Historias das Ilhas

Part 12

Chapter 123,349 wordsPublic domain

As hervas e o mais tinham chegado na vespera, á noite. Se o curandeiro ia envergonhar os cirurgiões!... E com estes e com a botica, as duas irmãs tinham gasto mais do que podiam. A boa senhora ensinou á Marianna uma oração, que vinha escripta n’um papel, para ser dicta emquanto se queimassem as hervas. A pobre pagou os remedios com o ultimo dinheiro que levava, e tornou para casa.

Á porta do açougue viu uma bella peça de carne. Suspirou, pensando que nem um caldo poderia dar n’aquelle dia á irmã. E queria-lhe tanto!...--Quando a mãe lhes faltara, o pae andava mettido com a cunhada, a Lauriana, e nem pensava nas filhas. Só a irmã mais velha cuidara na outra, que pouco mais tinha de oito mezes. Era a sua segunda mãe.

O homem do açougue viu-a e adivinhando o motivo d’aquelle suspiro, d’aquella tristeza, offereceu-lhe um coração e um pedaço de figado, que pendiam de um gancho, a escorrerem sangue.

A Marianna quiz recusar, mas por fim acceitou a esmola com reconhecimento.

Entrou em casa de mansinho. Assim mesmo a doente acordou.

--Aqui veem novos remedios, disse-lhe ella, em quanto accendia o lume. Estes agora, sim! Curam a toda a gente. Primeiro vou defumar a casa com as hervas: alecrim, rosmaninho e outras que não conheço. O remedio da garrafa é para se tomar á noite.

A doente abanou a cabeça, com melancholia.

--No dia de Anno Bom, se Deus quizer, já havemos de ir ambas á missa! continuou a Marianna muito alegre, e encostou a porta da cosinha, por ter passado a fumaceira da lenha. Foi ajudar a irmã a sentar-se á borda do leito e voltou para a chaminé. Logo que a lenha formou brazas, deitou-as para um fogareiro pequeno, e sobre ellas acamou as hervas do curandeiro.

Levantou se um fumo espesso e escuro, que invadiu toda a casa.

A Marianna levou o fogareiro para junto da irmã, dizendo ao mesmo tempo:

«A minha casa venho defumar em louvor do Santissimo Sacramento do altar, com as tres missas do Natal, com as tres hostias consagradas, com os tres padres vestidos e revestidos...»

A porta escancarou-se violentamente, e o Francisco Raposo, levantando o machado da lenha com ambas as mãos, cresceu para a Marianna, a gritar:

--Vae-te para as profundas do inferno, bruxa de mil diabos!

O corpo caíu pesadamente no chão, fendido ao meio o craneo pelo golpe do machado.

A doente abriu muito os olhos, e antes que podesse gritar, resvalou para cima do corpo da irmã.

Assim deixaram de viver as duas _feiticeiras_.

--Morto o bicho, morta a peçonha! murmurou o Francisco, e foi entregar-se á prisão.

[Ilustração]

Acabou em Rilhafolles, tres annos depois.

[Ilustração]

Mary

EM quanto nos despedimos, esteve nervosa, commovida.

A familia, como todo o bom inglez, lunchava na sala de jantar situada ao rez do chão da casa, a curta distancia do taboleiro do _croquet_, onde jogavamos, eu e a Mary.

O que não diria o bom Thomas, o pae d’ella, se nos visse jogar d’aquelle modo,--elle que era um taco de primeira ordem, e que nos considerava a ambos como os seus discipulos predilectos!...

Ah! Mas é que nem eu, nem ella pensavamos no _croquet_, e embora fingissemos dar uma grande attenção ao caminho que percorriam as bolas por entre os arcos de ferro, os nossos pensamentos concentravam-se todos, todos, n’aquella separação eminente, que nos impellira, na vespera, a declararmos o amor, que havia mezes transbordava dos nossos corações de dezeseis annos.

Pobre Mary! Com os seus grandes olhos azues velados ligeiramente de lagrimas, fitava-me com melancholia, continuando talvez a fazer mentalmente a pergunta, que me dirigira no dia anterior, quando, afastados um pouco da familia durante o passeio á quinta do Gordon, tinhamos falado longamente do futuro.

--Porque havia eu de partir? _Why?_

Adivinhava-lhe o pensamento e fugia de encaral-a, porque sentia o peito a estalar de magua, e dizia de mim para mim, que melhor fôra que em vez de me mandarem para Lisboa estudar, me deixassem ficar na Madeira, segundo o conselho da Mary, e assaltava-me o desejo de declaral-o a toda a gente, de recusar-me terminantemente a embarcar no _Maria Pia_, que era esperado no dia immediato.

