Part 8
Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo, a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo que metade d'isto--metade pelo menos--é representado. Se te confessasses dirias:--Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira--a outra vida é monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e seculos--mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo--e a mentira. Tudo--e o habito. Tudo--e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia. Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e terriveis--terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas--mania e desespero.
Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas, afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão. Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia--um impulso--um habito. É isto que constitue o meu ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na paixão, no amor ou no odio,--porque aos sentimentos tambem é preciso desenterral-os--e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.
E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com orgulho, a insignificancia com desespero.
21 de fevereiro
Aqui está a villa toda--mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua. Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas e que atinge o desespero:--Não grites, D. Leocadia, não grites. Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.--Tirei-o á bocca para a manter...--Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...--Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia, 29-3.^o-D.?--Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...--Que exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?--Não grites...--Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?!--Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este balanço...
--Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?--Oh D. Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio, uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo--como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema--todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.
Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.
DEUS
25 de fevereiro
Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um sacco. Todos os dias arranquei de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei tudo para ficar só comtigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida eterna. Tinha o horrôr da lepra, vivi com os leprosos. Calquei todas as afeições inuteis, e se uma andorinha me fizesse ninho na banca, como ao frade d'Assis, torcia-lhe o pescoço. Encheste-me a vida toda.
E agora a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão!
Tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra, como uma primavéra escorre morte, a irromper contra tudo e apezar de tudo, d'uma profundidade cada vez mais sofrega e cada vez maior. Não quero vêr e hei-de por força vêr!
Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu sêr, não existe! Tinha conseguido só te vêr a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vacuo. E este Deus por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida, não existe! Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio em espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu não existias! Vivi fóra de mim mesmo e de repente tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi inutil! tudo o que fiz foi inutil! Foi grotesco e inutil!
Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vacuo. Ofereci-lhe em espectaculo a minha dôr. Mas então que existe? Qual a directriz da minha vida? Qual a ilusão com que hei-de encher isto? E para que hei-de viver? Qual o sonho immenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma força. Deus é uma lei inexhoravel. Mas então tu que podes tudo--tu não podes nada. És uma lei--e hás-de cumprir essa lei. És um destino e não podes dar um passo fóra d'esse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificancia, e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciencia. Sou ilogico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas d'uma força cega e estupida. Não me serves de nada.
Preciso d'um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer. Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne. Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso d'uma inteligencia superior á minha e em comunicação com a minha.
Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas suplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos--destróe; não sente a dôr--destróe. Destróe e caminha. É inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo deante d'este espectaculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração não cabe aqui: entrevêmos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no inicio de sonho maior, destróe-nos. Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dôr. Deus é cego.
Debalde grito--não há quem me ouça. Debalde sofro--ninguem o detem. Tanto faz viver como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróes--caminhas. Destróes e não sentes. Vens do infinito, e atraz de ti fica um infinito de dôres, uma massa de gritos e de sêres espesinhados. Segues e destróes. Constróes não sei o quê de portentoso com que não posso arcar. D'essa pata monstruosa escorre sempre ternura. Não é indiferente que calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais gritos, mais ternura nas arvores, mais estrellas nos céus. Parece que a dôr é inseparavel da ternura, como a morte é inseparavel da vida.--Até aqui eu tinha uma taboa a que deitar a mão. Até agora tinha um nome--agora não sei como me chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado n'este cahos infinito, n'este repelão desabalado, que me leva sem sentido e sem fim. Eu e a noite--eu e o doido! Até agora supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme que me conduzia e amparava.--Sofras ou não sofras, vaes para a mesma cóva, para o mesmo nada, para o mesmo silencio. Antes o inferno! antes o inferno! Tu que foste desgraçado, ou tu que foste feliz, tu que te descarnaste até á medula e tu que passaste indiferente pela desgraça--vaes para a mesma cóva profunda, inutil, absurda e muda. Antes o inferno, antes a dôr pelos seculos dos seculos a vir, do que a mudez e o horrivel silencio atroz!--Tudo foi indiferente tudo é indiferente ao monstro que passa e esmaga, que não ouve e esmaga, que não vê e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas; indiferentes a tua renuncia, a tua dôr, as tuas lagrimas. Foi indiferente que fosses bom ou mau, que tentasses subir ao topo do calvario. Não existe na realidade nem vida nem morte--não há na realidade senão chimera e dôr--não há na realidade senão este monstro que passa e esmaga, que caminha e esmaga.
Deus é cego! Deus é cego!
Emquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu unico pensamento e só tu me importavas no mundo. Agora não posso, agora não dou comtigo. Agora não te encontro. Agora sou mais pequeno, e maior. Agora meto-me mêdo. Que voz pode echoar e sobresaltar esta solidão infinita, este mundo infinito, onde os gritos se não ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura, dôr, grandeza, se apaga logo e se reduz a zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a minha consciencia já não é a mesma consciencia. Só os meus instinctos se conservam de pé.
Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de impedires o instincto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciencia. Acuso-te de me deixares sósinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um calvario como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a consciencia que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro mundo, a olhar para cima e a clamar no vacuo. Acuso-te de não me deixares atascar á minha vontade em lôdo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.
Estou prompto para tudo. Desde que não há Deus tudo são palavras. Desde que não há outra vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta hora presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive annos a rezar a uma comoda, a falar a uma comoda, a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco! fui grotesco e tu não vias! fui grotesco e tu não ouvias! fui grotesco e tu não existias!
Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me grotesco! sentir que perdi a vida e sou grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado, impotente e grotesco!
Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atraz de mim uma architectura desconforme e destroços que enchem o mundo--por uma palavra e mais nada. Tu não existias!
Mas então--pergunta esta voz colerica--todo o esforço é inutil? todo o sacrificio é inutil? Creaste estas ideias falsas de dôr, de renuncia--e não existes! Um santo viveu sobre uma columna: «Desde que se punha o sol até que amanhecia o dia seguinte, estava de pé na columna com as mãos levantadas ao céo». Oitenta annos de grotesco. Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual onde os demonios fizeram sua habitação!»--Grotesco! grotesco! grotesco! Tu não existias! Que se levantem todos do sepulchro, uns atraz dos outros, que se erga o pó e te grite:--Tu não existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de rastros, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento e ao sarcasmo. Renunciaram á vida, deram-te o espectaculo da sua dôr, a ti que não existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ancia, das profundas da dôr ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os os vivos e os mortos. E por mais esforços que empregue--tu na realidade não existes. Há outra coisa peor que está viva, outra coisa monstruosa que avança dentro de nós e direita a nós e que ninguem pode deter. Tu não existes e eu tenho de caminhar por força, não sei para que estupido destino. Tu não existes e obrigas-me a avançar para um fim grotesco--desmedido e grotesco--que não comprehendo nem abranjo. Tu não existes--e estou nas tuas mãos. Tu não existes e n'este mundo absurdo, onde não encontro quem me condemne e quem me salve, há ainda quem me empurre, quem me arraste e me faça sofrer, uma força cega que trago comigo, que me rodeia e me não larga!--Tens de existir por força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo que creamos. És a unica luz n'esta escuridão cerrada, a unica razão como verdade ou como mentira. Existe aquillo que eu quero que exista, é verdade aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo que eu e os meus mortos transformamos em verdade. A fé é maior que todas as forças desabaladas, mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade de todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter á custa de desespero.
Se não existes é forçoso que exista um dictador moral, que extirpe sem piedade o pecado da terra. Que não ouça os gritos e condemne, que realise o pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas estradas, e cujo poder ignorado e oculto submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve pela mentira, já que a não pôde salvar pela verdade. Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo taboado, e empregue o mesmo esforço, por um sentimento de desespero contra ti que me iludiste. Por mim proprio, para fugir de mim e de ti que não existes! Resisto, teimo. Só vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo. Rasgo-me com gritos. Ó desgraçado, aquillo em que tu crês é mais negro que o negrume!
A mesma força cega nos impele. Queira ou não queira sou levado para um fim que não comprehendo... Cahi nas suas mãos! Outra coisa me envolve a que não sei o nome, outra coisa que espera de mim uma acção que ignoro, outra coisa a quem eu me quero manifestar e que talvez se queira manifestar, sem nos chegarmos a entender. Rodeia-me. Sinto-a. Há occasiões em que me toca. Ouço-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me. Há momentos em que me iludo, para fingir que estou sósinho. Há momentos em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos--tenho medo que me fale! Só ella vive no mundo, só ella anda á tôa no mundo! Debalde apélo para mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou nas suas mãos! estou nas suas mãos! Outra coisa inexplicavel e immensa, temerosa e immensa, anda por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo maior, outra coisa que sua e me escalda até á medula. Procuro esquecer-me--ella aqui está ao pé de mim. Na vida e na morte estou nas suas mãos monstruosas. Sou a consciencia--tu és o impulso. Sou a razão--e não sou nada. Lucto até á morte, finjo até á morte, vou até ao fim dilacerado, escarnecido e iludido.
Estou nas tuas mãos! estou nas tuas mãos!
