Historia de Portugal: Tomo I

Part 14

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Perfeito não quer dizer sem nodoa, mas sim acabado, completo; não tem aqui uma significação moral, tem um valor politico. D. João II é um exemplar _perfeito_ do genero dos principes da Renascença, para quem Machiavel escreveu (um pouco depois) o cathecismo: é um mestre da moderna arte de reinar.

O exemplo mesquinho da pessoa do antecessor e pae, Affonso V, as desordens do reino e a fraqueza do rei, tinham educado o espirito agudo e observador do moço principe.

A tragedia de Alfarrobeira (1449) começára com um crime o espectaculoso mas triste reinado do _africano_; e o epitheto dado ao rei ajudou a formar a tradição de um homem cheio de valor e tenacidade, coisa que o pobre Affonso V jámais foi. Combater com denodo, n'um momento de furia, era uma qualidade commum que lhe não faltava; mas d'ahi ao valor consummado vae uma distancia enorme. O grande defeito da sua mocidade fôra a facilidade com que se deixava lisongear. Tutelado na sua menoridade, pela mãe primeiro, pelo tio e sogro depois, o pobre rei soffreu as consequencias communs a quasi todos os principes, como elle acclamados em creanças. Em volta do rei, pupillo de futuro imperante, formou-se um partido de adversarios da regencia, ambiciosos a quem não satisfazia o juizo do infante D. Pedro, cheios de esperanças na liberalidade e no caracter desegual do moço rei. Exploravam-lhe as fraquezas, açulando-lhe os odios nos momentos de colera, distrahindo-o com facecias e ditos nas horas de abatimento, gabando-lhe tudo: os arremeços e as cobardias, a brandura e a colera, como aduladores de officio. Da insensatez do rei esperavam colher uma farta ração de beneficios e presentes. Apesar de o infante já ter feito entrega da regencia, temiam-no ainda sobremaneira, e não cessavam de o malquistar no animo do sobrinho e genro. D. Pedro em vão instava com o irmão, D. Henrique, para que desmanchasse essas perfidias. Aborrecido de viver, desejoso de deixar o mundo, o ex-regente via que tudo se conspirava para o perder. «Era grande principe, de grande conselho, prudente, de viva memoria, bem latinado, e assaz mixtico em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito ao estudo.» Era um dos poucos, a quem a sabedoria tornára realmente bons.

Os seus brios offendidos, a perfidia dos validos, o tonto desvairamento do rei, levaram ao encontro de Alfarrobeira, quando o principe vinha á côrte justificar-se das calumnias: e vinha armado, por saber que no caminho o esperavam para o matar. Effectivamente o mataram, a elle, e ao seu fiel Achates, o nobre conde de Avranches, typo de lealdade cavalheiresca, sempre rara, e agora de todo ausente em côrtes italianisadas. Morto o seu principe, o conde prepara-se para morrer tambem, vingando-se: «Ó corpo! já sinto que não podes mais; tu, minha alma, já tardas!» E com furia, defendia-se e matava. Quando por fim o derrubaram, ferido, cruzou os braços, dizendo: «Fartar, rapazes! vingar, vilanagem!» E morreu, trespassado de lanças.

Livre do importuno conselheiro, Affonso V e os fidalgos da sua roda, tão simples e estouvados como o rei, puderam abandonar-se á vontade ao capricho das suas loucuras e batalhas. Fatigando o povo com impostos, desbaratando com prodigalidades o patrimonio da corôa, o rei, levado pela sua mania, sacrifica tudo ás correrias africanas, que a decomposição interna do imperio marroquino já tornava possiveis.

Mais de vinte annos consumiu em taes emprezas que o envelheceram. Era corpulento, e com os annos tornára-se gordo, a ponto de não poder já usar senão vestiduras soltas. Tinha a barba espessa, e era calvo; os cabellos ennegreciam-lhe as mãos, as orelhas, o nariz, accusando a vulgaridade e a violencia bravia do seu temperamento. Apesar de bem proporcionado, era tão commum no aspecto como no espirito. Brutal e vingativo, obtuso mas teimoso, e até cruel, a sua phisionomia reproduzia a do commum dos homens d'armas; e imprimiu o cunho a esses guerreiros de Africa, broncos, sem o menor requinte de perversidade fina, nem ponta de elevação distincta: como touros que marram ás cegas e qualquer destro bandarilheiro dóma.

