Infelizes: Historias Vividas

Chapter 3

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Imaginem o espanto da pobre mulher, quando a pequena se agarra a ella a chorar:--que a escondesse, que ella não era cigana! Tinha sido roubada lá muito longe, n'uma povoação da raia. Seus paes eram ricos--o que elles a não teriam chorado e procurado por toda a parte!... Havia dois annos que andava com os ciganos pelo mundo, sem ter podido fugir! Era raro que elles acampassem em povoado e quando assim acontecia não a perdiam de vista nem uma hora. N'esse dia a festa do casamento, com a assistencia do conde, puzera tudo em confusão e ella pudera escapar-se n'uma aberta. Que a não abandonasse, a senhora Angelica!...--O que lhe fazia mais horror era o seu proximo casamento com um dos mais lindos rapazes da tribu! Dois annos a viver com aquella gente e ainda não pudera vencer a repugnancia que a affastava d'elle cada dia mais! A inferioridade de raça enchia-a d'um instinctivo tedio, quasi aversão, por esse sadio rapaz que a escolhera, sem duvida o mais amado das outras raparigas.

A senhora Angelica era mulher de expediente. Consolou-a como pôde e levou-a a um sitio isolado, um cabeço árido, cemiterio dos velhos cavallos lazarentos que os corvos vêem comer deixando os ossos a branquejar ao sol, tristemente apertado entre pinhaes, onde só ella conhecia uma gruta formada pelos rochedos sobrepostos--que decerto era a _Cova da Moira_.

É que uma vez, ainda em solteira, fôra para alli ao matto e descobrira a caverna. Calára-se com aquillo porque é uma tradição velhissima na terra: _que entre modorno e modorninho ha sete cargas d'oiro fino,--que uma moira encantada as guarda, tecendo n'um tear de marfim e chamando alta noite de luar, por quem a vá desencantar!_... E ella não quizera dizer a ninguem a sua descoberta, esperando talvez que a moira lhe desse um dia os thezoiros.

Metteu lá a sua protegida e foi levar-lhe comida á boquinha da noite.

Tres dias a teve escondida alli, com medo dos ciganos. Elles é que, postos em rebate pela fuga da prisioneira, foram-se andando sem dizerem nada e sem ninguem lhes pôr estorvos.

Só então a senhora Angelica tomou ânimo, e lá foi, mais medrosa do que vaidosa da sua obra, sem ter grande consciencia de ter andado bem, contar o caso ao administrador...

Foi um alvoroto na terra! Toda a gente quiz ir ver a menina, que veio em triumpho para a villa. Todos lhe queriam fallar e tocar, perguntando-lhe, cada um por sua vez, a historia, que ella repetia sempre, contente por poder desabafar as suas máguas. Os que não conseguiam chegar até junto d'ella abraçavam a senhora Angelica, davam-lhe os parabens, tinham-n'a já como uma gloria patria, quasi uma padeira d'Aljubarrota. Ella andava radiante, contando e recontando o caso.

Nova e maior alegria foi ainda quando chegaram os paes da menina, no louco enthusiasmo de quem chora uma filha morta e a encontra cheia de vida e saude.

A senhora Angelica foi bem recompensada, mas sempre me dizia: «que dinheiro nenhum lhe pagaria o susto em que andára muito tempo, parecendo-lhe ver ciganos em todos os cantos, punhaes e navalhas reluzentes que de todos os lados lhe dirigiam ao coração!...

Não era mentira! Tão certo como haver Deus, que aquelle rapaz, que devia casar com a menina, rondára por alli muito tempo!... Um medo assim! Nem ella sabia em que se mettera!...»

Esta era a historia da velha. Depois, o que eu compunha e arredondava!... Muitas vezes visitei a _Cova da Moira_ e não era essa com os seus lamentos de triste encantada, com os seus cabellos d'oiro, com o seu tear de marfim, a que me enchia a imaginação. Era a pobre rapariga fugida aos ciganos, alli sósinha, temendo ser descoberta, temendo o silencio da noite, a sombra dos pinhaes, os gritos lugubres dos corvos!... Punha-me no seu logar e pensava: Senhor, como pôde ella não morrer de susto?!...

