Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica

Part 5

Chapter 54,058 wordsPublic domain

Do mosteiro da Conceição de Beja, bem conhecida obra da infanta D.ᵃ Brites, resta ainda o claustro chamado de D. Manuel, cujo pavimento e bancos são forrados de azulejos diversos; da antiga casa do capítulo, transformada para sacristia, vestem as paredes painéis de azulejo differentes, extremados por tarjas; é uma coleção muito interessante e variada, e todos os espécimenes são de relevo cavado. Ali, além de outros, encontrei os n.ᵒs 3, 9, 17, 23, 24, 29, 33 e 37 da Bacalhôa.

De todos os azulejos do mosteiro em demolição existem exemplares no museu, já valioso, que a câmara municipal daquela cidade está cuidadosamente formando.

A pequena capela que guarda o altar da casa do capítulo, a que me referi acima, é toda vestida, mesmo a abóbada, de belo azulejo branco e azul, quadrado ou em quadrângulos, formando um mosaico em xadrez, género muito usado anteriormente ao azulejo de desenhos geométricos, ou de folhagem e flores.

Sendo de 0,125 a 0,130m as dimensões ordinárias do azulejo por 0,020m de espessura, encontrei nuns restos do pavimento do claustro uns azulejos muito maiores e mais grossos 0,18m por 0,025m, que me parecem propositadamente reforçados para ladrilhamento. O desenho é de pouco bom gosto e imperfeita execução, relevado e a cinco cores, azul, verde, roxo claro e escuro, em fundo branco.

A variedade de tipos encontrados no mosteiro da Conceição de Beja é imensa, e não será fácil encontrar-se no país outro agrupamento de tantos exemplares diferentes de azulejo em relevo.

O templo tem uns quadros forrando a parede do Evangelho até à altura de uns 2 metros, representando a vida de João Batista, do nascimento à degolação; são a azul em fundo branco, têm a data de 1741, mas sem nome do autor. Nas tarjas, que os emolduram, há uns festães e uns _putti_ comuns a muito azulejamento da época; pelo desenho pode julgar-se serem aqueles quadros do autor dos quadros bíblicos em azulejo de S. Lourenço de Azeitão; há mesmo uma figura de pé, que parece transplantada de uns para outros, quase se pode afirmar que a mesma mão os traçou.

Na pequena coleção de azulejos da biblioteca de Évora encontram-se os n.ᵒs 9 e 18 da Bacalhôa.

Na capela jazigo de Garcia de Resende, na cerca do mosteiro de Santa Maria do Espinheiro da mesma cidade, há no pavimento, num pequeno edículo, que serviria de credência, no chão e num assento do átrio azulejos de três tipos apenas; são os n.ᵒs 23, 25 e 33 da coleção da Bacalhôa. Esta capela foi edificada em 1520, segundo a inscrição do pórtico.

De urna estreita escada, que vai ao eirado da cisterna do mosteiro, forram as paredes azulejos, que para ali vieram de outra parte; são verdes e brancos, em quadrados ou quadrângulos estreitos, mas acomodados todos a um enxaquetado. O que encontrei neles mais de reparar foi serem fabricados de um barro vermelho e pouco consistente como o de Extremoz, parecendo por isso denunciar que nesta vila se fabricaram os azulejos.

Em Alvito no palácio acastelado dos barões não há azulejos capazes de menção e em diminutíssima quantidade, em compensação a igreja paroquial verga sob eles, havendo até o mau gosto de cobrir de azulejos algumas das famosas colunas e arcos que sustentam as abóbadas. Na nave central todos os cheios das arcadas são vestidos de um azulejo liso a três cores, amarelo, branco e azul, perfeitamente igual ao de S. Simão de Azeitão, até nuns pequenos quadros com figuras de santos que estão sobre os fechos da arcaria. Os de Azeitão têm a data de 1648.

Busquei a Conceição de Beja por ser edificação da infanta D.ᵃ Brites, o Espinheiro por ser do meado do século XV, Alvito de época aproximada e a capela de Resende do primeiro quartel do século XVI, em toda a parte encontrei mais ou menos rica ornamentação de cerâmica policrómica e exemplares da Bacalhôa; mas se a Conceição de Beja excede esta em variedade e abundância de tipos, nenhum se lhe sobreleva em escolha de espécimenes e a todos falta o medalhão de médio e alto relevo circundado de molduras de opulenta ornamentação policroma.

