Chapter 2
Em Athenas, o heroe nacional era _Theseu_ filho de _Egeu_. Foi elle quem libertou os Athenienses do oneroso tributo de septe mancebos e septe donzellas que de nove em nove annos tinham de ser inviados para o _Minotauro_ de Creta. Matou o monstro e sahiu do _labyrintho_, graças a um fio que tinha recebido de _Ariadna_, filha do rei. O mytho do Minotauro parece ser, segundo os mais recentes estudos, uma expressão do culto sanguinario de Moloch.
CAPITULO I
TEMPOS LEGENDARIOS OU PRIMITIVOS TEMPOS HEROICOS E MYTHICOS DOS HELLENOS
*1.º Tempos pelasgicos.*--Consideram-se os Pelasgos como os mais remotos habitantes da Grecia, ou, por outras palavras, como a primeira raça que ahi deixou alguns germens de civilização. Eram povos talvez originarios da Asia, e, segundo as melhores conjecturas, devem ter-se estabelecido na Grecia em epocha não posterior ao seculo XVIII antes da era christam.
As suas primeiras residencias parece que foram na _Thesalia_ e na _Arcadia_, sendo, comtudo, bem visiveis ainda hoje vestigios da sua existencia, nas ilhas do Mar Egeu, na Italia e na Asia Menor.
Esses vestigios são restos architectonicos de um caracter perfeitamente definido; ruinas de aqueductos, de diques, de canaes, de muralhas; monumentos chamados, _cyclopicos_, porque as gerações posteriores, absortas deante de obras tão colossaes, attribuiram-n'as a uma raça de gigantes, os _Cyclopes_, não querendo a imaginação popular convencer-se de que taes moles de pedra tenham sido collocadas umas sobre outras pelas simples forças de que a raça humana pode dispor.
Monumentos de tal modo pezados, e que assombram pela sua enormidade, os homens d'agora, ficaram attestando aos seculos a desgraçada escravidão em que devem ter vivido os povos á custa de cujo suor, sangue, e lagrimas, se ergueram. Taes foram, a par dos muros pelasgicos, a grande muralha chineza, as pyramides do Egypto, os _téocallis_ sagrados, do Mexico.
Outros indicios, mais vagos e incertos, parecem affirmar-nos que entre os Pelasgos havia castas, analogas ás orientaes, havia uma poderosa e influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditaria para defesa do paiz...
Dos Pelasgos suppõe-se que foram consanguineos os _Thracios Pierios_ (da _Pieria_, estreita faixa de terra na costa SE da Macedonia, que se extendia desde a foz do _Peneu_, até ao _Haliacmon_). Teem celebridade estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu paiz nasceu o culto das Musas, e alli foi sepultado _Orpheu_, o heroe mythico cuja voz e cuja lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de amansar a ferocidade animal, e de predispôr á benevolencia, os deuses sombrios do mundo subterraneo. Permittiram-lhe estes que trouxesse dos Infernos sua mulher _Eurydice_ e voltasse a viver com ella na Terra.
Ao lado d'Orpheu colloca-se _Lino_, inventor da elegia, e o sacerdote cantor _Eumolpo_, fundador dos _mysterios de Eleusis_, que legou a direcção d'elles aos _Eumolpidas_, seus successores.
Persistia entre os Gregos, n'estes e n'outros mysterios, como culto secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as _pequenas Eleusinas_ na primavera; as _grandes_, que duravam nove dias, no outono. N'ellas se dava culto aos mythos de _Deméter_ e de _Perséphone_, como forças de concepção, ao de _Dionysos_, como força de producção. A iniciação era feita pelo _hierophante_; alêm d'este, havia gran-sacerdotes, simples sacerdotes e sacrificadores, os quaes todos, nos dias de festividade, se vestiam de purpura e coroavam de myrto.
Pertencem, tambem, ao cyclo legendario do primitivo povo pelasgico os mythos de _Inacho_ em Argos, de _Egialeu_ em Sicyonia, de _Pelasgo_ na Arcadia, de _Oxiges_ na Attica, etc.
