Humus

Part 6

Chapter 64,097 wordsPublic domain

O que existe então é isto--é um ulular de dôr na noite--no turbilhão, no escuro. O que existe são gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta mistificação. Por traz de mim há uma coisa que me apavora, por traz de mim há uma coisa cada vêz mais sofrega, cada vêz mais phrenetica--e que de cada vêz exige mais dôr. Espera: a harmonia não existe--existe a dôr; a belleza não existe--existe a dôr; Deus não existe--existe a dôr. E há um momento apenas para realisar a vida. Nesse momento de paixão todas as forças se concentram e ponho o pé no mysterio. Tenho de aproveital-o.

Tudo o que exista na noite immensa, na noite ignobil, é peor que Deus. Tudo o que existe me faz horrôr, tudo o que existe entre as forças desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que proteste, estou aqui diante do incomprehensivel, vivo no nada, de pé na voragem. E para lá há uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida infinita. É immenso--é inutil. Sou menos que nada. Só deparo na minha frente com infinito sobre infinito, com o negrume sufocado, com o negrume impassivel, com o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso. Só contei comtigo meu Deus--e agora quero crêr e não posso crêr. Estou aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastidão infinita. Tudo o que disse--disse-o deante do vacuo, tudo o que sofri--sofri-o deante do vacuo. Todo o meu desespero, a minha dôr, a renuncia, os esforços, o calvario deante do vacuo!»

O maior drama é o das consciencias. O maior drama é arredar todos os trapos da vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é ficar só com o vacuo e em frente do espanto, É dizer: nada disto existe. Só dou no meio d'este assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O maior drama é não encontrar razão para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos--e ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os esforços e fazer todos os dias o mesmo esforço. E isto não nos larga. Sacode-nos e abala-nos até á raiz, n'uma discussão que nunca cessa. Nem em mim, nem em ti, D. Leocadia. Essa figura tremenda insiste cada vez mais alto, cada vez mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a diante de ti, ao pé de ti, dentro de ti, mais coçada e mais verde, com outra camada de sonho e outra camada de verde?

--O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.

--Mantive-a para cumprir o meu dever.

Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens tu a tua consciencia, e aqui está a consciencia da D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio em frente da consciencia, como o ridiculo em frente da consciencia.--Valeu a pena não matar?--pergunto--perguntas--perguntam. Aqui estou em frente d'isto, com um segundo e todo o seu esplendôr e todo o seu espanto e todo o seu desespero, e pergunto, perguntas, perguntam, se o que se chama a honra e o que se chama a consciencia e o que se chama o dever, teem forças para se me impôr. Oh palavras não! A pergunta não é como as outras para ser iludida com subterfugios. É a unica que carece de resposta imediata como um punhal que vae direito ao coração. Vê tu que, apezar de tremulo, estou calmo... O problema é capital. Pergunto se toda a lucta foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inutil? Pergunto, perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma estupida mistificação. E as boccas remoem em secco no escuro, e as mãos sofregas palpam os vestidos de ceremonia. Estão decididas a tudo. Vem-lhes á supuração o antigo fél e vinagre, os pequenos desesperos, e os grandes desesperos. Tudo está vivo. Cada sêr formula uma interrogação. Segue-se que se os paes teimam em viver, transtornam todos os planos, todas as regras e todos os preconceitos estabelecidos. Segue-se que acima de teu direito está o meu direito. Segue-se que a construcção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem creaturas novas. Segue-se que todos os problemas se reduzem a um só problema--o dos mortos. Segue-se que o muro é uma insignificancia. Tapa o céo e a terra, não existe montanha de tanta espessura--é uma teia d'aranha. Sôa a hora da outra coisa disforme o aluir para sempre. Por traz do muro é que está a paixão, o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.

É preciso deital-o abaixo. Os tumulos estão gastos d'um lado pelos passos dos vivos e do outro pelo esforço dos mortos.

FEVEREIRO

1 de fevereiro

Chega fevereiro. Primavera. Dá logo rebate o tojo bravio. A aspereza é a primeira a sentil-a.

O tempo está funebre. Ouço o ruido calamitoso das aguas. Só os botões dos salgueiros estalaram. Nos galhos despidos entreabrem-se flocos friorentos e pelludos.

Corre um vento glacial e as arvores encolheram-se transidas. Mas n'esta frialdade sinto já ternura.

O ar de fevereiro é outro: é morno. As rãs, de barriga no lôdo, coaxam de satisfação, pegajosas e molles como a herva verde e humida. E, d'um dia para o outro, crescem á tona da poça azul, encastoada na terra negra, fios d'herva a reluzir. Tinta entornada.

