve-os naturais, um Manuel José Guedes de Miranda, outro cujo nome ignoro.

Luís Guedes fez testamento, do qual poucas disposições e em favor destes me são conhecidas:

Um título de abril de 1785 fala do _morgado da quinta da Bacalhôa, de que é senhor o preclaríssimo Manuel José de Miranda_, e na procuração diz-se isto:

«Manuel José Guedes de Miranda, do conselho de sua majestade fidelíssima, senhor de Murça, Brunhais, Água Revés, Torre de D. Chama, alcaide-mor e comendador das comendas de Cabeço de Vide e Alter Pedroso», etc.

Por fins de 1785 ainda Manuel José Guedes tinha a administração do morgado de Albuquerque; em abril de 1786, porém, já encontro um contrato feito em nome do armeiro-mor D. José Francisco da Costa e Sousa.

Teremos de retroceder alguns anos para vermos como o morgado de Afonso de Albuquerque pode chegar aos Costas de Mutela.

D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque e Pedro Guedes de Miranda tiveram, além de outros filhos, Luís Guedes, que sucedeu a seus pais, e cuja linha legítima se extinguiu, e D.ᵃ Joana de Mendonça, que em 1672 casou com D. António José de Melo Homem. Destes nasceram:

—D. Pedro e

—D. Madalena.

D. Pedro José de Melo Homem casou com D.ᵃ Maria Antónia de Bourbon, que faleceu em março de 1716, e seu marido em maio de 1740.

Destes foi filho:

—D. António José de Melo Homem, que nasceu a 26 de setembro de 1709[61] e casou em 1731 com D.ᵃ Mariana Joaquina de Mendonça, filha de D. Filippe de Sousa, capitão da guarda alemã.

—D.ᵃ Madalena Luísa de Mendonça casou em julho de 1690 com D. António Estevão da Costa, nascido em dezembro de 1671 e falecido em janeiro de 1724. Destes nasceram, entre outros:

—D. José da Costa, a 6 de setembro de 1694[62], e

—D. António José da Costa.

D. José da Costa casou em 1734 com D. Maria de Noronha, filha dos quintos condes dos Arcos. Sucedeu na casa e títulos de seu pai, foi _armeiro-mor_ e faleceu a 10 de março de 1766 sem geração.

D. António José da Costa casou com D.ᵃ Antónia Rosa de Melo, foi servir na Índia e, em 1748, morreu no naufrágio da fragata _Vencimento_.

Destes havia um filho:

—D. José Francisco da Costa e Sousa, nascido a 28 de maio de 1740.

Em 1766 herdou a casa e títulos de seu tio paterno D. José da Costa, e foi armeiro-mor. Em 1772 casou com D. Maria José de Sousa de Macedo, segunda viscondessa de Mesquitela, por morte de seu pai em 1783.

De D. José Francisco e de D.ᵃ Maria José foi filho:

—D. Luís da Costa e Sousa de Macedo, nascido a 25 de março de 1780 e que veio a suceder a seu pai.

Expostas esta notas biográficas, necessárias para compreensão da narrativa, tratarei da sucessão do morgado depois da morte do senhor de Murça, Luís Guedes de Miranda e Albuquerque, cuja descendência legítima não houve ou se extinguiu.

IX

Vimos que D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, viúva de Luís Guedes, depois da morte de seu marido, por muitos anos esteve na administração do morgado como cabeça do casal. Manuel José Guedes de Miranda Henriques, filho natural de Luís, teve também aquela administração, mas é de notar que nunca usasse o apelido de Albuquerque, como todos os outros administradores do morgado.

Se D. João Afonso de Albuquerque, de bastardia muito contestável, foi apto para suceder a Afonso, filho, e esteve por muitos anos na posse dos bens livres e vinculares de seu pretenso pai, Manuel José Guedes de Miranda, filho bastardo e mais velho de Luís Guedes, não deveria ter menos bons direitos do que aqueles à sucessão dos morgados de seu pai.

Como D.ᵃ Madalena de Mascarenhas, viúva de Luís Guedes de Miranda, esteve na posse do morgado, não sei; é certo, porém, que até 1782 o administrou. Também é certo que em 1784 o morgado era litigioso, que em 1785 estava na sua posse Manuel José Guedes de Miranda, e que em 1786 era senhor do mesmo morgado D. José Francisco da Costa e Sousa como herdeiro de seu tio D. José da Costa.

