Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica

Part 1

Chapter 13,712 wordsPublic domain

INICIOS DA RENASCENÇA EM PORTUGAL

QUINTA E PALACIO DA BACALHÔA EM AZEITÃO

MONOGRAPHIA HISTORICO-ARTISTICA POR JOAQUIM RASTEIRO Membro da commissão dos monumentos nacionaes

LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1895

Palácio / Quinta da Bacalhôa

A quinta de Vila Fresca foi paço real. Foi comprada pelo infante D. João, filho de D. João I, em 1427. Herdou-a sua filha, D. Brites, mãe do rei D. Manuel, que alargou as casas aí construídas e as usou durante as inúmeras paragens de repouso feitas no percurso entre o seu ducado de Beja e a corte.

Com Brás de Albuquerque—a quem o rei D. Manuel mandou mudar o nome para o do seu pai, Afonso de Albuquerque, para que a lenda do grande conquistador da Índia se eternizasse—esta quinta de recreio transformou-se numa verdadeira homenagem ao herói do Oriente. Num programa renascentista, perfumado pelos ventos das especiarias, enaltecem-se “aqueles que da lei da morte se foram libertando”, honrando a figura do Grande Albuquerque. Nesses longínquos tempos do século XVI construíram-se casas dedicadas aos prazeres da vida, juntaram-se espaços simbólicos e plantou-se uma vinha.

O vinho, símbolo de ressurreição, da natureza que se renova, dá uma prova de eternidade. O Bacalhôa continua os desejos idealizados por Brás de Albuquerque. Casa o prazer da contemplação com o gosto do eterno.

O extremo prazer de mistério e de descoberta, que ao longo dos últimos anos me tem feito viver uma dedicação especial ao Palácio e Quinta da Bacalhôa, levou-me a passar um pouco da sua história, através destes exemplares que partilho consigo.

Deste momento artístico de maior relevo em Portugal, apresentamos nesta oferta, o passado, o presente e o futuro da sua história com as verdadeiras reproduções das imagens existentes.

Convido-o a saborear os famosos vinhos do Palácio da Bacalhôa e Quinta da Bacalhôa, mostrando que o Palácio e Quinta da Bacalhôa continuam a marcar a história contemporânea de Portugal.

J. M. R. Berardo.

POUCAS PALAVRAS EXPLICATIVAS

Não foi meu propósito fazer um livro. A admiração estranha pelas edificações da quinta de Albuquerque, filho, chamou os meus reparos; enamorei-me de tudo aquilo, busquei conhecer-lhe a urdidura geral, e estudar os acessórios, auxiliando-me das publicações estrangeiras ou portuguesas, que podiam servir-me e havia à mão; inquiri a história do edifício, e de tudo tomei notas para própria lição. Trabalho tecido a furto nos momentos de ócio, vindos de longe a longe, não tinha pretensões de qualquer espécie, mas poderia aproveitar aos curiosos, por encontrarem junto o que estava disperso por muitos lugares. Amigos meus incitaram-me à publicação daquelas notas, e o _Jornal do Comércio_ quis ser benévolo para comigo, aceitando uma série de artigos, que estampou em 1892. Os meus bons colegas da commissão dos monumentos nacionais julgaram que naqueles artigos alguma coisa de aproveitável podia haver, e ordenaram a sua refundição a modo de monografia, como vai aparecer.

Tanto favor e bom querer impõem-me o devido reconhecimento.

Azeitão, 1895.

_Joaquim Rasteiro._

INICIOS DA RENASCENÇA EM PORTUGAL

QUINTA E PALACIO DA BACALHÔA, EM AZEITÃO

PARTE PRIMEIRA

História do edifício—Estilo arquitetónico das construções Majólicas policromas

I

O palácio e a quinta da Bacalhôa, em Azeitão, formam só por si um monumento artístico da mais alta significação em Portugal. Desconhecido dos amadores do belo, ignorado dos mestres da arte, não sonhado até por aqueles a quem competiria a conservação de um monumento, que à nação devia pertencer, desprezado largos anos pelos proprietários, resta por estudar, e já tendia a desaparecer de todo aquele facho único, que pode lançar luz sobre um período escuríssimo das artes em Portugal, e em que se produzia a grande revolução artística chamada a Renascença.