Depois, como os amantes infelizes me fizeram sempre muita pena, acabava por ter dó do cigano que queria casar com a menina e que no dizer da senhora Angelica por alli rondára muitos annos, como alma penada.

Agosto de 1896.

ALGARVE

ALGARVE

Algarve era o seu nome. Tinha nos olhos leaes uma tal expressão de bondade, que inspirava logo confiança aos timidos, aos pobres, ás criancinhas.

Era muito distincto, com seu ar de grande senhor dos tempos passados. Ao atravessar o corredor para vir deitar-se aos meus pés, dir-se-hia um velho diplomata acostumado ás etiquetas palacianas.

Não fazia barulho; apparecia junto de nós como uma sombra. Nunca lhe vi aquella alegria ruidosa que faz bem ver, mesmo nos cães. Era silencioso, meigo, taciturno--como se uma saudade ou um remorso lhe pesasse na alma.

Ás vezes, quando a dormir, tinha sonhos afflictivos, gemia baixinho, com estremecimentos bruscos em todo o corpo--como se quizesse lançar-se n'uma corrida para salvar alguem que visse em perigo...

Todas as tardes sahia. Fechava-se-lhe a porta, saltava pela janella. Era a unica occasião em que mostrava a energia da sua vontade decidida e teimosa. Voltava ás dez horas, impassivel e sereno, tal qual como se tivesse ido ao _club_ fazer dois dedos de conversa.

Um dia quiz segui-lo; presentiu-me e veiu ter commigo fazendo-me festas, como a pedir que voltasse para traz. Não quiz comprehender e elle então acompanhou-me disfarçadamente, algum tempo, e logo que me viu distrahida fugiu a bom correr.

E ás dez horas, inalteravelmente, voltava, sereno e grave, como homem elegante que atira o charuto e descalça a luva da mão direita, antes d'entrar em casa.

Mas--coitadinho!--era já muito velho e a sua mocidade parece ter sido um tanto aventurosa. Á mão me veiu elle ter, já cansado, quasi sem dentes, o pello a cahir.

Nos olhos do pobre _Algarve_ queria eu ler toda a sua historia. E, quem sabe, talvez que me não engane muito contando o que li, tudo o que adivinhei nos olhos bons do meu pobre amigo--que um genio altivo e independente levou a uma triste morte.

Veria pela primeira vez a luz n'um paiz branco, todo branco de neve. Grandes montanhas, d'uma transparencia ligeiramente rosada quando o sol muito pallido as illumina, avançam lentamente, n'um deslizar de fadas em doce ronda nocturna... e lenta, mas seguramente, caminham para o seu fim--o grande leito amargo do Oceano.

Muitos navios vinham todos os annos á pesca; então, lembrava-se de ver homens que, de quando em quando, vinham a terra e tristissimamente iam depositar o corpo d'um companheiro, no cemiterio branco picado de cruzinhas negras que lá em cima se via... E a mãe, uma famosa cadella preta de pello luzidio ligeiramente ondeado, acostumára-o a seguir aquelles cortejos funebres, com respeito, quasi com magua...

Depois, ao primeiro annuncio do inverno, os navios fugiam, como as andorinhas vôam ligeiras para a dôce paz dos seus ninhos de lá baixo--andorinhas aventureiras que todos os annos voltam, mas á custa de quantos sacrificios! Quantos ficarão perdidos por esse mar sem fim! E esses homens rudes, que tanto e tanto trabalham por um pedaço de pão, seriam a melhor lembrança do meu pobre _Algarve_...

Quando maior, levaram-no um dia esses mesmos pescadores que elle se habituára a amar e a seguir humildemente. E então foi uma vida de sobresaltos e perigos, passada sobre as quatro tabuas d'um navio, tal qual um velho marinheiro muito affeito a perigos e tempestades.

D'um naufragio se salvou, salvando o capitão. Appareceu não sei como em Setubal. Depois, de mão em mão, chegou á minha.

Que nostalgia profunda a do seu olhar, quando se fitava n'essa bahia etherealmente e incomparavelmente azul! Com quanta saudade elle recordaria esses mares tão differentes, por onde a sua mocidade se passeára, sobre a tolda dos navios?!...

