Humus

Part 3

Chapter 34,091 wordsPublic domain

Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei ilusão. Na verdade só existem côres como só existem gritos. Porque não hei-de acabal-o? É talvez uma questão de vontade. Se até para dar o primeiro passo precisamos de crêr, porque não havemos de dar o ultimo passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode não existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vêz este suor frio.

A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em seu poder: faço parte da legião. Noite immensa sem gritos. Peor que sofrer é não sofrer--para sempre. É nunca mais sentir. É ter as orbitas vazias voltadas para o céo e n'ellas não se reflectir a luz das estrellas. Mais um passo e é o silencio absoluto. Mais um passo e tapas-me para sempre a bocca.

Não me importa ser feliz--não me importa ser desgraçado. O que me importa é o que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está por cima da terra.

Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga mais alto:

--Eu não vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o sempre, o mesmo buraco d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde não sae rumôr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é licita, nenhuma transacção é possivel. A morte não espera nem atende. É estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel. É tremenda porque contem em si mistificação ou belleza. Absurdo ou uma belleza com que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não atinge. Se é o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrellas, e outros vagalhões de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado com a mesma indiferença para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a arredamos: a vida não é senão uma constante absorpção na morte. Então para que nasci? Para vêr isto e nunca mais vêr isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e não desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól que não te torno a vêr, e agua que te não torno a vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe dispôz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te. Interrompes os meus calculos. És o maior dos absurdos. Vêr para não vêr, ouvir para não ouvir, viver para morrer!...

E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como á cobra a pelle, a vida comesinha. Se é a vida superior é tambem o meu lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças. Além da alma há outra alma que se apega ás pequenas coisas, á columna d'oiro perfumada que me entra de manhã pela janella--outra alma humilde e pequenina, que se acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia. Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em elles se pondo a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso. Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vaes vêr a côr que toma o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flôres que as arvores criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...

A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atraz de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao fundo do globo. De mais longe vem um impeto--são outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no mundo condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras criam. O peor foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores e as pedras. Não há duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido: o mundo não é o mesmo mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma vida. O que existe é outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa. Põe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado. Põe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como nunca vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos. Põe-se a caminho uma vida que há muito sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou em profundidade. O que existe são gritos, o que existe é o espanto. O peor foi tocar-lhe...

Um remexer de treva, que até agora podémos recalcar, soltou-se da escuridão e pôz-se a caminho. Já não há esforços que a contenham... Um borrão tragico avança--outro borrão informe prepara-se. Os mortos empurram os vivos--desde profundidades desconhecidas...

Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da vida. O rasto que fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi cortada. A morte está aqui d'um lado, está do outro a vida. Tinha raizes enormes: arrancaram-lhas de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão colerico abala o mundo, oiro e negro, esplendido e feroz. Desenraiza tudo. As almas acordam n'um sobresalto, e não há homem que se não ponha á escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas aspirações secretas, das nossas duvidas, dos nossos desesperos. É uma voz--são muitas vozes. É um grito--são muitos gritos.--É o grito contido há milhares d'annos, o grito dos mortos libertos.

A VILLA E O SONHO

18 de dezembro

Em logar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois tons--cinzento e oiro: uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho turva a villa. A primavera toca n'este charco só lôdo e azul: tinge-o e revolve-o. Mas o habito de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam com o espanto e continuam a ir á repartição. Horas na torre. Mais silencio. A morte roda aqui por perto, alguem fala:--Então como passou? passou bem?--O habito tem profundidades de legoa.

A principio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem duvida gostam de viver mais um seculo, mais dois seculos, mas não sabem ainda que emprego hão-de dar á existencia. Não se lhes dava mesmo de morrer com tanto que continuassem a jogar o gamão no infinito. O que lhes custa mais a perder não é a vida, são os habitos. Veem-se e não se reconhecem. Há almas embrionarias, velhos lojistas que olham para si proprios com terrôr. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existencia falsa acabou por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar--há mentiras que teem raizes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma moeda a outra moeda, um dia a outro dia inutil. Sempre... Já na botica dois idiotas recomeçaram com escrupulo uma partida que deve durar cem annos, e o bocal amarello, as moscas mortas estão alli com outro ar. Fixaram-se. Estão alli embirrentas e sordidas para toda a eternidade.

Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro alastra. Vae mexer com o subterraneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil annos, sobresalta o instincto, bole com todas as almas sobrepostas até ao fundo da vida. Transforma, volta a existencia do avesso, deita o muro abaixo. Por ora é só uma idéa, mas sae-nos de cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve todas as raizes que se apoderaram da villa. O sonho cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia que se não atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na paciencia de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia. Certas existencias são formidaveis, outras existencias são como alcovas onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e gesticula um sêr desconhecido. Certas existencias são feitas de odio minusculo, de inveja que sorri--porque nem a inveja se atreve. Certas existencias são crepusculares. Em certas existencias são os mortos que ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulchro. Quasi toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora perguntam-se:--Sou eu? sou eu?

Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A minha vontade era anular-te--e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama, a bocca por se habituar á mentira, a ponto de já não saber discernir o meu sêr, do sêr artificial que criei peça a peça.--Pois sim... pois sim...--Mas atraz disto há outra coisa--há fél; E quando tiro a mascara? Mas eu já não posso tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete chaves: a mentira entranhou-se-me na carne. Este phantasma chegou a ter mais vida que a propria realidade. E aqui andam outros sêres. Eu não sei quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu não sou quem falo. A meu lado, atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas, uma cauda disforme que me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projecção de vida até aos confins dos seculos.

Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a hypocrisia para comnosco, mais dificil de largar que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo do que minto aos outros, finges tanto com a tua alma como com a minha. Primeiro é a hipocrisia que descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouço e desconheço a minha propria voz.

É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influencia oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existencia, que é metade do nosso sêr. Incerteza, duvida, remorso... Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio. Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a morte...

Ali a um canto um sêr desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguem se riu.

E, atravez da pedra d'estas physionomias, transparecem já outras physionomias: as velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabeça, apertam o circulo em volta da magestosa Theodora. São annos de paciencia, d'inveja e de fél--são annos de tragedia. Sobresaltam-se as futilidades que estavam para durar seculos, mas ninguem arrisca ainda um gesto que o comprometa. Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa, e com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho revestiu-se de cimento e de grandeza.

Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido a vida inteira. Moe-se a si e aos outros.--E o tempo passa...--Obedece e sorri a Adelia, que esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria conserva: tem os cabelos pretos. Seis, doze vintens desiquilibram-lhe o orçamento: perde-os todas as noites com um sorriso d'angustia. Obedece e sorri a Porphiria, que é a peor de todas; é feita de destroços e de restos. A aquiescencia tambem está presente com a D. Restituta, de guardachuva na mão, acenando sempre que sim á vida:--Pois sim... pois sim.--Faz-se um pouco surda para só ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal dos outros, nunca repete n'uma casa o que ouviu cá fóra. Ás vezes, de noite, vira-se revira-se na cama, mas nem sósinha se explica: suspira. É na aparencia um pouco trôpega, um pouco adoentada e surda: tem uma saude de ferro e um filho escondido. E ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito a tudo e a todos que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgare, senão que sim:--Pois sim... pois sim...--a Adelia é rispida: um vestido, um chale, um chapeu de plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem sessenta annos) de ter uma sala de visitas com dois castiçaes de prata e um album. O album lá está, na sala que cheira a bafio, e há vinte e dois annos que dois paninhos redondos de crochet esperam os castiçaes de prata. Obedecem as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre o jogo, dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo interesse. A alma d'esta velhas chegou assim a ser prodigiosa. Façam o favor de entrar... Algumas flôres murchas n'um cantinho com môfo. Depois paciencia, avareza, depois um vasto campo funerario, onde passa o vento da desolação como na retirada da Russia. E dominando a paisagem dois ou tres marcos geodesicos. Lá no fundo uma pégada de vida empoçada e que reflecte o céo: alli se miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma palavra mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro--tudo isto cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material não cabia no mundo, com colunatas, porticos, destroços e subterraneos, como uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta está o relento, branco e molle, creado na escuridão e no silencio, branco e molle, branco e sem olhos. Varias sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante, sobre sarcophagos, a Tradição e a Formula, que durante os annos que durou a bisca, defenderam a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui agora--cuidado!--a escuridão é viva, a escuridão é sonho, é sonho requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que não podem mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo, rezam o terço, e antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil, uma figura aos nichos, um portico aos porticos, um terraço aos terraços--até que adormecem com um sorriso candido e um cheiro pela bocca que tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um alto relevo esquecido; aqui as figuras são figuras de delirio; aqui a nave atinge alturas desconexas sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma ogiva com vitrais, que esclarece a uma luz funerea um quadro indistincto, e que é talvez a recordação d'um amôr já morto--porque ellas tambem amaram--aqui o misterio envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Christo exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto com uma cidade phantastica, campeia o diabo; depois um remate enfumado, cachorros sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza e a abundancia de ornamentação (é a paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si propria se enovela num desespero, até que não cabe na cathedral, irrompe para o lado de fóra e chega n'um jacto ao céo... Isto não é a cathedral de Burgos--é a cathedral do fél e vinagre.

Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que esta palavra representa de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis, de inveja inutil, de bolôr e de despeito, tradul-o a paciente D. Herminia por este grito feroz:

--Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!

Toda a gente dá a mesma ferocidade, odio e instincto. Espremidos deitam as mesmas paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias. Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciencia era pegajosa. A paciencia tinha uma côr especial, verde desbotado, que mal feria a vista, e um filho, a cobiça, tal qual como a D. Restituta, que encrespa o pello e se põe de pé com o guarda-chuva em riste.

Cada sêr me perturba como se contivesse em si o céo e o inferno. Bem sei que a formula não é inutil: ao contrario a mascara é indispensavel e é por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos o mesmo bolôr e nos sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de terra, há qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida. Até o escuro se eriça--até a grande sombra se deforma.--Muita gente na vida só conta com a morte. A D. Desideria desata aos ais. E é com secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edificio tão bem construido sobre bases, que pareciam inabalaveis, do interesse, da hipocrisia e das conveniencias... Impelidos por uma mola dão todos um passo em frente, e há tres dias que os padres se descompõem na colegiada sem se chegarem a entender:--Lá vae o inferno! lá vae o inferno!--E, efectivamente, d'um instante para o outro, lá vae o inferno que tanto custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vae o scenário admiravel e monstruoso, todas as regras, todos os papeis pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa existencia. O que tinha uma importancia extrema passou a não ter importancia nenhuma; o que parecia indispensavel á vida, e sem o que se não dava um passo na vida, reduziu-se n'um minuto a zero. E outras coisas insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam n'um côro desesperado:--Acabou o inferno acabou tudo!--Descompõem-se na sala da colegiada que deita para o passado--o claustro com um pé de oliveira, e dois tumulos encravados na parede, scenographia para o Hamlet,--sêr ou não sêr eis a questão... Cheiram a ourina e a ranço.--A religião sem inferno está perdida.--Mas lá por o homem ter suprimido a morte, não deixa de haver inferno--observa o estupido conego Fazenda.--Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é um inferno tão distante que não mete medo a ninguem.--Protesto!--Lá vae o inferno! acabou o inferno!

Lá vae tambem o céo, mas o céo não faz falta nenhuma.

Já não há esforços que contenham o mundo subterraneo que se pôz a caminho. Aos mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira remexe. Por mais que queiram conter a vida dentro de certos limites, ella extravasa, e vem á supuração; por mais que a queiram comprimir estala por todas as costuras. É inutil. Alem da vida aparente, há outra vida de odio, de sonho, de interesses occultos. É a vida, é o que eu scismo de noite e me sustenta de dia. É o desejo de exterminio, é o sonho que arredo e que me pega fuligem: são os restos de sonho de toda a gente. Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o céo e respiram. Saem dos buracos e põem-se a rir, ou falam só, o que é a primeira vez que succede na villa. Emergem da noite e vão deixando cahir os farrapos. Respiram com sofreguidão, os gadanhos afiam-se-lhes, e o mesmo desejo os domina: a vida! a vida! a vida!

Só esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais, petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade tragica, sonho e desespero, dôr e desespero, noite e desespero...

