Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica

Part 2

Chapter 23,885 wordsPublic domain

No dia 20 de junho de 1490, D. Manuel, em Setúbal, tinha dado a sua mãe uma carta de privilégios para a sua quinta e bens de Azeitão, privilégios que compreendiam os caseiros, lavradores, arrendadores dos bens, lagareiro do lagar de azeite e mordomo e escrivão, que estivessem na quinta. A carta é dirigida _aos juízes e justiças da comarca de Azeitão e ao ouvidor dela_, e isenta os privilegiados de irem com presos, ou com dinheiros, de serem dados por besteiros do conto, de serem tutores ou curadores ou tutores de pessoas orfãs, salvo se as tutorias fossem _lídimas_, do lançamento de _quantias_ posto que para elas tivessem bens e de servirem em _nenhumas guerras por mar nem por terra_. O rei proíbia que lhes tomassem roupas de aposentadoria, que pousassem com eles em suas casas de morada, adegas e cavalariças, que lhes tomassem pão, vinho, galinhas, gados, bestas de sela ou de albarda, e que lhes _constrangessem seus carros para nenhuns serviços_, salvo quando o rei estivesse em Azeitão[8].

A 22 de agosto de 1508, D. Manuel, de Sintra expede a seguinte carta: «D. Manuel etc. querendo fazer graça e mercê a D. Brites, minha sobrinha, filha do condestável, que Deus tem, meu muito amado e prezado sobrinho, mando aos juízes e justiças da dita comarca de Azeitão e ao ouvidor dela, que guardem os privilégios da quinta de Azeitão e dos caseiros, lavradores, foreiros, arrendadores, mordomo, escrivão e lagareiro do lagar de azeite, sob pena a qualquer que contra eles venha de seis mil reais, metade para os cativos e metade para o acusador.»[9]

Pelo que atrás exponho se vê que a quinta da Bacalhôa foi possuída pelo infante D. João, mestre de Santiago, durante quinze anos decorridos de 1427 à sua morte em 1442, que deste passou para sua filha D.ᵃ Brites, mulher do infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, que a possuíu sessenta e quatro anos, desde o finamente de seu pai até 1506, data da sua morte.

Esta dama em 1500 interveio no contrato nupcial de seu neto, o condestável D. Afonso, filho do duque de Viseu, D. Diogo, com D.ᵃ Joana de Noronha, irmã do segundo marquês de Vila Real, assegurando o cumprimento das condições estabelecidas com certos bens, que passariam por sua morte para o neto. D. Afonso faleceu em 1504, ainda em vida da infanta sua avó, e aqueles bens, com a quinta de Azeitão e pertenças, vieram cair em D.ᵃ Brites de Lara, filha do condestável, a qual, em setembro de 1521, desmembrou da Bacalhôa a quinta das Torres e a deu em dote de casamento a D.ᵃ Maria da Silva, filha de Vasco Eanes Corte Real.

D.ᵃ Brites de Lara nasceu por 1502. Era bela, rica e, ao que parece, não desdenhava adorações. Prometida esposa do conde de Alcoutim, destinada ao primogénito dos Braganças, aceitou os galanteios do duque D. Jaime, teve amores suspeitosos com o príncipe herdeiro, e no final veio a casar em fins de 1520 ou em 1521 com o seu primeiro desposado D. Pedro de Menezes, conde de Alcoutim e que foi terceiro marquês de Vila Real.

Vivendo no paço, ou com sua mãe (de quem encontro noticia até 1515), criança, ou ocupada de renovados amores, não seria D.ᵃ Brites de Lara quem pensasse na construção do palácio, e tão pouco quereria ao morgado, que, em 1 de dezembro de 1528, vendeu a Afonso de Albuquerque, filho, _por quatro mil cruzados de ouro a sua quinta em Azeitão da banda de além, em Ribatejo, com todos os seus paços, casas, adegas, lagares, terras de pão, vinhas, pomares, olivais, pinhais, matos e terras baldias, pascigos, águas_...

