Part 2
Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua vingança na estatua do marquez de Montemór já que, por se ter refugiado em Castella, não podéra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do rei, fôra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia á Providencia o ter-se encarnado na pessoa de João de Pegas para o salvar; senão, haver-lhe-ia acontecido o que acontecêra a D. Pedro de Athayde, que fugindo de Setubal para Santarem fôra preso no caminho, publicamente degolado e feito em quartos.
Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Fernão da Silveira das repetidas instancias que D. João II fazia junto dos reis catholicos para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em não querer parecer fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.
Mas em 1488, como D. João II enviasse a Castella uma embaixada a pedir para o herdeiro da corôa a mão da filha primogenita dos reis catholicos, Fernão da Silveira, receiando que pelo facto do casamento se estreitassem, como era natural, as relações de amizade entre as duas côrtes, resolveu-se a fugir para França acompanhado pela manceba e pelo filho.
Não devia, porém, considerar-se muito seguro em França um conspirador representante da nobreza insurgida contra o poder absoluto dos reis.
Luiz XI, que tinha morrido poucos annos antes, em 1483, havia sido um inimigo implacavel dos poderosos senhores do seu reino, que formaram contra elle a celebre liga do _Bem publico_. Sabe o leitor que Luiz XI se fizera rodear de gente de baixa estofa, que continuamente atiçava a colera do rei contra a nobreza. Vivêra mano a mano com o seu barbeiro Olivier Le Daim, e tratava por compadre o preboste Tristan, executor dos seus planos sanguinarios.
Estava ainda muito viva a lembrança das crudelissimas represalias de Luiz XI,—da vingança que tirára do seu ministro Jean Balue, que de simples presbytero chegára a ser cardeal de Santa Suzana e que, suspeito de ter atraiçoado o rei com o duque de Borgonha, fôra, no castello de Plessis, encerrado n'uma gaiola de ferro, onde não podia conservar-se deitado nem de pé; do supplicio horrivel de Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, e de seus filhos, na fortaleza de Loches; finalmente do drama tragico-burlesco dos ultimos tempos da sua vida n'aquelle mesmo castello de Plessis, onde Jean Balue padecêra, e onde Luiz XI, assaltado pelos terrores da morte, fazia vigiar as avenidas pelo barbeiro Olivier e pelo compadre Tristan, que se encarregavam de enforcar nas arvores do parque todo o individuo que podesse inspirar-lhes desconfiança.
Luiz XI havia pois morrido em Plessis, onde passára os ultimos dias passeiando ao longo d'uma vasta galeria, torturado pelo medo da justiça eterna, sem que podessem tranquilizal-o o espectaculo dos combates de gatos e ratos, as danças dos camponezes, as orações e as penitencias a que se entregava, e sem que podesse avigoral-o o uso de beber o sangue das creanças no intuito de fortalecer-se e remoçar.
Nem este tonico vivificante, nem o soccorro do eremita da Calabria, que mandára buscar para consultal-o, e ao qual pedia a vida chorando, haviam podido salvar da morte Luiz XI.
O herdeiro do throno, Carlos VIII, tinha treze annos quando foi proclamado rei, e sua irmã, Anna de Beaujeu, investida na regencia, procurava conservar intacto o poder real, dominando a nobreza.
Depois da batalha de Saint-Aubin, ferida em 1488, em que o duque de Orléans cahira prisioneiro nas mãos da regente, que o conservou dois annos encarcerado, diz-se que, principalmente, para vingar-se dos seus desdens amorosos, Fernão da Silveira entendeu como mais prudente abandonar uma côrte, onde a nobreza continuava a ser esmagada pelo poder real, e foi estabelecer o seu _faux ménage_ em Avinhão, a cidade sagrada, que um legado do papa governava.
Em Avinhão, Fernão da Silveira tinha horas de cerrada melancolia, quando ermava contemplativo junto ao tumulo da Laura de Petrarcha, e aproximava o seu destino do destino do poeta italiano, ambos infelizes, posto que por differente motivo.
Petrarcha apaixonára-se aos vinte annos pela bella Laura, que nunca foi sua, pois que desposára Hugues de Sade, a quem, victima da peste de 1348, deixára viuvo com a descendencia bem pouco lyrica de onze filhos.
