Part 4
Alguns põem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa sombra tragica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre pessoas consideradas, com assento na existencia, e que usam a cabeça como quem usa um resplendôr, o Elias de Mello e o Melias de Mello, sentem um baque que os amolga. Porquê? Elles teem tudo em dia, as contas, os livros, os escrupulos. A praça considera-os, Deus considera-os.--A nossa mãe morre...--E não tiram o lenço dos olhos.--Veneram-na. Mas o respeito pelos paes só resiste emquanto os paes respeitam o interesse dos filhos. Há decerto uma lei moral, mas há sempre por traz uma bocca a prégar. Uivos, gritos, exasperos. É a transformação do grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia que custa a romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida subterranea, o lojista deparando pela primeira vez com uma alma esplendida, e a D. Adelia, de chinó postiço, fechada n'uma gaiola com a verdade, e aos saltos uma á outra.
Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá tens dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava adormecida, acordou. Mete medo. E prégam, açulam-se, avançam direitos aos seus apetites, ao saque, á guerra, á luxuria. Continham-na arames enferrujados, o medo da morte, o habito de crêr em Deus (sabendo bem que Deus já não existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram d'um dia para o outro. Descobrir que não há Deus que alegria! Põe a gente á vontade. Respira-se d'outra maneira. Descobrir que a morte não é inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto. Agora é que eu contemplo a vida--e me perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo e não me posso olhar sem terror. Que é isto, este sonho, esta dôr, esta insignificancia entre forças desabaladas? Onde hei-de pôr os pés? Eu sou a arvore e o céo, faço parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e ridiculo. Não me desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo. Sou ridiculo e construi o mundo. Sonho e acabo reduzido a pó. Sou capaz de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil e não tenho limites--vou de mundo a mundo e de espirito a espirito. Dei alma ás coisas inertes, significação ao universo, vida ao que não existe, luz ás estrellas--e no fim acabo grotesco. Sou nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda no pelago. O que olhava com indiferença mete-me agora medo. Não posso com o mundo transformado, com outros sêres, e onde não me desligo d'uma força cada vez maior e mais desabalada.
Preciso de olhar para mim, sou forçado a olhar para dentro de mim mesmo, a encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavôr. Não me posso comprehender no universo, não entendo esta luz insignificante no negrume gelado, nem esta discussão interminavel no silencio absoluto, nem este ridiculo, nem esta figura mesquinha que representa o mundo. Com que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro e os impulsos tremendos que veem não sei d'onde e caminham desabaladamente para um fim que não distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho medo de mim mesmo! Nunca o acaso pariu nada tão monstruoso e tão grotesco como isto a que se chama a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais abjecto e mais transido--cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. Não me posso olhar nos olhos, com medo de vêr o que nunca vi, em todo o seu horror e em toda a sua nudez. Grito.
Gritos--gritos--gritos ainda sufocados. Ouço-os na noite imperturbavel, na harmonia esplendida, na arvore e na pedra. Mais gritos no turbilhão dos mundos, e atraz desse turbilhão outro maior--e mais gritos ainda. A ternura sou eu que a presto ao absurdo e á dôr. O que fica na realidade são gritos. A harmonia parece immensa porque as coisas não teem bocca para prégar--ou não as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a dôr muda, a dôr intoleravel n'um escantilhão de desespero--de desespero sem significação--de desespero cada vez maior. E sempre outras boccas prégam mais alto na noite que não tem limites, outras boccas que nem sequer existem. Levanta-se a poeira tragica, a poeira que anda espalhada há milhares de annos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura e desgraça, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inutil que foi dôr.
Os maiores dramas passam-se porém no silencio.
23 de dezembro
«Se ella morresse...» Esta ideia ao menor obstaculo, esta ideia a que eu fujo e a que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina até a proposito dos que mais amamos--esta ideia transforma-se logo em acção:--Vou matal-a.
Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta creatura de olhos tristes fitos em mim. Para sempre! Até as coisas mais bellas se transformam em absurdo e me pesam como chumbo. Peza-me a tua amizade, peza-me o teu amôr--para sempre.
A pobreza e a humildade não se toleram para sempre.
A ninharia a poder d'annos e de persistencia impõe-me respeito. A ninharia um seculo, outro seculo, transforma-se em grandeza.
Quanto menos sinto a morte necessaria para mim, mais a julgo necessaria para o outros. É um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar é preciso deital-o abaixo.
Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos mortos, a imporem-me a sua lei... Agora só eu falo e com a minha propria voz.
