Infelizes: Historias Vividas

Chapter 2

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Claro; nós eramos sempre pelo velho contra ellas.

--«Lá em casa dos fidalgos, havia couves ainda mais altas do que estas!...»--

--«Mais altas, tio Barreiros?!...»

Que grande coisa ser fidalgo!--pensava. Até a horta se resentia de tamanha altura heraldica!

Ah tio Barreiros, tio Barreiros, que loucuras risonhas nos mettia na cabeça a vossa bastardia fidalga! Que saudades, meu amigo!...

Uma vez--ha quanto tempo isso vae!--mal começava a aprender a ler, por premio assignaram-me um jornal, que devia vir directamente para mim.

Esperava n'uma febre a chegada do carteiro; e nada do jornal apparecer, para o meu nome, como eu sonhava noite e dia!... Desabafava com o tio Antonio, aquillo parecia-nos historia...--«Mas o papá pagou isso, menina?»

--«Pagou, tio Antonio, para vir para o meu nome.»

--«Pois olhe que foi no que elle andou mal. Nunca fiar!...»

E lá esperavamos, consternados, mais vinte e quatro horas. Mas um dia soube-se:--o jornal tinha vindo logo, mas, como eu tivesse n'uma terra proxima uma tia com o mesmo nome, os empregados do correio vá de lh'o remetterem. Eu, muito queixosa, fui ter com o Barreiros ao quintal. Elle indignou-se:

--«Vou já lá de caminho. Não, que uma coisa assim!... Nem que a minha ama nova não soubesse já lêr, não fosse capaz de ter um jornal!» Era uma injuria para nós ambos. E eu ficava consolada, vendo-o atravessar o pateo, seguido das gallinhas, gallos, perús, marrecos, com o ganso pae á frente--o Caetano--como lhe chamavamos.

E elle lá ia com toda a pressa que as suas velhas pernas lhe permittiam--um casaco que lhe tinham dado, arrastando na frente e muito curto atraz, tão dobrado andava elle, o pobresito, a pender para a terra!..

E o caso é que fez um discurso no correio. Mas por fim discutimos:--«Menina, o melhor é mudar de nome. Olhe que hade haver sempre enganos!»

E esta coisa de haver enganos--tocou-me. Toda a vida a não receber os meus jornaes...

--«Pois está dito, tio Antonio! É o melhor.» E assim foi.

Mas o velho começou a enfraquecer. De dia para dia o corpo se lhe dobrava mais para a cova. Já pouco comia, sustentava-se de vinho e marmellada, nada mais.

E n'um inverno muito rude, em que a neve cahiu mais a miudo e de manhã a agua dos tanques apparecia gelada--o tio Antonio Barreiros apanhou uma tossita; levantava-se tarde, já não ia com o sacho para a horta...

Sentiamos que o seu espirito, risonhamente infantil, já andava longe, n'um meio sonho, quasi desligado da terra...

Fallava na mulher, fallava na filha, com uma grande serenidade e um redobramento d'affecto--como quem pensava em as encontrar breve. Depois olhava-nos com uma tal saudade...

E n'uma fria manhã d'inverno, voltado para a parede, embrulhado na manta de riscas, elle appareceu serenamente adormecido para sempre. A sua bocca ironica eternamente risonha; fechados os olhos azues d'uma graça aristocratica... O seu perfil accentuado, desenhava-se muito nitido na brancura da parede. As glycineas, despidas de folhas, mettiam os braços hirtos pela abertura da janella, n'uma ultima despedida ao velho amigo que as tinha plantado... E elle dormindo na manhã brumosa, sem responder ao nosso chamamento!...

E que falta elle fazia, á noite, na ceia dos criados, contando historias, oh! lindas historias de feiticeiras e lobishomens--de que o velho se ria, um poucochinho sceptico, vamos lá!...--Guerras que elle vira, dramas de familia a que tinha assistido, trovoadas no meio da serra a quando pastor... Ah! tudo isso nos fazia muita falta, muita falta!... E nunca mais nós esqueceremos o tio Barreiros, dormindo socegadamente junto dos patrões, que primeiro nos tinham deixado.

Junho de 96.