O ar sabe bem: sabe a bravio.

Ao longe o sol trespassa os montes. Manhã de nevoa e oiro gelado. Uma arvore nova cobre-se entontecida da primeira flôr. Apressou-se, enganou-se... É uma haste de pele luzidia, tres raminhos abertos no azul. E isto envolto em ternura, tanto faz que se trate d'uma arvore como d'uma rapariga.

Sente-se n'esta atmosphera humida a seiva inchar os botões tumidos das arvores. Volta a chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitações.

Muda o scenario. Acinzentam-se os montes por onde sobem arrasto pelas pedras rôlos de fumarada. Acastelam-se no céo as grandes nuvens esponjosas. Chove. A voz é outra. D'onde a onde descerra-se a cortina vaporosa e emergem os montes brutos e compactos.

Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros botões. E quanto mais bravos, mais flôr deitam. É uma prodigalidade.

Noite. A escuridão, o silencio, o esplendido céo todo d'oiro sobre a massa negra dos montes. É isto e os gritos da moichela aos ais d'aflição. Eis torna o silencio, e a alma sufoca de espanto... O pio triste dos sapos irrompe de profundidades ignotas. E outra vez o silencio, a noite imutavel cheiinha de estrellas--e sempre o mesmo fio d'agua, misturando ternura a este espectaculo d'assombro. É só isto, e a muralha disforme ao fundo, ainda palida de luz.

A primavera é um phenomeno electrico.

Na primeira tentativa da flôr há fealdade e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para o dia uma gôta de tinta como uma gôta de leite. Basta que á nevoa se mistura o sol, para entreabrir, ainda informe. Todos os sêres, antes de se vestir, são abôrtos: teem medo de nascer bellos.

Ás vezes basta um dia. D'um instante para o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...

E isto não é só material. N'este mysterio há certa dôr, certa tontura, há até espanto. É um olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a arvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triumpha sobre a dôr inconsciente.

Entre a arvore, o céo e a terra há um compromisso de ternura.

5 de fevereiro

O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma primeira primavera, mas as flôres, que hoje são ternura eram então espanto--tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta primitiva, não os ouço mas estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.

Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se concentra para a destruir.

A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D. Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz de cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas. Não há sêr que fique indemne. Até que chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido, que nunca sahiu do saguão, que nunca olhou para o céo nem sabe que o céo existe: sente tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados, botou um simulacro de flôr.

Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais fundo, mais fundo ainda--esta primavera que revolve os vivos e os mortos. Todos deitam flôr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o sonho que levaram para a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó. Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os que o sumiram com receio de sonhar. Há-os estonteados...

Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo ah--de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?... Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.

Na frente uma aparencia--a vida está na multidão que nos impele, a vida está nos mortos. Massa atráz de massa, os mortos empurram os vivos. Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas mãos, outras mãos de desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforçam para a luz. O peor era o silencio. O esquecimento é que é a morte definitiva, e por isso o esforço augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para a vida e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a sua ancia é viverem depois que estão no sepulchro. A velha que sahiu da existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os dispostos a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto á dôr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás nossas lagrimas! o que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos sepulchros--onde estremecem--se não desligue da vida que ainda se não tornou visivel! É que não só os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos mandam nos mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao peito como um filho, com medo de o perder. A moça, mesmo na cóva, dá um geitinho tão lindo ao lençól! Este conserva na concha da mão uma moeda de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René reconhece-a mais uma vez por a têr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas para se aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos vulgares--os mais bellos--o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto das mãos, e a restea doirada d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...

Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo ainda. Mesmo morto o que eu não quero é morrer... Primeiro rebate, da primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e deslumbra...

Os mortos é que estam vivos! os mortos é que estam vivos!

A MULHER DA ESFREGA

7 de fevereiro

Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte á mulher da esfrega. Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.

Está aqui a figura--está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo á submissão e á humildade se mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fóra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes que ninguem quer sonhar: servem á Joanna que quando os usa os vira do avêsso.

Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna não tem experiencia nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma filha, nunca fala na filha. Ás vezes pousa em mim os olhos turvos:

--O corpo pede-me terra.

Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os mesmos: secca-os no corpo. O monologo é sempre o mesmo com que enche a vida toda. É sempre a mesma obstinação desconjunctada, como se as palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a persegue o que debalde repele. Seja o que fôr, a Joanna esconde-o muito fundo. Ás vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas trôpegas. É pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de morte. Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel de borôa e os olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê que a não larga.

--A tua filha?...--E nunca fala da filha.

N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro, sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos outros. Não se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.

A ternura é humida.