Em Évora ouvi eu a um ilustrado cavalheiro, amador do belo, um asserto, que, pela verdade que encerra, não deixarei de registar aqui. Dizia ele: «Dos monumentos os mais terríveis inimigos são a classe clerical, os engenheiros e o tempo. Exemplos: a crasta da sé de Évora, obstruída, pejada, imunda e emparedadas todas as suas belezas pela corporação administradora da catedral; a Conceição de Beja, avariada pelas reparações em execução; o palácio acastelado de Alvito (e a Bacalhôa acrescentarei eu), em que o tempo se casou com o desleixo e o abandono».

XVIII

O palácio e demais construções da Bacalhôa, repito, formam um monumento de alta significação para a história das artes em Portugal. Delimita dois períodos distintos, a arquitetura medieval e o estilo da Renascença.

O género arquitetural que se criou no paíz em nada ali ainda influiu. Se a torre cilíndrica recorda um passado que lhe toca, vêm os acessórios dar a mão ao renascimento que aparece. Nas lógias testemunha a influência do género florentino, em tudo o mais diz-nos que as primeiras lições de classicismo nos vieram da Itália. A proscrição da ógiva lança-nos para fora do período do seu domínio; o pleno cimbre, a janela de verga horizontal e cornija, a nudez de lavores, de rendilhados, de mil acessórios brincados, segredam-nos que a nova arte queria, no seu início, mostrar-se poderosa e intransigente nestas minúcias.

Em 1515 morre Albuquerque, o Grande, deixando largos haveres; seu filho casa por 1520, faz a viagem a Sabóia no ano seguinte, e na sua diversão por Itália conhece o belo, espargido a torrentes por toda a península. De volta ao reino enamora-se do palácio e quinta de Azeitão, propriedade da família de sua mulher, e de certo muito já ali havia de cativante para prender as atenções de quem deixava a Itália. Em 1528 adquiriu por compra a quinta e _paços_.

As construções cerradas pela cerca de muros da quinta demonstram a ação do gosto italiano na época da visita do filho de Albuquerque àquele país; não será aqui o artista que traça as conceções do seu génio, mas que explana no papel um tipo, de que o proprietário lhe apresenta os lineamentos gerais e que o impressionou na sua viagem.

Vimos que de Bolonha ou de Ferrara trouxe Albuquerque a ideia para as suas _casas às portas do mar_, a Casa dos Bicos, a sua paixão pela policromia em _terra cota invetriata_ para ornamentação da sua quinta, decoração tão usada por toda a Itália naquela época, aparece claramente na Bacalhôa, aonde a semeou a mão larga nos mais variados espécimenes do género, embora já alguma coisa ali existisse.

Todos os tipos de majólica, aplicados à ornamentação de edifícios, ali se acham representados—o azulejo de cores lisas verdes, azuis ou brancos, para mosaicos e formar o xadrez, o losango, o romboide, grade ou rede—o quadro histórico, mitológico ou simbólico, o azulejo formando só por si uma figura, o azulejo de desenhos combinados para quatro e cinco placas, a rajola de relevo estilo hispano-mourisco, ou renascença italiana, o medalhão de baixo, médio e alto relevo, esmaltado ou nu de revestimento vítreo, a moldura de flores singelas, ou de variada e opulenta composição vegetal, de tudo ali há finalmente, não faltando o busto do fundador, nu de revestimento vítreo para que a camada do esmalte não fosse amolecer as formas esculturais. As estatuetas em barro eram em considerável número, mas atualmente só existe uma e mutilada num nicho do pavilhão central do lago, de que não pode, por desviada, julgar-se do seu mérito.

O gosto de Albuquerque pelos barros cozidos passava a mania; as imagens que, do seu tempo, existem na vizinha igreja de S. Simão são de barro e algumas de grande vulto.

É a Bacalhôa um museu de cerâmica ainda abundantemente provido.

O desprezo total a que tinha sido votada, desde que a administração do morgado caiu na casa dos armeiros-mores, levava-a em breve ao aniquilamento; mas, felizmente, sucedeu ao duque de Albuquerque seu irmão D. Luís, conde de Mesquitela, que, compreendendo o valor daquele cofre de joias, cuida da sua conservação e da reparação do que é possível restaurar-se.