Há anos vi umas cartas trocadas entre Manuel José Guedes e seus primos Costas (José Francisco e Luís), e delas pude depreender que aquele era um caráter não vulgar pela sua honradez, largueza e desprendimento; Manuel José Guedes, posto na posse do morgado, julgou-se em consciência ali intruso, e, parecendo-lhe que seu primo D. António José de Melo Homem estava na melhor linha descendente de sua bisavó D.ᵃ Maria Josefa, por proceder por via masculina de D.ᵃ Joana de Mendonça, chamou-o a tomar posse do morgado; o caso despertou as atenções de seu primo José Francisco da Costa e Sousa, que se apresentou como oponente.

Vamos agora ver em que D. José Francisco fundamentava os seus direitos.

Ao tempo da morte de Luís Guedes de Miranda de Mendonça e Albuquerque, em 1757, eram vivos D. José da Costa, nascido em 1694, e D. António José de Melo Homem, nascido em 1709, ambos primos do falecido em terceiro grau canónico e sexto civil.

De D. José da Costa, falecido em 1766, fora universal herdeiro seu sobrinho D. José Francisco da Costa e Sousa, armeiro-mor, filho de D. António da Costa, irmão de D. José da Costa, e falecido em 1748, como atrás disse.

D. José Francisco viu que seu tio D. José da Costa podia preferir pela prioridade do nascimento, e, embora ele não tivesse apresentado e feito prevalecer os seus direitos, quis fazê-los valer D. José Francisco, como herdeiro e sucessor de seu tio. Rico e preponderante na política e sociedade da época, D. José alcançou que a idade prevalecesse à melhor linha, e desapossou D. António de Melo dos bens que seu primo Manuel José Guedes lhe entregara.

Guedes residia em Moura e, logo que teve conhecimento da resolução dos tribunais julgando a sucessão de José Francisco, preferindo a D. António de Melo, fez entrega ao novo senhor do morgado de Azeitão dos vínculos da Landeira e de Santiago do Cacém.

Não parece que este novo senhor residisse no palácio de Azeitão. Por este tempo já os grandes deixavam as suas casas de província pela habitação na corte, ou proximidades. Em 1796 estava na sua quinta de Mutela, solar dos Costas, e em 1799, numa procuração datada da sua quinta da Luz[63], diz-se:

«D. José Francisco da Costa e Sousa de Albuquerque, visconde de Mesquitela, armador-mor de S. M., do seu conselho, cavaleiro professo da ordem de Avis, comendador da comenda de S. Vicente da Beira», etc.

Muito se ufanavam todos de terem uns laivos de sangue de Afonso, o Grande, todos lhes queriam muito; mas só usavam o apelido Albuquerque, quando ele vinha envolto num título de propriedade.

D. José Francisco faleceu em 6 de janeiro de 1802. Sucedeu-lhe seu filho:

D. Luís da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, mancebo de vinte e dois anos, que em 13 de setembro de 1807 casou com D.ᵃ Maria Inácia de Saldanha Oliveira e Dão, filha dos primeiros condes de Rio Maior. Em 22 de janeiro de 1818 foi feito conde de Mesquitela, e em 1826 par do reino.

D. Luís da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, primeiro conde de Mesquitela, armeiro-mor, como seus avós, faleceu em Lisboa a 27 de novembro de 1853.

Do enlace matrimonial de D. Luís com D.ᵃ Maria Inácia de Saldanha, nasceram:

—D.ᵃ Maria Amália, a 10 de março de 1809;

—D.ᵃ Maria José, a 2 de março de 1811;

—D. João Afonso, a 11 de fevereiro de 1815;

—D. Luís António, a 25 de outubro de 1816;

—D. Pedro, a 14 de maio de 1821;

—D. António, a 24 de novembro de 1824.

A D. Luís da Costa sucedeu seu filho:

—D. João Afonso da Costa e Sousa Macedo e Albuquerque, segundo conde de Mesquitela, par do reino, do conselho de S. M., décimo segundo armeiro-mor, grau-cruz da ordem da Conceição, comendador de Cristo e condecorado com diversas ordens estrangeiras, serviu de capitão da guarda real de arqueiros por impedimento do duque de Palmela.

Em 1886 foi criado duque de Albuquerque pelo rei D. Luís I.