Aquelas edificações não têm só o mérito de nos mostrarem o alvorecer das artes, mas as construções primitivas refeitas pelo filho de Albuquerque, o Grande, continuam a história da arte por quase todo o século XVI, dando-nos exemplares formosos do gosto da época nos lineamentos gerais, e especímenes cerâmicos das mais variadas espécies, ao passo que nos fornecem testemunhos irrefutáveis das aptidões artísticas de obreiros hábeis, mas desconhecidos e de outros, que, sem estas provas, não podiam ser bem apreciados.

Na Itália, a arte moderna, com campeões valorosos como Brunellesco, Alberti e Michelozzo, ainda sentiu por muito tempo resistência à sua implantação.

Era dura a transição. De uma arquitetura toda fantasiosa e brincada passava-se à acentuação das linhas, à subordinação a regras e preceitos definidos. Não bastava calcular resistências, encher superfícies de caprichosas edificações, que se levantavam até onde o obreiro mais atrevido tinha vertigens, impunham-se as regras de simetria e ordem, as proporções colhidas dos monumentos mais celebrados, subordinava-se o traçado do edifício a um todo homogéneo, formando, como o homem, um ser único e simétrico nas suas partes.

A coluna e o arco de pleno cimbre vinham proscrever a ogiva; o botaréu ia ser excluído, deixando em seu lugar superfícies planas; os coruchéus, que pareciam querer furar as nuvens, eram substituídos pelas cúpulas hemisféricas, que nada têm de alteroso.

A agulha medieval com a sua ponta agudíssima, indicando as regiões siderais, conduz a vista ao infinito e busca comunicar com a divindade; a curva, a meia esfera, elevando-se de um ponto para cair depois no nível de onde nasceu, como que limitam os domínios do homem, pondo termo à sua atrevida audácia. O arrojo cede o lugar à ruão fria, e o homem concentra-se no seu meio, só buscando Deus no espírito, entregando-se ao mundo que o cerca, e renunciando a essas loucuras sublimes dos tempos cavalheirosos em que pela audácia, pelos maiores cometimentos se havia de tocar o que houvesse de maior.

A alta arquitetura e as artes decorativas, que, na Idade Média, quase só estavam ao serviço da religião, elevando templos de uma majestade esplendorosa, iam fabricar habitações aristocráticas de aprimorado gosto e ornamentá-las de esculturas delicadas. O solar medieval com as suas torres alterosas, armadas para a defesa desde a raiz até às cimeiras, prenhe de masmorras, edificado em sítio forte, ia ficar ermo e ser trocado pelo palácio assente na praça mais ampla da cidade, no vale mais amenom serpenteado por mansos regatos, que só davam viço ao vergel.

A grande revolução artística tomara arraiais em Florença e, pouco a pouco, ia conquistando os estados limítrofes. A Lombardia, vizinha daquele centro artístico revolucionário, resistiu por muito tempo à influência dos novos princípios. Outros estados, em que se achava dividida a península itálica, pretenderam ligar a velha à nova arte, e com as linhas arquiteturais dos dois sistemas formaram um estilo híbrido, que quebrava toda a subordinação às duas escolas, não satisfazendo os preceitos da velha, nem da arte renascida, deixando a descoberto as suturas, que não deviam aparecer ferindo a vista do que buscava a beleza harmoniosa.

A Itália, bebendo da Grécia o gosto do belo, tornara-se a pátria das artes, e o génio artístico tomou por tal modo posse daquela raça escolhida, que nem as desordens e calamidades, que por muito tempo lhe pesaram, pôde destruir. À aptidão de seus filhos, à índole comercial das repúblicas, que lhe alcançaram riqueza, auxiliadas pela situação do país, deve a Itália o florescimento das artes no cair da Idade Média.

