Part 13
Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita. Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este: a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.
Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:
--E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu disse-lhe:--Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de vinho.--E vae ella disse-me:--Tenho ahi pão velho, não enxerto o outro.--E vae eu disse-lhe:--As bagadas que tenho chorado caiam sobre ti.
Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna responde com olhos de pasmo:
--Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.
Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida. Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a, engrandeceste-a!...
Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao peito--gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo, repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó, repetido no futuro por milhares de sêres incriados.
O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz. Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo não se importa de morrer.
Talvez a morte seja para ella a vida.
Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito--sempre. Por isso ella teimava:--O menino está vivo!...--Por vezes parece que se apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos. Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas mãos asperas amparam. Não é uma figura--é uma serie de figuras...
16 de setembro
O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não exterior, mas ligado ao teu proprio sêr: são lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos pelas lagrimas, estes typos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite toda e dizem bem com o desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra coisa exprimem as figuras denegridas que vão aparecendo por traz da figura da Joanna...
Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que móe e remóe obstinado uma codea de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
--Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é como a crosta que calcamos. Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afóra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silencio só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida está ligada á vida da terra. Creou-a. Á terra só falta comel-o.
Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos, poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pelle como a tua pelle.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.
Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz:--O corpo pede-me terra:--A pobre, com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola e reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage compacta. A pedra pega pedra. As mãos tem terra nas rugas desde que lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle, entranhada na alma.
O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao coração do monte. Por tecto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as mesmas raizes. Uma casa não é só alvenaria: é dôr e vida e morte. A arvore tambem aqui entra: a arvore é uma construcção viva.
A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só amanharam um panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dôres e nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o panno ao meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a chorar dando um seio a cada um.
Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra, são figuras deshumanas. Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela parede e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um calháo arrumado á parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite funda, todos os mortos estão alli presentes e atendem... A pedra tosca do lar, a pedra salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais que um calháo. A pedra é sagrada.
Está alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias após dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz. Um delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter. Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a mesma dôr, que não sabem exprimir.
A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso da vida e a terra entranhada.
É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na mulher as lagrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes, como na propria casa onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe alli a mulher, entrou-lhe lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a femea teem que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar um fio d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflição para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.
O escuro gera uma serie infinita de mulheres... Há em todas um momento de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea encardida está velha. Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ella carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir á villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de jornal. Ella pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais pequeno. Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e com os annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas, salientam-se traços, e a mesma côr humilde reveste a mulher e a alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia d'amanhã; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a vida, todos os dias se vão amalgamando, luctando, empurrando com desespero, até se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso da dôr e pelo uso das lagrimas.
Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda ternura. Curvam-se sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto ignoram-se.
--Mãe--pergunta a filha mais moça--mãe que coisa é casar?
E ella responde como sua mãe lhe respondera:
--Filha, é fiar, parir e chorar.
A vida é uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as trouxeram pela mão, entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe, nasceram tambem os filhos.
Há seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. Há seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a terra. Há seculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até á cova. Há seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes falaram a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a vida consomem, é a parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio d'agua, que, como o fio de ternura reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a maceira, pare com dôr no mesmo catre, morre com dôr na mesma enxerga.
E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro saem gemidos. A casa desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão que procura a minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:
--Escuita! escuita!
É a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu a saia que traz vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.
--Escuita! escuita!
E aquece-me as mãos com bafo.
E se remexo o brazeiro--vejo outras figuras, outras ainda, até ao inicio da vida. Estão alli o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e disformes--outros como terra--outros como arvores decepadas--outros como fome e que mal sabem exprimir-se--outros a quem só se vêem as mãos nodosas--e a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que a vida consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir... Tão longe! tão longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde, mal distingo a vida na treva condensada--uma luzinha de candeia, que há seculos vem de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza. Diante de mim está sosinha a Joanna, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as mãos só dôr...
O mundo é feito de dôr--a vida é feita de ternura.
PAPEIS DO GABIRU
20 de novembro
Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece um dia nublado, outro dia alvoroce negro e aspero. O vento abala a pedra sobre que é construido o casebre. O inverno tem a sua voz propria, a sua côr, o seu vestido em farrapos com que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fóra. Mas o inverno é sonho. Só agora o comprehendo. É sonho concentrado: sob esta casca resequida está uma primavéra intacta. Esta voz clamorosa é a voz dos mortos. Uma pausa, a prostração da tempestade, e depois redobra o clamor... Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocação reconheço esta voz que me chama. E depois a tempestade, novos gritos, a escuridão profunda...
Lá andaremos todos não tarda! lá andaremos todos não tarda!
E ouço sempre a mesma voz:
«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!
Saudade, saudade de tudo, até do fél, saudade de te não sentir ao pé de mim. Tenho saudade da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir o lume n'este inverno sem limites, n'este frio de morte--sem outra primavéra! O que a vulgaridade sabe bem! o que a materia sabe bem!
Não vejo. Ceguei.
Disperso-me, e por mais esforços que faça, sinto-me desagregar: perco pouco e pouco a consciencia de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco mais. Já não tenho lagrimas.
Quem me dera a desgraça!
E uma pena da vida! uma saudade da vida! uma tristeza de não poder misturar-me á vida! A vida--e um cantinho do lume, a vida banal, a vida comesinha... Tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.