Fernão da Silveira, menos infeliz pelo que respeitava ao feminino, tinha comsigo, em mancebia adulterina, a sua Laura, a qual procurava suavisar-lhe as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.
Mas como poeta e exilado, comprehendia a solidão dolorosa de Petrarcha em Valchiusa, á beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se juntando idealmente as suas angustias ás do poeta que, tendo alli cantado um seculo antes, vivêra solitario como elle e como elle perseguido pela fatalidade do destino.
Entrado o anno de 1489, o espirito de Fernão da Silveira principiou a ser assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava reprimir.
Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creança de pouco mais de oito annos, não lograva serenar.
Imprecava violentamente D. João II, que continuava a denominar o tyranno de Portugal.
Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justiça do céo havia de cahir tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do coração, se aquelle coração tinha alguma coisa de humano. Parecia que Fernão da Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da corôa.
Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D. João II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da liberdade.
Mostrava alimentar a esperança de que a sua morte e a dos outros conspiradores seria vingada pelo veneno ou pelo punhal na pessoa do rei.
Ainda n'isto se não enganou Fernão da Silveira, porque os intestinos de D. João II parece terem cedido lentamente á acção toxica das drogas preparadas por mestre João de Masagão de accôrdo com o duque de Beja.
O inverno de 1489 havia sido cruel em toda a Europa. Estava-se em dezembro, os dias eram plumbeos, as noites tempestuosas.
Fernão da Silveira dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues:
—A cada silvo do vendaval sinto-me estremecer interiormente, como um predio que vai desabar... É o presagio da morte, Izabel. Morro longe da patria, longe da familia que eu constitui em tempos de felicidade. Morro ao pé de um filho, e tenho saudades de outro. O coração é assim feito. Foi o tyranno que me casou, porque na côrte dos reis poderosos nem o coração é livre. Nunca tive nem podia ter por minha mulher a febre de amor com que tu me incendiaste os sentidos. É a ti que eu amo, boa alma, que tanto te tens doído das minhas dôres. Vivo comtigo com o mesmo direito com que o tyranno abandonava a rainha para se ir emboscar em Cernache do Bom Jardim com D. Anna de Mendonça, a mãe do bastardo. Se alguem n'este ponto podesse tomar-me contas, não era por certo o tyranno, tão fragil com mulheres. Mas da esposa que não amei nunca, tenho um filho que sempre tenho amado, e peza-me que elle haja de arrastar na sociedade a infamia com que o tyranno enlameou protervamente o meu nome. Outro filho tenho... é o teu, é o nosso, Izabel, e d'esse me peza duplamente, porque só póde ser meu filho para compartir da deshonra do pai com o irmão.
Izabel Rodrigues acudia com palavras carinhosas a desviar-lhe o espirito para menos lastimosos pensamentos, mas o conspirador quedava-se triste, calado, dando a perceber que continuava mentalmente os raciocinios que a manceba meigamente pretendêra interromper.
No dia 8 de dezembro, Fernão da Silveira lembrára-se saudosamente de Portugal, recordando com grande nitidez de memoria muitos episodios da sua vida da côrte. Izabel Rodrigues tentou distrahil-o; e como no céo, anteriormente caliginoso, se fossem rasgando clareiras azues, lembrou-lhe que sahisse a passeio.
Dos labios do conspirador escaparam em resposta estas palavras presagas:
—Sahir! Procurar a morte!
Mas como se de subito se envergonhasse da sua fraqueza, disse a Izabel Rodrigues que sahiria.
Lembrou ella que levasse comsigo o filho, que bem podia attrahir-lhe a attenção para as suas graças infantis.
Fernão da Silveira sahiu, e levou o filho.
Foram, caminho fóra, conversando os dois.
Obedecendo á teimosia dos seus pensamentos, Fernão da Silveira ia fallando de Portugal ao filho, gravando na sua memoria, a traços de fogo, o retrato odiento do tyranno.
Á volta de uma rua, encontraram-se a pequena distancia com um fidalgo catalão, cujo nome e situação Fernão da Silveira muito bem conhecia. Era, como elle, um conspirador, que andava foragido de Castella: o conde de Palhaes.