Os Medicis, os Sforza, os Malatesta, os duques de Urbino, os opulentos banqueiros, os papas, os prelados das casas religiosas ricas, as administrações das catedrais, todos à porfia auxiliavam o desenvolvimento das artes, construindo luxuosos palácios, sumptuosos templos e outras soberbas edificações, e para cada uma destas obras chamava-se uma coorte de artistas desse exército numeroso, disperso por toda a península.

II

A Renascença já tinha invadido com vário sucesso todos os estados cingidos pelo Adriático e pelo Mediterrâneo, em alguns já ficava em pleno domínio, mas não lograva ainda transpor os Alpes.

Portugal achava-se sob a influência flamenga e resistia à invasão com os demais países, em que ela dominava. Com o advento de D. João II ao trono entrava um período de paz, e o novo imperador dava às forças do país uma benéfica direção, encaminhada a seguir o desenvolvimento intelectual que ia pela Europa. As espadas de África só serviam ao respeito do herói de Toro, poucos ginetes fiéis bastavam para guarda da sua pessoa. Os arquitetos de Santa Maria da Vitória eram extintos, a escola morta e os discípulos, que ainda restavam, por medíocres, teimavam em conservar as tradições rudimentares recebidas, ou recusavam-se a seguir a corrente, que ameaçava levar no seu turbilhão a velha arte.

O caminho da Índia ainda não era rasgado, a fama das suas riquezas ainda não podia seduzir os ânimos e arrastá-los para o militarismo comercial. Para as explorações marítimas poucos homens bastavam, que mais para ali os levava a glória de vencer os elementos, já que não podiam triunfar de inimigos, do que um pensamento, uma ideia que dominasse o espírito.

Falava-se dos expedicionários ao desferrar das frotas, ou durante os aprestos da expedição, depois recebiam-se as novas apenas como notícias de pessoas, que se haviam julgado perdidas. Entre a saída e a notícia mediava grande espaço; na corte só o rei se ocupava dos que iam em demanda do desconhecido, e a esperança do sucesso só de longe em longe vinha levantar o pensamento para aquelas empresas. Poucos da corte também seriam capazes de compreender o alcance de negócios, a que não eram afeitos, ou que o seu acanhado espírito não podia penetrar.

A revolução pacífica, que ia na Itália, chamava as atenções dos menos ocupados, cativava os ânimos, em que o bailo tinha acesso, atraía algum espírito esclarecido, e nenhum o era mais do que o rei, nem se arrojava mais além do seu meio.

Os arquitetos só traçavam edifícios desengraçados; os artífices já não talhavam na pedra finos rendilhados, não levantavam coruchéus elegantes, nem baldaquinos de aprimorado lavor. O génio artístico esvaíra-se.

Urgia levantar as artes, dar-lhes impulso, fazê-las sair do torpor, em que se tinham imergido. D. João II, grande em tudo, tinha a paixão artística; longe era a Itália, ficavam de permeio os Pirinéus e os Alpes, as comunicações eram demoradas, as notícias distanciadas, mas ao rei aprazia ouvir falar do que ia por aquele país fadado para as artes, dos príncipes italianos, mecenas dos artistas, e mostrava inveja destes personagens, desejando ter no seu reino daqueles génios famosos, como noutras épocas quereria ter babéis e experimentados capitães.

No desejo do desenvolvimento intelectual do país, D. João II enviava ao estrangeiro mancebos prometedores a cursar as letras e as artes, e tanto era o seu amor pela pintura, que nos seus raros ócios fazia desenhar em sua presença, por um moço da câmara, os objetos que a sua fantasia inspirava, e mostrava inveja dos conhecimentos artísticos do seu parente, o imperador Maximiliano, e de outros príncipes[1].