Nas longuissimas tardes de maio, sempre as mesmas, sempre doiradas e tepidas, eu gostava de me ir com elle até á praia. Alli, na aureola d'oiro fulvo com que o céo santifica o mar, ficava-me sonhando, os olhos fitos no pharol do Outão, que era um ponto mais brilhante na gloria do poente.

Oh! as lindas tardes, as lindas manhãs, as lindas paysagens que nós contemplâmos em extasi; veem-nos passar com a mesma serena indefferença e assim continuarão a encantar os homens na sua rapida passagem pela terra. E mais rapida ainda a d'esses pobres animaes tão intelligentes, tão bons, tão dedicados--e que tão poucos d'entre nós teem alma para comprehender e amar!

Uma noite o _Algarve_ não appareceu ás dez horas regulamentares. Um palpite de tristeza me annuviou o espirito... Faltou essa noite e faltou em todas d'ahi em deante. Um bebedo tinha-se posto deante do seu caminho, n'uma estupida e humana graça. O cão voltou, para seguir por outra rua, e o homem, n'uma selvageria que envergonhava o animal, agarrou-o, entre as gargalhadas dos espectadores que da taverna proxima assistiam ao espectaculo--que na verdade devia ser d'uma infinita graça! O cão filou-o rijamente, sacudiu-o com os dentes e passou.

Mas a injustiça e o odio dos homens torna-os mais ferozes do que os proprios animaes. A alma--se homens como aquelle a teem--apenas lhes serve para mais conscientemente fazerem o mal.

Ao outro dia o meu pobre _Algarve_ tinha desapparecido para sempre, levado para a suprema ignominia da _sepultura_ dos cães vadios.

Junho de 97.

CÚMULO

CÚMULO

Trabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as compras...

De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha--como ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer de fome qualquer dia!...

Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito. Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo fazia comedidamente, sem nenhum exagero.

Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro, aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.

As filhitas andaram sempre muito arranjadinhas. Emquanto pequenas, era mesmo um encanto. Fatos velhos talvez, mas tão gentilmente postos, que ao vê-las dir-se-hia que eram duas meninas ricas. No collegio não se confundiam com as mais pobres, não. Mal ficára viuva deixára a renda na almofada encher-se de pó, amarellar com o tempo e confundirem-se os bilros n'uma indesmanchavel meada.

Viuva?!...

Se ella acaso o era!... Que o marido embarcára e ha dezeseis annos que não sabiam d'elle. Tantas vezes navegára n'aquelle navio mercante e sempre voltara tão alegre, trazendo tanta coisa estranha de paizes distantes, que ella nem comprehendia que podessem existir!.. O que o pobre homem ria de gosto com os espantos da sua mulhersinha! Porque a amava muito, apezar do seu feitio rude, das suas maneiras largas d'embarcadiço; morria por ella e pelas pequenas. Não pensava em mais nada, nas longas viagens trabalhosas por esses mares fóra.

E dezeseis annos sem dar conta de si--decerto que tinha morrido!... Mas sem o confessar, no fundo do coração alimentava ainda uma esperança... Custa tanto acreditar na morte das pessoas amadas, mesmo quando deixam de soffrer deante dos nossos olhos!... Que fará, assim?!...

As raparigas eram bonitinhas, belleza da mocidade, uma certa finura da mãe, com os instinctos aventurosos do pae, talvez. Queriam luxo, muito fato, como as outras. Côres claras, leques, fitas, plumas, rendas... coisas tão caras, mesmo quando ordinarias, para uma pobre mulher que mal ganha para a comida. Quantos recados era preciso fazer; quantas casas esfregar! Por mais que se estafasse não chegava a nada. Sempre as outras melhor do que ellas; sempre as raparigas a grazinar.

Um dia, furtivamente, tirou uma renda de sobre o mostrador d'uma loja de modas, onde comprava para outros o que tanto desejava para as filhas. E que linda golla fizeram! D'ahi em deante, nas casas que servia, ia tirando sempre, sempre, na tentação que crescia como serena maré n'um mar feito de lama amornada. Abria as gavetas, desapparecia dinheiro... desconfiavam e despediam-na. E as raparigas que desejavam blusas novas, casacos, lenços!... Por fim, até chapeo. A pobre mulher, que não tinha remedio a dar-lhe, dobrava-se sobre si mesma, compungida da sua desgraça. Não era remorso; era pena de não ter a quem roubar, devagarinho, sem haver escandalo.