Vive devagarinho. Aquece-te á restea do sol como quem nunca mais tornará a aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.
Deixa que sobre ti caia o pó d'oiro. Vive-a.
Tu és a nuvem, tu és a arvore. Enche a consciencia de todas estas coisas, porque não tardarás a perdel-a.
Vive--não tornas a viver. Põe d'acordo a tua alma com a pedra, extrahe encanto do céo e da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!
Só agora dou pelo sabor das lagrimas.
Sorri, esquece, dorme, sonha...»
21 de novembro
Não me comprehendo nem comprehendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inutil, e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um naufrago a um pedaço de taboa.
Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dôr; chamo vida e morte a este cataclismo. É a immensidade e um nada que me absorve; é uma queda immensa e infinita, onde disponho d'um unico momento.
Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha propria alma. Faço parte duma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dôr ligada á minha dôr, consciencia ligada a minha consciencia.
Estou até convencido que nenhum d'estes sêres existe. Este fél é o meu fél, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões de dôr--e mais nada.
Nós não vemos a vida--vemos um instante da vida. Atraz de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavéra está aqui, mas atraz d'este ramo em flôr houve camadas de primavéras d'oiro, immensas primavéras extasiadas, e flôres desmedidas por traz d'esta flôr minuscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que ahi vem um tropel, um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E nenhum grito é inutil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vae desesperada á procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos.
O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma n'este turbilhão infinito e perpetuo, n'este movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A dôr gera dôr n'um desespero sem limites.
Eu não sou nada. Sou um minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto--nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.
Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos d'uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos d'uma coisa embravecida pela eternidade das eternidades. Sinto-me nas mãos d'uma coisa immensa e cega--d'uma tempestade viva.
Toda a vida está por esplorar: só conhecemos da vida uma pequena parte--a mais insignificante. E o erro provem de que reduzimos a vida espiritual ao minimo, e a vida material ao maximo. O homem é um S. F. ligado a todo o universo.
Deus é eterno com a mascara sempre renovada. A alma há-de acabar por se exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa bocca, há-de acabar por falar claro.
Está tudo errado. Só há um momento em que o comprehendemos. Mas n'esse momento já não podemos voltar para traz. É quando, fazendo ainda parte dos vivos, fazemos já parte dos mortos.
Não só a sensibilidade é universal--a inteligencia é exterior e universal.
O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração.
A materia tambem existe em estado de nublosa--isto é um estado de dôr.
Toda a theoria mechanica do universo é absurda. D'ahi a alguns annos todos os systemas serão ridiculos--até o systema planetario.
O sonho completo é o universo realizado.
23 de novembro
Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há dias em que não distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a este sonho...
...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho phrenetico. Não há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo da vida. Tu és a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida e avança desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que não me metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. Só tu agora me prendes os olhos e de ti não posso arrancal-os. És o unico misterio que me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que só de ti espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais torpe--bem funda é a noite e está cheia de luzeiros:--recebo-te, mas como um passo a mais para outra iniciação, para outro assombro, e até para outra dôr se quizeres, porque da dôr extraio mais belleza, mais vida e mais sonho.
...E contudo esta resignação é ficticia... Não, nunca acordei sem espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!
Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura, desgraça o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.
TERCEIRA NOITE DE LUAR
25 de novembro
Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas rôxas com resquicios de escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo céo--uma maravilha chimerica. A outra primavéra prolonga-se: superabundancia de flôres nas arvores, espiritualidade na materia, como se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flôres, mais poentes onde o oiro e o rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado, esquisito, insuportavel dentro de nós proprios, que comparo ao som d'uma borboleta esvoaçando contra as paredes d'um vaso.
É a morte que faz falta á vida.
Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixões, e essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se tempestades e terrores electricos. Anda ávida, desencadeia catastrophes, desaba desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se--é peor: ninguem lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes incendios no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de côr, em abismos rôxos, paira em campos ethereos de uma serenidade elysea. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida universal perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes de que ninguem suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas--é a vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.
E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouço passos e vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que não viveste queres agora por força viver; tu que não mataste queres agora por força matar. Mais mortos desde o inicio--maior mixordia. Todo o esforço era para virem á supuração. Atraz d'uma camada havia outra camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os não deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se disseram palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa desconforme, e ás vezes por uma fresta irrompia a claridade do inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em fumo.
O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e ridiculo, é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita são as paixões desregradas. Não ha limites nem peias. Vêem-nos como eu te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixões. Elles são aquillo que ocultamente desejavam ser, são o que não se atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. É esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel. É esse. Todo o homem é uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os. Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixões é que formam as figuras que actuam na vida.
Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de figuras e d'acção até aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida monotona e incerta, só se realisavam duas ou tres horas de exaltação. A vida agora é uma exaltação perpetua.
Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra não existe. O unico mundo real é o mundo irreal. Todos nós andamos a crear um mundo que é o unico verdadeiro--os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan para o mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo da dôr, do sonho, e o universo reconstruido, é o maior dos dramas--com a vida oculta ao lado--e cada dia tem o peso d'um seculo.
As creanças e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de fugir para onde não ouça o silencio... Avança direita a mim a floresta apodrecida. Mais perto! mais perto!
Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as peores ruinas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos esforços do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu queres falar com a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas e o conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho, inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...