Historias das Ilhas

Part 10

Chapter 103,889 wordsPublic domain

Um dos que tocam pandeiro levanta mais a voz e prolonga a nota final; segue-se o outro, descendo uma oitava e vae assim por diante a cantoria, com trinados á mistura, acompanhada pelo tambor, em que o folião respectivo dá, segundo o preceito, duas pancadas successivas com a baqueta, depois outras duas e afinal tres. A estes sons juntam-se por vezes o dos pandeiros, e estrepitosos vivas ao «Senhor Esp’rito Santo», que já se tinham ouvido em toda a passagem do cortejo.

Durante a cantilena dos foliões, as _senhoras da villa_ e duas _mulheres do monte_ vão compôr o vestido e o penteado á imperatriz, cuidado aliás inutil a bem dizer, pois se ha «moça bem pregadinha» é a Maria do João Furtado. Como ella, nenhuma tão esmerada na sua pessoa e no seu fato.

O José, a quem não passaram despercebidas estas attenções, revia-se na linda flôr do campo, esquecido de tudo, até do ciume.

Andava n’este comenos o João Terra desempenhando um dos deveres do imperador: tendo recebido de uma das companheiras da imperatriz o sceptro, deitara-o nas mãos, sobre um lenço, e percorria toda a sala, offerecendo aos beijos dos circumstantes a pombinha de prata, que o adorna.

O ultimo beijo, e de certo o mais fervoroso, foi dado pelo dono da casa, quando o sceptro já estava no altar. E nem sequer lhe passou pela ideia o que lhe custava a festa. Custasse o dobro, e elle quereria assim mesmo gosar aquelle direito.

Já todos tomaram logares. Nos melhores ficam as senhoras da Horta, e á ilharga d’ellas, depois de lh’os ter amavelmente offerecido, senta-se muito ancha a mulher do João Furtado.

Lá entra o José, ajoujado com um pratalhaz de arroz doce, e precedido pelo tio, que se pôz em mangas de camisa para mais á vontade servir aos convidados a aguardente de pecego, que passará do frasco de vidro escuro onde está agora, para a bocca dos que hão bebel-a, por intermedio do mesmo calix. Os pechosos não terão que dizer, porque o escanção, isto é, o João Furtado, depois de servir cada um dos seus convidados, limpará a borda do copo á manga da camisa.

Isto de mais a mais é costume tradicional, como tambem é costume comerem todos o arroz doce pela mesma colher. Á entrada do José, lá vinha uma espetada verticalmente ao centro do manjar, e com ella vão todos mettendo para a bocca a competente colherada, e até repetindo a dose, com grave despeito do dono da casa e não obstante o arroz ter certo gostinho a fumo, que nem á força de canella desapparecera de todo.

O José não fugiu com o prato á abusiva repetição, porque estava com o sentido n’outra coisa. Se não encontrava a prima, por mais que a procurasse com os olhos!...

Vae porem socegar: a Maria apparece no quarto immediato e ajudada por outras raparigas põe na meza a ceia dos _foliões_.

Os quatro abancam immediatamente e principiam a devorar com o seu proverbial appetite.

O rufador, para que o vinho lhe ajudasse a deglutição, disse a graça costumada--que a pelle do tambor ia estalar de tanto se lhe ter batido, e que o unico remedio era botar-se-lhe em cima uma pinga. E apenas apanhou á mão o frasco, deitou uma gota no tambor e entornou para os gorgomillos tanta vinhaça, que os companheiros romperam em murmurios, julgando-se lesados.

O segundo folião, antes de beber, faz o brinde habitual:

--Lá vae á saude do imperador de hoje a oito dias!

Ao passo que outro, com a bocca cheia, dispara um «Viva o Senhor do Esp’rito Santo!»

A ceia desapparecia rapidamente dos pratos. Tinha-a feito a Vicencia, irmã do João Furtado, afamada em trabalhos culinarios. Áquella mesma hora temperava ella na cosinha a sopa destinada aos presentes do dia seguinte, muito saborosa com a grande quantidade de carne de vacca e _linguiça_, e cada pão dividido em quatro partes apenas, para que uma unica sopa chegasse para um presente.