Se um estrangeiro entendido houvesse sonhado o que ali ia de bom, tinha tido ocasião de adquirir para o seu país quanto ali há de transportável e, só com aquela coleção variadíssima, organizar um museu precioso de espécimenes raros de majólicas. O palácio, porque só interessa à arte portuguesa, deixava-o ir na derrocada.

Era tão monstruosa a rapina, tão estúpida a voracidade de alguns visitantes, tão grande a destruição exercida nos barros esmaltados pelos falsos amadores da arte, ou verdadeiros amigos do alheio, tantas as mutilações feitas nos medalhões pelas pedradas do rapazio e pelos tiros de espingarda a que as figuras serviam de alvo, tudo nascido do desleixo inconsciente dos proprietários, que aos amadores do belo só restava o apelo para qualquer governo, que, medianamente cioso do decoro nacional, expropriasse o edifício e quinta por utilidade pública, a bem da arte e sua história. E devia tê-lo feito o governo, quando resolveu adquirir o palácio acastelado da Pena em Sintra.

Ora a Pena, à parte a casa dos monges, é de hoje, pode reproduzir-se amanhã, porque não falta ainda nenhum dos elementos necessários para se levantar outra edificação igual, e julgou-se que a nação a devia tomar para si, quando, se um estrangeiro lançasse mão dela, não podia deslocar o edifício. A Pena é um caso esporádico de arquitetura, um capricho, uma fantasia de um homem dinheiroso. É o edifício belfo nas formas, esplêndido na situação; mas o que nos diz da história da arte portuguesa?...

... Diz-nos que por largos anos ali viveram vida contemplativa uns ascetas, que alcançaram convencer-se de que deste mundo passariam para outro cheio de felicidades. E isto o que pode é matar-nos de inveja pela sorte daqueles felizes por partidas dobradas. Diz-nos mais que houve um rei, que subia àquele monte e olhava o oceano, estendendo ao largo os seus olhares, para ver se apercebia uma vela que lhe trouxesse especiarias da Índia, ou levasse algum islamita, ou israelita de valia, escapado à sanha cruel do monarca. A arte só falia da aptidão artística de um estrangeiro, obrigado pela própria conveniência a permanecer em Portugal, e a quem, para matar saudades da sua terra, ou como recordações do seu país natal, aprouve plantar naquele cerro, em estação já imprópria para o plantio e frutificação, uma árvore da Germânia medieval.

A Bacalhôa, única no seu género num país que a pobreza de espécimenes raros distingue, é o monumento único que firma o renascer das artes em Portugal, e a ara votiva que o acaso fez chegar até nós, para memorar o alto génio de um rei que a história, lisonjeira dos _afortunados_, apenas representa como um tirano desapiedado.

Se tal monumento continuasse na derrocada em breve desapareceria quanto nele há de famoso para a arte e para a história.

PARTE SEGUNDA

Um pouco da história dos senhores da Bacalhôa

I

Vimos que a quinta do velho João Vicente, monteiro-mor das inatas de Azeitão, e que partia de um cabo com Afonso das Leis e do outro com Nuno Martins I, foi tomada para si por D. João[32] na era de César 1459 (ano 1421) e passada pelo mesmo rei a Álvaro Anes, seu barbeiro.

Seis anos depois, o infante D. João adquiriu-a por compra, e, falecendo em 1442, sucedeu-lhe na posse da quinta sua filha D.ᵃ Brites, que, em 1447, casou com o infante D. Fernando, filho do rei D. Duarte e irmão de D. Afonso V. D.ᵃ Brites destinava a propriedade para seu neto D. Afonso, filho natural do duque de Viseu, D. Diogo, e de D. Leonor de Sottomayor, viúva do duque de Vila Hermosa. D. Afonso, que D. Manuel fez condestável de Portugal, casou em janeiro de 1501 com D.ᵃ Joana de Noronha, filha do primeiro marquês de Vila Real; por 1502 nasceu-lhe uma filha, D.ᵃ Brites de Lara, e em 1504 faleceu o condestável.

