Humus

Part 5

Chapter 54,157 wordsPublic domain

Escusas de te rir--tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte--medo da minha alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante do que é eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão, põe-me todas as questões que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e a voragem, este mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já não tens razão de ser. Seria mistificação sobre mistificação. Não me atrever agora é absurdo. Porque, consciencia, o que importa é a parte interior--é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa é temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vê que passaste a vida a conter o mal--e o mal fez parte, queiras ou não queiras, da tua vida. O mal é pelo menos metade do teu sêr. Agora sim--agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição. Nenhum temor, nenhum phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força entre forças e mais nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras que me diminuam, nem escrupulos que me contenham...

Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a fél e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos outros: só o que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de obedecer ao impulso...

O SONHO EM MARCHA

20 de janeiro

Eu sou um desconhecido para mim mesmo. Ia para a cóva sem me têr encontrado um momento sós a sós comigo. E é com dôr, é com espanto e dôr, que me reconheço; é com olhos de pasmo e dôr...

Tudo mudou. A sofreguidão que todos os dias da vida--sempre! sempre!--nos empurra e leva; o sentimento da vida ephemera e o horrôr da morte--mais perto! cada vez mais perto!--; esta coisa imponderavel que debalde tento deter--sem nome e a que se chama o tempo--que nos usa, a que não ouço os passos e que caminha inalteravel--tudo desapareceu de vêz. Respiro. E, modificada a ideia do tempo, todas as outras se alteraram profundamente. Os sentimentos não são os mesmos. A vida assenta n'outras bases, a vida fica amarga.

Resta-nos a logica e a consciencia. Mas a consciencia admito-a, comtanto que não me embarace. A consciencia que quizeres, comtanto que não me amesquinhe, ou não me iluda. O unico juiz sou eu. O fim da minha vida não é dominar-me, é dominar-te.

Todos temos de matar, todos temos de destruir, todos temos de deitar abaixo.

A paciencia acabou, a resignação acabou--e acabou a morte. Suprimida esta ideia, suprimido tambem o tempo e o espaço, as velhas não existem; o que está vivo é a ferocidade, a paciencia e a mentira--e tudo espera a ocasião. Espera e desespera. A parte de dentro é que está viva e reclama de pé e de ferro a sua vêz. Notem: nenhuma arriscou um gesto mais brusco. Por mais fél que lhes venha á bocca estão habituadas a engulil-o. Nem com a cabeça tapada se atreveram a olhar a verdade. P'ra dentro! sempre p'ra dentro! E assim succede que não se construiu nunca cathedral com alicerces mais fundos. Está viva. Uma sustentou-se de côdeas, outra sustentou-se de fome. A inveja tambem sustenta, o fél tambem sustenta. Á Araujo só a paciencia e o calculo lhe permitiram viver. Ás vezes tem fome--nunca disse a ninguem que tinha fome. Sabe logo quando entra n'uma casa as palavras que agradam á velha rancorosa e á filha cheia de pretenções a quem ensina as escalas; de quem há-de dizer mal esta semana e bem para a que entra. Esperou como a aranha espera com o estomago vasio. Nunca pediu esmola. Melhor: conseguiu dar-se ao respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo que a magestosa Theodora pode durar. A D. Penaricia é abjecta, mas só a abjecção lhe tem permitido viver. A mentira tem razão de ser--sem abjecção a sociedade repele-nos. Admitimos alguma abjecção, não completa e total, que repugna, mas a precisa para servir de realce e moldura ao nosso quadro. Acresce a isto que teve de viver com despreocupação, de sorrir com despreocupação, de mentir com despreocupação--com a miseria atraz de si.