Na sala da folga entram muito galhofeiros, com a sobranceria de quem se julga n’um meio que não o merece, o Ricardinho Terra, o Luiz de Carvalho e mais dois rapazes da Horta, isto é quatro _estudantes_, como os appellidam por despreso os moços do campo, que em troca recebem o qualificativo de _diamantes_, não menos desdenhoso na intenção do seu ignorado inventor.

Se a presença dos recemchegados desagradou a todos os rapazes do sitio, que se apinhavam á porta e no terreiro, e que nos bicos dos pés olhavam a custo para o interior da casa, ao José encheu de verdadeira furia.

D’aqui por diante não mais perdeu de vista o menino Ricardo.

Mas ninguem pensava n’elle, que iam principiar as danças e já se ouvia o _mestre da viola_, o Joaquim Machado, na cosinha, onde tinha acabado de ceiar, afinando o instrumento demoradamente, a preceito, sem dar importancia ás impaciencias dos que anceavam por bailar.

No seculo tinha posição humilde--era sapateiro--mas n’uma _folga_ hombreava em valimento com o proprio imperador. É que sem elle não se _brincava_.

Apesar d’isto, o João Furtado, fazendo-se interprete dos desejos geraes, disse-lhe da porta da sala, em voz muito alta.

--O’ Joaquim Machado, pega-me n’essa viola e salta cá para fóra!

--Já se vae! Já se vae! retorquiu o outro, sem se apressar. É preciso pol-a nos pontos!

D’ahi a pouco appareceu á porta, e conscio da importancia inherente ao seu cargo, foi sentar-se junto ao altar.

Tiravam-se pares.

O João Terra escolheu a Maria, ao tempo que um _diamante_ perguntava a esta: «A menina quer brincar commigo?». Desvanecida porque ia dançar com um _senhor da villa_, a quem de mais a mais lavava a roupa, a filha do João Furtado nem sequer deu resposta ao pretendente plebeu.

Outros pares se iam formando, levadas as raparigas com espalhafato para o meio da casa, mas ficando cada _cavalheiro_ a respeito da sua _dama_ como se fossem vis-à-vis de contradança franceza, e assim formando-se de cada lado uma fileira, em que os homens se alternavam com as mulheres. Dois pares consecutivos constituem uma chama-rita e só com elles se pode já executar a dança.

O dono da casa excitava os renitentes, batendo as palmas e bradando:

--Chega a pares! Chega a pares! Ao terreiro!

Como não principiava a musica, o Ricardinho, que ia dançar com uma das senhoras mas que não cessava de olhar para a Maria, disse com o entono de quem quer ser promptamente obedecido:

--Então essa viola não fica afinada por uma vez?

O Joaquim Machado sem se desconcertar, mirou-o altivamente e mastigou como por de mais:

--Está-se tratando sobre esse mesmo objecto.[4]

Quando o tocador muito bem quiz, rompeu a musica e com ella a chama-rita. Os dançantes, ao mesmo tempo que acompanhavam a viola dando estalos com os dedos, bamboleavam-se, saracoteavam-se para a direita e para a esquerda, e faziam passinhos de dança n’um e n’outro sentido, avançando e recuando um pouco, para tornarem sempre ao mesmo sitio.

Um camponio ou _homem do monte_, que era par da dona da casa, cantou:

Ao romper da bella _airola_[5] Sae o pastor da _gaivana_[6] Gritando em altas _vózeas_ Muito padece quem ama.

Chama Rita, chama Rosa, Chama Rita tão formosa!

Quando o cantador principiava a repetir estes dois ultimos versos á laia de estribilho, cada homem, estalando sempre com os dedos e bamboleando-se, recuou seguido pela sua dama, que voltada para elle e com os mesmos ademanes, parecia attrahida pelo chamamento.--D’isto, naturalmente, é que a dança tirou o nome.--Chegadas as duas mulheres de uma mesma chama-rita a altura em que podiam, costas com costas, trocar a posição, effectuaram a mudança, recuando seguidas agora pelos seus pares, até que todos entraram no alinhamento primitivo, mas em ordem inversa. N’esta occasião cada homem fez em relação á dama do outro par da sua chama-rita, um movimento analogo ao que o sr. Justino Soares--valha-me o abalisado choreographo!--chamaria «_balancé au côté_», se desejasse indical-o aos seus discipulos da arte de Terpsychore.