Como Júlio II, como os Medici e outros senhores italianos, que não desdenhavam discutir com os seus arquitetos as minúcias de um traçado, João II de Portugal dava a Pantaleão Dias as linhas gerais do túmulo de S. Pantaleão, que projetava para a catedral do Porto. A magnificência dos Medici e o seu aprimorado gosto andavam em fama. D. João II viu que ninguém melhor do que um dos daquela família podia fazer a escolha de mestre capaz de levantar as artes num país em que elas estavam prostradas, como em Portugal, e foi a Lourenço «o Magnífico» que o rei se dirigiu, pedindo-lhe mestres que pudessem dar lição e ensinamento aos artistas portugueses, traçando e presidindo à execução de trabalhos, que servissem de molde para outras obras e areassem uma escola de artes.

Lourenço de Medici enviou Andrea Contucci, dito Sansovino, célebre plástico, bom desenhador e famoso perspetivo[2], que estaria então na força da vida e em toda a pujança do seu talento. Contucci veio para Portugal por 1485, e demorou-se no país até à morte de D. João II, tendo, entre outras obras, levantado um palácio para o rei, flanqueado por quatro torres.

III

Já houve quem quisesse achar na Bacalhôa rastos do Sansovino. Nada há que venha de reforço a este suposto, firmado apenas na valia (que a tem) do seu andor; nada há também que se lhe anteponha. «Quem quer que fosse o arquiteto era de primeira ordem. Há detalhes que revelam mais do que um simples talento, tem uma palpitação de génio.»[3]

Se não fosse Sansovino o autor do projeto, no tempo que esteve em Portugal, não seria extraordinário que ele, ou outro mestre de Itália, delineasse no seu país, e enviasse para aqui o traçado e os planos do palácio e quinta. Brunellesco, Alberti, Sangallo e outros arquitetos italianos encarregavam-se destes trabalhos.

Não creio que a Bacalhôa seja contemporânea destes homens, como também não creio que nascesse a meados do século XVI. Ao pé temos o palácio dos Aveiros, levantado em princípios do segundo quartel daquele século, que se mostra muito posterior em estilo arquitetónico ao palácio da Bacalhôa.

No Aveiro, está estampada a Renascença clássica, pura nas suas linhas janela com cornija e frontão com busto no tímpano, a _mezzanina_, pequenos claros, pórtico emoldurado em colunas dóricas com entablamento da mesma ordem, cunhais rústicos. Na Bacalhôa vemos o torre de transição, um estilo fugitivo, a janela com cornija e sem ela, emoldurada em azulejos policromos e intervalada por largos cheios.

A Bacalhôa será talvez a edificação em que se estreou em Portugal o estilo arquitetónico da Renascença, estreia de transição, dando-se de mão à ogiva e a quanto lhe era ligado. Nada tem do estilo _manuelino_, que ainda não era criado, mas também não obedece a qualquer estilo puro. O palácio é _sui generis_, talvez a arte Fiorentina transportada abruptamente para aqui, esfumada de umas tintas leves do solar medieval nos torreões, em que se substituiu pela cúpula hemisférica em gomos e com pirâmide no fecho, as obras de defesa, que coroavam os adarves dos castelos senhoriais.

A Bacalhôa será uma correção ao palácio acastelado, quase medievo, construído por D. João II em Alvito para o seu escrivão da puridade, João Fernandes da Silveira. A disposição das salas e aposentos dos dois palácios aproximam-se. A Bacalhôa tem a menos as bonitas janelas geminadas que a nova arte proscrevera, mas em troca deram-lhe as galerias abertas em arcadas, e a mais a elegância e regularidade das fórmas, as tarjas azulejadas a fazer sobressair os portões, e as cúpulas hemisféricas a realçar as torres cilíndricas.

E já que falei do palácio acastelado de Alvito seja-me lícito também apresentar uma ideia, que apenas posso sustentar com alguns raciocínios.

Jorge Vazari, dando-nos conta de Contucci, diz-nos: _lavoró per quel re_ (di Portugallo), _noite opere di scultura e d’arckítettura, e particolarmente un bellissimo palazzo con quattro torri ed altri edifici_.[4]

O Sr. Haupt supõe que este palácio traçado por Andrea Contucci seja o dos barões em Alvito[5]. E porque não será o da Bacalhôa? Por ter este apenas três torres? Pode estar incompleto, e também o de Alvito tem cinco torres e não quatro.