A infanta D.ᵃ Brites faleceu em 1506 e a quinta passou para D.ᵃ Brites de Lara, bisneta da infanta, que em 1519 casou com D. Pedro de Menezes, conde de Alcoutim e terceiro marquês de Vila Real. A quinta, que era do dote da marquesa, foi por esta vendida em 1528 a Afonso de Albuquerque, filho, casado com D.ᵃ Maria de Ayala e Noronha, filha de D. António de Noronha, primeiro conde de Linhares da casa de Vila Real.

É, pelo que exponho, erro que a quinta viesse ao Albuquerque no dote de sua mulher[33]; não é mais exato que se denominasse _quinta do Paraíso_[34] nem que houvesse sido de D. Jerónimo de Noronha, «o Bacalhau».

Afonso de Albuquerque, o Grande, saindo para a Índia em 1506, deixou no reino um filho natural, por nome Brás, legitimado por carta régia de 26 de fevereiro do mesmo ano. Brás teria uns cinco anos, e ficou entregue aos cuidados de sua tia materna D. Isabel de Albuquerque, casada com D. Pedro da Silva, o Reles de alcunha.

Se não pôde gozar os carinhos do pai, teve dele um dos seus últimos pensamentos. A 15 de dezembro de 1515 Afonso de Albuquerque, de bordo da nau _Flor da Rosa_, a caminho de Goa, escreveu ao rei D. Manuel uma carta em que lhe dizia:

«Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza, estou com um soluço, que é signal de morte. Nesses reinos tenho um filho, peço a Vossa Alteza que mo faça grande como meus serviços merecem que lhe tenho feito com minha serviçal condição, porque a ele mando, sob pena de minha benção, que vo-los requeira...»[35].

No dia seguinte aquele vulto immenso, aquele génio assombroso, vergado ao peso de uma afronta do rei ingrato, era cadáver.

D. Manuel, quando teve notícia da morte de Afonso de Albuquerque e das suas últimas disposições, tratou logo de lançar mão do seu herdeiro para dirigir a jeito os cabedais, que haviam de advir-lhe.

Era um exímio caçador de heranças este rei, _afortunado_, distinguindo-se pelo seu faro fino e largo. A casa, que D. João II legou a seu filho Jorge, não lhe escapou para fazer dela compartícipe D.ᵃ Brites, filha do Bragança D. Álvaro; os haveres de Afonso de Albuquerque não podiam deixar de ir a algum da família do rei ou seu apaniguado.

Brás de Albuquerque entrou, por ordem de D. Manuel, no mosteiro de Santo Eloy, a cujos cónegos confiou a sua educação e, para que valesse mais com um nome prestigioso e afamado, fê-lo trocar o nome batismal pelo de seu pai Afonso de Albuquerque.

D. António de Noronha, que foi conde de Linhares, era filho segundo da casa de Vila Real, e Bragança por sua mãe. Não tinha grandes haveres, e desempenhava o cargo de escrivão da puridade. Tinha duas filhas, que necessitavam de amparo. Foi uma destas, D.ᵃ Maria de Ayala e Noronha, a destinada a partilhar a herança do herói da Índia.

Brás, ou antes Afonso de Albuquerque, filho, era já mancebo dos seus dezanove ou vinte anos e, para casar com aquela dama, D. Manuel assinou-lhe um juro de 400$000 réis, e mandou-lhe pagar mais 180.000 cruzados, dos soldos em atraso ao governador da Índia e das quintaladas de pimenta ao mesmo devidas[36].

No ano seguinte, em 1521, Afonso de Albuquerque, ou melhor, o genro do escrivão da puridade de D. Manuel, foi escolhido com fidalgos de boa estirpe para acompanhar a Sabóia a infanta D.ᵃ Brites, filha do rei, casada com o duque Carlos, e teve o comando de um galeão de duzentos e trinta tonéis. O conde de Linhares ficou encarregado de alcançar na pessoa de seu genro a satisfação dos altíssimos serviços de Afonso, o Grande.

A infanta tinha-se recebido por procuração em Lisboa, no dia 7 de abril de 1521, mas só no dia 10 de agosto a frota que a conduzia saiu a foz do Tejo, fundeando em Nisa, porto do seu destino, no dia 29 de setembro.

A entrada pública da princesa na corte só se realizou em maio do ano seguinte; a oficialidade e fidalgos da armada, durante aquele espaço, faziam excursões pela Itália, e Albuquerque teve ocasião de se ilustrar, visitando diversas cidades daquele país fadado para as artes.