Foi isto mesmo que succedeu a Affonso V em França, onde Luiz XI se fartou de rir do simples, illudindo-o com promessas, fatigando-o com viagens, picando-o com ironias perdidas, carregando-lhe a nuca de lisonjas, cumprimentos e attenções, como o bandarilheiro faz ao touro, quando o carrega de vistosas farpas, bem aguçadas.

Affonso V fôra a França pedir auxilio, porque o castelhano batera-o. Em 1474, Henrique IV de Castella ao morrer, deixava por herdeira D. Joanna, a _beltraneja_ (assim os adulterios da mãe tinham denominado a filha) confiando o governo do reino ao visinho de Portugal, e pedindo-lhe que casasse com a sobrinha. Affonso V julgou que o reino de Castella era a nova Africa da sua velhice, e poz-se em campo para conquistar a corôa testada; conquistar, dizemos, porque os castelhanos invocavam contra a _beltraneja_ os mesmos argumentos que, um seculo antes, nós invocavamos contra a mulher de João I, D. Beatriz. Castella offerecia o throno a Isabel, como nós o tinhamos dado ao Mestre de Aviz.

Affonso V poz-se em campo. Já ao seu lado se via a reservada figura do filho. Receioso das loucuras do velho, arrancára da sua fraqueza um titulo secreto, pelo qual o rei annullava todas as doações superiores a dez mil réis de renda que fizesse durante a guerra. O pae dava e não dava, o filho dobrava cuidadosamente o papel, guardando-o para o futuro...

A batalha de Toro (1476) não foi propriamente uma derrota militar, mas foi uma derrota para o rei e para as suas ambições. O pobre velho, gordo, estafado, sem poder comsigo, foi correndo abrigar-se em Castro-Nuño, e deitou-se logo a dormir. Avendaño, o fidalgo do lugar, declarára-se por elle: mas a mulher, castelhana esperta, apontava-lhe o volume de carnes, para alli deitado a resonar ruidosamente, como os gordos, e dizia ao marido:--«Olha lá por quem te perdeste!»--Effectivamente o rei não valia para cousa alguma. Os castelhanos rebeldes desde logo reconheceram o seu erro, e Affonso V tomou a resolução de ir pedir a Luiz XI que lhe valesse.

O principe herdeiro aprendia muito, porque observava tudo, com o seu olhar profundo e sagaz. Deixou ir o pae, e ficando a reger o reino, continuou, por amor da honra, mas sem calor, uma guerra que elle decerto via não conduzir ao fim desejado. Emquanto o pae andava por fóra, acclamaram-no, ou acclamou-se rei: diz-se que de França lhe viera uma abdicação. Porém Affonso V, desilludido afinal, decidiu-se a voltar; e o principe entregou-lhe immediatamente a corôa. Guardal-a, para que? Se elle, de facto, continuava a reinar em nome do pae, desfeiteado, vencido, quasi moribundo? Todas as maximas que Machiavel escreveu no seu livro do _Principe_, tinha-as antecipadamente D. João II na memoria:--É melhor ser louvado do que aborrecido, mas só quando isso não prejudica; o bem é preferivel ao mal, quando se póde escolher entre ambos para se conseguir um fim.--Por isso, como sabio principe, decidia-se a reinar sob o nome do pae, já inteiramente docil e subjugado por tantas miserias, esperando o momento proximo de outra vez tomar o nome de rei--méra formalidade.

No decorrer de dois annos (1479-81) a paz, negociada pelo principe _perfeito_, fazia da _beltraneja_, encerrada n'um convento, a _excellente-senhora_, e do rei um cadaver, afogado n'uma agonia de afflicções pungentes.

O filho não tinha nada dos loucos desvarios do pae, e desde logo vira o absurdo da guerra de Castella. Seria mais nobre e cavalleiroso proseguir valentemente na defeza dos direitos da corôa, da honra do velho, e da vida e sorte da infeliz princeza confiada á guarda de Portugal? Seria. Mas D. João II pensava (Machiavel) que o principe não deve preoccupar-se com a infamia dos seus actos, quando sejam necessarios á conservação do Estado; e que, depois de tudo bem pesado, praticar uma certa virtude póde muitas vezes trazer a ruina, quando a infamia traria comsigo a segurança e a fortuna.

Este era effectivamente o caso em 1479. Dizia o principe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão. Não traduzia, porventura, com uma concisão mais eloquente, as palavras do italiano?--«O principe deverá imitar bem os brutos (porque ha duas maneiras de combater: com as leis e com a força; a primeira dos homens, a segunda dos brutos) e saber empregar as artes da raposa e do leão; pois o leão não se defende dos laços, nem a raposa dos lobos: é portanto mistér ser raposa para conhecer as redes, e leão para assustar os lobos.»--D. João II, menos classico ainda, recorria aos exemplos venatorios da Edade-media; tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão!