Continuámos a jogar.

Mary, baixando se, como para fazer melhor a pontaria, disse-me com a voz afogada pelos soluços:

--_Dear! It is for the last time!..._

Sim, era a ultima vez que poderiamos trocar uma palavra em segredo!

Não tardaria que terminasse o _lunch_, a que ella se tinha subtrahido, pretextando um incommodo de estomago.

Era a ultima vez em que poderiamos combinar os nossos projectos de futuro esboçados na vespera, e que a nossa ingenuidade considerava infalliveis.

Então, reanimei-me!

Quiz mostrar a Mary que, apesar dos meus dezeseis annos, não era uma creança incapaz de uma grande resolução.

Quem me déra poder repetir o que então lhe disse! O que haverá de mais puro, de mais elevado, do que as palavras que exprimem um primeiro amor, e que desabrocham da bocca do adolescente, com toda a sinceridade, candura e enthusiasmo de que é susceptivel uma alma?

Nos intervallos deixados pelo jogo, que seguiamos machinalmente, mostrei-lhe que eram impossiveis os devaneios formados na vespera; que era um puro sonho de creança o pensar que ella, herdeira rica, poderia ser para mim, que nada possuia; mas que forcejaria por merecel-a, estudando, trabalhando até vencer!

E phantasiava um futuro de triumphos. Antevia o meu regresso á Madeira. Vinha coberto de gloria, subia a calçada do Monte, e ia depôr com ufania todos os louros colhidos, aos pés de Mary, que seria então para mim.

Creancices!

Ella escutava-me, abanando a cabecinha loura, não se deixando convencer e murmurando sempre:

--_No! Never more!_

Então exaltei-me, duvidei do amor de Mary, accusei-a de querer que eu representasse um papel pouco airoso, que désse azo a accusarem-me de especulador...

Convenci-a.

Estendeu-me a sua mão branca, onde ligeiros traços azulados marcavam as ramificações das veias, e disse-me pausadamente, em portuguez:

--Pois então jure-me que voltará, que não se esquecerá de mim, que serei sempre a sua querida, a sua adorada!

Oh! Como eu jurei tudo, tudo, mesmo junto ao arco da campainha!

Ajustámos então manter correspondencia activa.

A Clarinha Correia se encarregaria de receber as nossas cartas.

--Nunca mais me esquece? perguntou ella ainda uma vez, fitando de novo em mim os seus olhos azues, profundos, scismadores.

--_Never more!_ respondi, e estando muito perto d’ella, prestes a acabar o jogo do _croquet_, quiz beijar-lhe de leve, fugitivamente o braço alvo e rosado, que saía da manga larga do vestido.

Mary arredou-se com vivacidade e lançou-me um olhar de censura, em que vinha implicito um _shoking_.

N’aquella occasião levantaram-se da meza, e o taboleiro do _croquet_ foi logo invadido pelos que tinham estado fazendo honra ao _pale ale_ e ás _sandwiches_, e vinham para os canapés de vime gosar a sombra dos grandes castanheiros, que entrelaçavam lá muito em cima as frondosas ramarias, formando um impenetravel docel.

No dia seguinte chegou o vapor da carreira e d’ahi a dois dias parti para Lisboa.

Não consegui trocar mais uma palavra com Mary.

Apenas a Clarinha me disse que poderia escrever-lhe.

Boa Clarinha! Os seus quarenta annos de solteirona nunca se tinham negado a prestar similhantes favores!

* * * * *

Que tempo durou a nossa correspondencia?

Não posso dizel-o ao certo.

O coração esquece tão facilmente!

Lembro-me de que as nossas cartas respiravam paixão e enthusiasmo, desde a primeira até á ultima linha. Eu ás vezes, ao percorrer enlevado as regras perfeitamente parallelas, que deixara no papel lusidio e espesso a letra firme, esguia e commercial de Mary, perguntava a mim mesmo se era crivel que uma loura _miss_ podesse sentir amor tão vehemente e, o que valia mais ainda, ter a coragem de manifestal-o.

Mas certo dia a duvida desappareceu. Li o espantoso idyllio de _Romeu e Julieta_, chorei lagrimas de punho com o soffrimento dos desditosos amantes de Verona, e conclui afinal que se um poeta de além da Mancha tivera espirito e coração para imaginar e sentir aquelle incomparavel poema de amor, não era muito que uma ingleza, em toda a plenitude da mocidade, e habitando de mais a mais um clima quasi tropical, escrevesse cartas como aquellas.

E eu amava-a, oh! se a amava!... Quantas e quantas vezes me não aconteceu no meio de uma lição de mathematica ou de physica, na Polytechnica, caír em profunda abstracção e vel-a, sim! vel-a tal como era--pequenina, loura, rosada, um tanto diaphana, mas em todo o caso um typo adoravel de Gretchen mais candida ainda que a do _Fausto_! Via-a, sem me escaparem sequer uns pequeninos nadas, que a tornavam mais seductora a meus olhos. Mary não transigia, por exemplo, com as modas das suas patricias; não transigia completamente, é claro. Apenas os primeiros assomos da garridice tinham surgido n’ella, com os quinze annos, Mary abandonára o hediondo calçado que tira a certas inglezas toda a similhança com Cendrillon.

O seu pésinho--creiam que não é do meu amor o diminuitivo--o seu pésinho mostrava-se, abaixo da fimbria do elegante vestido, calçando sempre uma airosa botinha, obra do mais habil «shoemaker» funchalense.

Mary constituia um mixto adoravel da candura ingleza, com a animação e a elegancia meridional.

Sabe Deus quantas curvas de segundo grau e quantos instrumentos de optica e de acustica eu deixei de estudar, para scismar unicamente n’aquella creaturinha fascinante!

Eu queria trabalhar muito, queria colher á farta as taes coroas de louro antes sonhadas; mas vinha sempre a saudade sentar-se ao meu lado, diante da meza do estudo, e a nostalgia velar de crepes tudo quanto me cercava.

Fui entristecendo.

Emprehendeu curar-me, um amigo meu que é hoje deputado, não sei bem se progressista, se regenerador.--É tão difficil distinguil-os!...

Obedeci-lhe machinalmente.

--Deixarás de ser nostalgico, apenas eu faça de ti um bohemio.

E levava-me a...

Eu sei lá aonde me levava!

No regresso, tarde da noite, assaltavam-me grandes furias; descompunha-o, protestava nunca mais acompanhal-o, fechar-lhe até a porta da casa de hospedes onde eu morava: mas esquecia tudo, apenas elle no dia seguinte, na escola, me dava um abraço apertado e soltava uma das boas gargalhadas, que ainda não deu em S. Bento, apesar da comedia em que o vejo mettido. Agora, basta que riam d’elle! É que anda expiando cruelmente a cumplicidade, que teve na queda d’este anjo.

D’alli a pouco tempo eu estava perdido, na accepção dos paes de familia, mas tinha-me consolado.

Não se julgue, comtudo, que esquecia Mary.

Pelo contrario!

Pensava sempre n’ella e por amor d’ella estudava, quando a bohemia me não levava até ás ruas da Baixa...

Tanto Mary me não saía do pensamento, que eu estava de continuo a achar reminiscencias do seu rosto, umas vezes, outras da sua fina cintura, da sua mão, do seu pé, nas conquistas faceis que fazia ao lado do meu amigo, actual deputado, e de Luiz de Almeida, aquelle talentoso poeta e bohemio engraçadissimo, que a morte aniquilou tão cedo, mas que ficou memorado no espirito de quantos o conheceram.

* * * * *

Uma noite, na rua do Ouro, ia eu com os meus dois companheiros de extravagancias, quando encontrei, de cara a cara, Henry, um irmão de Mary de que eu era amigo, e que estava estudando em Londres havia dois annos. Pelos modos o pae viera ao conhecimento de que Henry se escapava a miudo do collegio, e fazia frequentes excursões por Piccadily-Circus e Leicester-Square...

O bom Thomas chamava-o para a Madeira, a fim de regeneral-o.

Feitas as devidas apresentações, os meus companheiros declararam á queima roupa ao inglez, que sympathisavam immenso com elle, e logo o convidaram para nos acompanhar n’aquella noite.

Quiz pôr obstaculos, inventei difficuldades, mas tudo foi inutil. O proprio Henry se insurgiu contra mim e acceitou a offerta com prazer. Queria despedir-se alegremente de Lisboa. E despediu-se, em companhia da seductora Lolita, que os meus amigos lhe apresentaram com todas as formalidades... que foram nenhumas.

Quando no dia seguinte nos separámos a bordo do vapor, eu estive quasi a pedir-lhe para guardar segredo da aventura; não o fiz todavia, suppondo que Henry, por conveniencia propria, fosse discreto, e tambem para não lhe despertar suspeitas ácerca do meu amor pela irmã.

Ai! Porque não o fiz?...

No paquete immediato deixei de receber carta de Mary. Escrevi-lhe afflicto, perguntando-lhe o motivo d’aquelle silencio.

Não tive resposta.

Mandei cartas, sobre cartas.

Um dia a Clarinha Correia compadeceu-se de mim e enviou-me este desengano:

«A Mary soube, pelo irmão, coisas terriveis a seu respeito. Esqueça-a, porque ella já o esqueceu.»

Repelli o conselho, e mandei á Clarinha uma carta, que ella deveria ler a Mary, e que seria capaz de commover não só os tigres da Hircania, tão celebrados de poetas e poetastros, mas até um agiota.

A inglezinha resistiu!

Dois annos depois casou.

Como eu estava longe, padeci muito menos que o heroe de _Sous les tilleuls_, e não fiz nenhuma das incriveis tolices, a que elle se abalançou no seu exagerado romantismo.

* * * * *

Dez annos depois.

N’um dia de sol, galgava eu, em companhia de um amigo, o carreiro ingreme e fatigante, que vae das Féteiras para as Sete Cidades, na ilha de S. Miguel.

Apesar de nos terem antes descripto com as côres mais vivas e fascinantes a belleza do afamado valle, já nos sentiamos invadir pelo aborrecimento, em consequencia da posição incommoda em que iamos sobre os burros alugados nas Féteiras, e tambem porque o sol estava ardentissimo.

Ao nosso lado um rapazelho, descalço, jaqueta de picotilho ao hombro e cajado ferrado na mão, trepava o carreiro aos pulos, soltando por vezes o caracteristico «Passa cá i’asno!» e dando com a lingua no ceo da boca estalos frequentes, para animar os jumentos na trabalhosa ascensão.

Adiante de nós, a uma centena de passos, caminhavam na mesma direcção dois viandantes, um homem e uma senhora. Elle, com as grandes pernas pendentes entre as quatro do burrinho e os compridos pés quasi de rastos pelo chão, balanceava muito os braços e levantava-os com frequencia, fazendo gestos de enthusiasmo, quando volvia os olhos para o vasto panorama, que já começava a desenrolar-se por traz de nós, do lado da beira-mar.

Sobre a cabeça campeava-lhe um capacete branco, envolto em alguns metros de cassa da mesma côr.

Por detraz e descendo para a gola do casaco amarello claro, havia melenas louras arruivadas, semelhantes a barbas de milho.

Mas, naturalmente, o que mais nos attrahiu a attenção, foi a companheira do homem ruivo. Sentada de lado, sobre o albardão do burro, envolvia-se desde a garganta até aos pés n’um comprido guarda-pó de hollanda: ao de cima emergia a cabeça, occulta por um chapeu de palha preta, e embrulhada n’um espesso veo de gaze de seda azul; abaixo da roda do guarda-pó viam-se pendentes dois objectos escuros, muito compridos, de fórma estranha, que não raro se agitavam, na ancia de percutirem as ilhargas do jumento.

Mais de perto conseguimos apurar, que os objectos negros eram dois pés.

E levámos ainda mais longe a observação. Quasi perfurando o linho do guarda pó, adivinhavam-se umas saliencias osseas, correspondentes aos hombros, aos cotovellos, e até aos joelhos, não obstante as saias.

--Quanto phosphato de cal daria aquella ingleza? perguntou o meu companheiro.

Eu ia responder com um gracejo de não melhor gosto, quando attingimos a cumiada que limita em roda o extenso valle.

--Eh! Senhores, disse-nos o rapaz dos burros--um cerrado michaelense dos campos--avistam-se d’aqui a _pêuco_ as lagoas.

Apeámo-nos, e, seguindo o conselho que nos tinham dado na cidade, fomos andando para diante, mas olhando sómente para a nossa esquerda, a fim de que o valle das Sete Cidades nos apparecesse de subito, e não gradualmente, á medida que fossemos deixando para traz de nós um morro, que se erguia á nossa direita.

--Virem-se os senhores agora, disse-nos momentos depois o rapaz. Lá estão as lagoas em baixo!

Olhámos para a nossa direita... Um deslumbramento!--No ceo pairavam duas ou tres nuvens, muito brancas, que recortavam cruamente o sinuoso perfil sobre o azul carregado da atmosphera. Abaixo, uma cadeia continua de montanhas fechava n’uma enorme cinta de forma elliptica o valle, em cujo fundo se espelhavam as duas lagoas--azul a maior e mais distante, de reflectir o firmamento; verde a outra, das algas que n’ella mergulham e da vegetação, que se debruça pelas encostas sobranceiras. Na margem da primeira e á nossa esquerda, como que banhando-se n’aquellas aguas frescas e tranquillas, branqueavam as casas de um logarejo, em meio de viçosas plantações.