Entretanto D. Manuel, caindo doente a 4 de dezembro de 1521, morreu em uma sexta-feira, 13 do mesmo mês, entre as dez e as onze da noite, deixando por cumprir as promessas de satisfazer no filho os serviços do grande Albuquerque[37].

Afonso de Albuquerque com sua mulher e família habitou o palácio de Azeitão, como consta de diversos contratos aqui celebrados e em que ambos intervieram. É de crer que, aqui no remanso do lar, fora do bulício da corte, mais livre de importúnios, escrevesse os _Comentários_; é possível também que, mais de uma vez, em Azeitão se encontrasse com Cristovão de Moura, no tempo em que D.ᵃ Francisca de Távora, irmã deste, casada com Álvaro de Sousa, habitou a sua casa de Alcube.

Da união de Afonso com D.ᵃ Maria de Noronha nasceram dois filhos, António, que morreu moço, e D.ᵃ Joana de Albuquerque, primeira mulher de D. Fernando de Castro, primeiro conde de Basto, capitão-mor de Évora e que faleceu sem geração.

Afonso de Albuquerque em 1568 era sem sucessor, e no dia 27 de janeiro, em Azeitão, ele e sua mulher, D.ᵃ Maria de Noronha, vincularam a _quinta de Azeitão com seu assento de casas, pomar e vinha, cercados, oros havidos e por haver, e as casas de Lisboa às Portas do Mar[38], que partiam com o Dr. Luís da Veiga e_ com a _mulher, que foi de Ayres Tavares_, instituindo um _hospital na igreja do bem-aventurado S. Simão_, que era junto da quinta de Azeitão, _para nele se agasalharem pobres caminhantes_.

O título foi escrito, a rogo dos instituidores, pelo licenciado Aleixo de Albuquerque, seu capelão, e foi aprovado no dia 28 de fevereiro do mesmo ano, na _quinta do Sr. Afonso de Albuquerque_ pelo tabelião João Rodrigues.

No hospital, a que agora se chamaria albergue, deveria haver cinco camas em memória das chagas de Cristo. Em cada cama caberiam duas pessoas e teriam seus estrados de madeira, enxergão de palha, dois cobertores de almáfega, uma manta do Alentejo, um travesseiro de lã, e outro de almáfega. As roupas e camas deveriam ser renovadas anualmente.

O albergado poderia demorar-se três dias além do da entrada, teria azeite para luz toda a noite e, durante o inverno, lenha para se aquecer e enxugar o fato. Vindo doente, poderia demorar-se cinco dias, recomendando à caridade dos administradores do vínculo, quando fosse na quinta, proverem os enfermos do necessário. Pedem aos albergados, que cada um reze cinco vezes o _Padre nosso e a Avé Maria_ pela alma dos instituidores e de Afonso, o Grande.

Nomeiam para lhes suceder na administração do morgado seu sobrinho André de Albuquerque, que escolherá consorte na família de D. Maria de Noronha; na falta de André buscar-se-á sucessor na descendência de seu avô Gonçalo de Albuquerque, e prescrevem miudamente a forma da successão. O administrador do vínculo chamar-se-á sempre Afonso de Albuquerque, e sendo mulher tomará este appelido. Cumpre-lhe mais fazer cantar em dia de S. Simão uma _missa com pregação_, e que o orador peça três _Avé Maria_ por alma dos instituidores.

Dispõem que não possa suceder no morgado o mentecapto, o abreviado de juizo, o furioso, ou herético, o que for contra o reino, a fêmea que não for virtuosa, ou fizer como tal usando mal de si; também não sucederá o _que tiver defeito algum que não possa ser casado_. O que não se determina é o modo de verificar-se a última inabilidade, de certo não quereriam que se fosse além das exigências da igreja romana aos eleitos para o sumo sacerdócio.

O administrador era obrigado a aumentar o vínculo com metade da terça dos seus bens livres. A inspeção anual do hospital deixavam-na a cargo do visitador do arcebispado de Lisboa, ou ao do mestrado de Santiago, conforme o que primeiro viesse à visita.

Mandam extrair três tratados da instituição, um para a Torre do Tombo, outro para o cartório do mosteiro de Santo Eloy, e o terceiro para o administrador do morgado. As disposições relativas ao hospital mandam que sejam gravadas numa lápide sobre a porta daquele estabelecimento de caridade.