Os filhos de D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, formando bibliothecas, tinham lançado á terra dura do velho Portugal as sementes italianas. Affonso V rebentára do solo como um cardo antigo, rijo e bravo, cheio de espinhos. Fôra um aborto, ou um anachronismo medieval. D. João II nascia italianisado, com todos os vicios e virtudes da cultura da Renascença. A sua côrte era um retrato das pequenas côrtes de Italia; e o principe como um italiano, cheio de perfidias e ambições, de lucidez e de manha, de instinctos sanguinarios e fortes decisões politicas.

Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pae; rei agora (1481), seria o falcão. Mas para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o habito da ave nocturna, até vêr por terra o poder d'essa fidalguia que os erros do pae tinham ensoberbado. Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O _homem_, como Isabel de Castella o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, elle ou os seus herdeiros, no throno de uma Hespanha unida, affagára-lhe o espirito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realisal-a. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479; contando voar de falcão no momento opportuno. Nem paravam ahi as suas ambições: lembrava-se do fallecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido n'aquelle cerebro. A sua monarchia dilatava-se da Hespanha á India: e com a Peninsula na Europa, com a Africa, a India, o encantado reino do Preste-Joham, sonhou a monarchia de Philippe II...

* * * * *

N'uma só cousa o portuguez primava ao italiano: era sobrio, severo, detestava o luxo--que prohibiu. A sua côrte apresentava o quer que é de funebre e austero, sempre agradavel a portuguezes. A sua figura, tambem, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os habitos de coruja davam-lhe mais caracter do que os de falcão: ás duas aves, porém, pedia a côr que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, e _mixtico pera todalas cousas_, de memoria viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegancia, nem no corpo, nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam «com menencoria ser muy temido». Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 annos já tinha cans na barba o nos cabellos; só n'essa edade deixou de ser abstemio. A força muscular, dote necessario aos principes dos bons tempos, tornava-o celebre: cortava com um golpe de espada tres e quatro tochas de cera reunidas. «Muy grande astucioso e acquiridor, sem deixar de ser inteiro e dadivoso, era muy manhoso em todalas boas manhas que um principe deve ter.» A natureza não o ajudava, decerto; e tambem, na sua educação de principe, deixava de obedecer á regra de Machiavel: «Não é necessario ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensavel affectal-as;--possuil-as e servir-se d'ellas póde chegar a ser perigoso: fingil-as é sempre util;--seja-se fiel, clemente, humano, religioso e integro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrario, quando a isso o caso obrigue.»--D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessario ao seu papel fingil-o: isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal: fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguem o amasse, o que se tornava peior ainda. A perspicacia e authoridade não eram n'elle bastantes para que soubesse envolvel-as n'uma simulada bonhomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, á italiana, mas tinha a fraqueza portugueza de confessar como isso se praticava. Lopo Vaz, a quem Affonso V fizera conde, levantou-se em Moura defendendo o titulo revogado ou não confirmado, e o rei «por não fiar já d'elle... determinou de o mandar matar... por certos cavalleiros que manhosamente lá mandou e o mataram á traição, aos quaes o principe fez boas mercês». Mas o cardeal D. Jorge da Costa, o _alpedrinha_, vendo-se ameaçado, temeu e fugiu para Roma: o rei expozera-lhe um modo facil do acabar com elle--mandal-o tomar por quatro moços de esporas, afogal-o em um rio e dizer que caira e se afogára por desastre.