Perante a critica historica são insustentaveis as lendas do egypcio _Cécrops_, fundador da cidadella (_Cecropia_) de Athenas; do phenicio _Cadmo_, fundador de Thebas, introductor da arte da escripta e da arte de fundir o bronze; do phrygio _Pelops_ que deu o seu nome ao Peloponeso; do estabelecimento de _Danao_ e das _Danaides_ na Argolida, etc. Perante as investigações da moderna sciencia historica tem certo fundamento a opinião que admitte a originalidade e o caracter aborigene da organização grega, bem como a que ingeita o parecer de ter sido introduzida a civilização na Grecia pelos seus colonizadores do Egypto, da Phenicia e da Asia Menor. Mas, apezar d'estas asserções, é incontestavel que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grecia e o Oriente, exercendo este sobre aquella uma influencia indelevel tanto nas instituições da vida civil como nas do systema religioso.
Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellenos, dessem livre expansão ao seu genio politico, ás suas tendencias artisticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas aptidões intellectuaes.
*2.º Tribus hellenicas.*--Nada se sabe emquanto á origem e ao apparecimento historico dos Hellenos. Sabe-se que constituiram tribus militares, e que venceram, afugentaram, ou escravizaram, as tribus industriosas dos Pelasgos. Estes procuraram asylo nos desfiladeiros do Olympo, em alguns pontos da Thessalia, do Epiro, da Macedonia, da Attica, da Arcadia, e defenderam por largo tempo a sua independencia. No tempo de Homero, havia pouco ainda que tinham sido de todo subjugados.
Presume-se, no emtanto, que os Hellenos não constituiam uma raça particular, mas sim que formavam tão sómente a cavallaria ou parte guerreira dos Pelasgos, a qual submetteu por violencia ao seu jugo tanto a classe theocratica como o povo pacifico.
Como quer que fôsse, essas tribus guerreiras subdividiram-se em quatro grupos, ou tribus principaes, que mantiveram em todo o decurso do seu viver historico profundas differenças de usos, de lingua, e de regimen politico.
Essas quatro tribus foram as seguintes: os _Dorios_ e os _Acheus_ no Peloponeso, os _Jonios_ na Attica e nas ilhas, e os _Eolios_ na Beocia e outros pontos.
O nome de _Acheus_ foi, durante os tempos heroicos, o de todas as tribus do povo grego, e por elle são os Gregos designados em Homero. Foi no seculo IX A. C. que esta denominação se restringiu aos habitantes das margens dos rios do norte do Peloponeso, recebendo os outros Hellenos as especificações que dissémos. Crê-se que foram os sacerdotes de Delphos quem, posteriormente, imaginou para as quatro tribus uma genealogia commum.
Essa lenda genealogica foi a seguinte: em tempos remotissimos houve um diluvio em que morreram todos os homens com excepção de _Deucalião_ e de sua mulher _Pyrrha_. Andaram estes vogando nove dias n'uma arca; e, ao fim d'elles, deram fundo no cume do Pindo, ou, como depois se disse, no do Parnaso. Supplicaram então aos deuses que repovoassem a Terra, e, attendidos na sua prece, receberam ordem para irem arremessando para traz de si _os ossos da mãe_, isto é, pedras da Terra. Das pedras que Deucalião atirou nasceram homens, e das de Pyrrha nasceram mulheres.
A esta lenda primitiva acrescentou-se em tempos mais recentes a de _Hellen_, filho de Deucalião. O primogenito de Hellen foi _Eolo_, tronco dos _Eolios_; o segundo foi _Doros_, personificação dos _Dorios_; o terceiro foi _Xutho_ (o _expulso_), de quem descendiam _Ion_ e _Acheu_. A outro filho de Deucalião, _Amphictyão_, attribuiu-se a instituição da _amphictyonia_ (isto é, uma liga em que se abrangiam as diversas tribus), e a um filho de Pandora, filha de Deucalião, o nome de _Gregos_ que os povos do Occidente deram aos Hellenos.
Os sacerdotes de Delphos, versados nos mythos do Oriente, cuja influencia transluz em toda esta série de lendas, tiveram um fim altamente patriotico quando pretenderam dar ás quatro tribus uma ascendencia commum. Quizeram dispertar o sentimento da communidade nacional, dando-lhe uma expressão comprehensivel.
*3.º Guerra de Thebas.*--Colloca-se este acontecimento no seculo XIII A. C.; mas todas as datas attribuidas aos factos dos tempos mythicos são absolutamente incertas. Um dos episodios mais remotos das tradições nacionaes gregas é a guerra de Thebas, ou, como ordinariamente se diz, a guerra dos septe chefes deante de Thebas.