SOLTEIRÃO

SOLTEIRÃO

A inesperada morte do velho doutor Mendes fez-me volver os olhos um bom par d'annos atraz--a quando criancita gulosa lá ia ver passar as procissões e beber a minha chicara de leite com sopas de biscoitos caseiros.

Essa morte rastejou-me na alma uma pequena sombra de melancolia, não que eu amasse muito esse velho nem que a sua falta seja desventura para alguem,--mas é que os sinos, dobrando n'uma pardacenta tarde de fevereiro, são d'uma tamanha tristeza!...

Com uma persistencia dolorosa de choro, as badaladas succediam-se atirando para o espaço os seus pesados lamentos--unicos que acompanharam o doutor Mendes na sua primeira noite d'além.

Morreu, pobre velho inutil, despertando apenas a ironica piedade que inspiram aquelles cuja alma subalternisada não soube crear uma familia nem chegou á consciente bondade dos fortes.

Ninguem o estimava já. Outr'ora havia inspirado medo como mandão d'aldeia; diziam-no vingativo e cruel nos tempos aureos do seu poderio... Por fim, esse poder era uma triste caricatura.

... Porque--eu ainda lhes não disse?--fazem-me tristeza as caricaturas. D. Quixote é para mim mais commovente do que Jocelyn.

Em novo fôra o doutor Mendes um feliz conquistador de creadas e caseiras, que olhavam agora para os filhos grosseiros e brutaes, encarquilhando os olhos cúpidos, julgando-os possiveis herdeiros da bella fortuna do velho. Tudo podia sêr; se elle não tinha herdeiros forçados!

E lá ia vivendo, certo em todas as festas, imaginando-se imponente á força de tesura, o bigode branco cortado em escova, a calva luzidia, a face sanguinea. Dava realce ás festas--diziam rindo chocarreiramente aquelles que lhe tinham tirado o bastão de commando, deixando-o, mono de palha, para a imposturice da _figura_.

Estou a ve-lo, o senhor doutor, com a sua casaca prehistorica, lustrosa, d'um feitio unico; o lenço d'Alcobaça, azul escuro, com pintinhas brancas, a sahir dos bolsos; comprimentando receoso, estendendo apenas dois dedos gordos e vermelhos; soprando contente a cada palavra...

Levava a umbella em todas as procissões e na minha poderosa imaginativa infantil aquillo engrandecia-o a tal ponto que o revia no céo acompanhando as almas purificadas ante o throno d'oiro do Padre Eterno.

Se cahiu de tão alto no meu conceito, não foi d'elle a culpa, que impassivel continuou elle a sua vida quasi hieratica entre o incenso dos thuribulos e o cheiro fresco do rosmaninho--eu é que mudei, infelizmente!

Porque não detemos nós a vida; porque não conservâmos o nosso espirito na meia hallucinação dôce da infancia? Se vale a pena isto!... Andar a primeira parte da vida a construir altares, a enramalheta-los, a venera-los com todo o nosso enthusiasmo; gastar outro tanto tempo a destrui-los; e o resto da vida passar a chora-los! Não, não acho que vá bem assim o mundo! Ou as crianças teem que nascer com a sabedoria dos velhos ou os velhos ficarem com a ingenuidade das crianças. Quanta tristeza se pouparia a certos espiritos por demais vibrateis!... Assim, eu escusava de soffrer vendo a pobre cabeça do velho doutor Mendes, que diziam intelligente, ser agora uma coisa esteril e ôca.

O seu risito infantil, em _hi, hi, hi_, como dava uma prova dos frageis juizos humanos! E tinha sido terrivel em vinganças do tempo dos Cabraes, elle que hoje fazia rir as crianças!

A rodear o idoso doutor Mendes fazia-se uma atmosphera de coisas envelhecidas e desbotadas. A sala de recepção--forrada a pannos d'_Arrhas_, com ingenuas scenas da Biblia, onde as côres já murchas se confundiam e empallideciam suavemente a dar um tom uniforme á filha dos Pharaós salvando um esperto Moysés e ao seu terrivel pae affogando-se nas justiceiras aguas do Mar Vermelho--abria-se lá pelas festas ás raras visitas. Impunha respeito com os seus tectos altos, o delgado friso doirado a dividir os pannos, as suas doze cadeiras formadas aos lados do sophá incommodo como um potro inquisitorial, o indispensavel tremó e espelho a encima-lo.