O catalão, em vez de se dispôr a saudar Fernão da Silveira, levou a mão direita ao peito, insinuando-a no gibão. E, ao passar junto de Fernão da Silveira, cravou-lhe rapidamente um punhal no coração.
Não teve o portuguez tempo para resistir; cahiu desamparado na rua.
Mas o pequeno Alvaro, vendo o pai morto, desatou em gritos dilacerantes, que despertaram as attenções, e chamaram gente.
O conde de Palhaes foi logo preso, conduzido ao carcere em nome do rei de França, que não era já Luiz XI, como sabemos, porque Luiz XI havia morrido seis annos antes.
A opinião publica alvorotára-se com este acontecimento, pela significação que realmente tinha. O braço do conde de Palhaes fôra manifestamente armado por D. João II, que ao catalão fizera _mercê de muita somma de ouro, em que se primeiro concertou_, como escreve Garcia de Rezende. Não podéra o rei de Portugal ser feliz nas negociações que para haver á mão Fernão da Silveira entabolára com os reis catholicos e com o rei de França. Ter-lhe-ia sido por certo bem mais agradavel que essas negociações houvessem surtido effeito, porque lhe permittiriam vingar-se do escrivão da puridade pelo seu proprio braço, como fizera ao duque de Vizeu, ou pelo braço do algoz, como fizera ao duque de Bragança. Mas, posto falhassem os meios a que primeiro recorrêra, não desistíra da vingança. Empregou outros, o da corrupção pelo ouro, sob promessa talvez de que, além do ouro, a sua protecção salvaria o sicario.
N'este ponto enganou-se D. João II.
Morto Fernão da Silveira pelo conde de Palhaes, o rei de Portugal quiz effectivamente valer-lhe, como decerto havia promettido. Mas o mais que pôde conseguir foi que a regente, em nome do rei de França, lhe commutasse a pena de morte em prisão perpetua.
É natural que o catalão désse ao diabo a empreza, vistos os resultados. O ouro que recebêra não podéra ganhar-lhe a liberdade; e D. João II apenas lográra salvar-lhe a vida.
Alvaro Rodrigues, o bastardo de Fernão da Silveira, fôra conduzido a casa por pessoas compassivas que o acompanharam. Levava o fato salpicado de sangue do pai, e impressos para todo o sempre na memoria os pormenores do seu tragico assassinato.
A mãe abraçou-se chorando ao filho, e rompeu em apostrophes violentas contra o tyranno que assalariára o sicario para que elle, á luz do dia, perpetrasse um homicidio dentro da cidade dos papas.
Na memoria infantil do pequeno Alvaro condensaram-se, em torno da recordação do cadaver do pai, todos estes lugubres accessorios, que as lagrimas e os clamores da mãe a cada momento renovavam.
Quando a noticia chegou a Portugal, outra mãe, D. Brites de Sousa, esquecendo na sua dôr as infidelidades do marido, recordou a João da Silveira, seu filho, a historia lacrimosa do pai. Era então menino de poucos annos João da Silveira, mas a recordação do pai, sempre avivada pela narrativa da viuva, fez-lhe grave e triste o caracter. Demais a mais, João da Silveira herdára o talento poetico do pai. Foi, mais tarde, um dos glosadores dos serões da côrte, e um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia de Rezende.
Educou-o a expensas suas D. Diogo Lobo, seu tio, e tambem poeta.
D. Manoel, subindo ao throno, tratou de rehabilitar os conspiradores. A Fernão da Silveira rehabilitou-o na pessoa do filho legitimo, que começou a sua carreira publica por ir servir em Çafim. João da Silveira chegou a ser commendador de Montalvão, governador de Ceylão, trinchante de D. João III, e seu embaixador em França. Morreu em Evora, e foi sepultado na capella do Espinheiro.
Os dois filhos de Fernão da Silveira nunca se deram. A bastardia de um explica naturalmente o facto. Izabel Rodrigues, recolhendo a Portugal, não recorreu á protecção de D. Brites de Sousa, nem D. Brites de Sousa lh'a offereceu.
II
SEIS RAINHAS PARA UM REI
O que eu vou contar é uma historia verdadeira, tão verdadeira como ter havido em Inglaterra um rei chamado Henrique VIII, que casou com seis mulheres e que, sem ter morrido a primeira, passou a segundas nupcias, contra a vontade do Padre Santo.