Por não ser propriedade do rei? Mas era da sogra, mãe da rainha, e o de Alvito, conforme uns, foi feito por D. João II; segundo a inscrição lapidar, posta sobre a porta, foi feito pelo primeiro barão de Alvito a mandado do rei.

O estilo arquitetónico do palácio da Bacalhôa, mais-valia de uma época de transição e de um artista italiano hábil e imaginoso, do que o de Alvito, mole robusta e pesada, aonde a nova arte se não deixa antever, e preso pelos traços gerais e peças componentes ao passado que ainda o domina.

A sorte futura é que foi comum às duas edificações e as tornou irmãs, a ruína e o abandono.

Atrás apresento a ideia de que o traçado do palácio e quinta da Bacalhôa, se não é de Contucci, poderia ter vindo da Itália, contudo não posso sustentá-la firmemente; o artista, que tudo delineou, tinha conhecimento pleno do sítio para dar orientação às construções, aproveitar as disposições do terreno e acomodar os reservatórios de água à situação das nascentes, fazendo contribuir as águas para embelezamento das edificações e aproveitamento das terras como agente agrícola.

Conto a Bacalhôa como obra do último quartel do século XV, mandada executar por D.ᵃ Brites, filha do infante D. João, mestre de Santiago, e mulher do infante D. Fernando, porque esta princesa, dama caprichosa e de grandes teres, possuiu a propriedade por largos anos e no período de maior efervescência da revolução artística de Itália, país que atraía, por isso todas as atenções das altas classes e a que D. João II recorreu para o restabelecimento das artes no seu reino. D. Brites amava com extremo o seu neto, filho do duque de Viseu, D. Diogo; deu-lhe por ocasião do seu casamento a Bacalhôa, e parece-me mais havê-lo feito como oferta de um mimo fino, do que como dom valioso pelas rendas.

Não se me afigura que Albuquerque, filho, levantasse o palácio, porque a projetá-lo em 1528, ano da compra, teria, quando não mais, ainda uns laivos manuelinos; a erguê-lo em 1554, data lançada sobre o pórtico do norte, seria todo Renascença, porque, na segunda metade deste século, era omnipotente no país o classicismo puro, em que já se tinham alistado os artistas nacionais. O pórtico, a que me refiro, é o que é de Afonso.

Se nas janelas do palácio vemos a nova arte, nas torres encontramos o consórcio do passado com o presente, significando época de transição, as galerias sob arcadas mostram-nos a lógia italiana, e por isto pode bem crer-se que o palácio fosse delineado por artista escolhido pelo Medici, ou por ele enviado a Portugal.

IV

Os esforços de D. João II para o restabelecimento das artes no reino não foram improfícuos. A lisonjeira de muitos e a ilustração de alguns vieram-lhe de auxílio. A sociedade mais culta do tempo e os cortesãos compenetravam-se do sentir do rei, as atenções fixavam-se no movimento artística do Itália, todos colhiam notícias das criações dos mais distintos escultores, das construções dos mais hábeis arquitetos, e andavam na boca de todos os nomes dos mais bizarros senhores, que faziam erguer sumptuosos palácios, luxuosas e elegantes _valas_, ornando-as de bem modeladas esculturas, de bem talhadas estátuas e enchendo-as de preciosas coleções de objetos de arte.

Os mestres estrangeiros trouxeram para Portugal boa lição, que aproveitou, vindo a aparecer no seguinte reinado um género arquitetónico de transição, que modernamente se chamou _estilo manuelino_.

Não quebrou a nova criação com todas as tradições da velha escola, mas também se não prostrou humilde aos pés da vencedora. Foi uma capitulação em que os vencidos saíram com todas as honras da guerra.

Belém, a Misericórdia de Lisboa e outras construções de menos quilate são o desfilar da guarnição capitulada em presença do vencedor assombrado de tão grandes brios, louvando-se talvez de ter dado lugar ao famoso sucesso, se não sentindo impulsos de alistar-se nas fileiras dos que lhe passavam em frente.

A criação portuguesa levou vantagem às mais alianças arquitetónicas ensaiadas em alguns estados italianos renitentes às lições da nova escola.

Veneza tinha tentado aliar a ogiva e o pleno cimbre, a ornamentação gótica, a oriental e a clássica; mas a criação portuguesa levou-lhe a palma, alcançou originalidade e envolveu de tal modo as formas, amalgamou e fundiu tão unidamente os moldes, empregou com tanta propriedade o cordame, que parecia já simbolisar as nossas empresas marítimas, para ligar e estreitar partes, que tenderiam a desunir-se, para atar e prender nervuras, que mais tem de um estilo novo, do que é filho mestiço de quanto até ali era criado.

Afortunado D. Manuel! A mais benevolente estrela parece ter alumiado o seu nascer. Seu cunhado Fernando de Bragança comprou-lhe com a cabeça a liga dos grandes, seu irmão Diogo abriu-lhe com imprudências o caminho do trono, o veneno dos sicários, seus cúmplices, sacudiu para o túmulo o cadáver da princesa D. Joana, que poderia embaraçar-lhe o trânsito e prostrou sem vida D. João II, seu cunhado, primo, protetor e rei, vindo assim o famoso bandoleiro duque de Beja a ter um reino, a refocilar os seus instintos beluínos na viúva do filho malogrado da sua vítima, a encontrar criada e escolhida uma pleiade de grandes homens, como Albuquerque e outros, que lhe deram o senhorio de um novo mundo, e a ter a paternidade de um código de leis já preparado, e de um estilo arquitetónico e ornamental nascido dos perseverantes e inteligentes esforços do rei famoso, do _homem_, que ele, sua irmã e sequazes lograram vitimar.

V

Para se estabelecer base para um estudo sobre a Bacalhôa, será útil fazer-se a história e génese da propriedade.

Nos tempos do rei D. João I, era seu _monteiro-mor das matas de Azeitão em Ribatejo_, João Vicente, que trazia emprazada em vida de três pessoas uma _quinta em Azeitão que partia de um cabo com Afonso Anes das Leis e do outro com Nuno Martins_. Metade da quinta pagava _duas dobras de oiro_ de foro à coroa, o restante era foreiro. João Vicente estava velho, cego e pobre, sem meios de cultivar a quinta e nem os foros já pagava.

D. João I comprou o domínio direto a Diogo Feio e tomou para si toda a quinta, havendo o enfiteuta João Vicente por _desatado do foro_.

Em seguida emprazou em três vidas toda a propriedade a Álvaro Anes, seu _barbeiro por duas coroas de oiro por ano_. A carta é datada de Évora, 7 de maio da era de M.IIIIC.LIX (ano 1421).[6]

Seis anos depois, o mesmo rei deu licença a Álvaro Aniles para vender o emprazamento ao infante D. João, seu filho, por carta datada de Sintra a 4 de setembro de 1427. Esta venda foi por _vinte e oito mil reais brancos por uma peça de pano de Inglaterra_, conforme o _instrumento feito e assinado por Gil Esteves e pelo infante em Setúbal no pustimeiro dia de setembro de 1427_.

O infante teve a quinta pelo antigo foro de duas coroas de oiro[7], até que seu irmão D. Duarte lhe fez «_mercê pura e irrevogável doação da dita quinta de juro e de herdade, de suas rendas, direitos, entradas, saídas e pertenças deste dia para todo sempre para ele e todos seus herdeiros e sucessores que depois dele vierem, não embargando o que seja da coroa. E portanto lhe mandamos dar esta carta assinada por nós e selada pelo nosso selo de chumbo. Dante em Sintra XXVIII dias de agosto—Lourenço de G._».

D. João II, de Sintra a 7 de dezembro de 1485, e D. Manuel, de Alcochete a 24 de julho de 1496, confirmaram esta doação, estando na posse da propriedade a infanta D. Brites, sogra do primeiro e mãe do segundo.