Succederam-se os versos engendrados pela musa popular. O mestre da viola, com um vozeirão de baixo profundo, garganteou:

Coração acima, acima, Se não podes correr anda. Tudo é pouco, bem n’o sabes Para ver a sua dama.

Chama Rita, chama Rosa, Ella que venha cá fora, Venha ver o seu amor Que lhe quer falar agora!

Quando acabava esta ultima quadra, que pelo numero de versos equivale ao estribilho com a sua repetição, e que por isto não foi bisada pelo cantador, o Ricardinho Terra, para saír da monotonia da chama-rita, valeu-se de uma das marcas dos bailes de roda, com que costuma variar-se aquella dança, e disse em tom de marcador de quadrilha:

--Roda cheia!

E logo todos cruzaram os braços e deram as mãos trocadas, formando roda, que depois desfizeram para cada um dos bailadores, enlaçado ao respectivo par, fazer o que nas contradanças francezas se designa pela phrase--valha-nos outra vez o nosso Vestris!--_galop au tour_, com a differença de que o passo é o da chama-rita, ou muito semelhante ao da polka.

A _folga_ animava-se.

Para excitar ainda mais o enthusiasmo, cruzavam-se os:

--Pega fogo!

--Anda!

--Aquece, rapaz!

O Ricardinho, fitando muito a Maria, cantou-lhe:

Aqui tens meu coração, Se o queres matar, bem podes, Olha que estás dentro d’elle E se o matas tambem morres.

O José ia disparatando, mas conteve-se porque o Luiz Carvalho, depois de repetir o ultimo verso da quadra, arreliou o amigo com est’outra, sempre usada para taes casos, viciando-a como os cantadores populares:

Assubi ao altar mór P’ra accender vellas ao throno, Bem tolo é quem se mata Por coisas que já teem dono.

O Ricardinho gritou: «Mãosinhas!», o que se executou dando os pares as mãos, e virando-se cada um dos dançadores alternadamente para os que lhe ficavam contiguos, ao mesmo tempo que iam todos caminhando lateralmente como no _grand rond au tour_.

A provocação do Luiz de Carvalho teve esta resposta, do Ricardinho:

Não ha nada tão perfeito Como o amor de um estudante: Ainda que seja pobre, Sempre tem o amar galante.

Mas um rapaz do sitio corrigiu-lhe de prompto a coarctada, com outra preparada egualmente para casos identicos:

Não viera um vento norte Que levara os estudantes, Para livrar esta terra Dos _homes_ extravagantes.

A furia do José de novo acalmou.

Ainda assim difficilmente deixaria de haver um dos barulhos inherentes a estes passatempos, alguma _poeirada_, se não apparecesse á porta o padre vigario, na occasião em que, indicada pelo Ricardinho, se executava a marca «Salta e rema!», na qual cada homem deve, passando por traz do seu par e tomando-lhe a direita, ir fazer _balancé_ com a pessoa que lhe fica d’este lado, mas sem se darem as mãos, e repetir o mesmo com a da esquerda. Continuam durante isto o _grand rond au tour_, e a estalada com os dedos visto que as mãos se acham livres.

O João Furtado, mal viu o padre, disse em voz muito alta:

--Triloré!

A dança parou logo e todos foram cumprimentar o recemchegado, que vinha honrar a festa com a sua presença.

--A benção de Deus seja n’esta casa! disse o vigario e depois de fazer uma venia á coroa, foi sentar-se na cadeira de balouço, que o João Furtado fizera promptamente desoccupar em obsequio a sua reverendissima.

Mas o desejo do bom do padre, era que as danças continuassem.

Antes de ir para o seminario de Angra, e até quando vinha de lá passar as ferias com a familia, elle não perdia uma unica folga.

Estes divertimentos attrahiam-o ainda, como tudo o que nos traz para diante dos olhos já queimados pelas lagrimas da desillusão, os dias luminosos da mocidade.

Ia recomeçar a chama-rita.

Á pergunta do estylo, que os antigos pares lhes faziam sobre o nome do escolhido para a nova dança, as raparigas em geral responderam, tambem segundo o estylo vulgar «O senhor mesmo!», com grave escandalo dos outros rapazes, que assim continuavam a ser na festa uns meros espectadores, e que se desforraram com o conhecido protesto:

--Caras novas ao terreiro!