Aqui principia, pois, todo o interesse do conto, porque, por causa de uma mulher, como sempre acontece, separou-se a Inglaterra da communhão catholica de Roma.
Aquelle rei dos bretões, que ao depois havia de sahir tão voluvel e tyranno, foi na sua mocidade um bom principe, muito amante da musica e das letras e, no respeitante a religião, muito orthodoxo. Seu pai, o primeiro soberano Tudor, acabára dominado pela mania da ambição, que o levára a vexar o povo, de modo que sorrira com Henrique VIII a esperança de uma nova época melhor auspiciada, tanto mais que o rei, acclamado em 1509, tinha casado aos dezeseis annos com a viuva de seu irmão o principe de Galles, D. Catharina de Aragão, princeza virtuosa, que o devia aconselhar prudentemente, sendo que este casamento era duplamente vantajoso, porque d'elle dependia a alliança com a Hespanha e porque evitava que a Inglaterra tivesse que restituir o dote da princeza.
Tão orthodoxo era o joven rei Henrique, que se condecorava com o titulo de _defensor da fé_ porque, tendo rebentado o grande scisma de que Luthero fôra a cabeça visivel, escrevêra contra o lutheranismo, guiado pelas suas predilectas leituras de S. Thomaz d'Aquino, um livro que intitulou _De septem sacramentis_.
O cardeal Wolsey, arcebispo de York, que procedia de baixo nascimento, era junto de Henrique VIII um ministro absoluto. Ora á rainha Catharina pesava que todo o poder residisse de facto nas mãos d'esse homem ambicioso, e como o cardeal o soubesse, espreitou occasião propicia para tirar vingança da rainha.
Conhecendo que Henrique VIII estava namorado de Anna Boleyn, filha do gentilhomem Thomaz Boleyn, procurou despertar na alma do rei certas duvidas a respeito da legalidade do seu casamento com D. Catharina d'Aragão, casamento que aliás havia sido realisado por auctoridade de uma bulla do papa Julio II.
A rainha Catharina, mais velha seis annos do que Henrique VIII, tinha-lhe dado cinco filhos, mas só uma sobrevivêra: a princeza Maria. N'isto quiz o cardeal Wolsey vêr castigo do céo, porque o Levitico fulmina penas contra todo aquelle que desposar a viuva do irmão. S. Thomaz d'Aquino, o auctor predilecto do rei, parece que tambem diz a este respeito alguma coisa. Mas dissesse que não dissesse. O que o cardeal queria era explorar em proveito proprio a paixão do rei por Anna Boleyn.
Henrique VIII gostou de encontrar uma porta aberta ao divorcio. E sem mais demora apparentou os seus escrupulos á rainha.
D. Catharina d'Aragão disse que apenas um anno fôra casada com o principe de Galles, que, pelo seu mau estado de saude, não podéra consummar o matrimonio. Que depois, para o segundo casamento, houvera dispensação de Roma. O rei objectou que desejava vêr a bulla. E a rainha expediu logo, a buscal-a, um gentilhomem seu que se chamava Montoya, e que dentro de vinte dias viera a Hespanha e voltára a Inglaterra com a bulla.
Então Henrique VIII procurou um novo subterfugio: que queria saber de Roma se a bulla era falsa ou verdadeira.
E ordenou que, durante dez dias, ninguem, a não ser o seu emissario de confiança, podesse sahir para Roma.
A rainha, como isto soube, valeu-se ainda de Montoya para que sem demora partisse occultamente para Antuerpia, e d'alli, tomando um navio flamengo, procurasse chegar a Roma primeiro do que o postilhão do rei.
Assim aconteceu. O papa, recebendo Montoya, disse-lhe que a bulla era verdadeira, e que a enviaria a Inglaterra por mão do cardeal Campeggio. E o mesmo respondeu ao emissario de Henrique VIII, que ficou desesperado quando teve conhecimento do modo como as coisas haviam corrido.
A rainha, para segurar a vida de Montoya, mandou-lhe recado que se demorasse em Brugges, e ahi esperasse ordens suas.
Entretanto chegára a Inglaterra o cardeal Campeggio. O rei tomára por seu patrono o cardeal Wolsey, a rainha o cardeal Campeggio, e marcou-se o praso de um mez para que cada um dos conjuges litigasse o seu direito.