_Eteocles_ e _Polynice_, filhos de _OEdipo_, da tragica familia de _Laio_, disputavam o throno paterno. Polynice, expulso por seu irmão, refugiou-se na côrte de _Adrasto_, rei de Argos, o qual lhe deu uma filha em casamento e o acompanhou até deante de Thebas com um exercito commandado por elles ambos e por mais cinco chefes illustres. Todos os chefes morreram, com excepção de Adrasto. Eteocles o Polynice mataram-se um ao outro em combate singular; e _Créon_, seu tio, sentou-se no throno que os dois irmãos haviam disputado. Créon mandou matar sua sobrinha _Antigona_ por haver infringido as ordens dadas por elle para que não fôsse concedida sepultura aos dois irmãos; mas _Theseu_, guarda e vingador das leis moraes, declarou-lhe guerra e matou-o.
Tempos depois os filhos dos septe vingaram sobre os Thebanos a morte de seus paes na guerra dos _Epygonos_ (Posthumos). _Laodamas_, filho de Eteocles, ou foi morto ou fugiu para a Thessalia; e _Thersandro_, filho de Polynice, reinou em Thebas devastada.
*4:º Expedição dos Argonautas.*--Este grande facto parece ter sido ainda anterior á guerra de Thebas. N'elle teem querido alguns criticos vêr um resumo poetico das primeiras impresas maritimas dos Gregos para o Mar Negro. A _expedição dos Argonautas_ foi dirigida por _Jasão_, de Iolchos, na Thessalia, de parceria com 54 heroes entre os mais illustres d'aquelle tempo: _Heracles_, _Theseu_, _Castor_ e _Pollux_ (lacedemosios), _Peleu_, pae de Achilles (thessaliano), o cantor thracio _Orpheu_, _Pirithoo_, _Meléagro_, _Esculapio_, e muitos outros. Partiram para o remoto Oriente, no navio _Argos_, com o fim de conquistarem o _vélo de oiro_, especie de palladio da Colchida, que um principe thessaliano, _Phryxo_, tinha collocado n'uma floresta consagrada a Ares (Marte), e que, segundo a fabula, era guardado por um dragão. O mastro da nau _Argos_ era feito do tronco de um carvalho cortado na floresta de Dodona, no Epiro, e pronunciava oraculos.
Hercules abandona a expedição, depois de ter libertado, nas costas da Mysia, Hesione, a quem um monstro marinho ia devorar.
Jasão inspira uma paixão exaltada a _Medéa_, filha do rei da Colchida e conhecedora de todos os segredos da magia; subjuga dois toiros com pés e armas de bronze, e que vomitavam chammas, junge-os a uma charrua de diamante e lavra com elles qualro geiras de terra consagradas a Marte; semeia os dentes de um dragão e d'estes nascem homens armados; vence e mata o monstro que guardava o velocino, e brilhantemente logra conquistar por esta fórma o suspirado thesouro; depois, volta com Medéa no seu navio, e a feiticeira Circe protege-o.
As _Nereides_ levantam nos braços a nau, para ella passar sem perigo entre Scylla e Charybdes. As _Sereias_ intentam perder os nautas com os seus cantos melodiosos, mas Orpheu desfaz-lhes o incanto com os accordes da sua lyra. Visitam, em Africa, o jardim das Hespérides onde Hercules tinha, pouco antes, colhido os pomos de oiro, e chegam finalmente á Grecia.
Durante a viagem, e aqui, Medéa practica os maiores horrores. Corta em bocados o cadaver de seu irmão e semeia-lhe os ossos ao longo do caminho para demorar com esse espectaculo horroroso seu pae que a vinha perseguindo. Rejuvenesce, em Iolchos, o velho Eson; e induz as filhas de Pélias a trucidarem seu pae, cozendo-lhe os membros n'uma caldeira com hervas magicas. Abandonada por Jasão, degola seus proprios filhos; dá á sua rival, Creusa, filha do rei de Corintho, uma tunica envenenada; e, erguendo-se aos ares n'um carro puxado por dragões com azas, refugia-se na Attica, onde desposou Egeu.
Como se vê, a poesia grega inriqueceu com todas as galas da ficção mais ingenhosa, a lenda heroica d'esta aventura maritima.
