Humus

Part 14

Chapter 142,126 wordsPublic domain

É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogenea, um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos. Não é um detalhe--é um panorama. É um immenso farrapo dorido. Anda aqui a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas. É tão necessaria a este fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda aqui a primavéra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem a tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte. Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que há-de ser arvore e o tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso a que não vejo senão partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz não se distingue da sombra nem a vida da morte. A vida está tão feita adeante de nós como atraz de nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda não existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A vida absorve-me e ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar. Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado e o futuro--Jesus Christo vivo, Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.

26 de novembro

Estamos á superficie d'esse oceano embravecido, e o impulso vem das camadas mais profundas, das camadas informes. São todos. São até os que nunca tiveram olhos para vêr, os sêres esboçados, com mãos rudimentares, aparencias d'arvores e de figuras mutiladas. É a terra viva.

É só sonho, é sonho estreme e dôr estreme. Cada um assiste á projecção da sua propria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem emfim as dimensões de dôr, que as palavras, as regras e os habitos lhe não deixavam ter. Cada alma é desmedida e tragica e vem desde os confins da vida até ao infinito da vida. Cada um na floresta entontecida representa o maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada sêr é emfim um sêr completo e doirado, atinge a belleza e Deus.

As florestas já mortas, a luz das estrellas desaparecidas no cahos--tudo aqui está presente. O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o desespero dos mortos sobre mortos, o reflexo de ternura, a mão que amparou, a bocca que sorriu, levadas pelo vento que soprou há dez mil annos, aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que sonhamos todos, o primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de seculo em seculo, assim como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da terra, o primeiro resquicido, o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui está na floresta embravecida. E, com ou sem bocca, com ou sem consciencia, nunca mais deixarei de andar n'isto, disperso, amalgamado, confundido, de fazer parte d'este drama, queira ou não queira, proteste ou não proteste. Tudo é inutil, todo o esforço inutil, todas as palavras inuteis. Reconheço-o. Mas não me canso de prégar, não posso deixar de prégar, até cahir vencido e exhausto dominado e deslumbrado. Na floresta embravecida, em que todos participam do mesmo sêr, até a mulher da esfrega encontra emfim Jesus:

--Será vocemecê o José do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos ricos?

--Sou um pobre de pedir.

--Será vocemecê Nosso Senhor Jesus Christo que veio ao mundo para nos salvar?

30 de novembro

Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os outros? São elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se açulam entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos, e perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou n'uma bocca ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos são realidades, os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. Só os sonhos são realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha vermelha de polo a polo.

Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte, passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e era a isto que se chamava a arvore! Aqui está a pedra e era a isto que se chamava a pedra! Aqui está o céo e era a isto que se chamava o céo! Reconheço-vos.

A morte encontra-se só--cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo céo como um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos--de desvario em desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de côr, abre a cauda de oiro, de trambulhão em trambulhão...

A morte faz estremecer o mundo até á raiz. A morte já não tem a mesma significação. A morte é agora inutil e anda á solta no infinito, desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É peor este tumulto de inferno, este clamor de que me não chegam as vozes, esta força incoherente de pé--todas as forças de pé--posta a caminho para o desconhecido. É peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em cima.

Reconheço o grito que sae da noite. São os vivos e os mortos... Mas então que significação tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada, d'este doirado feroz, d'este redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.--Oh eu quero crêr!--Porque é que gritas?--Fecha os olhos! fecha os olhos!--Agora sou eu quem falo! Agora são elles que falam!...

Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de baixezas e capaz de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não vales nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão, a tinta do céo, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu! eras tu!... Tem-me custado a dar comtigo, tão mesquinha e capaz de povoares o céo de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontrões contra a massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella de sonho. Fôste a melhor e a peor parte do meu sêr.

Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres, de tintas, de impulsos, a instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dôr! Fiz parte da dôr. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D. Ingracia? Suportei a vida--suportei tudo. Que importa a tua mentira, se atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?

Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?

E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um estremeção no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito que acorda mais sonho e gera novo desespero.

Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a caminho.

O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam ao mesmo tempo de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada, estão aqui de pé ao nosso lado.

E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos com elles, respiravamos com elles, mas não sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra e a luz. Agora não podemos com elles...

E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos: o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um grito em cima.

E as mulheres das viellas põem-se a chorar, os ladrões das estradas desatam a chorar...

O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós proprios? O homem que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo, trespassa o globo e echôa no mundo.