Esta escritura foi feita no ano _de BCXXBIII, na cidade de Lisboa, nas casas do muito ilustre príncipe e muito excelente senhor, o senhor marquês de Vila Real, estando aí de presente o dito senhor marquês e a muito ilustre princesa e muito excelente senhora, a senhora D.ᵃ Brites, marquesa de Vila Real, sua mulher_... O preço de _quatro mil cruzados de ouro, que valem um milhão e seiscentos mil reis_, foi pago por Afonso de Albuquerque _por uma grande soma de vinténs e tostões de prata e algumas peças de ouro_... E porque a quinta era do dote da marquesa, precedeu licença do rei, que no mesmo alvará, datado de 31 de outubro, permite que os marqueses firmem o contrato com juramento, _sem embargo da ordenação no livro quarto, que defende que se não façam contratos jurados_.[10]

Afonso de Albuquerque, que já ao tempo era casado com D.ᵃ Maria de Noronha.

Como se vê, a quinta era a Bacalhôa, nome relativamente moderno, mas por ele a tenho sempre designado para mais fácil inteligência.

VI

Tocarei agora um ponto subordinado ao assunto, e que poderá ajudar a demonstração de que os _paços_, vendidos pelos marqueses de Vila Real, seriam levantados pela infanta D.ᵃ Brites, filha do infante D. João, mestre de Santiago.

Começarei por uma interrogação. Teria alguma vez a quinta nome próprio?

Responderei que assim o creio.

Silva Túlio, tratando da Casa dos Bicos[11], chamou à Bacalhôa «quinta do Paraíso, confundindo-a com a propriedade na Alhandra, onde nasceram Afonso de Albuquerque, o Grande, e seu filho Brás, depois apelidado do nome de seu pai.

Eu, porque nunca encontrei escrita, nem conheci tradicionalmente designação própria disse que a quinta apenas tem sido chamada do nome do sítio, ou dos possuidores, assim:

—Quinta de _Azeitão em Ribatejo_, por ser aqui situada.

—Quinta de _S. Simão_, por ter próxima uma ermida d’esta vocação.

—Quinta da _Condestablessa_, durante a administração da viúva do condestável D. Afonso, na menoridade de sua filha.

—Quinta de _Afonso de Albuquerque_, depois da compra por ele feita aos Vila Real.

—Quinta do _Bacalhdo_, pelo casamento de D. Jerónimo Manuel—_o Bacalhau_—com D.ᵃ Maria de Mendonça.

—Quinta da _Bacalhôa_, desde a administração de D.ᵃ Francisca de Noronha, na interdição de seu marido, João Guedes de Miranda Henriques.

Todas as designações que cito, conheço de muitos documentos escritos; contudo, creio que primitivamente, isto é, pelas edificações da infanta D.ᵃ Brites, se chamaria _Vila Fraiche_. Em Azeitão e junto da _Bacalhôa_, em terrenos do morgado, há uma povoação, não de muito velha data, chamada _Vila Fresca_. Quando em 1759 se formou o concelho de Azeitão, foi creada em vila a _aldeia de Vila Fresca_[12]. Transferida em 1786 a sede municipal para a aldeia de Nogueira, reapareceu a antiga denominação _aldeia de Vila Fresca_[13].

Do século XV nenhum documento conheço que nomeie a _aldeia de Vila Fresca_, enquanto que, para fazer conhecida a situação de uma propriedade, se cita a _quinta da Condestablessa_.

Depois, no século XVI, encontra-se escrita aquela designação sempre a modo de se aproximar da pronúncia francesa: _Vila-Freie_—_Vila-Freixe_—_Vila-Frêche_—_Vila-Freiche_.

O teatino D. Manuel Caetano de Sousa, que se não nasceu nesta aldeia por ali perto foi creado, diz em fins do século XVII, que este _Freche_ é do francês _Fraiche_. O equivalente português _Fresca_ começa a aparecer já na segunda metade do século XVIII e só é geralmente admitido no século presente.

_Vila_, como é bem sabido, não designava, mesmo entre os portugueses, a povoação sede municipal, mas a quinta com casarias, e assim se dizia _vila urbana_ ou _vila rústica_, conforme era habitação de senhor ou predominavam nela as oficinas agrárias[14].

A _vila_ italiana, essa, vem até nossos dias, e modernamente vemos ir-se entre nós também recebendo a locução para designar uma casa de campo com jardim, horta, etc.

