Humus

Part 2

Chapter 24,146 wordsPublic domain

Atraz da insignificancia andam os céos, os mundos, os vagalhões doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e phrenetica, o espanto, a mixordia, a dôr, as forças monstruosas e cegas.

Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da vida, só ficava de pé o espanto.

Só a insignificancia nos permite viver. Sem ella já o doido que em nós prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificancia comprime uma força desabalada.

Para não vêr, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não vêres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura immensa que não sentes e que te vae levar para o escantilhão sofrego, que te vae mergulhar no silencio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis. Todos os dias acordamos com mais fél. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! Não se passa nada! No verão o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragedia--e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que á noite redobra, cahem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso desconforme.

Estamos aqui todos á espera da morte! estamos aqui todos á espera da morte!

O SONHO

6 de dezembro

Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adhere. Há dias em que não distingo estes sêres da minha propria alma; há dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a impassibilidade, dôr; há dias em que o céo e o inferno esperam e desesperam. Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a vir á supuração.

Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos seculos, e os sêres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A arvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar á aquiescencia e á regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.

--É necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.

É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magneticos de sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a unica parte do meu sêr que me interessa. Ás vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero ser pratico, gesticula dentro do casaco arripiado:--A alma! a alma!--Singular philosopho! É capaz de desejar a morte para vêr o que há lá dentro; é capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constroe outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealisaveis, transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri--já sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas. Na arvore vê a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo. Põe a mão e molha. Destinge sonho...

--A alma--diz elle--ao contrario do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma côr. Há sêres cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda--immensa, dorida, phrenetica. Há-os cuja alma é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da materia comunicar. O amor não é senão a impregnação d'esses fluidos, formando uma só alma, como o odio é a repulsão d'essa nevoa sensivel. Assim é que o homem faz parte da estrella e a estrella de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas lagrimas, vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes, na pedra concentrada e recalcada, que dôr inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flôr.

Para elle estas coisas ethereas são visiveis. Vê tão exactamente como eu te vejo a ti a paixão, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que não resisto: fecho-me com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo afastal-o, mas succede que fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e quando rio como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz. Vem feliz! É elle que me préga:--Toda a agitação é inutil. Não tenhas medo da desgraça!--E eu tenho medo da desgraça. Á força de habito cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda.

Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha, abafado d'um lado pela muralha da villa, que á noite redobra de porporções. O granito enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra dá calafrios a quem entra.

--Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada sêr realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia. É ella que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...

D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o céo, do outro o sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada. Dentro d'isto sonho.

Ponho-me a olhar para elle--ponho-me a olhar para mim. Passou a vida n'aquella inutilidade, de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do laboratorio, á procura da pedra philosophal.--Ridiculo. Depois na aplicação da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que se desentranham em flôr, sem produzirem fructo.--Grotesco. Agora ninguem o arranca a infindaveis monologos cahoticos:--A morte! a morte! a morte!-- Incongruencia, obscuridade e dôr tambem; a dôr de quem vem da irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho titubia e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas. Comprehende então a sua inutilidade e desespera-se até reentrar na nuvem que o envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouço a sua voz magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:

--Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o. É uma nuvem que envolve tudo, que vem do turbilhão da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos até á Via Lactea, para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da morte--basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...

7 de dezembro

A villa é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é d'elle: a propria casa de granito revê sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida de frio, no casarão que deu á costa como uma nau do passado, com o cavername roido pelo mar das trevas.

É um sêr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu n'um sôpro cada vez mais ephemera, com dois olhos verdes de espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma coisa inerte...

Morreu transida de frio. Uma mulher palida--o que vale um passaro. Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal pousa os pés no chão, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se... Não se atreve, e esboça um sorriso logo molhado de lagrimas. Morre de frio. Agosto--morre de frio. Até para lhe sorrir se esconde, e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o sitio) a falar com o muro, a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura tel-a-hia salvo--ninguem o arranca áquelle sonho informe. Morta...

Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou. Estende fios no chão entre as arvores, e as arvores, sob o fluido electrico, todo o inverno se desentranham em flôr. Pegou-lhes sonho tambem. É um desbarato, uma profusão que as devora. Absurdo. O quintalorio ao pé da muralha, que há seculos revê humidade, não é maior que um lenço; a primavera só chega aqui tarde e de mau modo, com pena das arvores de saguão. Arrepende-se logo. Já veem que o absurdo é maior ainda... Dezembro e primavera. O céo gelado, um brilho de estrellas em engastes novos, e, entre a carie das paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exhalações de ternura. Mortas. Mortas, seccas de sonho. Mortas as arvores desfeitas em flôr.

--Este efluvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de paixões. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes não me deixa comprehender, mas é raro que eu não saiba logo quem tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no mundo.--E logo:--A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é que dei com ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos sempre, amar-nos-hemos sempre...

A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias. Mais flôres--todos os galhos dão flôr. Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores, dos sêres vegetativos, ao terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.

--Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido a morte!

Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os primeiros botões. A arvore transforma-se n'um sêr dorido e esplendido--transforma-se em sonho--em sonho desfeito em flôr, em flores espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos espremidos escorrem dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas, e velhas pedras iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos, que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite concava e branca--gelada--cobre indiferentemente tudo isto. Que não cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco tambem a noção da realidade.

