Humus

Part 11

Chapter 114,264 wordsPublic domain

Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa cheira bem! como cheira bem aqui dentro!--Ó morte que tão bem cheiras, tu dilues o travor de fél e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo, realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas aspirações, que nem a Deus se confiam, ó morte que tão bem cheiras!--E calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito secular:--Coitadinha já tem panella!...

Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crêr ou não crêr, com a vida antiga e a vida que antevê; tem de desfazer a unhadas um edificio mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as inscripções e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma vez: um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar á morte é fugir á lei de Deus.--E d'um dado puxa por ella a vida, do outro puxa por ella o inferno--e as velhas lá fóra esperam e desesperam. Sente as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades; envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno não cessa de reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios profundos: aquellas raizes não se arrancam sem produzirem buracos. E as velhas lá fóra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos, balouçada--e com a cuia a desfazer-se-lhe--entre a realidade e o sonho, entre o inferno e a vida nova que começa. Mas como a estupida vida de caldo e pão que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e não sei que de solido e amargo, a velha póde salvar-se, com um resto de chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama para o cordão das outras estupefactas:

--Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!

25 de abril

E o doirado não cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o ridiculo... Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a ás arvores, ao céo e ás coisas eternas. Todos os sonhos se põem a caminho. É uma coisa equivoca. É uma coisa desgrenhada e fétida. É o sonho lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, onde boiam mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiçados que se prolongam no escuro. Toda a gente fala só. E o luar intoleravel, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os santos imoveis nos seus nichos. Dão horas, mas as horas acabaram. Coisa singular: esta gente só fala comsigo mesma, em monologos roucos, desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e concentração; a D. Herminia começa uma tragedia, que dura uma noite inteira com a mesma palavra obscena.

A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados, encrespa-se e cresce em vagalhões magneticos. Modifica todos os sêres e abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus nichos: até na imobilidade entranha desespero. Quedam-se estonteados e transidos, como se a vida fosse uma mera creação do luar e da loucura... A alma da villa é sacudida por uma tempestade de espanto. A botica está deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.

Um momento angustioso não se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor, um ah! A villa toda grita:--Eil-o! aqui está o meu sonho, aqui está como o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde; aqui está a minha verdadeira figura--a figura do Melias e a figura do Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o desespero e a Ursula, o grotesco e o pó doirado que não sei d'onde se me pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondiamos, cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... Lá vae a Adelia, com o chapeu ás tres pancadas, lá vae um logista que parece Napoleão Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco--lá vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro não existe--derrubaram o muro.

Nesse momento pezado de angustia todas as mãos se agitam no ar diante da outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada vez mais disformes. Está sofrega. Cresce, grita, avança direita para nós. O que se pôz em marcha não vem de fóra, mas de dentro de ti mesmo, da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a legoas de profundidade e até de lá sobem os gritos. O homem é o mais profundo, o mais vasto de todos os sepulchros.

Põe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a praça, ao pé desta coisa desordenada que se encarniça e não nos larga, ó Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração não existe! a praça não existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as lettras e os que teem as lettras protestadas, nós e nós, nós e os ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e tragicos--nós e o universo monstruoso! Nós correctos e nós disformes, nós e o céo profundo na sua temerosa realidade. Salta laré, perirone, perirote! Mas salta com desespero, salta com as tuas eternas explicações, o subterfugio e o grotesco. Agora não nos servem de nada os relatorios, nem as razões dispostas como formulas algebricas--agora estamos aqui nós e o problema desalinhado e feroz, que nos impõe uma solução imediata. Salta laré, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos lá se vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoça lá se vae o nosso credito na praça. Mas--pergunto--posso porventura deixal-a morrer quando está nas minhas mãos salval-a? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu és um homem de bem, eu sou um homem de bem, nós somos todos homens de bem--depende das circunstancias. Os paes são paes, mas deixam de ser paes se nos dão cabo de tudo--e da firma. Por outro lado há a contar com o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia para o outro, e sem credito um homem não vale nada na praça. Meditem e atendam. Acima de tudo está o credito. Está talvez acima de Deus, ainda que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem credito não dou um passo na vida.

