Part 1
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*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Maio 2012)
[Figura]
Reservados todos os direitos de reproducção nos paizes que adheriram á Convenção de Berne; Brasil: Lei n.^o 2577 de 17 de Janeiro de 1912; Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911.
HUMUS
DO AUTOR
EDIÇÕES DA RENASCENÇA PORTUGUESA
O Cerco do Porto, contado por uma testemunha, o Coronel Owen--Prefacio e notas (2.^a ed.).
1817--A Conspiração de Gomes Freire (3.^a ed.).
El-Rei Junot (2.^a ed.).
Memorias, 1.^o vol. (2.^a ed.).
Humus (2.^a ed.).
RAUL BRANDÃO
Humus
O que tu vês é bello; mais bello o que suspeitas; e o que ignoras muito mais bello ainda.
D'um autor desconhecido.
2.^a EDIÇÃO
[Figura]
EDITORES Renascença Portuguesa--Porto ANNUARIO DO BRASIL--RIO DE JANEIRO
AO MESTRE COLUMBANO
A VILLA
13 de novembro
Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...
Uma villa encardida--ruas desertas--pateos de lages soerguidas pelo unico esforço da erva--o castelo--restos intactos de muralha que não teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre--a porta da Sé com os santos nos seus nichos--a praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um jardim abandonado--inverno e folhas seccas--entre buxos do tamanho d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puira-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem á pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dôr que a ninharia e o habito não deixam vir á superficie. Afigura-se-me que estes sêres estão encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.
Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que roe há seculos na madeira e nas almas.
15 de novembro
As paixões dormem, o riso postiço creou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o tempo ilimitado para roer. Há aqui odios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia é infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia a lei da vida; é a insignificancia que governa a villa. É a paciencia, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde:--Tem paciencia--e os seus dedos ageis tecem uma teia de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.--Tem paciencia--e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia... paciencia... Já a mentira é d'outra casta, faz-se de mil côres e toda a gente a acha agradavel.--Pois sim... pois sim... Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.
Reparem, vê-se daqui a villa toda... Lá está a Adelia, o Pires e a Pires como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima Angelica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo á mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella, mal se ergue, recomeçar a tarefa. Um dia--uma semana--um seculo--e só o pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavel--p'ra a morte! p'ra a morte! p'ra a morte!
Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gôtas d'agua d'uma clepsydra. De tanto vêr as pedras já não reparo nas pedras. A morte roda na ponta dos pés e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva, todos os dias toca a finados. O nada á espera e a D. Procopia a abrir a boca com somno, como se não tivesse deante de si a eternidade para dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto não tivesse importancia nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto não fôsse um drama e todos os dramas, um minuto e todos os minutos...
Não há annos, há seculos que dura esta bisca de tres--e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal é a bisca--o jogo é o da morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na, a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraça para lhe dar tres vintens. Só destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas. Ambos regulam a consciencia como quem dá corda a um relogio. Dividas são dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mãos da D. Leocadia, que põe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orfã a quem sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala toda, o mundo todo...
Não sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta não se traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella sabe o que está por traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a gente se habitua á vida. Matar matava-a eu, mas varias palavras me deteem. Detem-me tambem um nada... Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece á luz do inferno. Mas ninguem arrisca um passo definitivo.
As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo chegaram a temer um desenlace. Debruçadas sobre a meza as figuras não bolem. Não bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não são as palavras do padre--Jogo;--nem o que a Adelia diz baixinho á Eleutheria, para que a velha temerosa ouça:--A nossa Theodora está cada vez mais moça!...--o que me interessa são as figuras invisiveis: é a dôr d'essas figuras imoveis, e sobre ellas outra figura maior, curva e atenta, que ha seculos espera o desenlace.
A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo bolor. Mora aqui a insignificancia e até á insignificancia o tempo imprime caracter. Moram na viella ingreme e cascosa, que revê humidade em pleno verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma corôa de lata que lhes enche o mundo todo. Mora d'um lado o espanto, do outró o absurdo. E todos á uma afastam e repelem de si a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar os moveis, só e fechada com os moveis reluzentes, talvez resto d'um sonho a que se apega com desespero, e velhas só mesuras, só baba, só rancor. Ter uma mania e pensar n'ella com obstinação! Creal-a. Ter uma mania e vêl-a crescer como um filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a acenar que sim á vida, e a Ursula, cuja missão no mundo é fazer rir os outros.
Cabem aqui sêres que fazem da vida um habito e que conseguem olhar o céo com indiferença e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo e de figuras somiticas. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sae do torpôr e clama:--O inferno! o inferno!--Moram as Telles, e as Telles odeiam as Souzas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só teem um fim na existencia: estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os que moem, remoem e esmoem, os que se fecham á pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um anno, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.
Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existencia de rancores e, atraz d'anno de chicana, consome outro anno de chicana. Cabem aqui dentro as velhas scismaticas, atraz de interesses, de paixões ou de simples ninharias, dissolvendo-se no ether, e logo substituidas por outras velhas, com as mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridiculos, fedorentas e maniacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fóra dedadas de mentira, promptos para a cova--e o Gabiru e o seu sonho. Cabe aqui o ceu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a bisca de tres. E cabe aqui tambem uma velha creada, que se não tira deante dos meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas todas. A Joanna é uma velha estupida.
Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade. Serviu um anthropologista exotico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de quem a Joanna dizia ao amollecer-lhe os edêmas dos pés:--Este senhor é um 2.^o Camões!--Serviu a D. Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma saia rôta, as mãos sujas de lavar a louça, uma camisa, os usos e seis mil reis de soldada. Lavou, esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a miseria, o riso, que caminha para a morte com um vestido d'aparato e um chapeu de plumas na cabeça. Para contar fio a fio a sua historia bastava dizer como as mãos se lhe fôram deformando e creando ranhuras, nodosidades, codeas, como as mãos se foram parecendo com a casca d'uma arvore. O frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou endureceu-lh'as. Sempre a comparei á macieira do quintal: é inocente e util e não ocupa logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e ella está aqui tal qual como quando entrou para casa da D. Hermengarda. Faz rir e faz chorar. Os meninos borraram-na--adorou os meninos. Os doentes que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna. Já ninguem extranha--nem ella--que a Joanna aguente, e a manhã a encontre de pé, a rachar a lenha, a acender o lume, a aquecer a agua. Há sêres creados de proposito para os serviços grosseiros. Por dentro a Joanna é só ternura, por fóra a Joanna é denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste tambem as arvores.
É uma velha alta e secca, com o peito raso. O habito de carregar á cabeça endireitou-a como um espeque, o habito das caminhadas espalmou-lhe os pés: a recoveira assenta sobre bases solidas. Parece um homem com as orelhas despegadas do craneo e olhos inocentes de bicho. É d'estas creaturas que dão aos outros em troca da soldada o melhor do seu sêr, que se apegam aos filhos alheios e choram sobre todas as desgraças. E ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam embora, porque não teem serventia, põem-se a chorar nas escadas.--É preciso escodeal-a--asseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena para casa. Escodeia-a. Noite velha e já ella bate de cima com a tranca no soalho, a chamal-a.--E não te servindo a porta da rua é a serventia dos cães.--Mas ella apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora. Venera-a. Annos depois diz das pancadas:--Merecia-as.--Já não é preciso chamal-a: a Joanna ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite negra, e dorme com um olho fechado e outro aberto. Velha, tonta, abre de quando em quando os olhos, põe o ouvido á escuta num movimento instinctivo, á espera de uma imaginaria ordem: ouve sempre a voz da D. Hermengarda a chamal-a.
Mal se comprehende que depois d'uma vida inteira, esta mulher conserve intacta a inocencia d'uma creança e o pasmo dos olhos á flôr do rosto. Trambulhões, fome, o frio da pobreza--o peor--e, apezar de amolgada, com uma saia de estamenha, no pescoço pelles, as mãos gretadas de lavar a louça, uma coisa que se não exprime com palavras, um balbuciar, um riso... Misturou á vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida. Aqueceu isto a bafo.
Tem as mãos como cepos.
16 de novembro
Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificancia. Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificancia, edificar um muro feito de pequenas coisas deante da vida. Tapal-a, escondel-a, esquecel-a. O sino toca a finados, já ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimonia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita. Se eu podesse restringia a vida a um tom neutro, a um só cheiro, o môfo, e a villa a côr de mataborrão. Seres e coisas criam o mesmo bolôr, como uma vegetação cryptogamica, nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o seu rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito. Desaparecem, resurgem sem razão aparente d'um dia para o outro n'um palmo do universo que se lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos saes, exhalam os mesmos gazes, e supuram uma escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez a sentimentos, a vicios ou a discussões sobre a imortalidade da alma.
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos habitos. Construimos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até á cóva com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, teem a espessura de montanhas. São as palavras que nos conteem, são as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por crear uma atmosfera que a arranque á vida e á morte. O sonho e a dôr revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada.
Remoem hoje, amanhã, sempre as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no céo, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céo na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum de nós repara no que está por traz de cada sylaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construimos scenarios e convencionamos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a consciencia--isto é o infinito... Está tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existencia é monotona, o tempo chega para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada sêr, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silencio, teias de escuridão e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede o filho sobre o taboleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o habito é que me fez suportar a vida. Ás vezes acordo com este grito:--A morte! a morte!--e debalde arredo o estupido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza, como este unico minuto com a morte pela eternidade peza! Como a vida esplendida é aborrecida e inutil! Não se passa nada! não se passa nada e eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo e que não quero vêr. Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o peor é que eu percebo que, se se apodera de mim, não posso mais viver. Agarro-me com desespero ao habito e ás palavras. Tu não existes! tu não existes! O que existe é isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os dias, os sêres com quem falo todos os dias.--E tu rodeias-me, tu reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. Não te posso vêr!...