Agora só eu mando. A vida vou julgal-a com os meus proprios olhos. Vou tomar folego, vou tomar peso á vida. Sei-a de côr e salteado. Sei o que valem os preconceitos, as ilusões e as palavras--sei o que vale o dinheiro. Não torno a ser iludido.
A vida é um combate, que só se vence pela bajulação, pela manha ou pela audacia--todos os meios são bons. Os escrupulos não servem para nada, a convenção tolhe-nos os braços. Meia duzia de regras afiadas bastam. Honestidade a precisa para que confiem em nós--piedade a bastante para que não nos assaltem os cofres. Fóra d'isto logro.
Se tenho forças uso-as.
A vida n'estas bases é talvez monstruosa, mas não posso modifical-as. Aproveito-as. Tiro da vida o que ella me pode dar. Com ilusões podia-se ser pobre--sem ilusões só se pode ser rico.
25 de dezembro
O peor é que se passa no silencio. É a outra coisa que acorda, é a outra coisa desconhecida que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos as mãos para o segurar, mas, no escuro e no silencio, a pressão redobra... Está outra coisa por traz do tabique, outra coisa que eu não quiz vêr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem sei que existes! Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca te deixei discutir comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir a bocca. Há tragedias de que desviava o olhar, fingindo não as vêr. Agora hei-de vel-as por força. Há misterios que não queria debater e agora se me impõem. Há vozes que não queria escutar e que falam mais alto que a minha voz. Há sêres que não queria conhecer e que discutem agora tu cá, tu lá comigo. Tenho de os aceitar. Romperam pelos sepulchros fóra--despedaçaram todas as tampas. E esta intrusão na vida modificou de todo a vida.
Cada um vê doirado. Tem de pôr o problema alli na frente e de o resolver. Tem de ir até ao mais profundo do inferno e até á vacuidade do céo. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e ridiculo, nu e esplendido. Cada um vê por uma fresta a força desabalada, e põe-se a scismar como Dante com a mão ferrada no queixo. Temos todos de resolver o problema. Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, ahi está na nossa frente o mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem subterfugios. Traz flôres como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas e pela lama. É doirado--é feroz. Tem todas as tintas e todas as côres, e sobre isto phrenesi. É humilde, leva comsigo no mesmo impeto ternura, dôr e desespero. Está dorido e vae tão fundo como a propria desgraça. Impele-nos. É a vida e o sonho, é a tragedia--não existe. Não tem nome. Chama-se a vida e a morte. É uma coisa absurda. Mete-me medo e extasia-me.
As velhas já não dizem:--Jogo!--Houve uma coisa que se meteu de permeio. Os passos aproximam-se e o esforço augmenta. Sinto-lhe o bafo monstruoso, sinto-o mais perto de mim e encostado ao meu sêr.
As velhas ouviram passos apressados dentro das proprias almas, o sonho veio á tona, e ficam absortas com as mãos agarradas aos queixos e as boccas espremidas a remoer em secco...
O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da gente que vive á roda d'uma ideia sem atrever a encaral-a.--É preciso matal-a!--São annos e annos, são seculos de inveja paciente, que sobem á superficie: até as figuras de pedra ressumam dôr e desespero. Agora metem-me medo. As velhas somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam phantasmas.
O que se passa em cada casa, dentro de cada sêr, no fundo de cada poço? Ouve-se as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, não dizem o que sentem, mas já caminham segundo o interesse, o odio e o sonho. As resmas de papeladas são inuteis, a lei todos os dias se reduz a zero. A nodoa alastra. E agora é que se vê bem o que cada um trazia dentro de si. Nesta primavera há duas primaveras. Agora é que eu comprehendo que as palavras que se pronunciavam eram rituaes, que os gestos, com seculos de existencia, eram necessarios e significativos. As phrases rançosas das velhas nos dias de enterro, as phrases banaes, eram as unicas capazes de amortecer a dôr; este habito ridiculo de jogar o gamão um opio, como esta historia que a Bacellar conta a si mesmo, com um ar idiota, um principio de sonho. Tanto vale uma tragedia. É preciso fugir á realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam no Gabiru é a sua immensa capacidade de sonho; o que a villa escarnece é o que a villa inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta d'uma meza de jogo e o candieiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas esqueceram a mediocridade da vida--esqueceram tambem a morte. O chale velho a que a D. Leocadia se achega todas as tardes mesmo no pino do verão, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais peso tem: está encharcado de sonho...
PAPEIS DO GABIRU
26 de dezembro
O que me impede de vêr a tragedia da vida, é a ninharia da vida.
A alegria é a luz. A luz suprema é Deus.
Se elle não existe--nós creamol-o.
Cheguei a um ponto da vida em que nem os outros me interessam, nem eu interesso os outros. Não falamos a mesma lingua. Só entendo alguns desgraçados.
