Part 21
Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia, desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além d'esta justificação de todos os expedientes, os padres confessores da _Companhia_, defendendo os que recebiam _luvas_, diziam que o nome de _peita_ se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou de concerto que se faça para o negocio[107]. Mas se a parte fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e não uma peita.
Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador com _dois debrums de latim_. As testemunhas custavam em Goa a pardau por cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?» Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias, mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto, indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de Goa.
A misericordia de S. A. não consentia isso, mas o povo esteve por um nada a fazel-o. Quando o conde da Vidigueira, ex-governador, partia para o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis avô (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma náo, e envenenaram ao neto o pasto dos animaes que levava de vitualha para a viagem[108].
Mais graves e decisivos symptomas de desaggregação do ephemero imperio da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as deserções; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou nos navios arabes, por miseria, por cubiça, por homizio, arrastados pela fome ou pelas _moraxas_ infieis, espalhando-se em Kambai, no Balutchistân, no Afghanistân e na Persia, de um lado; em Bengala, do opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Pegú, por Malaka, e Kamboja, até á China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes infieis eram tantos, «que sem muitas lagrimas não se poderá considerar, quanto mais escrever... e muitos se põem por soldados em navios de chatins, onde, posto que o soldo não seja tão honrado como o d'elrey, é mais proveitoso, por ser melhor pago». Em tempo d'elrey D. Sebastião havia na India 16:000 portuguezes, e não se poderam mandar 800 homens a soccorrer Malaka.
Já em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no começo da occupação da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o inimigo, conspiravam para se passar aos _mouros_, que pagavam melhor. Estes phenomenos, pois, não provinham directamente da decadencia, manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no começo da empreza.
Além dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer feitorias, ninhos de piratas «buscando pão para comer, por não haver armadas ou fortalezas em que lh'o deem». Assim em Tchitâgan, assim em Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa oriental da India, em Macau e em infinitos lugares.[109]
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Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D. João de Castro. O quarto viso-rei da India[110] era, havia muito, conhecido pela candida nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de navegador e guerreiro, e pela vastidão do seu saber, pelo seu amor ás boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupação romana do XVI seculo em Portugal tinha em D. João de Castro um fervoroso sectario; e como o genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectação antiga tomava para elle as proporções de um culto. As suas phrases e gestos, copiados dos antigos heroes, não eram decerto uma mascara postiça, embora a nós se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porém, tinha no sangue a força de Alexandre; e a D. João de Castro só a imaginação fazia um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginação governava-o tanto, que lhe moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educação moral é capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construcção artificial do caracter produzia, comtudo, contradicções necessarias. O amor litterario da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, senão ridiculas, extravagantes. Não ter em casa uma gallinha para comer, enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar á honradez natural uma ponta de affectação. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por penhor; mas, com o symbolo, era forçado a dar tambem uma provisão para o thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educação litteraria.
Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposição do imperio oriental? Não, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por ser affectada, embora não fosse fingida. Os homens positivos e corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam descansados em que não lhes viria d'ahi mal algum para os seus interesses. A propria affectação _antiga_ do viso-rei demonstrava a fraqueza do estadista; porque só uma alma ingenua podia ligar tamanho amor ás fórmas, e a ingenuidade jámais venceu nos governos. Integro, forte, e piedoso no seu fôro intimo, D. João de Castro era um heroe e um santo; mas nem essa fórma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram nunca os meios de travar o movimento de decomposição de uma sociedade, ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um João II, ou de um Pombal.
D. João de Castro não tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu governo ficou inutil como uma bella pagina de moral: á maneira do livro em que lhe escreveram a vida, e que é uma boa pagina de rhetorica.[111] Ficou, porém, como um sincero protesto: esse é o seu valor social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada nos cercos de Diu--quando o sultão da Turquia (Soliman II) mandou de reforço quatro mil janisaros, ou _rumes_ sob o commando do pacha do Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeçofar), o ministro do rei do Gujerât--mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo, ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas acções.
Se é que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo de D. João III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por distinctos que fossem os dotes de qualquer outro, é tambem facto que a empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as forças humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.