Entre a povoação e as montanhas que limitam por aquelle lado a immensa cavidade, surgia um monte, de constituição vulcanica e de ilhargas cortadas por sulcos profundos, segundo as linhas de maior declive.

No cimo abria-se a cratera, de que em epochas longinquas golfaram sem duvida ondas e ondas de lava incandescente.

Largo tempo permanecemos a contemplar, extaticos, boquiabertos, o quadro maravilhoso. A magestade imponente do panorama infundia-nos o sentimento de respeito e de humildade, que fatalmente nos subjuga perante os grandiosos espectaculos da natureza.

Fizeram-nos, de repente, saír d’aquelle extase, uns gritos soltados alli perto.

Eram os dois inglezes.

Ella, de costas voltadas para nós, e já sem o veo a cercar-lhe inteiramente a cabeça, dizia por entre paroxismos de admiração:

--_Ooh!... Splendid!... Magnificent, indeed!..._

Quando me parecia reconhecer aquella voz, a ingleza voltou-se e...

Era Mary!

Era sim, mas tão differente, tão mudada, que cheguei a abençoar n’aquelle momento a revelação indiscreta de Henry.

Tinha-se tornado ingleza a valer, sob a influencia do deslavado marido.

Estavamos muito perto um do outro. Ella olhou para mim casualmente, e, sem mostrar a minima commoção, de novo fixou a vista no lindissimo panorama.

[Ilustração]

Eu então vinguei-me, vinguei-me cruelmente!

Esperei uma occasião em que ella me visse, e olhei-lhe para os pés.

* * * * *

Ah! Mas agora noto uma coisa! Tenho escripto tudo isto, como se estivesse narrando um capitulo da minha biographia.

O heroe do conto não sou eu, affianço-lhes, mas sim o Fernando, pae da Lili de que já lhes narrei uma aventura.

Antes me julguem indiscreto, do que me acoimem de ingrato!

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] New-Bedford. É corruptela vulgar nos Açores occidentaes.

[2] Assim chama a Boston o povo dos Açores occidentaes.

[3] A devoção do Espirito Santo espalhada, ao que parece, no velho Portugal continental pela Rainha Santa, e levada pelos primeiros colonos para as ilhas, ainda aqui permanece tão profundamente arreigada, que as festas do Parácleto preenchem grandemente a vida açoriana desde o domingo de Paschoa até ao da Trindade. Todos os que a sorte indigitou para festeiros acceitam o encargo com o maior prazer, e desempenham-o com bizarria muitas vezes incompativel com as suas posses. Emigra o açoriano, vae lidar para Boston, New-Bedford, S. Francisco ou para outro ponto da União em que se concentra a colonisação portugueza; consegue juntar alguns centos de _dollars_ e volta á patria só com o fito de _coroar_ em cumprimento da promessa, e gasta em dois dias o producto de muitos mezes de trabalho. Depois embarca novamente para a America, a proseguir na faina, mas nem de leve arrependido pela sua devota prodigalidade.

[4] Textual.

[5] Aurora.

[6] Cabana.

[7] O actor Ribeiro, que tão notavel desempenho deu ao _Avarento_ de Molière e a muitas outras peças, esteve em Ponta Delgada no começo da sua carreira, e fez no theatro Michaelense o papel do santo portuguez com tamanho exito, que os retratos que tirou vestido e caracterisado como entrava no applaudido drama sacro, espalharam-se por toda a ilha, e passaram das collecções artisticas dos seus admiradores, para os oratorios do povo, e ainda alli são reverenciados--dizem-me--como se representassem o verdadeiro Antonio de Bulhões. Quem sabe lá se este se pareceria physicamente com o artista dramatico?

INDICE

Pag.

O casamento do veterano 1

Os filhos do frade 61

O primeiro desengano 69

A Alegria do Mar 75

A lampreia 89

Mau homem 97

A licença do domingo 107

O contrabando 121

Piloto 129

Na vindima 137

O jantar do general 141

O aprendiz de barbeiro 151

A allemã 161

O marraxo 171

O pae do Jacintho 177

A folga 185

O paiol 209

As feiticeiras 217

Mary 235

=NOTAS DE TRANSCRIÇÃO.=

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados.

Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com ou sem chaves para representar letras sobrescritas.