Um dia, cançadas de não terem o luxo que desejavam, abalaram as duas deixando a mãe a governar-se sósinha. E ella--nunca mais tirou nada a ninguem! É tão fiel, tão honesta, que não haveria perigo em lhe confiar uma fortuna.

«Que as filhas são muito boas...--murmura a pobre, muito convencida,--dizem por ahi mal d'ellas; mas tudo é inveja. Coitadinhas, andam bem vestidas, andam, mas isso o que tem? A mais velha hade casar em morrendo a mulher do homem que a sustenta... E Deus hade fazer esse milagre!--Sinceramente o pede nas suas fervorosas orações.--A outra casa para a paschoa, com um empregado publico. Vive como senhora.»

E ha quantos annos que ella espera essas boas festas!...

Setembro de 96.

A AMA

A AMA

Quando a Rosita do Simão casou, foi um desconsolo pela rapaziada. Pudera, se ella e a irmã eram das mais bonitas caras da aldeia! Claro que não se poderiam chamar bellezas em qualquer terra de formosuras, mas alli, entre a fealdade quasi geral, pareciam duas flôres. Decerto que era pena ve-la casar com o bruto do Antonio Marques!

A Mariquinhas estava a servir em Lisboa, n'uma bella casa arranjada pelo sr. vigario, e vinha á terra d'annos a annos, toda senhora, toda posta no seu serio--boas mantilhas, bons fatos, uma _figurona_! E á Rosa, a ter que casar com o Marques, mais lhe valêra ir tambem servir...

Ella é que se não importou com os commentarios, e lá foi toda contente, com o seu vestido preto, o lenço de seda, o chale de vêr a Deus, dar a mão de esposa ao sr. Antonio Marques, que ia todo taful, de capote ás costas e chapéo novo. Foi uma festa.

No poente rubro, tepido, da primavera que ia no fim, a passarada cantava umas alegres canções--coisas d'elles, d'esses vadios sem futuro. Umas pessimas cabeças, as da passarada!

E o Leandro, amigalhaço do Antonio Marques e convidado para o arroz doce, tocava os sinos todos n'um desaforo de repiques.

O velho campanario tremia entre os braços da hera. A pobre igrejita enchia-se do oiro mordente que o sol enfiava pela rosacea do côro. A vinha do passal perfumava a atmosphera como uma enorme corbêlha de reseda e os pinhaes, os soutos e os olivedos reviveciam n'uma vida fresca, novinha em folha. Errava no ar uma tal expressão de vida natural, que inconscientemente todas as boccas se abriam em risos. O sr. vigario, muito solemne, fez uma bella prédica á Rosita; as palavras cahiam-lhe dos labios, sérias, claras e precisas como se viessem classificadas, numeradas, sabendo d'antemão o logar que occupariam na vida. O latim era tão explicado, que fazia gosto ouvi-lo... «Ser casada por elle--dizia a Rosita--até dá felicidade. Parece que fica a gente mais bem casada!...»

Passados tempos, já não dizia o mesmo. O Antonio era um bruto, um avarento; tudo o que ganhava enterrava na fazenda. Em casa, a Rosa mortificava-se, com tres criancitas intanguidas de frio e fome--dizia mal da sua cabeça tonta. Ir casar com um trabalhador d'enxada já fôra uma tolice--e sahir-lhe elle assim!... Louvado seja Deus, que tão pouco juizo dá ás raparigas! Porque não fizera ella como a Mariquinhas, que vinha á terra tão bem vestida, que era a inveja de todos?!...

No baptisado do terceiro sobrinho foi ella ser madrinha, com incumbencia d'uma ama para Lisboa. O ordenado era bom e o Antonio Marques, muito avarento, lembrou a mulher. Lá por saudavel e bonita não havia outra nos arredores. Os pequenos ficavam com a avó e haviam de se crear como os mais, á graça de Deus!