--Tanta flôr!

--Para a sua cóva.--E pondo em mim os olhos atonitos:--O que é preciso é ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade, juntar outra vez as boccas dispersas. Não morrer é nada: vou resuscital-os...

Imagina o negrume d'um poço--imagina dentro o espanto, e não sei que luz viva, não sei que dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer viver apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha. Escuridão e oiro--silencio e oiro--espanto e oiro.

--Vê tu a arvore... Uma camada de flôr--um grito; outra camada de flôr--outro grito. Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma d'arvore, e depois em emoção!...

Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar transborda--branco e dôr--branco e sonho. Depois o silencio, depois a sua voz magnetica--depois a sombra immensa que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho d'um lenço. Desato aos gritos quando todas as roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:

--Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os outros ao silencio. É uma coisa simples, é uma questão de synthese.

--A morte,--afirmo-lh'o--é o repouso eterno.

--Repouso eterno, estupido! É exactamente o que está vivo, a morte. É o que está mais vivo.

10 de dezembro

Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes. Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho grotesco?

De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez da luz--a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium, o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone--e sonho. Dezasete elementos, entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico--e dôr. Materia, espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa? Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade, d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os olhos turvos e teima, insiste, repete:

--Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de todas as athmospheras: é a alma da villa.--E afirma cheio de convicção:--Deito-lhe sonho dentro.

Queira ou não queira faz-me scismar... Na realidade morrer é absurdo. Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido. Não comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a essa hora extrema, só essa hora me interessa... Um sêr grotesco, um unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos. É caricato e pega-me doirado.

E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o confessa senão a si proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente se esquece a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que nos agarramos com mais saudades á vida. A resignação custa muitas horas doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte é inevitavel?--pergunto baixinho. E como a morte é inevitavel, como não lhe posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pôz o pé no mundo não é o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?

A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamol-o escondido para a cóva. A verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que há-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta só um passo... A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós queremos é este sol, esta pobreza, esta dôr, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a vida que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primario. Protestas do fundo do teu sêr: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel é talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os instantes. Acordo e grito:--Eu não vivi! eu não vivi!--E cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida e inutil, quero recomeçar a desgraça.

Ninguem pode com semelhante peso. Não há quem possa com elle. Na solidão, a primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a morte. Um minuto sós a sós com o espanto, recamado de mundos, que caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar para a voragem d'um e d'outro lado; não posso arcar todos os dias com esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora até a insignificancia me é impossivel. O silencio... O peor de tudo é o silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no silencio...

Carrega em cima de nós tal peso que ninguem o suportava se désse por elle. É o peso do espanto.

Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os côtos esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo dá o seu passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos, ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de desespero cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar, e que me põe em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.

--O que eu quero, é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu quero é recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçal-a nas tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei há pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de pé, e um unico ramo ainda verde desentranhou-se em flôr... Podesse eu recomeçar a vida!--Cala-te!--Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que nunca fui arrastado até ao amago pelo desespero ou pela paixão e que de tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a cóva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a fél--antes a dôr!...--Mas sonhaste, estupido!--Sonho. E o que me resta nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instincto, como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as féras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...--Quantas conversas temos tido juntos! quantas discussões inuteis! quantos desesperos de que não há sahir, batendo com a cabeça na mesma parede! Ás vezes subjugo-o:--Cala-te! cala-te!--Ás vezes fala elle mais alto e domina-me. Rio-me de ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves; só tu és feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem fé nem lei. Só tu não tens methodo, só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre, feliz e despresado. No fundo invejo-te.

Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e molha-me. Aturde-me. É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado e mais alto, com interjeições e gestos desordenados pelo meio:--Estupido!--Hei-de falar! quero falar! hei-de por força falar!--E há aqui dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo, e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prégar sem tom nem som.--Toda a gente se ri de ti...--Deixal-o.--Toda a gente se ri! toda a gente se ri!--Quero por força tornar a viver! hei-de por força tornar a viver! Sinto que a minha vida não termina aqui. Este sonho hei-de leval-o a cabo.

Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:

--Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra vã. É um desespero sem consciencia nem gritos. A vida não é senão uma tregua--um ah--e logo um mergulho n'esse inferno de dôr. Na dôr estreme. Eis o que é a morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero morrer e vou resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!--que esplendido sonho! A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto desespero, tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo do calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego é impalpavel: é a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma expressão de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar; é aquella manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e que se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos como um fio d'agua, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translucido que quero tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa mesma ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é nada--é esta côr, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo. É os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta não faz parte do meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céo não faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida--dou-te tudo em troca... Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem não só de mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para todo o sempre!--E, com um suspiro mais fundo, repete:--Suprimi a morte, vou resuscital-os!

Trago comigo um pó capaz de doirar a propria eternidade. Não sei d'onde me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante do negrume--elle reanima-me. Insiste deante das forças desabaladas e da imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror.

Se com o nosso esforço colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a morte de pé? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o tempo--destaquei o sonho.