A Maria não imitou o maior numero. Como ouvisse o João Terra dizer que já não tinha pernas para folias, e não desejando fazer-lhe desfeita, escolheu o filho d’elle--o Ricardinho. O José ficou embaçado, sem poder mexer-se, e calado como se lhe tivessem amarrado uma mordaça.

Só o tio deu por isto, e para evitar alguma asneira, travou-lhe do braço e disse-lhe em voz baixa, terminantemente:

--Anda commigo, diabo!--E como sentisse alguma resistencia, accrescentou com maior intimativa:--Se não vieres, dou-te na cara, aqui mesmo, deante de todo este povo!

Lá passar por similhante vergonha, isso é que nunca! E devia ao tio tantos favores, apesar de tudo...

Acompanhou-o, mas fez logo uma tenção bem firme. Nem Jesus Christo, que viesse a este mundo, seria capaz de arrancar-lh’a.

O ar da estrada refrescou-lhe a cabeça, sem lhe esfriar a resolução.

Mas as danças continuavam e só a isto é que todos attendiam.--Todos, menos elle.

A Maria cantava com a sua voz estridula e argentina, bem afamada na ribeira dos Flamengos:

Ó Pico, rocha tão alta, Retiro dos passarinhos! Mais retirada que eu ando, Meu amôr, dos teus carinhos!

O José que a ouviu lá fora, resmungou entre si:

--Isso! Isso mesmo! Como se a fogueira inda precisasse de mais lenha!...

E chegou-se para a porta da casa, apparentando indifferença.

A dança animou-se mais, com o crescente enthusiasmo em que estava o Ricardinho. Mal este gritou: «Cadeia!», as mulheres levaram o braço esquerdo atraz das costas, á altura da cintura, e os homens deram-lhes as mãos, indo as direitas de cada par enlaçadas na frente, como no galope, e as esquerdas n’aquella posição. Será bom dizer que mais de uma rapariga se tinha prevenido para o caso, resguardando as costas do vestido no sitio provavel do contacto, por meio de um lenço pregado com alfinetes. Os pares, assim unidos, avançaram para o centro e recuaram, passando cada homem á dama que lhe ficava logo á direita, para com ella executar isto mesmo, e assim successivamente, até encontrar-se de novo com a que lhe pertencia.

Umas das senhoras da cidade, a Annina Mesquita, bem conhecida pelo seu romantismo piegas, cantou com uma voz, que, em homenagem á verdade, deveria chamar-se de canna rachada:

Encostei-me ao pecegueiro, Cobri-me toda de flôr, Ai de mim tão pequenina Tão perseguida de amôr!

Mas por um pouco não deixava a quadra incompleta, porque estrondearam perto, contendendo-lhe com os nervos, duas bombas, deitadas da janella pelo João Furtado, para solemnisar o acabamento da ceia dos _foliões_. Estes saíram á formiga, deixando a bandeira, o tambor e os pandeiros, e levando comsigo, embrulhadas n’um lenço, as opas e os sapatos. Dois tinham de ir para longe, e com similhantes trambolhos nos pés, arriscavam-se a ficar pelo caminho.

Á «cadeia» seguiu-se a marca «Foge!» equivalente á _grande-chaine_, mas principiada com a mão direita, e fazendo os homens um movimento analogo ao _balancé_.

--Quer n’uma, quer n’outra--disse o José comsigo mesmo--o Ricardinho apertou a mão de Maria!

Não tinha duvida.

Da chama-rita, passou-se aos bailes-de-roda, e a outras danças.

No _sapateia de cadeia_ bailou tambem o Joaquim Machado, tomando logar no extremo d’uma das fileiras, viola ao peito, os restantes pares dispostos como na chama-rita.

O José ia estourando de raiva, ao ver a Maria dançar mais uma vez com o Ricardinho, mas conteve-se e foi tirar a Luiza, filha do regedor da freguezia. Andou tão alegre, que até cantou esta quadra popular, com que o João Furtado se escangalhava sempre com riso:

Uma jaqueta de abob’ra, Forrada de melancia, As casas de vento norte, Os botões de calmaria.

Durante ella, as duas linhas de dançadores avançaram uma para a outra e recuaram até ao ponto de partida.