--Além da firma que nos resta na vida? Fóra da praça não existimos. Pense que logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de sêr a nossa mãe. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por suas proprias mãos o nosso credito na praça?

Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeças, com calva e risca, com risca e calva, aquella distinção de porte e de vinco, aquella ponderação de estilo, aquella correcção de maneiras, aquella seriedade das seriedades, que a praça honra, que as firmas honram, que a Egreja honra, e de que até o proprio Deus do céo já está á espera com o palio meio aberto. A firma Elias & Melias tão correcta, com livros, ripolin nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até á medula e treme nos seus fundamentos. Está encalacrada. E o peor é que não são só elles que estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa não é o que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo... Ó Rinhe como tu rinhes com dôr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam já palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos! Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz não te dá tregoas o impulso. Neste conflicto delicado só tu vinhas a tempo, ó morte que tão bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniçada e feroz, sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as formulas e o vinco, com a praça e o credito!...

Agora não, D. Bibliotheca das Bibliothecas, já preparada com todos os requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Pôço p'ra a vida eterna! O que tu queres é esta vida, esta insignificancia e estes restos--e está aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apêgo! Tudo te doe e do fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho diante da figura tremenda que não sae de ao pé de ti... Ó carne putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperança, a um só que seja! O que te custa a largar o brazão na fralda da camisa, o postiço de toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores--tres tostões, seis tostões, um quartinho! ó carne fedorenta, ó carne já preparada para o mausoléo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro á espera!

E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora não Elias & Melias, agora não D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a frente com a realidade e a morte. Salta laré, perirone, perirote!

--Não quero morrer! não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem toda a gente. Não me deixem morrer!

Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extinctas, assobiam como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela cama fóra.

--Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!

--Chamem o procurador!

Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos, é a ancia de viver.

-- Não, não. Tirem-me para lá esse homem. O que eu quero é viver.

Vê no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas grotescas:

--Ó minha senhora cheguemo-nos á razão. Seja razoavel.

--Quero viver.

--Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo respeitosamente. Apelo...

--Dêm-me o remedio! Quero viver!

--Segundo lembro a V. Ex. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex.^a, Ex.^{ma} senhora, que é que V. Ex.^a é aos seus filhos?

--Quero viver!

--Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de que tenho sido bastante procurador a que mãos irá emfim parar? Peço-lhe que reflicta. Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão alli fóra seus respeitaveis filhos subjugados pela dôr, lembro-lhe a sociedade, e atrevo-me a lembrar-lhe que não tarda ahi o D. Prior.

Um fio, falta só um fio, e ainda aquella figura grotesca se debruça para lhe dezer:--V. Ex.^a...

--Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!--exclama o honrado Elias de Mello, com a calva arripiada.

--Não quero morrer!

Tem forças para saltar da cama, para se arrastar até á porta, e toda a noite no casarão echoam gritos.

Não quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o sêlo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita--e do outro a sofreguidão cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,--tu ungida e tingida, nós e nós--nós correctos e grotescos--nós Melias e doirado, nós Melambes e phrenetico!

30 de abril

Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que, apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas. Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos. Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.--Pois sim, pois sim...--Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da tua propria alma--ó Restituta da Piedade Sardinha!

...--Sejamos logicos mãe--diz elle--na vida é preciso ser logico. A mãe creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe. Não hei-de agora que vou casar apresental-a:--«Aqui está a minha mãe que me creou de esmolas, que me creou escondido».

--Tens razão, filho.

--O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe, que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.

--Desapareço.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir. Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora, á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração, como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais obscuro da sua alma.--Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim, doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do escalheiro.--Mente! mente! mentir não custa nada!--Mas a D. Restituta já não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim. Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o! viste-o!...

Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se, sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida, reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.--Mete o diabo no sacco!--Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre que sim--a dizer a tudo que sim.

--Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da submissão. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de dizerem a tudo que sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado, sofreguidão e pois sim!

Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim--para que o filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento n'um sexto andar--esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o fardamento da _Escola Academica_, como um guarda-portão em miniatura. A sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.

6 de maio

Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as primavéras--a primavéra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres e as coisas de flôres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as côres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as tintas--com todos os desesperos. Está aqui tambem presente a floresta apodrecida... As arvores não se veem, mas estão tambem aqui... Está aqui a floresta apodrecida, e com ella as fórmas de sonho e as fórmas de dôr mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os sêres cegos e com gritos, porque não sabem ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...

É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz--os tons violentos e os tons apagados. Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam há seculos. E até esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o milagre: as arvores chegam ao céo.

DEUS

10 de maio

O que eu sinto é o desespero de não haver dôr eterna. A dôr pela eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrêr sempre, com a consciencia do sofrimento, é viver sempre. Antes o inferno! antes o inferno! o inferno em logar do nada.

O inferno era ainda o céo.

Alguma coisa nos conduz e nos leva até á morte. Rodeia-nos. Impele-nos. Não a vêmos e está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou nas suas mãos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu não existes! tu não existes! E não há mãos mais crueis que as tuas. És abjecta. És cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E queira ou não queira estou nas tuas mãos. Só tu existes no mundo.

Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade és tu--fétida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta força que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza--para nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como a claridade na agua para me entontecer.

Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra vêz a primavéra! outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me. A um dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a noite está cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua tem um som mais lindo, a neblina dá encanto á minha vida e aos grandes montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido até á morte. Atraz de ti só há dôr e o desconhecido. Mascaras-te para me iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma; mais uma vez os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não posso vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a primavéra é secca e inutil. Fecho tudo para não te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra e sinto-a atravez dos muros.

Oh o grande oceano, a torrente impetuosa--sempre! sempre--o mar de mãos fluidas que me envolvem--o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que deslisa no silencio--como tudo isto me mete medo!

Reconheço-te força, mas não me importas nada. Este deus faz o que elle quer e não o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, não é feito á minha imagem e semilhança. Não me ouve nem me atende. Não o posso desviar da sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não se apieda. Não sei se tem o sentimento da justiça. Talvez tenha outro sentimento de justiça--outro maior--outro que não abranjo. Este deus não me é nada. Para elle é vão tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no mundo é vão. Todos os santos são grotescos. Todos, os que te chamaram e suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dôr, o fizeram no vacuo. Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me, entonteces-me e esmagas-me. Estou nas tuas mãos e não as vejo. Crias-me e não existes.

Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme, vivo, e obstinado--mas não és o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás ahi patente, vivo como a vida, mas não me conheces nem eu te conheço a ti. Não nos chegamos a entender. Não tens nome. E estou nas tuas mãos.

Estou nas tuas mãos e não me interessas. O que me interessava eras tu. Tu, que não existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma que não me livro de ti. Não existes e dominas-me. Não existes e torturas-me. Não existes e só tu és a razão da minha vida, dos meus actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes. Tenho mil annos e um dia para prégar deante do vacuo que não existes. Para te chamar sabendo que não ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos e um dia deante da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.

O resto são phrases e mais nada. Só a vida futura, só a vida presente sob o teu olhar tinha finalidade e razão de sêr. O resto são phrases com que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia, sós a sós com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras--a vida eterna e a morte eterna, não como palavras mas como realidades, nunca mais podeste desviar o olhar.

O que me interessava eras tu porque para, que tu existas é preciso que eu exista tambem. Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes passar sem mim.

Se tu não existes, estou nas mãos da força obstinada e cega. O que me interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu fazia parte.

E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de eu criar um universo que não existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr resulta d'este esforço para a mentira. De eu não não me submeter á força desabalada e cega. De eu têr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas duas creações antagonicas resulta a maior dôr humana. Se eu não tivesse criado outra vida imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas não me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba alli, se não ha outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo diante do escantilhão sofrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não estás ahi para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer exactamente o contrario? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados, leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto--trata-se de mentir, de mentir sempre--de mentir cada vez mais.