Logo ao entrar no pateo, á noite sempre illuminado esperando problematicas visitas, uma gelida impressão de silencio nos envolvia. Subia-se meio receoso a escadaria de pedra, a abrir-se nobremente em dois lanços, como um velho amigo que nos recebe de braços abertos. Essas bellissimas escadas das casas antigas, que dão bem a nota carinhosa do nosso gosto pela hospitalidade, eram mais uma frisante ironia n'aquelle interior fechado, esquecido, só de longe em longe visitado por indifferentes.

Entrava-se a medo na sombria casa e esperava-se, em silencio, que os donos apparecessem. Passado um tempo, que nos parecia infindavel, vinham, as quatro manas--miudinhas, desbotadas ellas tambem, muito parecidas umas com as outras, fallando baixo, repetindo todas o que dizia a mais nova, sentenciosamente, a módos de oraculo. Muito devotas, um grande respeito pelo mano doutor, ellas lá iam todos os domingos, em carreirinho de formigas, á missa pacata da freguezia. Muito velhitas, com antigos enfeites na cabeça, vestidos de seda passados de modas ha tempos immemoriaes, lencinhos de renda no pescoço, restos d'antiga garridice, cheirando a alfazema e a camphora.

Como isto vae longe, perdido no montão de saudades que me enchem a memoria; e como eu sinto ainda toda a impressão de poeirento, de velhez, que me tomava toda quando as ia visitar ceremoniosamente!

Porque o tempo já ia longe em que a minha inconsciente criancice ousava penetrar sem receio n'aquelle tumulo. O tempo das procissões e do leite frio passára com a minha primeira infancia e com as passeatas á igreja para ver as mudanças de _toilettes_ que Nossa Senhora soffria de cada vez que a passeavam procissional e dolorida.

E ainda hoje ellas córam e baixam os olhos admirando a immoralidade que vae por esse mundo.--«_Tudo perdido, tudo perdido, manas..._»--dizia a mais nova, fechando os olhos a cada palavra.--«_É verdade, é verdade, é verdade..._»--respondiam as tres a um tempo.--«_Ainda bem que o mano não quiz casar!... Nem nós tambem, que fomos bastante pretendidas!..._»--«_É verdade, é verdade, é verdade!_»--fazia o côro.--«_Que módas, santo Deus! Os homens cruzam a perna deante das senhoras e apertam as mãos!! Que gente, que immoralidade!..._»--E as outras abanavam a cabeça affirmativamente, emquanto o doutor Mendes, á janella, lia a _Nação_, escondendo das boas irmãs um sorriso velhaco.

E foi elle, tão córado e gorducho, o primeiro a morrer.

A sua morte déra brado. Murmurava-se: «_Afinal não fizera testamento? Podera! Até na morte fazia partida. Fôra sempre assim._»--E lá iam seguindo o enterro, bocejantes, sem nenhuma pena, maçados. Enterro de indifferentes que nenhum respeito contêm no seu aborrecimento.

As pobres irmãs, mirraditas, gemiam frouxos lamentos. Tão velhinhas, tão longe d'este mundo--nem gritos já tinham para se lamentar. Era um correr de lagrimas, sem soluços nem febre, um resignado soffrer de pallidos phantasmas.

Por suprema ironia das coisas humanas, até o enterro foi causa de riso. Do antigo mandão d'aldeia, que inspirara medo e profundos odios, apenas restava esse corpo inerte deitado n'uma eça branca, com a fita do caixão risonhamente branca. Se elle fosse vivo como a levaria imperturbavel!...

Mas os sinos lá ao longe tangiam maguas, que se iam alastrando como nodoa d'azeite na pardacenta tarde de um fevereiro triste.

Como é enervante pensar na vida assim, sem interesse pelos outros, sem nenhum grande affecto que nos chore bem alto, a fazer calar todos os risos!...

N'essa paysagem, paralysada pelo inverno, só eu parecia viver--campos de vinha estorcendo os braços esqueleticos, pinhaes muito graves no seu eterno verde, o riacho a correr ao fundo do valle, e como gigantesca parede as serras violeta, escarpadas e selvagens... Ao fundo, vaporisando-se no poente, as torres alvas das igrejas lançavam pelo espaço o seu lamentoso dobre: _dão!... dão!... dão!..._

Uma grande amargura me affogava a alma, vinda d'essa paysagem desolada, d'esse cahir da tarde sombria, da lembrança de morte que fluctuava no ar--de qualquer coisa emfim que me segredava desalentos e angustias...

A chuva começou de cahir miudinha, sem ruido, para o fim da tarde... Que desagradavel noite essa primeira que o velho doutor Mendes passou solitario no seu tumulo, guardado pelas sentinellas esguias dos cyprestes!

1895.

HAMLET

HAMLET

Quem o via, embrulhado em flanellas, apoiando-se a um grosso bambú, sorumbatico, fugindo a todo o convivio, apparecendo só de longe com a mulher e filhitos, procurando as estradas desertas para passear, tudo sujeitando á hygiene,--decerto nunca imaginaria que a sua lucida intelligencia de subtil penetração e réplica prompta nas mais intricadas questões cahiria n'aquelle phantasmagorico sonho de grandezas, que o levou á cella d'um hospital de alienados.

Jurisconsulto erudito, advogado eloquente e cuidadoso, tinha sempre que fazer; mas são poucos os lucros n'uma terra onde a propriedade está accumulada em meia duzia de felizes e só os pobres se mettem com _justiças_.

Vivia modestamente, n'um grande orgulho de trabalhador. Não queria favores de ninguem. Se tivesse muito, muito daria; pedir, nunca!...

E, subito, de volta d'uma estação d'aguas, eis que elle muda completamente. Luxo, passeios, viagens, projectos de compras, tantos e taes, descriptos com tal apparencia de logica, com tão ardente enthusiasmo de phrase, que chegava--não a convencer-nos da realidade de taes sonhos, mas a fazer nos viver na hallucinante miragem em que o seu espirito se perdia.

Depois que, no regresso da villegiatura, vira representar o _Hamlet_, apaixonára-se pela loira e ideal Ophelia, por essa pallida figura tão intensamente dramatica na sua passividade de amorosa, tão angelicamente resignada e feminil, que é já uma forma palpavel do ideal... Verdadeiras e dignas de piedade as suas lagrimas--symbolisando todas as que no mundo teem vertido olhos de tristes despresados.

E o sympathico doutor, um bom, um sincero, um sentimental, apaixonára-se por essa irmã da sua alma, que vae desfolhando as niveas flores do seu dôce amôr, cedo queimado pela ingratidão.

A crueza de Hamlet resgatou-a elle, levantando no seu coração de romantico um templo auriluzente onde a incensava com a myrrha do seu talento, que a loucura, parece, exacerbára, requintára, fazendo-o subir ás etherias regiões onde as mais solidas cabeças sentem vertigens!...

Todas as mulheres passaram a ser para elle suaves Ophelias; n'ellas via a amada, o seu puro ideal; adorava-as como se essa adoração fosse ainda uma homenagem rendida á dama dos seus pensamentos--alma de cavalleiro trovadoresco, vencendo emfim a gelida couraça da materialidade burgueza.

A medicina, o amôr e o delirio das grandezas eram as suas ideias fixas. E então--vendo uma loira e anemica rapariga de silencioso porte, obrigava-a a beber aguas de Vidago e gritava com grandes braçadas enthusiastas: «beba, beba, que eu hei-de fazer d'um pastel de nata um pastel de carne!...» Logo respondia irado a um primo, que, por troça, aconselhava uns tamancos e passeios pelas serras como remedio mais efficaz: «fallou o livro Caixa!... Uma estrella de tamancos!... É uma blasphemia sideral!...»

Tinha agudezas de ditos que nos punham em duvidas. Doido?!... Se isso podia ser, fallando elle tão prodigiosamente bem, encontrando com tanta facilidade a memoria da sua juventude!

A sua palavra quente, d'uma fluencia correntia e d'um enternecimento tão sincero que pelas lagrimas tinha arrancado muito perdão aos jurados commovidos--tomára um tom d'inspirado, quasi prophetico!

Doido, doido!?... E que seriamos nós, que o não comprehendiamos? A imperceptivel linha que separa o juizo da loucura tremia diante da nossa duvida.