E logo o Joaquim Machado atacou, muito emphatico:

Foge, anda tu, ó meu bem, Foge, amor, que eu tambem fujo, Fujamos ambos p’ra o matto, Para á sombra do tamujo!

O primeiro d’estes versos foi o signal para se executar o «Foge» da chama-rita, ao qual succedeu a «Cadeia» do mesmo baile. Chegados todos aos seus logares, o Ricardinho cantou:

Oh! Sapateia, meu bem. Sapateia de cadeia, Deixa-me ir banhar no mar, No mar que dorme na areia!

O mestre da viola, tocando sempre, retorquiu, com guelas de estentor:

Oh! Sapateia, meu bem! Oh! Sapateia, faz arco! Diga o mundo o que disser, Já d’aqui me não aparto!

Ao primeiro verso, a fileira do lado do Joaquim Machado voltou-se para a direita e a opposta para a esquerda, e cada dançante, com excepção d’aquelle, deu a mão ao seu par e levantou o braço, formando-se assim uma especie de abobada. O tocador e a dama respectiva passaram então sob o arco formado pelo par mais proximo, contornaram o par seguinte, mas pelo lado exterior, e foram passar por baixo do arco do terceiro par, e assim successivamente. O segundo par executou eguaes movimentos, logo que deu passagem ao mestre da viola, e todos os mais foram fazendo o mesmo, com uma regularidade tamanha, que o proprio vigario applaudiu enthusiasmado.

As danças succederam ás danças, e os pares succederam aos pares, não porque alguem desse parte de fraco, mas porque era preciso contentar a todos os que tambem queriam _brincar_ o seu boccadinho.

* * * * *

Era noite velha e ainda a folga não tinha acabado.

As tres senhoras voltaram para a cidade n’uma carruagem, alugada para as levar e trazer; João Terra veiu no seu burrinho, e os quatro rapazes a pé, visto não ser grande a distancia dos Flamengos á Horta, e a noite estar fresca.

Não havia luar, mas as estrellas palpitavam com vivo clarão no fundo negro do ceo, tão limpo de humidade que nem lembrava ceo dos Açores.

O Ricardinho na frente com o Luiz Carvalho, aturava-lhe os remoques, visto que o outro, não tendo podido n’aquella noite justificar a sua fama de conquistador, se desforrava com o amigo.

Mettido no vão de uma porta, para onde correra logo que os viu partir, o José ouviu-lhes a conversa, sem que nenhum dos quatro o presentisse:

--Grande brejeiro, dizia o Carvalho. Quizeste ser imperador sem ter coroado!

--Fala claro, que não te entendo, voltou-lhe o Ricardinho.

--Talvez não arrastasses a aza á imperatriz? Parabens, que a pequena é de estalo! Mas o mais certo é não fazeres vaza. A Maria é muito capaz de judiar comtigo uns poucos de mezes, e deixar-te no fim a chuchar no dedo.

--O futuro a Deus pertence.

--Pois ella é que nunca te ha de pertencer!

O Ricardo Terra estacou, mesmo á ilharga da porta onde estava o José, e disse com a prosapia inconsciente dos seus vinte annos:

--Queres tu apostar em como antes de um mez a tenho no meu rol?

O sobrinho do João Furtado sentiu uma vertigem, um desejo phrenetico de partir, de espedaçar alguma coisa, mas não fez o menor movimento.

Atravez das candeias amarellas que lhe bailavam deante dos olhos, distinguiu que o fato do Ricardo era claro, e escuros os dos mais.

Quando os viu longe, correu para o mesmo lado e entrou n’uma terra, que acompanha a estrada durante uma grande extensão, e que é resguardada por um muro baixo.

Tendo-lhes ganho consideravel deanteira, agarrou n’um pedregulho e acocorou-se por traz do muro.

Pouco teve que esperar. Deitou a cabeça de fóra cautelosamente.

O Ricardinho vinha á direita. Era o mais proximo.

Apenas o teve a dois passos, ergueu-se de chofre, levantou a pedra com ambas as mãos, bem acima da cabeça, e atirou-lh’a com quanta força tinha.

Um grito e o baque de um corpo.

Afastou-se do muro rastejando, e desatou a correr como um coelho em campo aberto. Ainda foi dançar quatro chama-ritas á _folga_ do tio, que só acabou quando já era sol nado.