Ao terminar este rapido esboço da vida politica de Portugal no Oriente, convém mencionar a opinião do quarto viso-rei e as suas observações, transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. «Cá está tudo, escrevia, em estado que não ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro para o seu ouro, nem christão que o creio.» E passava a enumerar o estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com as mãos; e não escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto chegára o descredito. Fôra um milagre trazer do reino á India, a salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em Goa lançadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar até a propria Italia. Não havia soldado que não tivesse uma ou mais mancebas. Todos desobedeciam aos capitães, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as náus. Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um certo rei, pozeram-no a ferros e «forçaram suas mulheres com tamanhas desonestidades, que se não póde dizer a V. A.--Todos são ladrões, todos, sem excepção, chatins. As cobiças e vicios teem cobrado tamanha posse e authoridade, que nenhuma cousa já se póde fazer por feia e torpe, que dos homens seja estranha. E são mais as almas perdidas dos portuguezes que veem á India, do que se salvam as dos gentios que os prégadores religiosos convertem á nossa santa fé.»
[104] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 161-2 e 275-6.
[105] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 188-95, a descripção da pirataria mediterranea: causas identicas produzem resultados eguaes.
[106] V. _Hist. da republica romana_, I, p. 274.
[107] _Hist. da rep. romana_, II, p. 187.
[108] V. _Hist. da rep. romana_, I, p. 356
[109] V. nas _Raças humanas_, a p. LX-I do vol. I, o estado actual dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I, pp. 75 e segg.
[110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei
2 Affonso de Albuquerque 1509
3 Lopo Soares de Albergaria 1515
4 Diogo Lopes de Sequeira 1518
5 D. Duarte de Menezes 1521
6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei
7 D. Henrique de Menezes 1524
8 Lopo Vaz de Sampaio 1526
9 Nuno da Cunha 1529
10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei
11 D. Estevam da Gama 1540
12 Martim Affonso de Sousa 1542
13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei
14 Garcia de Sá 1548
15 Jorge Cabral 1549
16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei
17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei
18 Francisco Barreto 1555
19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei
20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei
21 João de Mendonça 1564
22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei
23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei
24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei
25 Antonio Moniz Barreto 1573
26 D. Diogo de Menezes 1576
27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei
28 Fernão Telles de Menezes 1581
29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei
30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei
31 Manuel de Sousa Coutinho 1588
32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei
33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei
Pela constituição do vice reino da India o mandato dos governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos, e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando occorria a morte do governador abria-se a primeira _successão_, na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram quem governou por _successão_. O titulo de vice-rei, excepcional a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador desde 1550.
[111] J. Freire de Andrade, _Vida de João de Castro_.
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IV
Summario da derrota. Volta ao reino
Anarchicamente iniciada, a occupação da India foi, de principio a fim, uma exploração anarchica. A politica maritima e commercial de D. Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso reinado de D. João de Castro, provaram egualmente impotentes para organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e duradouro. Nem a arte, nem a força, nem o santo exemplo, poderam disciplinar a turba dos invasores da India.
Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A Renascença, apresentando aos homens um sem numero de idéas e impressões novas, desorganisando os systemas, as crenças, as instituições e todo o organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma energia affirmativa até alli desconhecida. Heroismo pessoal e naturalista, uma grande explosão de força, a devassidão nos costumes e a anarchia nas idéas, eis ahi em que se resume, por este lado, a Renascença. A França, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha, isto é, a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de phisionomia bastantes para suppôr que, se a qualquer d'ellas tivesse cabido o destino de occupar as Indias, o seu imperio não teria sido melhor nem peior do que foi o nosso.
Porventura, porém, ás nações protestantes que nos succederam com superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes de explorar a India, sem a saquear. A nós faltavam-nos os dois requisitos. O catholicismo não era então--como o era a religião protestante--uma fé intima e absorvente: era uma convicção para uns, uma convenção para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento para os defensores intolerantes da fé. Havia decerto uma affirmação religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e espontanea da crença, que radica as religiões. O catholicismo atravessára uma crise, de que saíra malferido; e a violencia com que se impunha, estava denunciando que ficára sendo, antes uma expressão de authoridade, do que uma expansão de sentimento popular. Isto fazia com que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse caíndo n'um relaxamento; e que, ficando com a religião, deixasse de lhe dar significação ou importancia moral. Muita devoção e muita devassidão; eis ahi a concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das nações catholicas depois da Renascença.
Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que não havia no dominio da India uma religião capaz de moralisar o imperio, embora houvesse exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvão, o apostolo das Molucas. Mas taes exemplos eram excepções, e faltando o primeiro elemento de ordem, quando os motivos sociaes não se tinham definido ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo arrastava os homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a força intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lançar a sua semente de corrupção; e o individuo, desarmado, sem crenças nem leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixões, caíu n'um poço de ignominias, perdendo inteiramente a noção do proprio brio, da força, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.
A estas causas geraes é necessario addicionar as causas particulares, provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o genio politico de D. João II teria desde o começo evitado graves transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um plano só: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas desconhecidas; e assim vemos que a occupação muda de caracter com os successivos governadores, e ao sabor das idéas ou das inclinações de cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos hereditarios; e é n'isso que se fundará sempre a accusação de incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.
Porém essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente commercialmente á hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos não chamava. Nos estadistas não houve a perspicacia bastante para medirem as differenças que distinguiam Portugal de Veneza, e as condições do commercio anterior do Oriente das condições em que elle ia achar-se, desde que nós chegámos por mar, armados, á India. A geographia dera aos arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na Europa a Veneza, tinhamos contra nós, não só a geographia, mas ainda e principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua preza, deviamos commerciar de armas na mão, manter poderosas esquadras n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.
Estas causas naturaes, alliadas ás causas egualmente naturaes da falta de tirocinio commercial, produziram um genero de exploração, até certo ponto novo na historia; porque não é propriamente uma _razzia_, como as conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um commercio; mas, como o commercio só póde fazer-se á sombra da fortaleza ou á vista da esquadra, as transacções andam sempre misturadas com pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto dá aos nossos capitães da India uma phisionomia original na sua dualidade. Vê-se de um lado um mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas vê-se no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[112]
Uma tal confusão de cousas, um tão grande cahos de elementos oppostos e idéas contradictorias, bastavam para arruinar breve e necessariamente o imperio; ainda quando, por sobre tudo isto, o caracter do portuguez, pouco vivo na sua audacia, bronco, cheio de orgulho ingenuo, mais temerario ainda que valente, presumpçoso e fanfarrão, não viesse accrescentar difficuldades; ainda quando o ar inebriante, os venenos adormentadores, as seducções perigosas, os vicios extenuantes do encantado Oriente, não viessem entorpecer os braços e perverter o espirito dos occupadores.
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O padre Manuel Godinho, que estava na India pelo meiado do XVII seculo, dividia em quatro epochas a historia do nosso dominio oriental. A primeira eram os 24 annos do reinado de D. Manuel; a segunda os 35 do de D. João III; a terceira vinha do 1557 a 1600; e a quarta, finalmente, até á epocha em que elle viajava no Oriente.
Logo na primeira, o dominio portuguez conseguira alargar-se por todas as costas e ilhas, desde Sofala até Malaka; isto é, pela Africa Oriental, pela Persia, por todo o Hindustan, do Indo ao Ganges, e pela Indo-China. Algumas, poucas, cidades propriamente portuguezas, feitorias e fortalezas espalhadas por toda a parte, e a vassallagem dos soberanos em cujos Estados assentavam: eis ahi a fórma do nosso dominio. Goa e Malaka eram nossas; e tributarios da corôa portugueza os soberanos (independentes ou subalternos, porque o regime politico indigena era feodal)--o de Hormuz, na Persia; o de Tidore, nas Molucas;[113] o de Simhala; o das ilhas Malajas; o de Batukala (Batecalá), no Kanará; o de Kollan, em Karnataka, na extremidade austral da peninsula da India; e na costa de Africa, os de Malinda e de Quilua. Além d'estas suzeranias, algumas dellas consignadas apenas nos tratados, varias fortalezas garantiam a vassallagem de outros territorios. A de Sofala era a primeira, para quem vinha do reino pelo Cabo; depois a de Sokotra na ilha d'esse nome, junto ao Jar-Hafun, dominando a embocadura do mar Vermelho; d'ahi Hormuz, na garganta do golpho persico; depois, na costa occidental da India, descendo para o sul, Chala, Anjediva, fronteira a Goa; Kananor, Kalikodu, onde Vasco da Gama primeiro aportou; Kadunguluru (Cranganor); Katchi, theatro das façanhas de Duarte Pacheco; e Kollam (Coulão), proximo do cabo Kumâri. Sobre as ilhas do oceano indico havia a fortaleza de Malaia (Maldiva), e a de Kola-ambu (Colombo) em Ceylão; e finalmente, lá para os confins orientaes, Persaim (Pacem) no Pégu,[114] e Ternate nas Molucas.