Fallou-se ao sr. vigario--que dissesse elle a sua opinião. A Mariquinhas explicava--que era para casa da sr.ª viscondessa, prima da sua senhora, o sr. vigario sabia...

--«Óra se sabia! Perfeitamente. Ia muito bem; que fosse, que fosse!...»

Custou-lhe muito separar-se dos filhos, á pobre da Rosita. Chorava inconsolavel pedindo á mãe que lh'os tratasse bem, que ella mandaria dinheiro para isso; nada de o entregar ao homem que tudo iria enterrar na fazenda e deixaria morrer os pobres anjinhos.

Dois annos que a Rosa esteve por lá, mandou sempre bom dinheiro, que o marido guardava. Os garotos iam-se creando pelas portas, negros e sujos, tristonhos--uns selvagens. Acabada a creação chegou ella, esperada em triumpho por todos os parentes, que de fóra da _gare_ lhe acenavam com os lenços chamando-a alegremente. Nem parecia a mesma! Mais bonita que nunca, a rapariga. Os filhos fugiam d'ella, enrodilhavam-se na saia da avó, choravam confundidos por se verem acariciados por mãe tão de grande gala. E ella olhava-os lacrimejante, sem grandes esforços de ternura, que os conquistasse. Achava-os tão feios no fim de contas!... Mostrava o retrato do seu menino--recostado entre almofadas e rendas, risonho e expressivo como se da photographia fosse estender os braços roliços á boa ama.

--«Que lindo menino, se vissem! Uma gracinha de criança, que tudo lhe ficava bem. Quando o levava pela rua toda a gente se voltava enlevada na sua belleza. Um amôr! Nunca poderia esquecer o seu menino, o querido anjo que criára ao peito...

Aprendera a fallar, a Rosita. Estava outra. Até já sabia escrever e passava horas a rabiscar umas cartas inintelligiveis, que mandava á sua senhora. «Não podia esquecer o menino, o seu querido menino! O seu lindissimo Gut, tão branco e rosado como uma flôr...»

Com a vinda da mãe os pequenos andavam mais limpinhos, isso andavam. A casa estava outra--alteada, janellas abertas, branca de cal. Um palacio. Mas, dizia-lhe um dia o sr. vigario:--«andas tão triste, Rosa! Parece que tens saudades de Lisboa...»

Desatou a chorar.

«Oh! muitas, muitas, do meu menino! Tinha-lhe um amôr... Não lhe passava d'alli!»--E apontava para a garganta entumecida pelos soluços.

--«Cá, tens os teus filhos, Rosa. Hade dizer-se que não gostas d'elles!... Isso é tentar a Deus, rapariga!»

--O sr. vigario que perdoasse; ella gostava dos filhos--pois se eram seus filhos, não havia de gostar!--mas o seu menino era outra coisa! Tão lindo, tão esperto, tão bem vestido!... Que Deus lhe perdoasse, mas tinha-lhe tanta affeição, que o não podia esquecer!... E beijava o seu retrato, chorando.

O vigario, depois de dar os seus conselhos, affastou-se resmungando:--«o démo da mulher! Se não conhecesse a casa onde esteve e não soubesse que foi sempre uma boa rapariga, até desconfiava d'aquellas lagrimas! Emfim... Decerto que o filho da viscondessa é bem mais bonito do que os negritos do Antonio Marques, mas são filhos, afinal!...»--E rematava sentencioso--o demonio são as mulheres! Umas adoram os filhos mais do que ao proprio Deus; outras até os matam; esta quer mais aos alheios que aos d'ella!... Ha de tudo cá por este mundo!»--E lá se ia á missa primeira, esfregando as mãos geladas pelo nordeste, levantando, a golla de pelles do casaco, batendo com as botas-tamancos na calçada, para aquecer os pés.

Outubro de 96.

ENTARDECER

ENTARDECER

Uma tarde tristissima.

Desde manhã que uma chuva miudinha e impertinente cahia sem cessar. O céo, muito pesado, muito baixo, esmagava o meu espirito, fazia-me soffrer de quantas maguas inconfessadas existem na vida--tão cruel, tão absurda ás vezes!