_Aldeia, é_ bem sabido que não significava, como hoje, apenas a pequena povoação rural, mas era quase o _monte_ alentejano, um agrupamento de construções para acomodação do pessoal dependente da quinta e compreendendo as oficinas. Era cavaleiro vilão, segundo os antigos forais, o homem que possuia uma _aldeia_, uma junta de bois, 40 ovelhas e um burro[15].

A _aldeia de Vila Fresca_ era pois o agrupamento de habitações junto da _quinta-Fresca_, o lugar de residência dos caseiros, lavradores, foreiros, arrendadores e mais pessoal dependente daquela propriedade e participante dos seus privilégios e franquias.

A _Vila-Fraiche_, como hoje se escreve, ou a _Vila-Frêche_, no francês aportuguesado de então, seria a quinta com paços da infanta D.ᵃ Brites[16].

As designações francesas e as divisas nesta língua foram muito em uso nos séculos XIV e XV. Eduardo III de Inglaterra, avô da rainha D.ᵃ Filipa de Portugal, instituindo a ordem da Jarreteira, deu-lhe por legenda _lionny soit qui mal y pense_. Do mestre de Avis a letra da empreza foi: _Il me plait pour bien_. A do regente D. Pedro, _Désir_. A do infante D. Henrique, seu irmão: _Talant de bien faire_. A do infante D. Fernando: _Le bien me plait_. A do infante D. João, pai de D.ᵃ Brites: _J’ai bien raison_.

Ora sendo por aqueles tempos tanto da boa sociedade a língua francesa, sendo a preferida pela família de Avis para as suas empresas, pode bem crer-se que D.ᵃ Brites foi com a moda e com o uso dos seus, e chamou à sua quinta _Vila-Fraiche_, a que a abundância, de água, a exposição ao norte e a situação da quinta e casa na queda dos montes bem autorisava. Tenho, pois, que o primeiro nome da Bacalhôa, pela posse de D.ᵃ Brites, foi _Vila-Fraèche_, ou _Fresca_, servindo a locução portugueza e a palavra _vinct_ seria a designação que o architecto italiano lançou sobre os desenhos.

VII

A infanta D.ᵃ Brites gozou avultadas rendas; seu marido, o infante D. Fernando, duque de Viseu e de Beja, foi o senhor mais rico do país; era gastador e perdulário, largando loucamente os seus haveres. D.ᵃ Brites em vinte e três anos de convivência com ele teve tempo à farta para lhe tomar os usos, se já lhe não eram peculiares; foi faustosa, dissipadora, dadivosa em demasia e, pelas facilidades de haver, não a embaraçavam quantias. Seu cunhado Afonso V foi largo para a casa da infante; seu genro, João II, desejou sempre agradar-lhe, e esforçou-se por lhe matar o ressentimento dos atos, que razões de estado e a própria conservação o fizeram praticar; seu filho Manuel, com consenso real, dava-lhe a mãos largas as rendas da ordem de Cristo, cujo mestrado tinha, corno regedor e administrador e, depois de alcançar o trono, concedia dadivosas liberalidades a sua mãe.

O _livro 1.º dos Místicos_ abunda em mercês e concessões de grossas rendas a D.ᵃ Brites; o estado era aquela família de Bórgias, todos igualmente queriam parte nos despojos da sua vítima[17].

Numa carta de Sintra a 5 de outubro de 1485, D. Manuel, duque de Beja, senhor de Viseu, da Covilhã, de Moura, de Serpa, das ilhas da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde, condestável de Portugal, como regedor e governador da ordem da cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, doou a sua mãe todas as rendas de bens dependentes da ordem, e que ela gozava, por dois anos além da sua morte _para descargo da sua_ (da infante) _consciência e pagamento de suas dívidas_. No dia 3 de abril do mesmo ano, em Beja, já se tinha obrigado, na mesma qualidade de governador da ordem de Cristo, ao pagamento das dívidas de seu pai, o infante D. Fernando, e entre os credores acham-se um Abraão Beacar e outros _tratantes_, que lhe tinham feito certos _empréstimos_, já avolumados por D.ᵃ Brites, e tomado alguns arrendamentos pagos anticipadamente. As _dívidas ameadas, segundo palavra de Pero Afonso, montariam a seiscentos mil reais_.[18]

A carta de Sintra foi confirmada por D. Manuel, já rei, no dia 4 de julho, e a de Beja no dia 5 do mesmo mês de 1496, ainda não passados seis mezes da sua entronização, e ambas datadas de Barra-a-Barra em frente de Lisboa, para onde D. Manuel fugira da peste, temendo comparecer no tribunal de Deus, quando ainda o cadáver de seu primo D. João II não era extinto.