Conheço a casa, há muito por terra, mas não vejo nem mesmo sinais de ali ter havido a tal lápide.

Em 20 julho de 1570, Afonso de Albuquerque obriga-se por escritura à construção de uma igreja para se fundar a nova freguesia de S. Simão, desmembrando-se da de S. Lourenço todas as povoações mais orientais. A conservação do templo também ficou a cargo do morgado.

_O esprital de peregrinos em Azeitão e a igreja pegada com ele_ foram feitos com o produto da venda dos _foros de casas_, que Afonso, o Grande, havia deixado em Goa, para se dizer missa quotidiana por sua alma na capela de Nossa Senhora da Serra, por ele edificada sobre a porta porque o grande capitão entrara na cidade, e que lhe serviu de primeiro jazigo[39].

O remanescente daquelas rendas seria distribuído em esmolas, dadas _às sextas-feiras aos meninos orfãos filhos de portugueses_. Uma bula pontifícia autorisou a permutação, ficando em Goa uma renda de 40$000 reis para a missa _quotidiana na capela_[40]. Na retirada de Aden, a nau _Nossa Senhora da Serra_ tocou no fundo com perigo de Afonso de Albuquerque e de toda a guarnição que na nau vinha. Escapando salvos, o governador deu 1000 cruzados e com outras esmolas se edificou a capela votiva sobre a porta chamada de Baçães. Para renda desta capela, dedicada a Nossa Senhora da Serra, Afonso de Albuquerque fez construir nas ruas próximas quarenta e oito boticas (casas para lojas de venda).

Por morte de Afonso, filho, já se celebravam os ofícios religiosos na igreja de S. Simão, e era constituída a nova circunscrição paroquial.

Afonso projetou transladar para esta igreja os restos do grande Albuquerque, seu pai; no seu testamento dispunha sepultar-se também ali e sua primeira mulher; parece, contudo, que nada disto se realizou, porque não há tradição local que o diga, e os registos da igreja são mudos a tal respeito.

O templo é de três naves, sendo abobadadas as laterais; a central ainda por morte do fundador tinha o teto por forrar. Cinco arcos de pleno cimbre, repousando em colunas dóricas, abrem as naves menores sobre a principal.

Uma das imagens mais venerada é a Virgem da Saúde, ali posta por Albuquerque; poderia ser recordação e ter relações com a peste de Lisboa em 1569, em que Afonso, então presidente da municipalidade da capital do reino, se distinguiu pelos serviços à cidade assolada pela terrível epidemia.

As paredes do templo são de alto a baixo vestidas de excelente azulejo liso, com desenho a três cores; sobre cada arco há um quadro com uma imagem de santo. Na parede da nave do Evangelho, num quadro representando o Batista, lê-se: «Juiz, escrivão e mordomos mandaram fazer esta obra. Os que agora servem este ano de 1648.»

Este pessoal era da confraria de S. João. O exterior da igreja é singelo, teve uma torre em cada ângulo; mas, derribadas pelo terramoto de 1755, o administrador do morgado, a quem competia a conservação cio templo, apenas levantou a que atualmente existe.

Na escritura para a construção do templo em 1570 não intervêm D.ᵃ Maria de Ayala e Noronha, mas por um contrato de aforamento de 4 de agosto de 1578 vejo que ainda neste ano existia; não iria, porém, muito além do seu falecimento.

Bem carregado de anos estava já a este tempo Afonso de Albuquerque, mas é certo que Afonso se achou capaz de passar a segundas núpcias com D.ᵃ Catarina de Menezes, e que esta dama não desdenhou o velhote. Como era de prever, Afonso continuou sem geração legítima, e D.ᵃ Catarina, tendo dúvidas sobre a procedência da inabilidade de procriação, passou, por morte de seu marido, também a segundas núpcias com D. João Coutinho, e veio a convencer-se, duas vezes, de que não fora por ela que se extinguira a raça do grande Afonso.

Cerca de 1581 falecem Albuquerque, filho, sem descendência legítima, mas deixando legitimado D. João Afonso de Albuquerque. Não serei eu que afirme, passados três séculos, a verdadeira procedência deste mancebo; lembro que em 1568, quando já Afonso, filho, orçava pelos seus sessenta e oito anos, ainda D. João não era nascido.