Part 8
D. Camilla levantou os hombros.--Acho-lhe o nariz torto, disse.
--Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido. E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E depois tinha um coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a sonata da impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos, não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.
--O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.
Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal, é um problema difficil de resolver, principalmente agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veiu a nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que dizer: prefiro a familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e sumida, e um ar de profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente a rejeição, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.
D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa. Não faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a passeiar a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura dos annos; mas a belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos, superava a da filha. Não vamos ao ponto de crêr que o sentimento da superioridade é que animava D. Camilla a prolongar e repetir os passeios. Não: o amor materno, só por si, explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal ha em que um bravo coronel defenda nobremente a patria, e as suas dragonas? Nem por isso acaba o amor da patria e o amor das mãis.
Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla farejou depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle; tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda aversão á vida diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla buscou-os com alma; indagou de suas relações, habitos, passado. Conseguiu achar umas cousinhas miudas, tão sómente a unha da imperfeição humana, alternativas de humor, ausencia de graças intellectuaes, e, finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a bella dama o apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do silencio; lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas, depois as phrases curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as absorpções, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por traz da ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da mãi coincidiam com as ausencias da filha, achou que era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos deuses.
Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de uma noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um genro que trouxesse á filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E, uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora só ella pudesse ouvil-o. Tu, psychologo subtil, pódes imaginar que ella queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....
Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia que a ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é independente e superior. A belleza physica é irmã da paysagem. D. Camilla saboreava essa fraternidade intima, secreta, um sentimento de identidade, uma recordação da vida anterior no mesmo utero divino. Nenhuma lembrança desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa expansão mysteriosa. Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade, e os quarenta e dous annos em que ia não lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de rosa. Olhava para fóra, olhava para o espelho. De repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto, sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do marido; mas reconheceu depressa que não, que era d'ella mesma, um telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas forçadas. O primeiro sentimento foi de prostração. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida e acabada no fim de uma semana.
--Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o camarote que papai mandou.
D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e lepida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar este sentimento máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella mesma noite. Uma idéa expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das luzes e das gentes, e depressa levantou o coração. Ficando só, tornou a olhar para o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e deitou-o á chacara. _Out, damnet spot! Out!_ Mais feliz do que a outra lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita mancha! sae!
Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão da filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostração. A belleza, que lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem, como uma pomba sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanças que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus _babies_, gorduchos, uma segunda geração que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar ou fumar, apresentar outros _babies_ a outras pessoas, e assim por diante.
D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio, senão aceitar um genro? Mas, como um velho costume não se perde de um dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na sala, sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o papel da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D. Camilla), vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas tambem sem a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente sogra colheu os melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos hombros um retalho de purpura.
Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o neto com amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve de pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto. Só dias depois é que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar; era avó. Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, avó.
Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha para casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os seus mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla rasgou o acto de abdicação e tornou ao tumulto.
Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois, e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a preta e a creança.--Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o sol. Não vá cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com elle. Cubra a carinha, etc., etc.
Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança, tão a miudo, tão sem outra senhora, que antes parecia mãi do que avó; e muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto; attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.
FIM DE UMA SENHORA.
ANECDOTA PECUNIARIA
Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia--quatorze de Abril de 1870--quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia passear na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca, resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes, sentava-se; outras, encostava-se á janella, olhando para a praia, que era a da Gambôa. Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco tempo.
--Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que seja feliz!
Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer; se descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas com desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de calculo, que, ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguem lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para esbanjal-o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. Vai muitas vezes á burra, que está na alcova de dormir, com o unico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de titulos. Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniario, contempla-os só de memoria. N'este particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.
Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
--É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.
--Não; é verdadeira.
--Dê cá, disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:
--Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.
Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada. Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e francos, tão arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto com que pegou na nota de cinco mil réis, era um rasgo subtil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, não por serem criminosos, mas prejudiciaes, por desmoralisarem o dinheiro bom.
A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito, exclamando com enthusiasmo:--«Pegavam no caixão tres mil contos!» E, como um dos ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava d'elle, e discriminou a affirmação:--«Fulano quatro centos, Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas supponhamos quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e concluindo:--«Justamente, tres mil contos!»
Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que não comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber um patacão de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido accumulado em tempo; não podia começal-o a ganhar tão tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o premio grande.
Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma irmã viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delirio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, emfim, recolheu a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de contente; durante as primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé d'ella, ouvindo-lhe historias e tolices.
Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica. Trouxe o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze annos, cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho solteirão á filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na casa; aos dezesete era verdadeira dona. Não abusou do dominio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.
--Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.
Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia jogar com o Falcão, á noite. Jacintha assistia ás partidas. Tinha então dezoito annos; não era mais bonita, mas diziam todos «que estava enfeitando muito.» Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixão.
--Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de ave-marias.
As cartas eram o chapéu de sol dos dous namorados. Não jogavam a dinheiro; mas o Falcão tinha tal sêde ao lucro, que contemplava os proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver se ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte teimava em perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se tão melancolico e cego, que a sobrinha e o parceiro podiam apertar a mão, uma, duas, tres vezes, sem que elle visse cousa nenhuma.