D.ᵃ Brites, vivendo na corte de um rei artista por génio, frequentando aquele meio, em que tanto se falava do que ia por Itália em matéria de arte, da habilidade e perícia dos mestres, do gosto aprimorado e magnificência dos príncipes Mecenas das artes, que contribuíam em grande para o seu desenvolvimento, sabendo que aqueles príncipes aplicavam avultadíssimas somas a faustosas construções, em que o novo estilo à larga se expandia; que os maiores senhores protegiam e honravam os artistas de verdadeiro mérito, convivendo quase familiarmente com os mais celebrados, como que transformando os seus palácios em academias e museus; não podia D. Brites, opulenta, faustosa, gastadora, princesa e mãe de uma rainha, deixar de querer imitar aqueles que eram louvados e prendiam as atenções da mais alta e culta sociedade.

D. João II tinha predileção por Setúbal; a quinta de Azeitão, que o mestre de Santiago deixara a sua filha, era próxima do lugar de residência da corte, em sítio delicioso, abundante de águas e capaz de se levantar nele habitação principesca, e D.ᵃ Brites quereria ter casa vizinha da corte e condigna da sua elevada hierarquia. D.ᵃ Brites, pois, encomendaria os planos de um palácio de campo a arquiteto hábil e, não o havendo no país, vir-lhe-ia o traçado, ou um artista da Itália, e este delineou uma _vila_, que, em uma época de transição, saiu num género medieval, amodernado por um florentino.

Como é muito usual suceder, o lugar escolhido para a nova edificação foi o assento da antiga casa da quinta, a residência, talvez, do mordomo.

Quem atentamente observar o palácio e a quinta da Bacalhôa e os vir minuciosamente encontrará nas edificações três idades e influências das épocas. Duas casas com abóbadas ogivais, restos da habitação do tempo do monteiro-mor João Vicente, ou do príncipe D. João, mestre de Santiago, palácio e cerca torreada de D.ᵃ Brites, sua filha, construções e decoração policrómica de Afonso de Albuquerque.

As velhas casas restam encravadas no meio das outras, como o caroço daquele fruto. O palácio distingue-se pela forma cilíndrica das torres e cintas azulejadas das salas. Os inovamentos de Albuquerque tomaram a forma angular e os ornatos de barro esmaltado, os medalhões e azulejos dão-lhes lugar à parte.

O palácio não é do infante D. João, porque o estilo vai muito fora do seu tempo; a filha do condestável D. Afonso, marquesa de Vila Real, não teve ocasião para levantá-lo; resta-nos, portanto, D.ᵃ Brites para construir, e Albuquerque, filho, para reformar.

VIII

No friso do portão, que, pelo norte, dá entrada para o pátio do palácio, lê-se a seguinte inscrição: «_Anno 1554—Alfonsus Albuquercus Alfonsi Magni indorum debellatoris filius—sub Joanne III Portugaliae rege condidit Anno MDLIIII._»

Esta inscrição, a fama tradicional de que a quinta e palácio haviam sido delineados sobre os traços de uma das praças da Índia portuguesa, onde o valor de Albuquerque mais brilhara (tradição que se deve ter por muito graciosa), todas as notícias escriptas, ou impressas até hoje, levaram-me a crer que quanto existia na Bacalhôa fora obra de Albuquerque, filho. A inscrição devia julgar-se coeva e testemunha irrecusável, e a falta de vestígios do _paço da condestablessa_, vendido pelos Vila Real, explicava-a a mim mesmo, supondo-o construção nada recomendável, que o novo proprietário arrasara para levantar fábrica aprimorada. Foi o acaso que me despertou a atenção, e me chamou a observar mais acuradamente as construções.