Catharina de Aragão mandou procurar em Brugges um advogado que, tendo medo, não acceitou a procuração, de modo que a rainha ficou sem outro defensor além do cardeal Campeggio.
E reunido um conselho de dezeseis lettrados, oito por parte do rei, oito por parte da rainha, declarára um dos lettrados do rei que o principe de Galles, segundo duas testemunhas podiam jurar, tivera conversação com D. Catharina, porque certa manhã, sahindo da alcôva, dissera alegremente que tinha passado a noite em Hespanha...
A rainha, ouvindo isto, levantou-se indignada, replicando:
—Que o testemunho era aleivoso, por quanto o rei Henrique bem sabia como a havia encontrado.
E, ouvidos tambem os debates theologicos entre os cardeaes inglez e italiano, o conselho dos lettrados reconheceu a dispensação por boa e authentica, ficando resolvido que aquelles dois dignitarios da Igreja dariam sentença no dia seguinte.
O cardeal de Wolsey, vencido n'esta lucta, foi desculpar-se junto do monarcha, que o repelliu agrestemente, accusando-o de não ter sabido levar a cabo o seu plano.
E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn, chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino, para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes dissessem da sua parte que não queria que dessem sentença.
Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os cardeaes não ousaram dar a sentença, indo o de Wolsey lançar-se de joelhos aos pés de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume da côrte.
Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.
Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava resolvido a não reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e logo, reunindo o seu conselho, communicára-lhe esta resolução, bem como a de desposar Anna Boleyn.
Foi resolvido que se convocassem côrtes.
Mas, para não perder tempo, o rei Henrique, que estava então em Greenwich com a rainha, ordenou que Catharina de Aragão partisse sem demora para Kimbolton, a vinte e seis leguas da côrte, sahindo elle proprio para Richmond.
A pobre Catharina de Aragão partiu com os seus fieis criados, e o rei casou em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.
O rei Henrique teimára em passar através de todas as difficuldades.
Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mãi de Anna Boleyn, filha do duque de Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.
—Porque, disse a mãi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua consciencia, ha de achar que minha filha tambem é sua filha.
Mas o rei não achou nada.
Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer á cidade de Londres que passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha Anna.
Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real, seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado tão estrondosamente pela artilheria, que não ficou n'aquelle dia vidraça inteira desde Greenwich até Londres.
O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e de gentishomens e damas em hacaneas e coches.
Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria, no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabeça uma grinalda á maneira de corôa, e nas mãos um _bouquet_ de flôres raras e bellas.
Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma dar aos reis que vão coroar-se mil libras sterlinas, que lhes são entregues por um anjo que desce do arco.
A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais desconfiado do que estivera até ahi, dizendo com os seus botões que aquillo era outra loiça de rainha.
Á porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e, dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vêr.
Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successão que d'elle resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora destinados ao thesouro pontificio.
Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crença, e não quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros João Fisher, bispo de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo dedicou o _Elogio da loucura_, e que fôra, junto de Henrique VIII, o successor do cardeal de Wolsey.
Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da igreja anglicana. Catharina de Aragão recusou-se dignamente, mas não queria sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito cabeça da igreja, negando-se porém terminantemente a reconhecer Anna Boleyn como rainha de Inglaterra.
Roma fulminára terriveis excommunhões contra Henrique VIII. Paulo III, como já havia feito Clemente VII, anathematisára o rei de Inglaterra, citando-o a comparecer perante o tribunal de Roma.
Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de _Virgem_ (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Aragão.
Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo que, na balança do seu coração, o amor ao rei não pesava mais do que o amor ao dinheiro.
Assim foi que ella cobiçou a corda e as joias que pertenciam á rainha Catharina.
Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as mandado derreter no fogo. Mas não fez assim, devolveu-as honradamente, com excepção da corôa, porque estava guardada da mão de lord Rutland, que não a quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.
Lord Rutland é o Martim de Freitas inglez.
Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o coração atormentado da boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.
No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com razão classifica de _lettre touchante_, mas que nós, graças á chronica hespanhola de Julian de Pliego, tão sabiamente annotada pelo marquez de Molins, podêmos reproduzir na integra:
«Senhor meu e rei meu e marido amantissimo: