Historias Sem Data

Part 10

Chapter 103,988 wordsPublic domain

--Tinha dezenove annos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia... Ninguem esperava tal cousa de um rapaz tão cautelloso, que fugia de tudo, dos somnos atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, ás apalpadellas. Fui á ceia; era no Jardim Botanico, obra explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um appetite de vinte annos. Hade crer que não comi nada? A lembrança de tres indigestões apanhadas quarenta annos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veiu sentar-se á minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambem, e veiu para a minha esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retrahi-me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fóra?

--Com effeito...

--Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreiada por uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico, atado ao proprio cadaver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?

--Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro, batendo as azas e amarrado pelos pés...

--Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula; é isso mesmo. Um passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...

José Maria ergueu-se, agitando os braços, á maneira de azas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas elle não deu por ella. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um passaro, um grande passaro... De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadencia de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor approvava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para vêr se ouvia passos na escada. Tudo silencio. Só lhe chegavam os rumores de fóra:--carros e carroças que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:

--Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixão, uma mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pincelladas de buço, que lhe completam a physionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu ás vezes digo-lhe rindo que ella não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um fazendeiro de Cantagallo. Saimos namorados um do outro. Já sei o que me vae perguntar: porque é que não nos casamos, sendo ambos livres...

--Sim, senhor.

--Mas, homem de Deus! é essa justamente a materia da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Côrte namorados. Clemencia morava com o velho pae, e um irmão empregado no commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em Matacavallos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma phrase, duas phrases, e estavamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdôe estas cousas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão. Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que sahi dalli tonto, desvairado, com a imagem de Clemencia na cabeça e o sabor do beijo na bocca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida unica; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar dahi a um mez. Cheguei ás derradeiras minucias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria vôou, como as mutações á vista nas antigas peças de theatro. Veja se adivinha como.

--Não alcanço...

--Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me cousa peior:--podia ficar o fastio. Conclui a _toilette_ de dormir, accendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivencia, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas indoles podiam ser incompativeis; e que fazer com duas indoles imcompativeis e inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda creancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penuria, doenças; podia vir alguma dessas affeições espurias que perturbam a paz domestica... Considerei tudo e conclui que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?

Não esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bella cabeça, no meio do desalinho proprio do estado; ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a historia, dizendo que deixou de ir á casa de Clemencia, durante seis dias, mas não resistiu ás cartas e ás lagrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ella ouviu-o com muito interesse, e quiz saber o que era preciso para acabar com tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe désse.--A resposta de José Maria foi uma pergunta.

--Está disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu. Clemencia jurou que sim. «Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado.» Comprehendo que Vossa Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.

--Não, senhor...

--Como não? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. «Deixo tudo, disse-me ella; você é para mim o universo.» Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa Anna do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. «Entendo, disse a Clemencia, você sacrificou tudo, por que tinha noticia da herança.» Desta vez, Clemencia não chorou, pegou em si e sahiu. Fui atraz della, envergonhado, pedi-lhe perdão; ella resistiu. Um dia, dous dias, tres dias, foi tudo vão; Clemencia não cedia nada, não fallava sequer. Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter com ella, e apresentei-lh'o: é este.

Monsenhor Caldas empallideceu. José Maria mostrou-lhe o revolver, durante alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:

--Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustámos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma condição: doar os vinte mil contos á Bibliotheca Nacional. Clemencia atirou-se-me aos braços, e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Ha de ter lido nos jornaes... Tres semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendissima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao tragico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia. Não lhe fallo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das illusões de saia rota, nem do tal passaro... plas... plas... plas...

E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não podia comer um figo ás dentadas, como outr'ora; o receio do bicho diminuia-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preoccupações, desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas tres quartas partes dellas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéa de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia suggerir o epigramma digestivo, na rua, debaixo de um lampeão. A experiencia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrario, perdera até, porque fôra levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que elle sonhou?

--Não atino...

--Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. «Toma, disse-me elle; são os lyrios da Escriptura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pôde hombrear com elles. Salomão é a sapiencia. E sabes o que são estes lyrios, José? São os teus vinte annos.» Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou delles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flôres. Então, o Diabo, escancarando uma formidavel gargalhada: «José Maria, são os teus vinte annos». Era uma gargalhada assim:--cá, cá, cá, cá, cá...

José Maria ria á solta, ria de um modo estridente e diabolico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de Clemencia eram doces, mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem mal. Ella arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a physionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, tambem de pé, começou a recuar, tremulo e pallido. «Não, miseravel! não! tu não me fugirás!» bradava José Maria investindo para elle. Tinha os olhos esbugalhados, as temporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.

NOITE DE ALMIRANTE

Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam tres horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta d'elle voltou de uma longa viagem de instrucção, e Deolindo veiu á terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:

--Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você pasmar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Collosinho de Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles dizem, uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começára a paixão tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte annos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, elle deixaria o serviço e ella o acompanharia para a villa mais recondita do interior.

A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remedio senão seguir em viagem de instrucção. Eram oito ou dez mezes de ausencia. Como fiança reciproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.

--Juro por Deus que está no céu. E você?

--Eu tambem.

--Diz direito.

--Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.