Se há momentos em que o caixão que um galego leva ás costas me chama á realidade, ao espanto, desvio logo o olhar e reentro á pressa na vida comesinha. Finjo que sorrio e esqueço. Mas sempre não posso! Anno atraz d'anno não posso! Não há mais nada! não há mais do que estas figuras paradas, e as horas verdes que de espaço a espaço caem como gôtas d'agua no fundo d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo ainda para a morte! Sinto uma dôr sem gritos por traz da immobilidade. Cada hora é menos uma hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo côr de mataborrão que ao granito salitroso junta camada denegrida, e ás almas sepultadas outra pazada de cinza... Há momentos em que as figuras teem tanta vida como os santos imoveis nos seus nichos--mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita:--Eu não vivi! eu não vivi!--Há momentos em que deparamos com outra figura maior que nos mete medo. A vida é só isto? Por mais que queira não posso desfazer-me de pequenas acções, de pequenos ridiculos, não posso desfazer-me de imbecilidades nem d'este sêr esfarrapado que vae de pólo a pólo. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta idéa e este gesto ridiculo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou só o meu riso é idiota. E estou só e a noite. Por traz daquella parede fica o céo infinito. Para não morrer d'espanto, para poder com isto, para não ficar só e o doido, é que inventei a insignificancia, as palavras, a honra e o dever, a consciencia e o inferno.
E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.
É então um mundo de formulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem elle não poderiamos existir. Se vissemos o que está por traz não podiamos existir. O nosso mundo não é real: vivemos n'um mundo como eu o comprehendo e o explico. Não temos outro. Estamos aqui como peixes n'um aquario. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até á cóva sem dar por ella. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a unica que podemos viver, como é a unica que defendemos com desespero.--Pois sim... pois sim...--Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que é unico e um só, damol-o como se fosse uma insignificancia. Mais fundo: não existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. Já não reparo, já vejo turvo.--Jogo!--E de repente todo o meu sêr é sacudido pelo espanto que tacteia á minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas sinto-o aqui ao meu lado--sem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem quero! Se me alheio um momento dou um grito de dôr. Escaldo-me.
Na verdade o que eu não posso é vêr, o que eu não quero é vêr! A villa regula-se por habitos e regras seculares--mas há outra coisa enorme para lá do scenario de que me rodeio. Para não ter medo criei eu isto, para a não vêr criou o Santo o inferno. Há outra coisa esfarrapada e dorida.--Jogo!--Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me parecem mais gastas. Há outro sêr que vae de pólo a pólo... Esta figura grotesca não é a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus nichos--roeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos inuteis para não desatar aos gritos.--Jogo!--Isto para fingir que é indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Está alli a morte--está aqui a vida--está aqui o espanto--e só a ninharia consegue deitar raizes profundas.
20 de novembro
Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céo, e na luz turva vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas chapeadas que rangem nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de pó sobrepostas. Lojas terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas, todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo uma figura por outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim, com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir os gestos, as cortezias, as acções do confim dos seculos. Isto é nada--é vulgar e quotidiano. É uma aparencia.
A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
Atraz desta villa há outra villa maior. A lentidão, o gesto usado, a meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu uma camada de pó. A villa é isto--e a villa não é isto. Que me importa a Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquíescencia, um sorriso, baba, mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha. As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sêr absorto, o exagero minusculo, teem outra significação. A realidade é a manha, a astucia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há orgulho, soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha na ponta dos pés. Há forças e experiencia, avareza e astucia. E mais fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam teem, além da significação banal, uma significação que cada um peza e calcula,--e outra significação superior. Há palavras que requerem uma pausa e silencio, e há palavras que é preciso afundar logo n'outras palavras. Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda a gente conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer esgares. Elle e o doido que só consegue comprimir á força de pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos--é outra. Tem tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se arrisca, há-de contar comsigo mesma para se contrariar. É uma discussão que não acaba, com a bocca amarga, arrependimento--e por fim não realisa uma catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas frias...
Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias teem uma força enorme: são ellas que nos sustentam.
Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como é dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo é forçoso seguir um fio invisivel--e ser reles e sorrir. Gasta-me uma força superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um tabique. Tudo o que faço é um arremedo. Está alli outra coisa quando falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouço mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os dias, as aflicções e a usura que tornam as figuras ridiculas e coçadas. Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cóva, os pequenos interesses, a inveja, a ambição, a dôr phisica. Todos os dias a Hermengarda amarga os brazões da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se deposita nas almas--e com isto uma coisa desconforme, que se levanta e deita comnosco, não se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com quem temos por força de cohabitar; deante de quem é forçoso ser vulgar e dissimulado, fazendo que a não vemos e com ella á cabeceira da cama...