*5.º Guerra de Troia.*--De todos os grandes acontecimentos pertencentes ao periodo heroico da Grecia, este foi o mais notavel e é o mais conhecido. Incumbiram-se de perpetuál-o, desde os mais remotos tempos, a lenda, a arte, a poesia.
A guerra de Troia é um facto evidentemente historico, imbora as particularidades de que o revestem sejam meras ficções poeticas. A quéda da grande cidade asiatica serviu muito tempo de era á chronologia grega. Muitos historiadores consideram este episodio bellico como o termo da lucta entre a nacionalidade hellenica e a nacionalidade pelasgica; Herodoto via n'elle simplesmente um grande imprehendimento da Grecia contra a Asia; a poesia explicou-o por um odio hereditario entre as familias reaes de Troia e do Peloponeso, aggravado por uma affronta mortal feita por um principe troiano á honra do lar domestico de um monarcha grego.
_Priamo_ reinava em _Ilion_ ou _Troia_, na costa noroeste da Asia-Menor. Seu filho _Páris_ (ou Alexandre) raptou _Helena_, mulher do rei lacedemonio _Menelau_, que lhe havia dado magnifica hospitalidade na sua casa. O marido insultado pediu aos outros reis da Grecia que o auxiliassem a vingar-se, e em breve se organizou uma expedição commandada por _Agamemnon_, rei de _Mycenas_ e irmão de Menelau.
A espontaneidade com que tantos principes e tantos povos diversos se unem para a mesma impresa commum é significativa. Não ha, como nunca houve, entre aquellas pequenas agglomerações de homens ciosos e independentes, entre tantos e tão varios Estados, a necessaria unidade politica; não ha uma federação geral; mas vê-se que existem em germen todos os elementos de uma nacionalidade. Cincoenta e septe Estados e outros tantos chefes tomaram parte na impresa. Alêm do _Atrida Agamemnon_, rei de _Mycenas_, de _Corintho_ e de _Sicyonia_, fizeram parte da expedição: _Menelau_, rei de _Esparta_; _Achilles_ e o seu amigo _Patroclo_ da Thessalia; _Ulysses_, rei de _Ithaca_; _Diomedes_, rei de _Argos_; _Ajax_, rei da _Lócrida_ e _Ajax_, rei de _Salamina_; _Nestor_, rei de _Pylos_; _Idomeneu_, rei de _Creta_; _Philocteto_, que possuia as flechas de Hercules; e muitos outros. Partiram do porto de _Aulida_ 1:186 navios, transportando para a Asia mais de 100:000 guerreiros. Uma tradição posterior affirma que, em Aulida, Agamemnon sacrificou a Artemis sua filha _Iphigenia_.
Prolongou-se por dez annos a resistencia da cidade, a qual finalmente foi tomada por artificio, incendiada, e destruida. _Heitor_, filho de Priamo, morrêra traspassado pela lança de Achilles; _Priamo_ foi degolado; _Hécuba_ e suas filhas, levadas para o captiveiro; uma d'ellas, _Polyxena_, immolada sobre o tumulo de Achilles; _Andromaca_, viuva de Heitor, dada a Pyrrho, filho de Achilles, e _Cassandra_, outra filha de Priamo, a Agamemnon. Dos Gregos morreram Patroclo, Achilles, Ajax de Salamina, e outros. Os vencedores expiaram terrivelmente a sua victoria. Ulysses vagueou dez annos sobre as ondas antes de tornar a vêr a sua Ithaca; Menelau, tambem, durante oito annos andou perdido e acossado pelas tempestades; Agamemnon, depois de um regresso attribulado, foi morto por _Egistho_, a instigações da sua infiel esposa _Clytemnestra_. Ajax, da Lócrida, naufragou de incontro a um rochedo onde pereceu. Teucer, repellido pela maldição paterna, por não ter vingado seu irmão Ajax, foi edificar em Chypre uma nova Salamina. Diomedes fugiu para a Italia afim de se subtrahir, no seu reino, a uma sorte analoga á de Agamemnon. Philocteto, Idomeneu, e Epéos, tambem foram ter ás costas de Italia, onde egualmente incontraram asylo os troianos _Antenor_ e _Enéas_, filho de _Anchises_, considerado, depois, pelos Romanos, como tronco da sua raça.
As façanhas e as desgraças d'estes heroes foram cantadas pelos poetas nacionaes; mas d'esses cantos, que formavam dois cyclos épicos, só nos restam a _Iliada_ e a _Odysséa_, attribuidas a Homero, poeta que viveu provavelmente no seculo X antes da nossa era.