A queda do reboco da torre setentrional descobriu uma janela ampla e de verga semicircular, que destoa completamente das demais e mostra que a torre foi restaurada e sofreu modificação. Em baixo divisa-se uma porta de iguais, uma que comunicava a torre com o pavimento térreo do palácio. Outros vestígios foram aparecendo indicativos de alterações na primitiva edificação. Leitura mais atenta do título da compra aos Vila Real e sua confrontação com o título da instituição do vínculo, documentos distanciados quarenta anos, comparados ainda com a tombação do morgado, que descreve minuciosamente a casa e quinta, fez-me ver que na propriedade havia em todas as três épocas (1528, 1558, 1630) não só _paços_, mas _pomares, vinha, cerca de muros e oficinas agrárias próximas_, tal como ainda hoje, em ruínas.

Uma vista rápida mostra um todo unido, não sem que o olho deixe de resentir-se, como o ouvido, quando de entre um jogo de harmonias escapa um acorde dissonante e rápido. As torres circulares, ou cubelos, como lhes chama o tombo, e os edículos dos muros da quinta, comparados com as construções similares do palácio representam uma só mão a lançar os primitivos traços; mas se se deixar pousar a vista sobre o objeto, que de leve a impressionou, há de notar-se alteração e modificação nos lineamentos. Se se descer a minudências, então resalta de passo a passo a reedificação e os inovamentos.

Conhecia o andar nobre do palácio; busquei, porém, examinar atentamente o interior, e notei logo que a faixa de azulejos que cinge as salas não corresponde ao que, neste género, há na parte superior da quinta.

O azulejamento destas salas é em xadrez, ou como nas lisonjas da armaria, tecido de quadrados brancos com tiras verdes ou azuis, e é sobejamente sabido que esta espécie de mosaico é anterior aos azulejos com desenhos a cores, ou em relevo. Desci ao pavimento térreo, onde nunca tinha entrado, e encontrei provas claras de outra edificação ali encerrada.

Há duas casas cobertas por abóbadas em ogiva e de arestas, cujas nervuras nascem tão próximas do chão, a não restar dúvida de que o pavimento correspondente deve achar-se muito soterrado, e de que se levantou outro sobre ele para alcançar o novo nível. Na parede que divide estas casas entre si houve um arco de volta perfeita, tecido de tijolo, cheio posteriormente de alvenaria e que a queda do revestimento descobriu.

Na varanda coberta junta, vê-se o sobrearco de uma antiga porta para as casas abobadadas, cuja soleira deve achar-se bastante funda.

Interiormente veem-se diversas comunicações de casa para casa, que foram inutilisadas ou substituídas.

Depois do primeiro achado admirei-me, como é usual, de não ter dado por outros sinais de reedificações e emendas.

A escadaria que dá entrada para o palácio tinha por guarda uns corrimãos suportados por pilares intervalados com balaústres de mármore branco, e no patamar superior ainda assim é; no médio, porém, formou-se um painel massiço, enchendo os vãos da gradinata de alvenaria revestida de azulejos de relevo, do género que mais abunda na quinta, e em tudo dissemilhante do azulejamento interior do palácio. Ainda aqui há a notar que os azulejos da escadaria são de três desenhos diferentes. No azulejamento da parte superior da quinta encontram-se mesmo espécies de épocas muito distintas.

Esta alteração na gradinata da escadaria não é restauração, mas remendo. Em 1631 ainda todo o corrimão era sustentado por balaústres.

Nas duas galerias sobrepostas que olham a norte, vê-se que o estilóbata sobre o qual pousam as colunas da arcaria superior é de pedra dissemilhante da que lhe fica por debaixo, repetindo-se o facto nos arcos da galeria superior, e dando-se aqui mais a circunstância de não serem de pedra faceada os seguintes, nem terem medalhões de moldura relevada na mesma pedra, como nos seguintes das demais arcarias. A pedra destes arcos e do estilóbata é amarelada, branda e já a esboroar-se, enquanto o mais é calcário rijo e branco, ou mármore da Arrábida, ainda que pouco escolhido.

Parece ter havido aqui grande reparação, em que se não atendeu a todas as partes arquitetónicas. Uma parede de esbarro, reforçando a base da arcaria inferior, vem de ajuda a este suposto. É de crer que estes trabalhos fossem posteriores às obras de Albuquerque.