Com fél constróe-se uma vida--o fél dá certa solidez. O peor é meter logo para dentro toda a inveja que lhe vem á bocca. Peor ainda: na velhice misturou-se tristeza ao fél. Não só a D. Penaricia tem inveja, não só a D. Penaricia odeia, mas a D. Penaricia chega ao ponto em que percebe a inutilidade do fél. A Theodora pode aniquilal-a de um gesto. Fél e vinagre--mais fél e tristeza. É um vasto campo de destroços de que desvia o olhar. Foi-lhe então inutil o fél? Se não fosse o fél já tinha morrido. Quando passou fome, quando deu dinheiro ao homem para o jogo, quando perdeu na bisca para a Theodora ganhar e sorrir, o que a sustentou foi o fél. Quando vestiu a filha e a passeou no jardim, com trapos como os outros trapos, o que a sustentou foi o fél. Juntem a isto coisas inverosimeis que se lhes pegam e as reclamam, velhas coisas esquecidas, velhos sapatos d'ourelo, desaparecidos para sempre nas profundidades do nada; velhos habitos, costumes aferrados, miserias chronicas, adquiridas pela vida fóra e que erguem a voz, cabelos postiços, sentimentos postiços, gritos, e o exaspero de quem não pode berrar:--O que eu quero é gosar! o que eu quero é encher-me!--o que representa ainda mais fél e tristeza, mais fél e vinagre. Alli estão frente a frente, e pergunto se estas velhas que passaram a vida á espera d'uma herança não teem direitos. Pergunto se é possivel que a magestosa Theodora continue a viver mil annos e a impôr-se, a mandar, de quico na cabeça e com o cofre atraz de si, e as outras agarradas á meza do jogo e á espera da morte. Pergunto se ter inveja não é sofrer, se ter paciencia não é sofrer. Há que tempos que cada uma d'ellas só pensa em matal-a e arreda a ideia com medo ao inferno. A teia aperta-se. Mais um momento e a teia torna-se visivel. A magestosa Theodora não pode escapar. Todos os dias se tecem fios que a envolvem, todos os dias aquellas vontades actuam, todos os dias o sonho constróe. Sufoca. Formou-se um sêr que tem vida propria, uma atmosphera, uma alma commum, de que fazem parte todas aquellas almas. A magestosa Theodora pertence-lhes. Hoje a Adelia cravou de repente a agulha sobre a meza, e a magestosa Theodora desatou de subito, aos ais, aos ais, como se visse alli lavrada a sua sentença de morte. Todas as phisionomias mudaram alteradas e profundas, subindo á tona das profundidades do universo ou de poços mais profundos ainda. Agora o sonho não é um segundo, o sonho vae ser a vida.

--Está certo o senhor? Está certo o senhor padre Ananias, que depois d'esta vida há ainda outra vida de que nos têem falado? Ou há só esta vida? só esta?! E isto é uma _comidela_?

O que ellas estavam era sepultadas n'um vasto cemiterio do tamanho da villa. Sobre cada velha havia pó, sobre cada interesse pó, sobre cada phisionomia outra phisionomia. Efectivamente a Theodora é uma insignificancia. Só dá leis. O melhor é matal-a. E todos os olhos se cravam nos olhos do padre, todas as velhas mastigam em secco, todas as velhas dão de repente um salto brusco no vacuo.

Ó paciencia que já não és paciencia e trazes veneno na algibeira, com que despeito olhas para traz, para o Hymalaia de inutilidades. Debalde a paciencia tenta dizer ao sonho:--Amanhã--; tenta iludil-o:--Espera...--e a mentira propor-lhe uma transação. O sonho toca na paciencia como quem toca n'um nervo, e quando a Restituta vae mais uma vez dizer-lhe á pressa:--Pois sim...--aperta-lhe o gasganete e pela primeira vez na vida a deixa desorientada... Comediante, vê se aproveitas o excesso da tua dôr para praticares uma nova infamia!

21 de janeiro

A mesma interrogação se formula em todas as almas: quer então dizer que só vivi uma vida ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da existencia com aparencias? Quer então dizer que tudo para que vivi não existe? Ponhamos a questão! ponhamos a questão! A maior conquista do homem, Deus, desapareceu para sempre--desapareceu tambem a morte. Ponhamos a questão: façamos taboa raza. Está tudo em terra, o dever, a honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questão por uma vêz, nitida, clara e sem subterfugios. Ponhamos a questão e todas as questões...

Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco ou explendido, ridiculo ou feroz, á realidade vae um passo desmedido. Interpõe-se um muro... Todos passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos nem dão pela vida. Há sêres que tanto faz estarem vivos como mortos. Outros nunca repararam sequer na sua verdadeira phisionomia (porque até a nossa phisionomia é mais verdadeira que real). Em alguns o murmurio das vozes é tão afastado que não chegam a interpretal-o... Há-os que sahem da lucta esfarrapados, há-os cheios de reticencias e que mal visionam o mar morto indiscriptivel. O que os farrapos custam a largar! o que o muro custa a deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior, o habito reclama-os. Adhere-lhes o infinito e as colicas, a usura e o fél. E sobre tudo isto há a contar tambem com a imbecilidade e a apagada, inepcia. Há a contar com a langonha que tambem tem o seu sonho. Há a contar com o que se arrasta no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos para a lua e para o sonho. Há a contar com as velhas encardidas de habitos e de fistulas. Em sêres amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe ainda um resquicio de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na mesma mimica, e no olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue não sei que de temeroso. Por isso a questão não é facil de resolver. Por isso o Anacleto ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o muro abaixo. Não é o que se pode dizer na praça, porque a praça venera-o. Não é tambem que a ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma lettra. Mas há não sei quê que o contraria e se opõe. Tambem as velhas se deteem, tambem o Santo se detem. Mas a maré que ahi vem sobe sempre. Ao mesmo tempo entontece-os e ao mesmo tempo perturba-os.--Eu não quero vêr! eu não posso vêr!--e tenho de me olhar cara a cara, tenho por força de te admitir, tu que és o meu verdadeiro sêr, immenso e profundo, com raizes em toda a lama e braços que chegam ao céo.--Eu não sei d'onde vem isto, e isto aturde-me. Olha como sorrio para ti, como finjo que sorrio de mim e de ti que te pões a falar. O gesto que eu faço, não me pertence, perturba-me o som da minha voz. E a noite é cada vez mais cerrada...--Ninguem quer achar-se frente a frente com o seu proprio phantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se succede encontrarmo-nos, quedamo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. Um passo está dado, falta dar outro passo. Custa...--Ao que quasi todos se apegam não é a grandes acções, é a simples peripecias. As existencias que se nos afiguram dramaticas são cheias de ninharias, de ideias fixas e de paciencia. O Torres engrandece a mania de copiar inutilidades: d'aqui a dois dias ou d'aqui a dois seculos, ainda o encontras curvado sobre o mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do _Seculo_. Á Araujo que dá lições de piano é desespero inteiriço. O honrado Elias de Mello vê o tratante Elias de Mello pôr-se a caminho e não o pode deter.--Ahi começas tu tambem a perceber que a tua vida foi um mero simulacro, que, a tua bondade for sempre um simulacro, que a tua felicidade não passou d'um simulacro...--A D. Fufia, que há muitos annos está morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer mal, e que, quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a abocanhar todos os ridiculos, todos os orgulhos, todas as vaidades:--O que isto consola!...--Divagam, falam queiram ou não queiram com os proprios phantasmas, monologam, discutem, gritam. A cada passo uma interrogação exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...--D. Leocadia, o meticuloso dever foi a tua vida e agora descobres que o dever não existe, descobres que tudo aquillo para que viveste não existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as palavras não te servem de nada. Descobres que tens d'ir de encontro ás questões e não as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas proprias mãos criaste uma creatura disforme, que alimentaste de mentira. E, a esta luz que te dá de chapa, descobres que a tua caridade e os teus escrupulos eram uma lucta de vaidade e de medo, de palavras e de instincto, onde não entrava uma unica verdade. Descobres que criaste um sêr falso que abominas e te abomina, e que não te podes separar d'esse horrôr. Descubro tambem que errei a vida, e não sei recomeçar a a vida, e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz, mas o outro que me mete medo, e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da Telles de Meirelles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras, ambos subvertemos o mundo--um dia, uma semana, um seculo.--Examinando bem a questão, meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter... Examinando bem a questão reconheces que foram as conveniencias... Has-de arrepender-te até a consumação dos seculos. O mundo vesgo que em mim descubro no outro compartimento, é o mesmo que em ti descobres. Faz esgares como certos rictos indecisos que se formam á tona dos pantanos. Todos sentimos atraz de nós um mundo, outro mundo, outro mundo de ninharias, de palavras sem nexo, de coisas que perderam a expressão, de apetites que nunca se realisaram--todos cobrimos isto de aparencias. Passamos a vida a conter outro sêr--outra coisa--outro espanto. Há um fio invisivel que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que ninguem rompia. Até a colera e o desespero mantinham certo verniz. E agora descobrimos todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias, ó impoluto Melias--com risca e vinco, com vinco e risca--que resolver matal-a é facil, mas para a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura. Deixamol-a morrer ou não a deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir a resposta. A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e pela bocca do Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o depois de amolgado. Outro sêr, n'um estonteamento, bate com a cabeça pelas paredes.--Mas então?... pergunta atonito.--Mas então posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma mistificação? Mas então tudo é possivel e posso realisal-o ámanhã, hoje, logo? E estas teias de ferro eram teias d'aranha?... Mas então o medo, a morte, o inferno...--Aqui estou eu com esta mulher a meu lado, e sem querer pergunto a mim mesmo...--Mas então?...--Sim, resta-me certa pena e saudade, mas o interesse levanta a cabeça e deita as suas contas tão baixinho que mal lhe ouço fazel-as...--Teçamos, teçamos todos a nossa teia esplendida, vulgar ou grotesca..:--Mas então...--E encaro com um mundo novo, a que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita. Só as interrogações são cada vez maiores em todas as almas. Todos os bonecos arreganham os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente não se comprehende para que vivem certos sêres inuteis, que atravancam a nossa existencia e um pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente não se explica que bastem alguns fios imateriaes para nos conterem, e que um vidro de vidraça seja suficiente para nos separar da vida.