Foi um cortesão distintíssimo, conhecedor de todas as etiquetas palacianas, e de tão fina polidez que preferiu a todos os fidalgos da corte para receber no desembarque as princesas Estefânia, desposada do rei D. Pedro V, e Maria Pia, do rei D. Luís I. Na vida de sociedade era o mais fino cavalheiro; numa sala com damas não havia quem se lhe avantajasse.

Acostumado às amabilidades feminis, a render culto à beleza, foi fanático nesta religião, o que já na decrepitude lhe não ia bem.

Da sua casa foi um mau administrador; as suas propriedades rústicas ou urbanas distinguiam-se pelo desleixo total, e por se verem cair a pedaços.

A sua alma era boa.

Faleceu sem geração em 24 de setembro de 1890, com setenta e cinco anos de idade; sucederam-lhe na casa, que era grande, seus irmãos, cabendo a quinta, palácio e mais propriedades de Azeitão a seu irmão:

—D. Luís António da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, atual conde de Mesquitela. Ama o solar dos Albuquerques, aprecia-lhe as belezas de arte que encerra, e cuida de restabelecer as ruínas. Que Deus lhe conserve as felizes disposições.

X

Havendo tratado de toda a sucessão no morgado de Azeitão, instituído por Albuquerque, filho, farei uma singela lista de todos os senhores:

1.º Brás ou Afonso de Albuquerque, filho;

2.º D. João Afonso de Albuquerque;

3.º Jerónimo Teles Barreto;

4.º D.ᵃ Maria de Mendonça e Albuquerque;

5.º D.ᵃ Jorge Manuel de Albuquerque;

6.º D. Jerónimo Afonso de Albuquerque;

7.º D. Francisco Sebastião de Albuquerque;

8.º Luís de Mendonça Furtado e Albuquerque;

9.º Nuno de Mendonça Furtado e Albuquerque;

10.º D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque;

11.º Luís Guedes de Miranda e Albuquerque;

12.º João Guedes de Miranda e Albuquerque;

13.º Luís Guedes de Miranda e Albuquerque;

14.º Manuel José Guedes de Miranda Henriques;

15.º D. António José de Melo Homem;

16.º D. José Francisco da Costa e Sousa de Albuquerque;

17.º D. Luís da Costa de Macedo e Sousa e Albuquerque;

18.º D. João Afonso da Costa e Macedo de Sousa e Albuquerque;

19.º D. Luís António da Costa Macedo de Sousa e Albuquerque.

* * * * *

De Gonçalo de Albuquerque, avô de Brás, ou Afonso, filho, até aos atuais senhores do morgado, encontram-se de permeio as varonias seguintes:

1.º Barreto—Jorge Barreto, comendador de Castro Verde, marido de D.ᵃ Joana da Silva, neta de Gonçalo de Albuquerque;

2.º Teles Barreto—Manuel Teles Barreto, governador do Brasil, marido de D.ᵃ Joana de Albuquerque, neta dos precedentes;

3.º Bacalhau—D. Jerónimo Manuel, «o Bacalhau», marido de D.ᵃ Maria de Mendonça, filha dos precedentes;

4.º Mendonça—Pedro de Mendonça, guarda-mor da pessoa de D. João IV, marido de D.ᵃ Antónia de Mendonça, filha dos precedentes;

5.º Guedes de Miranda, senhores de Murça—Pedro Guedes de Miranda, marido de D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça, filha dos precedentes;

6.º Melo—D. António José de Melo, marido de D.ᵃ Joana de Mendonça, filha dos precedentes;

7.º Costa—D. António Estevão da Costa, marido de D.ᵃ Madalena de Mendonça, filha dos precedentes.

XI

Os Costas, atuais senhores da quinta e palácio dos Albuquerques em Azeitão

Querem alguns que os Costas se encontrassem em Portugal anteriormente à formação deste reino, outros fazem-nos coevos de D. Afonso Henriques. Uns e outros dão-lhes por solar a quinta ou aldeia da Costa, em Estarreja, ou, como então se dizia, na comarca da Esgueira.

Com bons fundamentos alguns outros genealogistas não vão tão longe, e fazem dos Costas um ramo da casa de Lemos; dizem-nos oriundos da Galiza e vindos para Portugal no reinado de D. Fernando I.

Vou citar um genealogista, que, mais prudente, não antecede os tempos de D. Manuel, e segui-lo-ei textualmente.