* * * * *

Nunca se descobriu quem fôra o assassino do Ricardinho Terra.

Como o pae e o filho se tinham envolvido n’uma tramoia eleitoral, falaram os jornaes da opposição em vinganças politicas.

O João Furtado é que de alguma coisa desconfiou, e por causa das duvidas arranjou d’alli a mezes e muito ás occultas, passagem para o José a bordo de uma baleeira.

O rapaz foi ter aos Estados-Unidos. Um anno depois mandou pedir a prima em casamento, aconselhando ao tio que fosse mais ella para S. Francisco da California, pois se haviam de arranjar muito bem.

O João Furtado, como averiguou que o sobrinho estava a caminho da riqueza, seguiu-lhe o conselho.

A Maria é hoje muito feliz com o marido; mas o sogro, á cautela, não vive em casa do genro.

[Ilustração]

[Ilustração]

O Paiol

ERA temivel o sargento Bernardo quando principiava a contar historias, mas como rastejava pelos setenta annos e tinha sido um valente, todos o escutavam com pachorra. Um dia na Malaca, pequena bateria do castello de S. João Baptista, na Terceira, ouviram-lhe o seguinte caso. Affiançaram-me depois que a narrativa não era destituida de fundamento.

Demos a palavra ao sargento Bernardo:

«Não sei bem quando isto foi. Lembro-me de que tinha vindo de Lisboa para S. Miguel em cabo, e que estava lá destacado havia bastante tempo. O commandante do material era um capitãosinho de má cara, d’aquelles com quem a gente não engraça, nem á quinta facada.

Por isso o meu commandante, o nosso tenente, nunca era com elle visto, nem achado.

Um dia começou a fallazar-se do homem. Sabem que mais? Pelos modos fazia o mesmo que o mestre do cazão de caçadores, que foi n’outro dia responder a conselho ... cortava-se, mas não era com tiras de panno! O que elle bifava, era muita e muita arroba da polvora do paiol. Mas lá na que dava para as salvas não roubava nada, essa lhes juro eu! As peças davam sempre o mesmo berro.

A coisa tinha-se divulgado, e já se dizia pela cidade que o paiol estava cheio d’areia, porque a polvora tinha-a queimado o capitão ... puxando o rabo á sota.

Que jogava era tambem certo. Excommungado!... Deus me perdôe! Não havia noite nenhuma em que eu estivesse de guarda ao quartel, no castello de S. Braz, que não me tivesse de levantar por causa do melro. E quasi sempre duas e tres vezes! Vinha buscar dinheiro, para voltar para a jogatina. E com que cara de peccado mortal elle andava! Se o visse á meia noite, em logar escuso, era capaz de pôr-me a crer nas feitiçarias, em que toda a galuchada de S. Miguel acredita como no Divino Espirito Santo.

Andavam os taes dictos, quando chegou navio de Lisboa. D’alli a pedaço disparam esta novidade no castello; o capitão do material vae ser rendido e já desembarcou o tenente, que vem para o logar d’elle. Fiquei banzado!

No dia seguinte vi o official novo. Era um perfeito moço, lá isso era! Alto como uma torre, grosso que nem isto...--O Bernardo abriu muito os braços, formando circulo.--E então a falar?... Tinha o diabo em si! Devia ser do Algarve.

Segundo parece, contou logo que no commando geral da artilheria já se sabia da marosca do capitão, e que elle, tenente, recebera ordem para ver tudo, coisa por coisa. Se até disse que trazia uma balança de botica, para pesar as onças e meias onças de polvora!... Era chalaça, está visto.»

--E o outro, ó tio Bernardo? perguntou um dos que ouviam o veterano.

«O capitão? Se julgam que mudou de cara, enganam-se redondamente. Qual historia! Até o achei de melhor parecer, quasi a sorrir!

Passados tres dias, começou a entrega. Foram primeiro ás peças, palamenta, lanternetas...»

--Sim, tudo o que atulhava os armazens do material de guerra, interrompeu um dos ouvintes. E depois?

--Ah! Vocemecês teem pressa? atalhou o Bernardo. Pois então haja saude! E ia retirar-se.

Só depois de muito instado, se resolveu a continuar a historia, mas d’esta vez com certo mau humor.