O DEVER
1 de março
D. Leocadia o dever é um contrato. Um contrato com um ente superior ou um contrato com os outros. Há deveres para com Deus e deveres para com os homens. O contrato com Deus falhou, porque Deus não existe; o contrato com os homens não o cumpro, porque, se me sujeito a respeitar-lhe as clausulas sósinho, expoliam-me. Restam os deveres para comtigo, os deveres perante a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia, eis o fundamento da questão!... Tu tens passado a vida com uma personagem importante, que te julga, te aplaude ou te condemna, e para ella, e só para ella, deste as tuas melhores representações. Para a enganares, enganaste-te, mentiste para lhe mentires. E reduzida a trapo, só desespero e orgulho, atiraste-te aos pés d'essa avantesma que não existe, D. Leocadia--que afinal não existe! Como se consegue edificar uma vida sobre um broche com um sujeito de suissas e uma redoma de vidro com a imagem d'um santo, e intercalar-lhe um drama baseado na ideia do devêr, até ao ponto de se apoderar de ti até ao amago, é que eu não comprehendo e admiro, ó sordida antrópopiteca com uma cuia de retroz! O devêr era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devêr era coçado e hirto e tu cumpriste-o. Foi a razão da tua vida. Azedou-te e sustentou-te. Quando te vencias, vencias-te com orgulho. Deu realidade á tua existencia ephemera. Fôste ao mesmo tempo actor, tablado e publico. Sem esse dialogo entre ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado e pertinaz, articulado ou mudo, que te fez de fél e vinagre, a tua vida não tinha tido directriz. Nas noites solitarias, em que não conseguias aquecer os pés com dois pares de coturnos, aqueceu-te. Deante do frio da pobreza teimaste:--Cumpri sempre o meu devêr.--Deante da sordida velhice, avançaste com autoridade:--Cumpri o meu devêr.--E até deante da imagem pavorosa da morte, exclamaste sem receio:--Cumpri sempre o meu devêr!--E só tu sabes o que é cumprir o devêr dos devêres, o que é tiral-o á bocca para o meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes d'um terceiro andar (29-3.^o-D), desde o principio da vida até ao isolamento da cóva. Cumprir o devêr minucioso e exigir o devêr minucioso. Com elle dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te e gastaste-a, esqueceste a vida e a ti propria te esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha os dentes se queres ao teu proprio phantasma... Com uma palavra e mais nada. Subordinaste a tua vida ao devêr, e o devêr não existe: é um mundo d'orgulho e de escrupulos. Custa a entrar na cachimonia que a côdea que tiraste á bocca para a mantêres, o vestido que cortaste ao teu proprio vestido para a vestires, as noites de discussão interminavel, tu e o devêr--tudo fôsse irrisorio e inutil. Mas foi. O devêr não existe, o mundo construido com alicerces por _omnia seculo_ seculorum_ não existe D. Leocadia. Perdeste a vida e transtornaste a vida atraz d'uma sombra. Restam-te mil annos e um dia, para cumprires, se queres, o teu devêr inutil, o teu devêr atroz, para obedeceres a um phantasma absurdo, a quem dás o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem, atende bem... Chegou o momento em que vaes aparecer deante do universo com as tuas ideias fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre, e, se te obstinas, mesmo no fundo da cóva e com a bocca cheia de pó, hás-de gritar de desespero, quando te compenetrares de que o devêr postiço, o estupido devêr, fede que tresanda. Queiras ou não queiras chegou a ocasião de me rir de mim e de ti com dôr e lagrimas, e de te expôr tal qual és, nua e reles, nua e grotesca... Despe-te D. Leocadia!
Mas a figura verde não cede: traça o chale como quem se fecha com os sete sêlos do Apocalipse e exclama do alto do seu pedestal:--Eu sou de muito bôa familia!
(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura secca e coçada, desagradavel e sêcca, que eu conheço desde que me conheço, sempre a prégar contrariada o seu devêr, sem um dia de descanço e na eterna duvida:--Cumpriria eu afinal o meu devêr?--Vai para a cóva farta de cumprir o seu devêr e ignorando se na realidade cumpriu o seu dever nem para que serve cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devêr que cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo como quem cumpre um destino. Até te digo mais: o que lhe custa a abandonar na hora extrema não é a tua, mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento. Faz-lhe falta. Mais falta do que Deus, essa avantesma de cuia de retroz com quem passou os melhores dias d'uma existencia incerta. É talvez o seu verdadeiro Christo, que continua, mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra as clausulas d'um contrato já rôto. Tem de cumprir o seu devêr não acreditando no seu devêr. A D. Leocadia é uma figura secca e coçada, enorme e secca, vêrde e grotesca, que desvia o olhar da vida, para cumprir, seja como fôr, o devêr estupido, o devêr atroz. Tenho vontade de chorar)...
Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa, com o cabelo cortado como um recruta. Deitou-lhe a mão e fechou-se com ella por dentro. As paredes tomadas de frio salitroso, transiram de frio sepulchral. Quando se atreveu a rir, cortou-lhe logo o riso cerce--para não se tornar a rir, ao primeiro assômo de vontade, cortou-lhe logo a vontade rente--para não tornar a ter vontade; e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite á sua cabeceira, hirta e solemne como o devêr. Um pobre não tem vontade, um pobre não tem orgulho. Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o seu devêr. Veio ao mundo para sêr obediente. Pobres educam-se como pobres e ricos educam-se como ricos.