A lama na estrada chegava ao passeio; as arvores lamentavam-se desoladamente, todas gottejantes e trémulas, chorando a primavera que tanto, tanto custava a chegar esse anno!

Bandos d'andorinhas passavam _arrevoando_ junto á terra, piando, friorentas, saudades do sol, que deixaram _lá em_ _baixo_ a doirar minaretes agudos, a acariciar palmeiras, que ondulam brandamente as suas folhas em leque, e graves mulheres que passam envolvidas em brancas musselinas transparentes.

Encostada aos vidros da minha janella, eu olhava distrahida... Quem passaria por uma tarde assim?... A lama viscosa e pardacenta parecia querer subir, em maré cheia de tedio, a engolfar o mundo na sua molleza repugnante. Tardes ennodoadas e longas que ennoitam o nosso espirito, fazendo-nos perder a esperança de que jamais um raio de sol ou uma nesga de céo azul venha alvoroçar-nos em sonoridades de risos!

Uma rapariguinha passava, tão magra, tão pallidasita... A saia, muito fina, a cingir-se-lhe ao pobre corpo d'anemica; agasalhava-se tremendo n'um pedaço de velho chale esfarrapado e nas mãositas roxas segurava um pequeno embrulho.

Talvez seis annos...

E as botinas cambadas, maiores do que os pés, a enterrarem-se na lama, a não a deixarem andar depressa...

E a noite cahindo silenciosamente, e ella sósinha, no campo sombrio, áquella hora e n'aquella tarde tão abandonado e triste como um cemiterio.

Seguindo-a com o olhar, abstracta, quasi inconsciente, pensei: quantas crianças da mesma edade brincariam alegres e palreiras, em casas confortaveis, bem vestidas, quentes?... Quantas, n'essa hora vaga do cair da tarde, não correriam, sobraçando os arcos, rindo da chuva e do frio, por entre moitas verdejantes de lindos jardins, seguidas por loiras mestras altas e sérias? Bibes brancos a esvoaçar como azas de borboletas; finos cabellos encaracolados cahindo em maciezas de luz, a nimbar d'oiro Varezo cabecinhas graciosas... Bellas crianças feitas de mimos e de beijos, rosadas e fortes, promptas para a vida sem maguas nem canceiras.

E aquella! Uma infancia miseravel, a prepara-la para o longo e obscuro martyrio que termina na valla commum passando pela fabrica e pelo hospital.

E a pequenita caminhava vagarosamente, com uma precoce gravidade destoante dos seus poucos annos. Mas...

Uma carroça vinha em doida desfilada, com barulho irritante de velhas molas ferrugentas e guisos casquinando sarcasmos na tarde chuvosa. Assustada, querendo fugir, a criança deixou cahir o embrulho. O papel rasgou-se e todo o milho que levava se espalhou no chão lamacento. Nada mais pungente de ver; nada que mais esgarçasse a alma n'uma angustia--que a pallida figurinha da pequena contemplando aquelle desastre!...

A carroça passou e ella foi apanhando, grão aqui, grão além, aquelles que a lama não tinha completamente perdido. Depois affastou-se lentamente, com um sorriso d'infinita resignação na sua boquinha já soffredora.

Seis annos apenas--como ella aprendeu cedo a resignação amargurada da vida! Uma immensa piedade, uma dolorosa impressão d'irremediavel soffrimento, me invadiu o espirito, pensando em todas as anonymas desventuras que se acotevelam na vida.

A noite vinha descendo lentamente. Pezava como chumbo a tristeza arreliante d'esse fim de dia...

Março de 95

BRETAN

BRETAN

Certamente a mais ninguem acontece ter como eu um medo atroz, um respeito fetichista, pelo correio.

Um comboio que passa, com a sua cabelleira ao vento; os seus gritos agudos, o seu _tamtam_ monotono, não me traz á ideia a alegria descuidosa dos que partem para recreadas viagens, não! Eu penso que n'aquella caixinha, estreita como um esquife, vae amortalhado muito coração, vae muita lagrima alastrada em tinta, levar a todos os cantos do mundo a magua que a fez sangrar.