Part 9
Só tu D. Leocadia te deste ao goso superior de têres uma alma á tua descripção. E isto sem gritos, com um ou outro soluço logo represado, noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto, uma luz que se extingue até á impassibilidade, n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou em vir á superficie, até que a D. Leocadia a conseguiu esmagar sob o calcanhar de ferro--para sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou a cabeça submissa, e a outra ergueu a cabeça triumphante.--Para a livrar da fome, para a subtrahir á desgraça. Se não fosse eu ia parar a uma viella. Cumpri o meu devêr.--Sim, e para a crear, para que não fosse parar a uma viella, o vestido que lhe durava uma eternidade, teve de lhe durar outra eternidade ainda; a côdea, que mal chegava para lhe matar a fome, repartiu-a com a orphã, guardando para si o bocado mais pequeno. Cumpriu o seu devêr de ferro, o devêr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem desviar uma polegada da linha do devêr. Obrigou-a a levantar-se de noite, mas levantou-se primeiro do que ella. Pobres querem-se como pobres, sempre na regra e no devêr e sem levantarem a cabeça. Quando a orphã a olhou transida de dôr e a D. Leocadia lhe bradou:--Cumpre sempre o teu devêr!--já ella tinha cumprido o seu devêr até final. Passaram-se annos ou seculos, morreram as aranhas de velhice no fundo dos saguões deshabitados; nas paredes mestras de granito a camada de frio salitroso juntou-se camada de frio sepulchral, e a camada do frio sepulchral sobrepoz-se camada de frio deshumano. E sempre tu cumpriste o teu devêr e ella cumpriu o seu devêr d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o tão fundo que ahi a tens na tua frente, palida e inerte, com um filho do teu filho na barriga...
Não te queixes D. Leocadia, porque afinal foste buscal-a ao asylo para te sentires maior no teu orgulho. A desgraça dos outros não comove, a desgraça alheia consola. Mas tinhas de cumprir o teu devêr: ao magestoso edificio que architectavas, faltava-lhe ainda o remate. A côdea que tiraste á bocca manteve-te melhor que se a comesses, e o vestido que lhe deste, agasalhou-te melhor que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste e doiraste. É verdade que tambem resequiste. Espera, espera... Resequiste, mas como o mundo é extraordinario, como a vida é prodiga e teimosa e irrompe até das pedras, extrahiste não sei que ternura azêda do mais duro de todos os peitos--ó contraditoria D. Leocadia, 29-3.^o-D., que eu não chego a decifrar. Não podes com isto, não explicas isto, não aturas isto! Não comprehendes. Nem eu.--Tambem eu D. Leocadia! Lé com cré. Tambem eu, se me liberto d'isto que não tem significação, não encontro nada que tenha significação. Chegamos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Bitesga, entre duas ou tres curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas d'algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bamburrio se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do devêr, e de que o infinito tem de dar importancia ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suissas não tira de mim os olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes de contrahir noções, talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros bichos teem mais que fazer. Mas é por isso mesmo D. Leocadia que te cahiram os dentes postiços e que começas, n'esta nova situação, a comprehender que o bem e o mal é tudo a mesma coisa. Talvez a gente não possa fazer o bem senão a si mesmo...--Mas então--e crispa a mão sobre o broche--talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de destruir. O mal é que eu sinto. Para o mal é que eu fui creada!--E sua d'aflição toda a tinta que lá tem dentro, quando outra D. Leocadia irrompe da carcassa da D. Leocadia:--Pergunto-te se o que tu não consegues é prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho humano, se esse orgulho sobrehumano, não é um mal maior, e essa piedade que sentes não é por ti que a sentes.--E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa não me serviu melhor que a tua verdade amarga.--Pergunto-te a ti--e sacode-a--se não é isto que eu sinto cá de dentro, do fundo dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira com que cohabitavas. Nunca conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu devêr. Logo que te puz a ti e a ella na mesma situação de egualdade já não pudeste cumprir o teu devêr.