Os annos do segundo periodo viram consolidar-se estes dilatados dominios por meio de numerosas fortalezas que, completando o systema esboçado pelas antigas, bordavam de feitorias todas as costas. Na oriental da peninsula hindustanica, ou de Cholamandalam (Coromandel), levantaram-se os presidios de Nagapatan e de Mahabalipurum (Meliapor, S. Thomé). Completou-se a occupação da ilha de Ceylão por meio de fortalezas e colonias-feitorias[115] de Jafanapatan, de Negombo, de Kalitura (Calaturé) e de Galla, na costa occidental; e de Pattikalo (Baticaloa) e Trinkonomali (Triquimalé), na oriental. Bassaim, Daman e Diu, além de outros pontos fortificados, asseguraram a costa de Kambai. Incessantes guerras, bem succedidas, abateram as revoltas, consolidaram dominios antigos, ou alargaram o imperio portuguez. Assim, a derrota final do Samudri de Kalikodu, do sultão de Kambai, do Shah de Vijajapur (Hidalcão), do Nizam de Ahmednagar (Melique, Isamaluco, Nisamaluco, ou Nisamoxá), garantiram a posse pacifica de toda a costa occidental da India, no Gujerât, em Kontana, no Kanará. As guerras da Indo-China firmaram o poder portuguez em Jadithani (Ujantama), no reino de Annam, e em Johor: em Bintang (Bintão), na ponta extrema da peninsula de Malaka; em Atchim (Achem), na ilha de Sumatra; e a submissão de todo o archipelago de Sunda até ás Molucas completou, por oriente, o imperio colonial portuguez, reproducção do velho typo grego e liby-phenicio.[116] Por occidente, os resultados eram menos decisivos; e se as duas costas que levam ao estreito de Bab-el-Mandeb se confessavam tributarias de Portugal, nem em Aden ao norte, nem ao sul, na costa de Adal, o nosso dominio era positivo. O musulmano guardava com ciume a porta do mar santo de Meka; e os mercadores arabes sabiam que, mais ou menos embaraçados, jámais seriam de todo expulsos do commercio da India, emquanto possuissem o mar Vermelho, onde os inimigos iam, sim, mas não conseguiam fixar-se. De arma ao hombro, na sua ilha de Sokotra, e a bordo das armadas que cruzavam no golpho do mar da Arabia, o portuguez espiava o armamento das esquadras de rumes e os comboyos das náus de Meka; mas não faltavam opportunidades para que umas e outras, astuta ou violentamente, conseguissem atravessar o estreito, entrando ou saíndo para mercadejar ou combater.
No terceiro periodo conserva-se, não se alarga o dominio da corôa; ainda que na Africa oriental e na costa do Malabar apparecem novos presidios. São, no Kanará, Barkuluru (Barcelor), Mangaluru (Mangalor), e Hanavare (Onor). Na Africa, pela derrota e morte do _rei_ de Laum, a fortaleza de Patta; mais ao sul a de Mombas, e a da ilha de Pemba; e além do Zamgebar, já avassallado, Monomotapa, na costa de Moçambique. Afóra isto, funda-se ainda Sirian, no Pégu; e Hugli (Golim), em Bengala, sobre o delta do Ganges.