É um erro supôr que o homem ocupa um espaço limitado no universo: cada homem vae até ao interior da terra e até ao amago do céo. A parte de cima foi cortada, mas o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma obscuridade. Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se coisas abjectas a que não sei o nome. Agora é a vez de impulso--agora é a vez do interesse. A mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo ascendem ordens que se não chegam a formular. Desço mais fundo no poço e encontro restos sordidos e candura. Por baixo sonho--por baixo fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, não são más, mas teem atraz de si seculos de ruina e de destroços. Há-as que acordam sempre com a bocca amarga. Já tiveram vinte annos, e cada uma d'ellas suporta uma cauda de desespero, de ilusões desfeitas, de ilusões intactas, de desejos irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada velha arrasta comsigo uma porção de cadaveres... De mais fundo vem outro impulso... Começo a ouvir vozes que supunha de todo extinctas. Acordam e de tal forma se impõem, que a D. Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa vaga, n'esse lôdo adormecido, jaziam sêres ignorados que veem á superficie: sente-se no silencio as mãos agarrando-se ás paredes. Um a um todos deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra, a nodoa desordenada, que satura d'oiro a insignificancia e o genio, a nuvem que envolve a D. Inocencia, encrespa os cabellos á D. Leocadia, fez esquecer a dispepsia ao D. Prior, arreganha os dentes a D. Restituta. Pega-se. Torna uns mais ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que estava sepultado há dois mil annos, no bolôr e no bafio, nas paredes compactas da Sé, nos santos immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no habito. E doira, doira, doira, doira o Telles e o Reles, doira a hipocrisia e o medo, o egoismo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma, põe-nos frente a frente a uma coisa estranha que não admite subterfugios--á realidade.

Desaparecendo a convenção e as palavras, que vae sahir d'aqui de temeroso e de ridiculo? Transformado o mundo, com que olhos vamos vêr o mundo? Tudo isto eram phrases e só existem instinctos? A honra era uma phrase, o dever uma phrase e a vida um scenário? Cada sêr é capaz de todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e possue todas as côres, e só por habito adquirido há seculos é que conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.

Há dialogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se usaram, e figuras que já não são as mesmas figuras. Todos nós somos disformes.--Deixem-me! deixem-me!--Agora quando falam já não é para dizer coisas convencionaes.--Estou á espera, tenho estado aqui á espera toda a minha vida.--Á espera de quê?--Á espera deste hora suprema, á tua espera...--Mas fala...--Não posso, só com gritos é que posso falar...--A outra coisa temerosa sacode-os...--Tu ouves?--Não te quero ouvir. Se consegues ficar comigo sós a sós, sinto que estou perdido. Tudo que me deu tanto trabalho a construir, alue-se n'um unico minuto. Teimo em me defender--teima em se fazer escutar...--Tu ouves? tu ouves?...--Mas tu não existes... Ou tu não existes ou só tu existes no mundo...--Estremecem até á base da vida, e, n'este cataclismo, ainda se lhes pégam coisas vulgares e coisas inuteis--o que se faz e o que se não faz, o que se usa e o que se não usa, as conveniencias e os habitos rançosos. Há dialogos formidaveis na obscuridade. Há almas extacticas, há-as reduzidas ao espanto.--Ouves?--tu ouves?--Não tenho a que me apegue, mal ouso pôr os pés. Até agora sabia quem era, ou fingia sabel-o, agora pergunto se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a D. Penaricia? Só posso viver ligado a certas palavras, a certos factos, a certas bases que julgava indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto, transformou de todo a vida. O sonho tem outra côr, e a nodoa de oiro alastra, corroe, mistura-se a nodoas mais escuras e mais fundas, penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como ulceras.--Phrases ainda elles as teem, mas o peor é que cada um sente com espanto que já não subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a deixo viver mais duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos annos? Agora que a sua vida só depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo viver--contra os meus interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro que a morte resolvia. Quem as resolve agora? Debatem-se em cada consciencia problemas que só teem uma solução--a morte. Excusas de desviar o olhar: só teem uma solução--a morte. E de mais fundo ascendem outras vozes e falam cada vez com maior desespero.--Não desvies o olhar. Tu ouves?...

Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto, imperiosas, as vozes da multidão que constitue a tua alma. Isto coincide com o grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em plena praça, sem se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos convencionaes; isto coincide com uma primavera antecipada, em que as arvores, sentindo talvez que vão ser a nossos olhos apenas coisas utilitarias, se apressam a dar flôr, em que os céos nocturnos e sem macula parecem ter gelado em azul com fundos d'oiro revolvido...