E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se entranhou de salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens. Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de côr, na dôr que tomba desgrenhada de quéda em quéda. Todo o mundo se transforma a nossos olhos. Cada sêr augmenta como se encerrasse em si a vida até aos confins dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções. Perdeu-se a noção da desgraça e a noção do tempo, e a nodoa de sangue da Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra entre os astros, de lez a lez, na profundidade do céo.

Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre mais alto e cada vez mais fundo?...--É preciso matar segunda vez os mortos.

INDICE

Pags.

A villa 9 O sonho 25 A villa e o sonho 43 Papeis do Gabiru 63 Atraz do muro 67 O sonho em marcha 77 Fevereiro 95 A mulher da esfrega 101 Papeis do Gabiru 117 Outra villa 123 Deus 133 O dever 141 A velha e os ladrões 149 Dialogo dos mortos 159 Primavera eterna 167 Deus 191 Céo e Inferno 197 A arvore 211 Papeis do Gabiru 221 Terceira noite de luar 227

ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTA 2.^a EDIÇÃO NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL, (ALMANAK LAEMMERT) R. D. MANOEL, 62--RIO DE JANEIRO AOS 5 DE JANEIRO DE 1921

ANTHOLOGIA UNIVERSAL

VOLUMES PUBLICADOS

1--Manuel Bernardes--Historias varias.

2--Soror Marianna--Cartas de Amor, nova restituição e esboço critico de Jaime Cortesão.

3--José de Alencar--Iracema, edição prefaciada por Mario de Alencar.

4--Almeida Garrett--Frei Luiz de Sousa.

5--Gonzaga--Lyricas (Da Marilia de Dirceu), prefacio e notas de Alberto de Faria.

6--Fernão Mendes Pinto--Em busca do Corsario.

7--Carlos Dickens--Canto do Natal, traducção de D. Virginia de Castro e Almeida.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+-----------+-------------------------+---------------------------+ | | Original | Correcção | +-----------+-------------------------+---------------------------+ | #pág. 10 | insigniifcancia | insignificancia | | #pág. 18 | aborecida | aborrecida | | #pág. 19 | Éstamos | Estamos | | #pág. 21 | põeem | põe em | | #pág. 23 | intincto | instincto | | #pág. 43 | infintio | infinito | | #pág. 49 | bolôr e e nos | bolôr e nos | | #pág. 55 | a luxuria | á luxuria | | #pág. 57 | chumpo | chumbo | | #pág. 59 | Dabalde | Debalde | | #pág. 60 | gente de vive | gente que vive | | #pág. 61 | pino do varão | pino do verão | | #pág. 74 | Escutas | Escusas | | #pág. 78 | qeu | que | | #pág. 107 | oubtras | outras | | #pág. 119 | entretento | entretanto | | #pág. 136 | conscienia | consciencia | | #pág. 143 | phantesma | phantasma | | #pág. 147 | superioridaed | superioridade | | #pág. 153 | perdia | perdi-a | | #pág. 155 | Meti-tudo | Meti tudo | | #pág. 155 | ronhar | sonhar | | #pág. 156 | mair | mais | | #pág. 162 | conduizdas | conduzidas | | #pág. 162 | paquenas | pequenas | | #pág. 165 | faiza | fazia | | #pág. 170 | de de todo | de todo | | #pág. 175 | papel doirada | papel doirado | | #pág. 180 | transitos | transidos | | #pág. 180 | tempertade | tempestade | | #pág. 182 | nos somos | nós somos | | #pág. 188 | dizeram | dizerem | | #pág. 201 | auterior | anterior | | #pág. 206 | infniito | infinito | | #pág. 209 | desesdero | desespero | | #pág. 222 | conssiencia | consciencia | | #pág. 234 | povoares e céo | povoares o céo | +-----------+-------------------------+---------------------------+

Nesta obra surgem variações de palavras, como por exemplo, "sobterraneo" e "subterraneo". Mantivemos as variações como as encontrámos no original.

Na página 38 encontramos linhas repetidas. No original lia-se "(...) a meu lado. É a essa ninharia que é a vida que deito as mãos com sem a sombra da morte a meu lado. É a essa(...)". Após verificação de diversas versões, removemos a frase a negrito, por considerarmos que se tratou de um erro na impressão.

Na página 149 encontramos linhas repetidas. No original lia-se "(...) enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez, dilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez... (...)". Após verificação de diversas versões, removemos a frase a negrito, por considerarmos que se tratou de um erro na impressão.

Em situações pontuais substituímos vírgulas por pontos e vice-versa, para respeitar a capitalização presente no original.

Adicionámos o capítulo «Atraz do muro» uma vez que este não figurava no índice.