Os seus pobres nervos exacerbados estalavam em ditos faiscantes, desfaziam-se em lagrimas, espalhavam o seu immenso talento em estilhaços--e apezar d'isso tão brilhante!--como aerolithos, atravessando a deprimente vida provinciana. Fazia-nos uma atmosphera de sonho, de desvairamento e d'exotismo; que a terriola já parecia--_una casa de locos sin locura_!...

Elle, que só por muito favor pegava d'antes no violão, recordava agora todas as antigas musicas com uma revivescencia da sua vida bohemia d'estudante. Cantava, com a mesma alegria da mocidade, a triumphal recita do quinto anno.

Fazia pena ver o pobre violão dobrar-se todo para gemer trechos de musica já passados de moda ha mais de vinte annos. E mais pena ainda ve-lo tão alegre, d'essa alegria que tanta vontade de chorar nos causa!

Ia ao cemiterio conversar com a mãe--affirmava. Narrava, em voz estrangulada, extraordinarias coisas que, parece, ella lhe dizia baixinho... Essa familiaridade com o desconhecido fazia errar em torno de nós as sombras dos bons mortos... uma nevoa revoluteante de estranhos sonhos...

Que as cabeças não andavam lá muito seguras, não!...

Quando o levaram para o hospital, despediu-se radiante--certo de que ia ser o director, projectando grandes reformas e esperando encontrar lá a sua pallida Ophelia, absorvida n'um delicioso sonho feito de sorrisos de noivos e de camelias idas na corrente de luar...

Com os seus cabellos fluctuantes, as suas mãos translucidas desfolhando flores, arrastando as alvinitentes vestes--ella o aguardava...

Assim se extinguiu aquelle brilhantissimo espirito! Assim ficou silenciosa aquella eloquentissima voz, que fazia repuxar lagrimas aos olhos dos mais ferozes julgadores! Assim morreu aquelle coração de romanticos arrebatamentos, naufragando na banalidade ultima da vida material!

Setembro de 96.

A SENHORA ANGELICA

A SENHORA ANGELICA

A senhora Angelica forneira era a cara mais phenomenalmente feia que eu tenho visto--e verei. Espero esse favor de Deus Nosso Senhor, que nos fez á sua imagem e semelhança...

Eu nem sei explicar aquella mascara de gente! Não se pode mesmo comprehender como a face humana perde assim toda a forma macia de carne e se torna enrugada e musgosa como um velho carvalho--que vae morrendo aos pedaços e que todas as primaveras enverdece menos, lá para o cimo dos ramos.

Pois, apesar da horrivel fealdade da senhora Angelica, ella resumiu para mim, durante a minha infancia, um mundo de sonhos e phantasticas imaginações.

Mal a via assomar ao cimo do largo; a saia de riscado curta a mostrar um começo de pernas gretadas e uns pés enormes, deformados e sujos; saracoteando-se desgraciosa com o taboleiro de brôa cozida á cabeça; corria logo á cozinha para lhe ouvir recontar pela millesima vez o estranho caso.

E se dissessemos ainda que ella sabia muitas historias! Não, era só uma... Mas essa unica, verdadeira, accidentada de peripecias, era d'effeito. Enchia-me a cabeça e dava até assumpto para um grande romance rocambolesco.

Todas as semanas, quando a velha trazia a fornada de pão de milho para os criados, os tres alqueires do costume, era certo eu lá estar na cozinha á espera d'ella. Fazia-me muito amavel; pedia o meu bolo; mastigava fastienta em pequenas dentadas de coelho esse pão grosseirissimo, sabendo a farinha crua, adocicado e peganhento, ao qual nunca o amôr á terra natal me pôde habituar.

A velha ria parvamente, mettia com as negras mãos encarquilhadas o cabello frisado, d'um branco sujo, para dentro do lenço de chita, e contava sempre a mesma coisa, dita com as mesmas palavras, com uma precisão de phonographo. O bastante porém para fermento da minha phantasia.

Era no tempo em que os rapazes d'um certo nome imitavam, com mais ou menos parecença e espirito, as estravagancias do conde de Vimioso.

Por moda, por chic e muito por gosto tambem, faziam sociedade com os ciganos sem eira nem beira, embriagavam-se pelas tabernas, vestiam-se de fadistas e pouco ou nada se distinguiam d'elles, moral e intellectualmente. Aquillo que no Vimioso era um artistico grãosinho de loucura, nos outros não passava d'uma ridicula imitação, muito grosseira até.