Tudo na natureza são fórmas da minha alma. Minha alma passa como uma luz em frente da escuridão. Extincta só resta a treva.
Se não fosse o habito uma arvore matava-me. Não posso olhar o céo sem terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar á vida comesinha.
Para o outro mundo é preciso uma iniciação.
Sinto que cada passo que dou é irremediavel.
Se me perguntassem o que queria ser--queria ser isto mesmo. Assim na eternidade te queria, minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida e os mesmos erros. Não te troco por outra alma.
Não há belleza completa sem uma pontinha de saudade.
A pobreza, a desgraça e a dôr metem-me medo. Mas que prestigio! Ser alimentado pela desgraça dá outra fibra, que só á desgraça pertence. Faz-se parte d'uma legião esplendida.
Há uma porção melhor do nosso sêr, não há negal-o. Luz entre residuos, gritos e instinctos. Se não existe outra vida, pergunto para quê?
Se fosse possivel suprimir a ilusão--morriamos todos á uma. Vivo entre quatro paredes, e entre quatro paredes analizo e commento e construo o universo. Fora d'esse casulo nada existe para mim. Succede, porém, que da parte de fóra é que está o resto...
Se me perguntam o que é a vida--não sei o que é a vida. Sei que me devora--sei que tenho ao pé de mim a morte.
Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.
Sei que tudo são aparencias, com uma unica realidade, a morte. Para morrer não valia a pena viver, para me encher de saudade não valia a pena viver. Só para ser mistificado não valia a pena viver.
A melhor parte da vida--é a saudade da vida.
A que se reduz afinal a tua vida? Algumas ideias mesquinhas--e a uma coisa que não cabe cá dentro.
Sim a vida tem minutos bellos, quando a gente a esquece. E acima de tudo o sonho. O sonho vale a vida.
É nada e menos que nada. Impulso, desconcerto e logica, e no fundo do teu sêr uma ancia superior a tudo, que é a melhor parte do teu sêr. Melhor, que te faz desgraçado. Melhor que teima em querer um universo a seu modo, e que pouco e pouco, apezar de tudo, contra tudo, tem construido o mundo a seu modo. Foi ella que fez Jesus. É ella que te impele para cima, cada vez mais para cima.
Ouço-me viver com terror--e caminho nas pontas dos pés para a morte.
Se a vida futura é um absurdo, esta vida é um absurdo maior. É tudo uma questão de habito. Tanto sonhei comtigo que te construi.
Sou aqui tão necessario como as estrellas do céo. Aqui estou, creatura mesquinha, com a dôr a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar por te dominar. Não há morte que te valha!
Isto é abjecto, ás vezes é grotesco--mas se isto desaparecesse, desaparecia Deus, e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.
30 de dezembro
A vida é tecida como o linho: um fio de dôr, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.
Só dei por ella depois de morta. As horas mais bellas perdi-as a sonhar, quando a vida estava a meu lado. Eu não vivi! eu não vivi!
Agora é que me lembro della, como d'uma tarde que viesse devagarinho na ponta dos pés, e se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas suspensas na luz--nos botões quasi a abrir.
Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.
O dia d'hoje não existe para mim: só penso com sofreguidão no dia d'amanhã. Ora amanhã é a morte. E succede tambem que só dou pelas coisas bellas da vida, depois que passaram por mim, e que as não posso ressuscitar.
Há na vida um unico momento. Um momento que sorri. Que concentra em si todos os momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.
Só agora seus olhos verdes d'espanto me chamam, seus olhos que exprimem o irreal e o mundo todo, seus olhos cheios de dôr represa e de sonho coado por lagrimas...
Agora é que ella está viva! agora é que ella está viva! E tão viva que a confundo com a morte.
ATRAZ DO MURO
10 de janeiro
O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem acção. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpetuo.
Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este e não há outro minuto, que força me póde deter para que eu não realise o meu destino contra ti e contra todos?
Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há ahi capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?--Se ella morresse...--Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.
Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu. Tudo me faz sofrer--mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho é certo duvidas--mas metade das minhas duvidas são postiças. Hei de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.
Eterna contradição de todo o teu sêr. Não sabes o que queres nem como o queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vaes até á cóva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar d'inverno n'um dia de verão.
Está tudo decidido--dizes--está tudo prompto. Só uma coisa me falta: pôr isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.
Desde que este phantasma se pôz a caminho nunca mais consegui detel-o.
Começa por uma idéa que afugento. Começa por um pensamento tenue, por uma simples palavra que afasto.
Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.
Assisto á sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os destroços do meu sêr como um dominador.
Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que há occasiões em que me submeto com alegria. Para ser sincero até ao amago, devo dizer que n'esta dôr, n'este desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto--não quero ser isto. Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a peor parte do meu sêr.
Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma até ás maiores profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura, de que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma é capaz, nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.
Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do nada, me leva, queira ou não queira, para o nada? Na cóva, na podridão, desfeito em pó, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo, d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sêr, que não soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te hão de prégar:--Estupido! estupido!
Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho duvidas. Desde que te vi--vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não tinha vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia--que mais valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que só há uma hora na existencia e que é preciso aproveital-a. Que tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te. Portanto não tenho duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou decidido.
Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa--um fio que não posso cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a vida. Não a minha vida, que não importa--mas o que há de mais extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que aniquilaria Deus.
Há uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar--há uma atmosphera viva que todos nós respeitamos.
Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu existes. És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens mais força. Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras aprendidas, por habilidades... És muito maior do que eu.
Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e são duas ou tres simples, d'instincto e ferocidade. E além d'isso outra coisa immensa--que não existe.
Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?
11 de janeiro
Ponho-me a olhar para ti consciencia, e exijo que me fites nos olhos e que me fales claro. Não entarameles a lingua. Em primeiro logar diz-me o que és e o que significas: medo, receio, uma vóz que se cala se a miseria aperta ou a luxuria levanta a cabeça. Um nada, uma voz tão timida e tão prompta a sumir-se... Incommodas-me é certo, mas não impedes nada. Falas quando devias estar calada, não sabes o teu papel e nunca entras a tempo. Herdei-te: és convenção e egoismo alheio entranhado no meu egoismo, synthetisado em duas ou tres regras para commodidade dos outros. Fazes de mim uma prêsa facil para quem a não tem. És escrupulo, e o escrupulo é, pelo menos, inutil.
Estás em perpetua contradição. Inutilisas-me metade da vida e nunca me pude desfazer de ti. N'esta lucta de todos os dias, quando me julgo livre, é quando te sinto todo o pezo.
Isto é decerto a vida. Mas a vida é tambem o instincto que me diz:--Aproveita, não deixes fugir o unico minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveital-o.
A questão suprema é esta e só esta: Deus existe ou Deus não existe. Se não há Deus, a vida, producto do acaso, é uma mistificação. Aproveitemol-a para satisfazer instinctos e paixões. Se Deus não existe, não há força que me detenha. Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido. Questão logica: pois eu hei-de ir para a cóva, para todo o sempre, para toda a eternidade, sem ter extrahido da vida tudo que ella me possa dar, preso a palavras ou a meras questões de forma? Oh! ponhamos a questão, consciencia: se Deus não existe tu não és senão um estôrvo, meia duzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos emfim a questão com toda a clareza, porque este é o unico problema que me importa e que te importa resolver.
Escusas de encher a bocca com o dever. O dever não me interessa nada. A questão fundamental, a questão que eu debato com todo o meu sêr, e de que me não consigo desligar, é a da morte eterna e a da vida eterna.
Se Deus existe eu sou um homem,--se Deus não existe eu sou outro homem completamente diferente.
Não existindo tu consciencia, o que tu te intrometes na minha vida! E tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás morta--estás viva. Na cóva hei-de chorar inutilmente por te ter obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me de ti, tu impões-te-me. Quando te julgo aniquilada, ahi começas a falar outra vez.
Vens de muito fundo!
Ás vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te. Humilhas-te para logo levantares a cabeça e revolveres o punhal na ferida. Pesas-me como chumbo. És de ferro. Bem tento explicar-te: são os escrupulos que me não deixam trahir, mentir, subir. O que é eficaz não é ter escrupulos, é fingir tel-os. É tudo o que os outros nos pedem.--Mas tu não transiges. Se te abaixas, é para te ergueres de novo, para de novo me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me por toda a parte.
Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!
18 de janeiro
O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia? Quando tudo em mim me prégava que aproveitasse este momento, que deste unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar--alguma coisa me detinha. Eras tu consciencia. E tu não existias! Fale a logica, fale a razão, fale tambem o instincto... A consciencia é sempre religiosa. Mal posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me. Tudo para mim é uma causa de espanto--e atravez d'este espanto presinto ainda um espanto maior. Sinto-me como balouçado n'um sonho immenso. Ando nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo é acaso no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que tu pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia já não é a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr. Rebusco-te. Ás vezes, nos momentos tragicos, já não é comtigo que eu deparo--é com outro sêr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um punhal--e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas verdadeiras proporções--e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me sofrer mesmo quando já comprehendera que não existias. E agora mesmo, quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como um phantasma.