Não comprehendo este sêr. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou tres idéas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna de unhas roídas, pelles no pescoço e olhos turvos, uma figura disforme. Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortiça d'um lado e se faz sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mãos se lhe deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega se parece com o panno da esfrega. Não sei explicar o resto. Com este molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiosinho d'oiro a reluzir, um fio que teima em aparecer á tona e em se misturar a agua de lavar a louça. Annos, velhice, desgraça--e teima. Teima até ao caixão. Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sofrega, o rodilhão do universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um sôpro. Resiste a tudo, esse pó necessario como o polen á aza para voar. Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se gasta e desgasta--não o usam.

Tenho passado noites em debate com este sêr absurdo. Acabo pelo desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada. Sacudo-a--deita sempre a mesma agua. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A vida é uma mistificação. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me com uma vida humilde de desgraça e lagrimas. E outra coisa exprime a figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso, uma força immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar--para gritos. Impelem-na--impele. Debalde a dôr sua, a Joanna caminha molhada e tropega, mas caminha. É inutil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda porque é muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce, enrodilha-se-lhe. Sua. Só geme:--Anh...--Resiste á desgraça, resiste á vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraça. Nem toda a agua de lavar a louça suprime este facto.

O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que não comprehendo, de mãos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo. Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas estrellas no céo, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no entanto n'esta confusão esplendida só a sua alma comunica com a minha alma. A sua dôr, a sua mentira é que importam á minha vida e á tua vida. Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de ilusão. Mal se fecha abre os olhos atonitos. Não diz palavra. Por fim chora, as lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao pó de sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e poidas--ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanças pobres, de trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.

Há um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma lê-se como atravez d'um vidro. Tudo n'ella será falso excepto a dôr. Não sei, ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre--mas a desgraça sua n'aquelle monologo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido. Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar. Não quer vêr--e há-de por força vêr. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a frente á desgraça. É sonho contra sonho. O que ella não quer é vêr, e só ella sabe o que não quer vêr. Não pode com o pezo desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora á arvore do quintal: mais sonho--mais flôr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. Há-de acabar por lhe extorquir a dôr...

Sua vida é um monologo, que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro, só dôr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está alli ao pé, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquillo de vez para fóra.--A minha filha...--Mas isso não basta! não chega! Mais dôr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a louça. Há-de acabar por falar... Até agora por mais que faça sae-me das mãos ridicula.

--E vae eu disse-lhe...--E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o sonho com desespero.--Anh...--E como n'aquelle caco espesso só há duas ou tres idéas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tresua. Grotesco, grotesco, e desespero n'este grotesco, e dôr n'este manequim desconjunctado, com um chale a esvoaçar e a bocca espremida. Anda aqui um sêr immenso que lucta com um sêr humilde e o amolga até á caricatura. Não pode mais--e ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada sobre um ecran.--Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo do chale, com olhos agudos e tal ar de aflição que parece tonta.--A minha filha...--e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...

--A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...

E para não avançar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dôr: o panno sujo da esfrega está embebido de lagrimas.

--Tenho uma tristeza metida em mim...

A narrativa desconjuncta-se: ganha em dôr e em grotesco. Enche a bocca, perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado é de farça com residuos de lagrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Augmenta as côres de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:

--A sala de vizitas! a sala de vizitas!...--Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha, umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a scena para as velhas se rirem--e tem os olhos arrasados de lagrimas. Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar.--E vae eu disse-lhe...--Reage e começa logo a rir. É um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama--e os chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento--da alta roda... E o sêr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo, com um sorriso á sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa--e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria ridiculas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos--todas estas damas inverosimeis, de rôxo, de amarello e de verde, pariu-as o grotesco com dôr. A Joanna imita as contumelias, olha em roda, e recebe-as pé atraz pé adeante. E já o absurdo augmenta, a dôr augmenta e trasborda, quando outras damas de farça, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de vizitas, engrandecida e transformada na sua bocca n'um salão doirado. É o ponto em que as velhas gosam, sentadas á roda da Joanna, em que a D. Felicidade exclama:--Ai que eu não posso mais! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca.--Estão ali todas. Está a D. Herminia, e com a D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D. Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio, todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago. Está a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.

Já a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d'uma alma espesinhada.--E vae eu disse-lhe...

--Hoje é que ella está que até parece o Taborda!

Na realidade a Joanna é insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:--A esta hora lá está ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...--E os olhos cerraram-se-lhe de extasi, de dôr ou de espanto no sordido buraco.

Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, dá uma grande volta no negrume, alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguem sabe onde a conduzem os passos tropegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um sêr mysterioso, uma questão insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára n'uma ruella, senta-se á porta d'um casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar...--De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.

8 de fevereiro