D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre humilhado. O bem constrange. O que tu chamas a piedade, e o bem põe quem o recebe na situação de te morder as mãos. E continuar a fazer o bem é elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que em mim há de melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse--eu é que te fazia o bem, para tu veres o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocadia, porque o mal põe-me ao teu nivel, e o bem acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado ainda. Degrada-o. Põe-no na tua dependencia e na dependencia da desgraça. Cria uma superioridade, a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido se não reajo em odio.--Mas então...--e a D. Leocadia atira-se com desespero á outra D. Leocadia, e interrompe-a, primeiro com mudez, depois com gritos:--Ia parar a uma viella!--Avança e repete mais alto:--Ir parar a uma viella é o que há de peor no mundo!--E a outra torna com escarneo e diz-lhe ao ouvido não sei que segredo temeroso--e a D. Leocadia torce-se com pavor mas sustenta:--É o que há de peor no mundo! é o que há de peor no mundo!--E com dôr, com angustia, com desespero, pergunta a si propria (a outra teima e não a larga):--É o que há de peor no mundo!?--Eu não sei se é o que há de peor no mundo, não sei se reduzir uma creatura, a trapo é o que há de peor no mundo. A tua piedade amesquinha-me. O que eu reclamo é o meu logar na vida e o meu quinhão de desgraça. Não m'o tires! Mas ella é d'aço. Não transige e protesta:
--Matei-lhe a fome.
--Mataste-lhe a fome mas não podeste amal-a.
--Nem posso! nem posso! nem posso!
E encara-se mais atonita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem desviar o olhar.
A VELHA E OS LADRÕES
3 de março
Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas n'um muro, que se aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se aos pés da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada, a menos que nada, á sombra da dôr. Por fim erguem-se, mergulham e dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladrões e as sombras das mulheres, a quem não distingo as feições... Eu já vi isto algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E não é só medo, é dôr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes sombras levam, não sei para que destino, as outras enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez... Caminham sem se lhes ouvir os passos á beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.
E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala nos buracos poidos das pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas e indistintas--ameaças, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: só se lhe ouve um anh... anh... de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o côro inutil da agua corre sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.
Uma voz, a do velho ladrão compadecido, diz-lhe baixinho:
--A tua filha... Se teimas levantas a desgraça a teus pés.
E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prégar o mesmo presagio de dôr no chape que chape onde se percebem échos de todas as desgraças que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas que se choraram no mundo.
Outra vóz no escuro:
--Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas mãos.--E pergunta-lhe:--Tu és ou não uma coisa que me pertence? Posso matar-te?--Podes--E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:--E ou... Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh... anh...--cançasso ou dôr)--Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges? Tu que dizes? A velha é rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede mais nada. Eu cá é que executo.
E lança a dois metros um jacto de saliva.
A Joanna recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.
--Tu hás-de abrir-nos por força a porta!
--Estafermo! estafermo!
--Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a mão ao gasganete e não dá pio. Aperto no escuro--eeeh...--e sinto no escuro um estremeção e mais nada...
--Jesus!...
--Ó pandorca! És um trapo! és peor que um trapo!...
--Deixem a velhota sósinha comigo, que nós dois entendemo-nos--intervem o ladrão mais velho. E leva-a suspensa pelo braço como quem leva uma pluma.
Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre a velha e o ladrão de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os sempre as outras sombras temerosas.
--Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e deitam-te fóra. Só te deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos. E tu apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...
--Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...
--Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu tempo!...--E aperta-lhe o braço contra o peito, leva no ar aquelle molho de ossos e ri-se com escarneo.--Tu lavas, tu esfregas, tu comes os restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca a aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.--Abraça-a. Vomita uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra, vem do boqueirão da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove: parece que toda a lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a cahir. A Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada, sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite é pó de desgraça, cada vez mais moído e mais negro.
--Não te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come pão. Ao menos lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...
--O que havia de dizer a minha senhora!
--Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha nunca mais a vês.
O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham, e aquella sombra humilde cada vêz mais pequena, reduzida á sombra da sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraça, contra as injurias e as vozes do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas pedras dura, sempre nas mesmas ameaças, que vem do fundo da agua e a Joanna não ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um pedaço de ferro gasto e poido.
Outra vóz na noite:
--Mãe!
A vida d'essa mão de rachar lenha, d'essa mão de arvore e dôr! Como ella se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitação instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mão abre-se e deixa cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prégar, a correr e a falar ás pedras e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis, ao lado da vida sem destino.
Chegam emfim á muralha do predio, e outra vêz as sombras se juntam n'uma unica sombra, outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:
--Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!
E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as vozes roucas reclamam:
--A porta... Depressa! depressa!
--A chave perdia.
Um repelão e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez mais longe e cada vêz mais alto...
Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o sonho. Lá vae a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a louça, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado, a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma creatura agarrada á ideia do sacrificio.--Anda para deante.--Estupida! estupida!--A bondade entranhou-se-lhe até ao amago. Tudo está nos seus logares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que ella não sabe exprimir, que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado. Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo recomeça logo. Há não sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as lagrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não sei quê que reclama dôr. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça trôpega e ridicula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se estorcega. A desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a dôr se concentra, quando a dôr se torce como quem torce um farrapo e a velha não pode--a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais fundo...
Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:
--Acuso! acuso! acuso!
--Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a penna do quico partida: é uma figura feita com tres traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram--quer retomar a forma primitiva. Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada vez maior, para prégar, para açular, para vomitar injurias. Sómente não emite outro som senão este:--Acuso!--a velha gasta, a velha inutil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
--Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
--Minha senhora...
--Acuso!
--...para o que se vive n'este mundo não paga a pena ruindades.
Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira virgindade--teve duas--metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diaphanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir ao chão.
--Acuso! acuso! acuso! De repelão--mete para dentro! uma vergonha mete p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome--mete tudo p'r'o sacco! Para um sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, senão matavam-me á fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão matavam-me á fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha, de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho que nunca pude vêr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este filho que criei d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora! Este filho que tinha sonhado ás escondidas, com a bocca tapada para não gritar: Tenho um filho, tambem tenho um filho!--vi-o! vi-o! vi-o! Meti tudo p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me ficava livre para sonhar com elle, para o vêr rico, para o vêr como os filhos das outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta que é um poço sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe vale--mete a viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que está no prégo e o que está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete a viola no saco!--E n'um crescendo de desespero:--Acuso! acuso! acuso!
Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não suporta o pezo. É como se pela primeira vez désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para ella mudou de expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de expressão. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o ranger dos gorgomilos.
A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes, á secca realidade. Um ulular de tempestade, e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou em mais serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sêr abjecto, que, como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, não tem fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções pela vida fóra.
É como se tivessem metido a dôr dentro de um saco e déssem com elle pelas paredes.
Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e não os perde nem transige. Não a larga tambem o sonho. Agora é que ella destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a louça. Agora é que ella ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa feita trapo e horrôr.
--Para que é que vocemecê me creou?
Um soluço, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz que não suporta o pezo.
--Antes vocemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!
--Anh!...
--Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!
É um sêr diferente, um sêr aparte, que a Joanna vê pela primeira vez. Como pôde creal-o aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que não se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:--Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!--Juntem a isto o escarneo e todas as vózes que lhe prégam:--Estupida! estupida! Toda a gente se ri de ti!--Andou nas mãos dos ladrões.--Rouba! rouba!...--E sente ainda nas mãos um pedaço de ferro gasto e poido como o aço, que entranha na pelle. Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem a isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir uma porta; quer levantar a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridiculo sobre ridiculo.
Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á força de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dôr. E aquillo persegue-a, encarniça-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura que a não larga, e o contacto feroz que não explica e a que sente o pezo.--Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!--Atormenta-a, sufoca-a, e como não pode mais, como não comprehende--não consegue--e como aquillo se encarniça, a Joanna mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só dôr...
Tem as mãos como cepos.
DIALOGO DOS MORTOS
12 de março
Há em mim varias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportavel. Mas agora não: agora põem-se a falar ao mesmo tempo.
Sintiste-o avançar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu pensamento disforme avançar mais um passo no silencio? É porventura possivel que o que se passa no mais recondito do teu sêr, alguem o presinta e o ouça avançar no silencio?
Perpetuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo--a cóva. Eu e o outro--eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir, e de que sahimos ambos esfarrapados, á espera que recomece--agora, logo, d'aqui a bocado--porque só essa lucta me interessa até ao amago... Estou prompto!
Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes do globo postas umas em cima das outras.
Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...
Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o posso deter. É como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a caminho. Todos os phantasmas se dissolviam á luz da madrugada. Agora estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo baixinho se na verdade eu não desejo que avancem um passo--e outro passo ainda...
Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dôr.
Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade--porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem vibração, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouçado entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte--está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer--já eu o disse a mim proprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.
Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;--tu queres fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, á custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora não. Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancôres, com resquicios d'oiro á mistura. O que pode fazer é dominal-os. Mas sae sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:--Valeu a pena? valeu a pena?--Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo, elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sêr. Ficou diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.
Há entre as figuras que compõem o meu sêr, duas encarniçadas uma contra a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra capaz de todas as audacias. Há uma prompta para todos os rasgos e outra que a observa e comenta.
Mas há entre as figuras que compõem o meu sêr, uma que está calada. É a peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça.--Por muito que me accuses, já eu me tenho accusado muito mais!
Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dôr e de espanto onde encontro emfim a vida!
Se te quizesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e que te pertenço.