Era isto em 1869. No principio de 1870 Falcão propoz ao outro uma venda de acções. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em offerecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contracto a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negocio, que o socio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacintha. Foi o mesmo que, se de repente, começasse a fallar turco. Falcão parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas então...
--Sim; confesso a vossê que estimaria muito casar com ella, e ella... penso que tambem estimaria casar comigo.
--Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está muito criança, não consinto.
--Mas reflicta...
--Não reflicto, não quero.
Chegou á casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber o que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e ingrata. Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os tão dados, que não imaginou nunca esse contraste de affeições. No quarto chorou á larga; depois escreveu uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, que não fizesse barulho nem brigasse com o tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.
Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais escassas e frias. Jacintha não vinha á sala, ou retirava-se logo. O terror do Falcão era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de cão, que persegue e morde aos extranhos. Queria-a para si, não como homem, mas como pai. A paternidade natural dá forças para o sacrificio da separação; a paternidade d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso mesmo, mais egoista. Nunca pensara em perdel-a; agora, porém, eram trinta mil cuidados, janellas fechadas, advertencias á preta, uma vigilancia perpetua, um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D. Bartholo.
Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois mezes do prazo marcado para a entrega das acções. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as acções, como as loterias e as batalhas, zombam dos calculos humanos. N'aquelle caso, além de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.
Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de genio. Na vespera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propoz elle custear todo o _deficit_, se lhe désse a sobrinha. Falcão teve um deslumbramento.
--Que eu...?
--Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.
--Não, não...
Não quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impressão fôra de alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a idéa de separar-se de Jacintha era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manhã, encarou a situação, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao outro, não a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E, depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razão separal-os? Todas as filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vêr felizes. Correu á casa do Chico Borges, e chegaram a accordo.
--Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. Tão minha amiga que ella era! Tão amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal, muito mal.
Cessára o terror dos dez contos; começára o fastio da solidão. Na manhã seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha não se limitou a regalal-o com um bom almoço, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoço lhe restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos entristeceu-o mais. Ao voltar para casa não achou a carinha meiga de Jacintha. Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ella quem lhe faria o chá, quem lhe traria, á noite, quando elle quizesse ler, o velho tomo ensebado do _Saint-Clair das Ilhas_, dadiva de 1850.
--Fiz mal, muito mal...
Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a casa da sobrinha, e ia lá jogar, á noute, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes depois, os recem-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a extensão do mar. Falcão contava então cincoenta e quatro annos. Já estava mais consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de ir morar com elles, ou de graça, ou mediante uma pequena retribuição, que calculou ser muito mais economico do que a despeza de viver só. Tudo se esboroou; eil-o outra vez na situação de oito annos antes, com a differença que a sorte arrancára-lhe a taça entre dous goles.
Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã viuva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falcão não prometteu nada, por que um certo instincto o levava a não prometter cousa nenhuma a ninguem, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão depressa a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento; ao contrario, abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroço de namorado, e quasi abençoou a morte da irmã. Era outra vez a filha perdida.
--Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.
Não era facil. Virginia tinha dezoito annos, feições lindas e originaes; era grande e vistosa. Para evitar que lh'a levassem, Falcão começou por onde acabara da primeira vez:--janellas cerradas, advertencias á preta, raros passeios, só com elle e de olhos baixos. Virginia não se mostrou enfadada.--Nunca fui janelleira, dizia ella, e acho muito feio que uma moça viva com o sentido na rua. Outra cautella do Falcão foi não trazer para casa senão parceiros de cincoenta annos para cima ou casados. Emfim, não cuidou mais da baixa das acções. E tudo isso era desnecessario, porque a sobrinha não cuidava realmente senão d'elle e da casa. Ás vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ella mesma alguma pagina do _Saint-Clair das Ilhas_. Para supprir os parceiros, quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e, entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o unico fim de dar ao tio um accrescimo de prazer. Elle ria então á larga, mofava d'ella, achava-lhe o nariz comprido, pedia um lenço para enxugar-lhe as lagrimas; mas não deixava de contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum cahia no chão (eram grãos de milho) descia a vela para apanhal-o.
No fim de tres mezes, Falcão adoeceu. A molestia não foi grave nem longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi então que se pôde vêr toda a affeição que elle tinha á moça. Cada visita que se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão. Os mais intimos padeciam mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que ainda não era cadaver, que a carniça ainda estava viva, que os urubús enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca Virginia achou n'elle um só instante de máu humor. Falcão obedecia-lhe em tudo, com uma passividade de creança, e quando ria, é porque ella o fazia rir.
--Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu filho...
Falcão sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao pé da cama, contando-lhe historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a gallinha, lia-lhe o sempiterno _Saint-Clair_. Veiu a convalecença. Falcão sahiu a alguns passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com que esta, dando-lhe o braço, ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de algum homem, encantavam o Falcão.
--Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia, chegou a pensal-o em voz alta:--Não é verdade que você me ha de fechar os olhos?
--Não diga tolices!