IX

Num edículo, que encima a porta da entrada do palácio, vê-se um busto de barro de boa execução. As proporções são as naturais. Mostra um varão na força da vida, cabelo sobre curto e cuidado, barba despontada como na época de João III, o rosto oval, o nariz aquilino e a fronte espaçosa, a expressão é clara e de distinta serenidade. Veste de um tecido de malha, virando-se como gola em bicos, deixa o pescoço a descoberto. Do ombro cai até meio braço um adorno do mesmo tecido e também em bicos. Duas largas faias, como pontas de um manto, traçam-se sobre o peito, ligando-se em nós sobre os ombros talvez o _diplax_ dos filósofos. Não faltaram ao busto com os últimos toques, foi trabalho bem tratado, é finalmente um bom exemplar do género. Está ao alcance da vista, mas não permitindo a opacidade do barro bem divisar os pequenos relevos faciais, quer ser tocado com os olhos.

Na frente do que forma o assento da figura há um listrão com as extremidades enroladas, como que destinado a um nome, que não tem, pois mal ficava num retrato. Não lhe pude achar monograma, assinatura, ou marca de auctor. É crido como a reprodução fiel de Albuquerque, filho. O lugar que ocupa competia de direito ao senhor da casa.

Os bustos dos mais edículos desta frente do palácio, e que ainda existem, são de fino mármore; pela distância a que ficam não podem bem apreciar-se; parecem, todavia, bons e representam figuras mitológicas, ao que pode julgar-se.

O busto em barro do senhor da propriedade acha-se em bom estado de conservação e deve-o a uma excentricidade, para não dizer mais, de um sucessor qualquer no morgado, que o fez cobrir de uma camada de gesso para condizer na cor branca com os outros bustos e similar pedra.

Não é facto extraordinário ser em barro o retrato de quem podia tê-lo em mármore ou bronze. São célebres os bustos em barro cozido do marquês João Francisco Gonzaga de fins do século XV, outro da mesma época de João Bentivoglio e ainda outros posso citar, de Carlos VIII e Niccolo da Uzzano por Donatello.

* * * * *

No friso inferior à cornija que orna esta porta lê-se: «_Ecce elongavi fugiens et mansi in solitudinem._»

Expressará os desejos de ocasião de Albuquerque, filho, quando aqui escrevia os _Comentários do grande Afonso_; todavia, mais tarde, encontramo-lo na administração municipal de Lisboa, ocupado de outros negócios públicos e, nos últimos dias, talvez dementado pela idade, peralta, requestando uma jovem fidalga, D.ᵃ Catarina de Menezes, com quem casou, fazendo política ibérica contra a independência da pátria e concorrendo a entrevistas com Cristóvão de Moura disfarçado com barbas postiças[19].

X

Tentando apresentar como boa a ideia que concebi sobre as edificações da Bacalhôa, e demonstrar as bases que me serviram para formar uma opinião oposta a quanto se havia escrito e era geralmente aceite por bom, poderei, por necessidade, tornar-me prolixo. Que me seja relevado o que tiver de impertinente.

A quinta é dividida em dois terraplenos por um muro, que suporta as terras mais altas. A cerca inferior condiz com a arquitetura do Palácio; em ambos estes lugares os torreões cilíndricos com cúpulas de goramos, em ambos azulejos monocromos e menos bons.

O terrapleno superior tem nos ângulos do norte dois pavilhões chamados um _Casa da Índia_, por ter tido umas telas representando as cidades daquele estado, nas quais mais brilhou o valor de Albuquerque, o Grande, o outro _casa das pombas_. Nos ângulos do sul ficam num o palácio, no outro o lago, _casa da perna_, e mais dois pavilhões ligados por lógias.

Os torreões da cerca inferior são seis e, descendo-se às minuciosidades precisas, vê-se distintamente que os torreões dos ângulos foram construídos com a cerca de muros e os intermediários feitos posteriormente, para o que houve de rasgar-se o muro e não tanto como o necessário, pois a parte que restou dentro dos torreões deu origem a que estes se partissem por ali.

Quatro destes torreões, ou cubelos, como lhe chama o _Tombo_ do morgado, foram aplicados a estações da Via-Sacra, com altares de mármore preto, forrados de azulejos nas frentes e, por não bastarem, meteram-se-lhes de permeio uns nichos nos muros para completarem os sete passos da paixão de Cristo.

Naqueles tempos de religiosidade e fé mais vivida bem iam estes exercícios, e o lugar escolhido, aonde já eram esvaídos os rumores do palácio, era a isso acomodado.