«D. Álvaro da Costa, filho de Fernão Rodrigues de Lemos e de Isabel da Costa, foi um homem honrado em tempo de el-rei D. Manuel e de D. João III. Foi o primeiro provedor da misericórdia de Lisboa, criado e feitura de el-rei D. Manuel, que o fez seu camareiro-mor e armeiro-mor e lhe deu o dom e o fez veador de sua fazenda e da rainha D.ᵃ Leonor, sua mulher. Casou com D.ᵃ Brites de Paiva, filha de Gil Eanes de Magalhães, «o Cavalleiro», que era um cidadão honrado. E a este Gil Eanes de Magalhães lhe chamavam «o Cavalleiro», por ter sido cavaleiro do Tosão, que lhe deu o imperador Maximiliano, e está sepultado no capítulo de S. Francisco de Enxabregas e mais sua mulher Isabel de Paiva, de que houve a D. Gil Eanes da Costa, cujo apelido lhe vinha por Isabel da Costa, sua avó, que foi mulher de seu avô Fernão Rodrigues de Lemos. Teve mais a D. Duarte da Costa.

D. Gil Eanes da Costa, filho primeiro deste D. Álvaro da Costa, foi veador da fazenda de el-rei D. Sebastião, casou com D. Maria, filha de João de Toeiro, um homem honrado das ilhas dos Açores, de quem houve a D.ᵃ Catarina, que casou com Luís da Silva e, por morte dela, casou segunda vez com D.ᵃ Joana da Silva, filha de D. Filipe de Sousa, que foi veador de D. Sebastião, de quem houve a D. Álvaro da Costa.

D. Álvaro da Costa, «o Queimado», filho primeiro deste Gil Eanes da Costa, fê-lo seu pai clérigo e lhe houve muitos benefícios. Foi deão da Guarda e teve filhos bastardos de Maria Manuel, sua amiga: D. Duarte da Costa, que morreu sem casar, e D. António da Costa.

D. António da Costa, filho bastardo e segundo deste D. Álvaro da Costa, deão da Guarda, foi doutor em cânones e, depois da morte de seu irmão, herdou o morgado, que lhe fez seu pai, e casou com D.ᵃ Madalena de Mendonça, filha de Luís de Góis Perdigão, de quem houve a D. Luís da Costa[64].

Teremos de voltar atrás ao segundo filho de D. Álvaro da Costa para encontrarmos na descendência de D. Duarte da Costa a dama que foi mulher de D. Luís.

D. Duarte da Costa, filho segundo de D. Álvaro da Costa, veador da fazenda, foi armeiro-mor e casou com D.ᵃ Maria de Mendonça, de quem houve a D. Álvaro da Costa e a D. Francisco da Costa.

D. Francisco da Costa, filho segundo de D. Duarte da Costa e irmão de Álvaro da Costa, foi capitão de Malaca e embaixador a Marrocos ao xerif sobre o resgate, onde morreu[65]. Foi casado com D.ᵃ Joana Henriques, dama da infanta D.ᵃ Isabel, filha de Rui Vaz Pinto, senhor de Ferreiros e Tendães e alcaide-mor de Chaves, de quem houve a D. Duarte da Costa e a

D. Gonçalo da Costa.

D. Gonçalo da Costa, filho segundo de D. Francisco da Costa e irmão de D. Duarte da Costa, por morte de seu irmão teve a comenda de S. Vicente da Beira; casou com sua prima D. Joana e, por morte desta mulher, casou com D.ᵃ Francisca, filha de D. Pedro de Almeida, presidente da câmara de Lisboa, de quem teve a D. Pedro da Costa.

Veio-lhe esta alcunha de ter aos cinco anos queimado o rosto com pólvora. Pela deformidade que lhe sobreveio e por agradar a seu pai, fez-se padre, mas sob condição de nunca dizer missa.

D. Pedro da Costa, filho segundo de D. Gonçalo da Costa, comendador de S. Vicente da Beira, e de sua mulher D. Francisca Coutinho, herdou a casa de seu pai e foi armeiro-mor. Casou com D.ᵃ Violante Henriques, que foi dama do palácio, filha de D. Francisco de Noronha e de D.ᵃ Maria de Azevedo, e deste matrimónio teve a D. Maria de Noronha, que herdou a sua casa.