Assim que o pae morreu, D. João II convocou côrtes (1482) e mostrou quem era. Mandou examinar as jurisdições dos donatarios da corôa, prescrevendo que os corregedores entrassem nas terras de doação no cumprimento dos mandados regios, abolindo o direito de asylo dos criminosos usurpado por muitos terrenos não coutados; e ao mesmo tempo que assim coarctava as regalias historicas da nobreza, punha cobro ás invasões anarchicas dos fidalgos no fôro dos concelhos, prohibindo o lançamento de _pedidos_, o intrometterem-se na jurisdição do crime e nas eleições e officios municipaes. O rei, inspirado pelas novas idéas ácerca da authoridade soberana, começava por investir com a nobreza: seria o successor, D. Manoel, que, reformando os foraes, atrophiaria a outra face do systema duplo de instituições, cujo equilibrio mais ou menos estavel formára a vida politica da Edade-media[71]. Mas D. João II via-se tambem forçado a emendar os erros do pae, como o segundo Affonso tivera tambem de fazer á morte de Sancho I. O moço rei decidira formalmente revogar as doações do antecessor, reivindicar para a corôa o que os fidalgos tinham pilhado ao pobre, gordo, Affonso V. De todos esses fidalgos, o chefe era o poderoso duque de Bragança, cujos dominios contavam cincoenta villas, cidades e castellos, além de propriedades sem numero; cuja mesnada subia a 3:000 de cavallo e mais de 10:000 infantes; um rei no reino, do qual possuia, pelo menos, a terça parte. Costumado a considerar o rei como egual, da linhagem de reis, e herdeiro do famoso condestavel, o duque sincera e ingenuamente acreditava na justiça da sua rebeldia. «Deservia muito grandemente o rei, fazendo-lhe guerra calada,» e carteava-se com o conde de Athouguia, seu tio, então em Castella, homem prudente, que buscava dissuadil-o, respondendo-lhe em enygmas ao gosto da epocha: «Tal não deveis cuidar, quanto mais commetter... quereis abrir uma fonte para matar vossa sede... achareis a agua tão quente que vos hão de lá ficar as unhas... _tradiderunt quos deligebam_.» Com effeito, era atraiçoado, e o rei tinha os seus espiões por toda a parte. Um certo Figueiredo vinha a escusas referir tudo a D. João II, que lhe respondia, com a sua voz demorada, baixa e fanhosa: «Guarda-te o melhor que puderes, e depois te farei mercê».--O espião ia e tornava, e quando, afinal, o duque foi preso por surpresa e executado, o rei deu a mão a beijar ao Figueiredo: «Até agora fiz que te não conhecia, d'ora avante olharei por ti. Pede o que quizeres: ha tempos de coruja e tempos de falcão...»

O duque foi degollado publicamente no rocio de Evora (1483), depois de um simulacro de processo. Effectivamente, em taes causas os processos são apenas formulas. A força impera á solta nas demandas politicas, por isso mesmo que ellas põem em questão os fundamentos organicos da sociedade, e portanto a lei civil. O duque e o rei eram inimigos velhos; e aos odios antigos vinham juntar-se agora as intenções, rebeldes em um, tyrannicas no outro. Entretanto, o caracter desnaturado da politica dos reis na Renascença levava D. João II a representar um papel repugnante, dando ao vencido uma palma como que de martyr; ao passo que a sobranceria do fidalgo, quasi-rei, lhe mantinha a dignidade altiva até sobre o cadafalso. Recusa prestar-se a responder no tribunal, a tomar parte na comedia que o indigna; e quando os carrascos, afflictos, lhe vestem o derradeiro trajo, uma loba roçagante, capello e carapuça de dó, com os pollegares atados por uma fita ao cinto, elle observa serenamente: «Soffrerei tudo, e mais um baraço ao pescoço, se S. A. mandar!»

A morte, tão digna, do duque de Bragança excitou ambições de vingança na nobreza, e positivamente começou a tramar-se o assassinato do rei, que o sabia. Os seus espiões andavam por toda a parte; e a politica dependia das intrigas de alcova e dos serviços dos miseraveis. O rei usava de todos os instrumentos, e o _sancta sanctis_ da razão-d'Estado absolvia-o de todos os crimes. Havia um Tinoco, privado do bispo d'Evora, o qual tinha por manceba uma irmã d'elle, e que por isso lhe queria muito. O rei descobriu o caso, e comprou-o. Tinoco veiu, disfarçado em frade, a Setubal, contar a conspiração em que o prelado estava, e de que o duque de Vizeu era chefe; e recebeu cinco mil cruzados em ouro e um beneficio de seiscentos mil réis, porque D. João II não regateava o preço dos bons serviços. Estava compilada e tratada «a segunda e desleal desaventura de que se causou a triste morte do duque de Vizeu». O rei chamou-o a Setubal, e matou-o por suas mãos ás punhaladas. Prescindiu de processo, mas não de um auto posthumo, com o fim de justificar o seu crime, e a perseguição dos mais conjurados. O bispo de Evora foi mettido no fundo de uma cisterna, em Palmella, onde com peçonha acabou a vida; os outros foram assassinados ou justiçados, onde quer que os encontraram os algozes do rei; e um, que conseguira fugir para França, nem por isso escapou com vida, porque o rei mandou lá um sicario matal-o.

O principe _perfeito_ mostrava-se consummado na arte de reinar, e ninguem ousava já resistir-lhe. A primeira metade do seu programma estava realisada--agora o falcão ia alargar os seus vôos amplos!