Estava celebrado o contracto. Não havia descrer da sinceridade de ambos; ella chorava doudamente, elle mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa com um tal aperto no coração que parecia que «lhe ia dar uma cousa». Não lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes, dez mezes, ao cabo dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.

Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao principio da Gambôa, onde mora Genoveva. A casa é uma rotulasinha escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; lá deve estar Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas bonitas, ou que lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os beiços d'elle, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos palacios de outras terras. Foi á custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem. N'isto chegou á Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa fechada. Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.

--Não me falle n'essa maluca, arremetteu a velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o lindo amor.

--Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas que apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...

--Mas virada porque?

--Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo outro. Ella então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me sahia da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse que não queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este tamanho, dizendo que nunca diffamou ninguem e não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos á porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada commigo.

--Onde mora ella?

--Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de novo.

Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do Alferes, entrára na praia Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhança poderia achal-a. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar á janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o marujo.

--Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabeça, sem a fórma precisa do raciocinio ou da reflexão, mas em tumulto e rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o sentar-se, pediu-lhe noticias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoção nem intimidade. Deolindo perdeu a ultima esperança. Em falta de faca, bastavam-lhe as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de gente, e durante os primeiros minutos não pensou em outra cousa.

--Sei tudo, disse elle.

--Quem lhe contou?

Deolindo levantou os hombros.

--Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de um moço?

--Disseram.

--Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar só com a acção dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era homem de juizo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como, amanhecera gostando d'elle.

--Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Ignacia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.

Não sorria de escarneo. A expressão das palavras é que era uma mescla de candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que insolencia e cynismo são mal applicados. Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjurio; não se defendia de nada; faltava-lhe o padrão moral das acções. O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem com a affeição do Deolindo, a prova é que quiz fugir com elle; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria declaral-o. Que vos parece? O pobre marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigação eterna, diante da qual consentira em não fugir e embarcar: «Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte». Se embarcou, foi porque ella lhe jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e tornou; foram ellas que lhe deram a força de viver. Juro por Deos que está no céu; a luz me falte na hora da morte...

--Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a gostar d'elle...

--Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais ninguem...

--Deixa d'isso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de partes...

--A que horas volta José Diogo?

--Não volta hoje.

--Não?

--Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar sexta-feira ou sabbado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe fez elle?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe dariam uma expressão tão candida, não de proposito, mas involuntariamente. Vêde que estamos aqui muito proximos da natureza. Que mal lhe fez elle? Que mal lhe fez esta pedra que cahiu de cima? Qualquer mestre de physica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matal-o. Genoveva olhou, para elle com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como elle lhe fallasse de ingratidão e perjurio, não poude disfarçar o pasmo. Que perjurio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade. Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que tanto enchia a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado d'ella por onde andou?

A resposta d'elle foi metter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe trazia. Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu com os brincos. Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles, contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a janella e a rotula, para ver o effeito que lhe faziam. Recuou, approximou-se, voltou a cabeça da direita para esquerda e da esquerda para a direita.

--Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de agradecimento. Onde é que comprou?

Creio que elle não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque ella disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, tão confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão de cinco ou quatro minutos; pode ser que dous. Não tardou que tirasse os brincos, e os contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava no meio da sala. Elle pela sua parte começou a crer que, assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia tambem perdel-a; e, provavelmente, ella não lhe jurára nada.

--Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.

Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. Já não podiam ver o hospital dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas lanchas e canôas, postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a terra e o lodo da praia. Genoveva accendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma cousa das terras por onde andara. Deolindo recusou a principio; disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns passos na sala. Mas o demonio da esperança mordia e babujava o coração do pobre diabo, e elle voltou a sentar-se, para dizer duas ou tres anecdotas de bordo. Genoveva escutava com attenção. Interrompidos por uma mulher da visinhança, que alli veiu, Genoveva fel-a sentar-se tambem para ouvir «as bonitas historias que o Sr. Deolindo estava contando». Não houve outra apresentação. A grande dama que prolonga a vigilia para concluir a leitura de um livro ou de um capitulo, não vive mais intimamente a vida dos personagens do que a antiga amante do marujo vivia as scenas que elle ia contando, tão livremente interessada e presa, como se entre ambos não houvesse mais que uma narração de episodios. Que importa á grande dama o auctor do livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episodios?

A esperança, entretanto, começava a desemparal-o e elle levantou-se definitivamente para sahir. Genoveva não quiz deixal-o sahir antes que a amiga visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos. A outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em França e pediu a Genoveva que os puzesse.

--Realmente, são muito bonitos.

Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de os ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos, saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente; mas foram só alguns segundos.

Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o até á porta para lhe agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas cousas meigas e inuteis. A amiga, que deixára ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra: «Deixa d'isso, Deolindo»; e esta outra do marinheiro: «Você verá». Não poude ouvir o resto, que não passou de um sussurro.

Deolindo seguiu, praia fóra, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metaphora de marujo, como um homem «que vai do meio caminho para terra». Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou á outra a anecdota dos seus amores maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os seus bonitos modos; a amiga declarou achal-o grandemente sympathico.

--Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse agora?

--Que foi!

--Que vai matar-se.

--Jesus!

--Qual o que! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as cousas, mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciumes. Mas os brincos são muito engraçados.

--Eu aqui ainda não vi d'estes.