Como houvesse lá na terra um d'estes esperançosos moços--tambem conde, por signal--os ciganos passavam frequentemente por alli e assentavam arraiaes mesmo no interior da villa.

Á noite as barracas illuminavam-se, deixando entrever, n'um clarão de magica, os finos perfis das _gitanitas_ de cabello negro e olhar mortifero, envoltas em flammantes trajos; os acobreados ciganos vestidos de gala, jaqueta curta com alamares de prata; e ao fundo, acocoradas n'um espasmo de profunda estupidez, velhas repellentes, cobertas de trapos sujos, fumando por cachimbos de barro.

As forjas onde concertavam caldeiras, tachos, bacias, toda a bateria de cobre da gente da villa e arredores, abriam-se n'um crepitar incandescente, mostravam boqueirões de fogo a lembrar infernos dantescos.

As mulheres vendiam pannos, lenços, contas, tudo que podia seduzir a garridice feminina das boçaes aldeãs. Elles eram soberbos! O verdadeiro _zingaro_, com ares de _grande_ de Hespanha e _condottiére_ italiano; vendendo e trocando cavallos, experimentando-os em correrias pelo largo sem arvores, com uma maestria e uma elegancia de _gaúchos_.

Nada tinham dos miseraveis ciganos que atravessam os campos, melancholicos, seguindo-nos n'uma guincharia lamurienta, acompanhada pelos urros dos pobres ursos espancados e famintos e pelos intoleraveis macacos com os seus gritos de convulsionar os nervos... Perseguidos pelas auctoridades e pelo odio do povo, que encontra sempre para contar arrepiantes historias dos vagabundos--crianças dadas a comer aos animaes, colheitas devastadas, roubos...--esgueiram-se logo, passam de largo pelos povoados, com a falsa humildade dos cães batidos.

N'esse dia tratava-se d'um casamento e o arraial estava em grande animação. O conde era o padrinho; mandára para lá vinho a rodos e leváva convidados. Promettia ser luzida, fallada por muitos annos, a festa.

Os beirões, de cabeça dura, enraizados na terra como pinheiros selvagens, olhavam, com um mixto d'espanto e de desprezo, para esses eternos vadios, instaveis como a areia do deserto. Alguns, mais entendidos, contavam o que aquillo era:--Nada de padre, nem de pregões, nem de igreja! Quebrava-se uma bilha e ficariam juntos tantos annos, quantos os cacos em que ella se fizera.--Horrores!... E as velhas benziam-se, assustadas.--Credo, Santo nome de Jesus! E viviam assim! Criaturas que nem eram de Deus!... E o sr. conde mettido com aquella gente! Oxalá a mãe não andasse aos tombos no outro mundo pela estragação de mimos em que o criára!...»

A senhora Angelica forneira, n'esse tempo era ainda uma rapariga, casada de pouco com o seu Joaquim, que sempre fôra bom homem, isso é verdade! Amigo da _pinguita_, por isso não juntaram vintem; morrendo porque ella lhe levasse pontas de cigarro para se entreter lá pelo forno; mas bom homem, no fim de contas, bom homem. Se lhe batia ás vezes, era por amôr--claro!...

N'esse dia, como toda a gente da terra, embasbacava-se a sr.ª Angelica deante do acampamento em festa. Como se adeantasse mais, curiosa de vêr a noiva, depois de ter admirado a gentil figura do noivo, chegou-se a ella uma rapariga, a sahir da infancia, d'uma brancura de pelle, d'uma côr de cabello, d'uma reserva de maneiras que accusava uma raça bem differente. Approximou-se com o disfarce ondulante do gato, que quer fugir sem ser visto pelo dono; puxou-lhe pela saia e murmurou-lhe ao ouvido:--que a levasse d'alli, tinha uma coisa importante a dizer...

A senhora Angelica, que tinha todas as virtudes femininas, excedia quasi o seu sexo na curiosidade. Como pôde lá se metteu com a rapariga por entre o povo, sem que nem dentro nem fóra do acampamento dessem por isso, e levou-a para o cimo da villa onde ninguem estava áquella hora.