Até a D. Restituta que era um poço sem fundo, desata a repetir os segredos de toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guardasol de panninho.

--Acuso! acuso! acuso!

Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que sim. Hoje uma gota de fél, ámanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer senão que sim, já não consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram. Coçada, coçada, coçada. Fez as vontades á D. Procopia, á D. Felizarda, á D. Herminia. Sujeitou-se ás vontades do conselheiro Pimenta, quando por desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe, que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera, ninguem concebe que a Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é um reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. Há familias separadas por odios seculares: só ella entra e sae n'essas casas quando precisam communicar. Naquella alma incutiu-se até profundidades desconhecidas o respeito ás pessoas ricas, a consideração ás pessoas importantes. Que tem a Restituta que desata aos gritos:

--Acuso! acuso! acuso!

Debalde lhe tapam a bocca. É um vomito, um chorrilho de palavras precipitadas--a vida de toda a gente--são os despejos entornados. Em vão dez, vinte mãos anciosas se lhe agarram ás guellas abertas: aquillo sae n'um jôrro impetuoso--tudo quanto estava recalcado, todos os segredos que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram para dentro, e, se pára um momento, é para tresvariar n'um riso feito de todos os risos postiços, n'um esgare feito de todos os mil e um esgares que acumulou durante a vida:--Eu tambem tenho um filho! eu tambem tenho um filho como voces!--Impurram-na, escorraçam-na, e ella agarrada ao guarda-chuva ainda brada:

--Acuso!

A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactus, nascidas d'um dia para o outro, com escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris. Arredei sempre isto--isto que estava ao lado da vida. Nunca quiz vêr isto, fingi sempre que isto não existia. Tambem tu o arredaste... E isto existe. E isto é enorme. O que ahi está fede. Tresanda. Sua viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa e desordenada. É a Vida. São todas as ancias soterradas que se não chegaram a exprimir. É um inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis de sonhar, aquecidos a bafo e ternura, sem forma nem côr, ou admiraveis sonhos de tragedia. Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e sepultado, toda a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto, toda a mistella que lucta ás cegas na escuridão para vir á superficie, desata a falar á tôa. Mais um passo e o sonho é realidade. Fala a infamia e o grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.

23 de janeiro

Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe o orgulho intacto. Debalde préga, debalde lucta comsigo mesmo.--Eu já não creio no inferno.--E detem-se com espanto deante dos destroços, das formulas, da insignificancia, dos simulacros que foram a razão da sua vida. Tudo que lhe enchia o mundo não existe, tudo que não existia lhe parece maior:--Eu quero crêr! eu quero crêr e não posso crêr!--Debalde insiste comsigo mesmo:--Nossa vida aqui é nada, nossa vida eterna é tudo. Nosso destino é a morte. Só assim posso explicar o universo, só assim posso comprehender o universo.--Tudo o que se tinha apoderado do seu sêr até ás mais intimas raizes, tudo o despedaça até ás mais reconditas raizes. Dilacera-o.--Não me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a olhar o pelago desordenado. Eu quero vêr e não ouso! Eu quero crêr e sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto! D'esta coisa monstruosa que não posso arredar. Não posso arredal-a.--Para ti tambem o problema é insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido coçado, mais secca e mais verde. Estaes ambos encalacrados.--Tu viveste sempre para Deus e para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre segundo a tua consciencia, regulaste tudo conforme a tua consciencia--e tu e tu--e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos e verdes, desesperados e verdes, sós a sós em frente d'uma figura que vos não larga.

--Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude vêr, diz ella--Deste-lhe codeas mas não podeste amal-a. Sustentaste-a por caridade, sustentaste-a de restos para calares uma voz tremenda. Ella foi peor que uma creada, foi uma creada que se não pode despedir, presa pela gratidão--observa a outra D. Leocadia--Fala claro, fala alto. Atreve-te.--Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrificio de a manter, toda a minha vida por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna, amachucada e sem vontade, para cumprir perante Deus o meu dever. E agora a consciencia exige de mim?...--Exige.--Exige de mim, porque o meu filho lhe fez um filho, que o case com a orphã, sustentada de esmolas, calada e viscosa?--Exige.--Por quem eu só sinto repulsão?--Exige, e o peor de tudo é que lhe deste restos, mas não podeste amal-a.

Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo outra camada de sonho. A D. Leocadia coçada e secca sacode em vão e arreda outra D. Leocadia inteiriça e coçada. Tambem o Santo está aqui, só e o pecado, só e Deus, só e o desespero: «Deus existe--ou Deus não existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus existe e se interessa pela minha dôr, esta vida transitoria é um unico minuto com a eternidade á minha espera. Tudo me parece facil. Que exige o meu Deus? Que me reduza a pó e despreze a aparencia? Tudo é vão deante da eternidade que me espera. O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus exista, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão futil, que reclamo mais dôr, mais sofrimento, mais fome. Que a desgraça caia sobre mim com todo o peso da desgraça; que a dôr me descarne até á medula. Despreso a dôr. Exijo-a deante da eternidade. Sou capaz do andar de rastro com a bocca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a certeza de que me livro d'uma eternidade d'angustias para vêr Deus. Venham todos os escarneos, todos os gritos, todos os suores da agonia--venha meu Deus a cruz! Até á morte hei-de crêr no que creio. Sem crêr não sou nada--sem crêr não existo--sem crêr não comprehendo a vida. Preciso de caminhar para um destino. Crêr é uma necessidade absoluta, um sentimento primario, a propria vida, sua razão e seu fim. Tenho necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem elle a vida é desconexa e atroz; peor, é monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse só a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma lei, n'uma logica, n'uma razão de ser, n'um sentido. Eu vejo Deus, eu sinto Deus.

Mas se Deus não existe--se Deus não existe que me fica no mundo? Sou nada no infinito. Fui tudo--e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o acaso na mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus não existe tanto faz gritar como não gritar. Não tenho destino a cumprir: saio do nada para o nada. Nas mãos da força bruta que sou eu no mundo que grito, que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito vivo, há outro infinito vivo. Atraz d'esta impenetrabilidade, há outra camada de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sofrego. Não encontro aqui logar para Deus que me ouça, que me atenda, ou que saiba sequer que existo.

Os gritos são inuteis, tu não me ouves. Estou só n'este absurdo que me impele e esmaga... Que não houvesse o céo, que existisse o inferno só o inferno! E nem o inferno existe!...

Se Deus não existe... O peor de tudo é que eu digo e afirmo,--Deus não existe!--mas na realidade não sei se Deus existe ou não. Não há nada que o prove--ou que prove o contrario. O peor de tudo é que eu sinto uma sombra por traz de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. O peor que podia acontecer no mundo foi alguem pôr esta idéa a caminho. Mas mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o principio da vida e a razão do meu sêr. Mesmo que Deus não exista e a consciencia seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e immensa diante de mim, ao pé de mim, dentro de mim. Vem a noite e com a noite interrogo-me:--Existe?--O que existe é monstruoso. Não ouve os nossos gritos. O que existe é o espanto. O que existe reclama dôr. Sustenta-se de dôr e não dá por ella.