Ninguem lhe resistia, mas no fundo da consciencia alguma cousa o denunciava como assassino. Uma noute, em Santarem, acorda em sobresalto, ouvindo alguem chamal-o. Quem era? Ninguem. Illusões! dizia-lhe a rainha no leito: era _cousa má_ que andava pelos vãos dos telhados.[72] O rei não socegava, porém, e levantou-se, vestiu um roupão, tomou a espada e a rodela, na mão esquerda uma tocha, e viu que uma sombra o guiava. Quem era? Abria as portas diante do rei, e mostrava-lhe o caminho. Foram assim até aos vãos dos telhados, a sombra e o rei. Aos gritos da rainha acudiram todos, e acharam-no no sotão, despejado, alegre e seguro, diz o chronista mentindo palacianamente. A coruja noctivaga perseguia o ambicioso falcão: a educação do principe não conseguira apagar de todo a consciencia do homem.

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Fernando e Isabel, de Castella, que lhe haviam tomado o pulso, ainda em tempo do pae, admiravam-lhe muito as qualidades e tinham-no em grande conta. Elle, nem por ter tratado as pazes de 1479, desistira dos seus grandiosos planos. Os reis castelhanos tinham uma filha, D. João II um filho: o casamento de ambos seria talvez um meio, mais simples e mais rapido do que uma guerra, para dar ao herdeiro um grande throno. Tratou-se, ajustou-se e fez-se o casamento (1490); e n'esse dia de grandes esperanças, o rei sombrio e fanhoso quiz mostrar que tambem sabia ser magnifico. As bodas de Evora ficaram celebres, e principalmente o banquete, uma _kermesse_ formidanda. Na sala do jantar, onde os noivos, o rei, e toda a côrte se achavam, appareceu uma vasta machina: era um estrado com rodas, tendo em cima um carro com dois bois, á canga. Os bois estavam assados inteiros, com as pontas e as patas doiradas; e o carro carregado de carneiros tambem assados, tambem inteiros, com as armas doiradas. Vinha um fidalgo, de aguilhada ao hombro a dirigir o carro, e moços empurrando a machina. Deram a volta da sala, cumprimentando o castelhano, que gabou muito a idéa; e entre os applausos de todos, o carro saiu, e bois e carneiros foram dados ao povo, pasmado fóra. Terminado o idyllio culinario, foram-se todos á comida, a côrte e o povo. Nos velhos tempos do rei D. Pedro essas festas eram uma só: o rei comia na rua entre os seus, e bailava, ao som das _longas_, com as raparigas da rua.

Á noute houve _mômos_, que ficaram celebres.

Entrou (el-rei) pelas portas da sala com nove bateis grandes, em cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas do mar feitas de panno de linho e pintadas de maneira que parecia agua. Com grande estrondo de artilheria, que troava, e trombetas, atabales, e menistres altas, que tangiam, e com muitas gritas e alvoroços de muitos apitos de mestres, contramestres e marinheiros, vestidos de brocados e sedas, com trajos de allemães, em bateis cheios de tochas e muitas velas doiradas accesas, com toldos de brocado e muitas e ricas bandeiras.

E assim vinha uma nau á vela, cousa espantosa, com muitos homens dentro e muitas bombardas, sem ninguem vêr o artificio como andava, que era cousa maravilhosa.

O toldo de brocado e as velas de tafetá branco e roxo, a cordoada de ouro e seda, e as ancoras doiradas. E assi a nau, como os bateis, com muitas velas de cêra douradas todas accesas, e as bandeiras e estandartes eram das armas d'el-rey e da princeza, todas de damasco e doiradas, e vinha diante do batel d'el-rey, que era o primeiro sobre as ondas, um muito grande e formoso cysne com as pennas brancas e doiradas, e apoz d'elle vinha na prôa do batel o seu cavalleiro em pé, armado de ricas armas, e guiado d'elle, e em nome d'el-rey saíu com sua falla e em joelhos deu á princesa um breve, conforme sua tenção, que era querel-a servir nas festas do seu casamento; e sobre conclusão de amores desafiou para justa de armas, com oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.

E por rei de armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, se publicou em alta voz o breve e desafio, com as condições das justas e grados d'ellas, assi para o que mais galante viesse á teia como para quem melhor justasse. E acabado, os bateis botaram pranchas fóra, e saiu el-rey com seus requissimos mômos, e a náu e bateis, que enchiam toda a sala, se saíram com grandes gritos e estrondo de artilharia, trombetas, atabales, charamellas e sacabuxas, que parecia que a sala tremia e queria caír em terra.