CAPITULO II
TEMPOS HISTORICOS
*1.º As migrações dos Dorios. Jonios e Dorios, raças rivaes. Athenas e Esparta.*--Os tempos immediatos á guerra de Troia foram de violentas commoções politicas e de longa anarchia. Desappareceram quasi todas as antigas familias reaes, victimas ou de tragedias domesticas ou de luctas cruentas com outras familias. Houve alêm d'isto um grande embate de tribus, ao fim do qual as mais fracas succumbiram, estabelecendo-se as mais poderosas em regiões novas.
A mais importante d'estas migrações foi a dos _Dorios_ para o Peloponeso. Viviam os Dorios a sua vida pastoril e agricola junto ao monte OEta, onde tinham, ao cabo de muitas peregrinações, fundado uma republica livre, cujo centro moral era o culto de Apollo, no sanctuario de Delphos, quando os Thessalianos e os Beocios os expulsaram d'ahi para o sul. Conduzidos pelos _Heraclidas_ (suppostos descendentes de Heracles) sustentaram longos combates para fazerem valer as pretenções hereditarias de seus chefes á soberania da Argolida e da Laconia, onde reinavam os descendentes de Pelops, e conquistaram porfim a peninsula do Peloponeso. A pouco e pouco assenhorearam-se da _Argolida_, da _Laconia_, da _Messenia_, de _Sicyonia_, de _Corintho_ e da _Megarida_; intraram na Attica; e ameaçavam já Athenas, quando esta foi salva pelo heroico sacrificio de _Codro_, seu rei.
Os _Acheus_, até então o mais poderoso dos quatro ramos da raça hellenica, fugindo deante d'esta invasão, expulsaram por sua vez os _Jonios_ do littoral septentrional e occuparam o paiz, que recebeu d'elles o nome de _Achaia_. Os Jonios atravessaram o isthmo de Corintho e estabeleceram-se na Attica, onde já tinham sido precedidos pelos _Eolios_ de Messenia e outros fugitivos do Peloponeso. Irradiando ainda d'ahi para as costas occidentaes da Asia-Menor e para as ilhas de Lesbos, de Chios, de Samos, etc., fundaram as _colonias jonicas_ tão celebres pelo alto grau de cultura, de civilização, e de actividade commercial e industrial a que chegaram.
Os Dorios e os Jonios são as duas grandes familias que d'aqui em deante (seculo X A. C.) occupam o plano da Historia; são os dois povos rivaes que vão desinrolar parallelamente com o seu antagonismo duas civilizações, nas quaes, sob os mais diversos aspectos, se manifestam todas as fórmas do genio grego.
«A _raça dorica_, diz um historiador moderno, menos mesclada, tinha um caracter de gravidade, de energia, de rudeza, de orgulho, que se reproduzia no seu dialecto, nos seus costumes, no seu culto e nas suas instituições politicas. Exclusivamente militar, constituiu quasi por toda a parte poderosas aristocracias que reinavam sobre bandos de escravos ou de servos (_hilotas_).
«A _raça jonica_ era movel, aventureira, impressionavel, enthusiasta; e amava apaixonadamente os prazeres, a liberdade, a gloria e as artes. Inclinada para o commercio e para a navegação, era, como todas as populações maritimas, intensamente dominada pelo espirito democratico.
«São estas as feições geraes que nos cumpre indicar aqui, e que veremos de cada vez mais energicamente accentuadas na physionomia dos Espartanos (Dorios) e dos Athenienses (Jonios), pelos quaes estas raças hão-de chegar ao seu mais completo desinvolvimento, e que, pelo importante papel que desimpenharam, pelo esplendor das suas victorias, e finalmente pela sua rivalidade sangrenta, mereceram representar, durante muito tempo, os destinos da Grecia toda.»
*2.º Organização social e politica.*--A Grecia nunca poude attingir a majestosa unidade a que chegou Roma; nunca formou um Estado unico. Compoz-se de uma infinidade de Estados, communidades urbanas, especies de cantões, entre os quaes, de tempos a tempos, havia um que, pelas eventualidades da boa sorte na guerra, passava a exercer predominio nos outros (_hegemonia_). Assim succedeu com _Esparta_, _Athenas_, e _Thebas_.
Havia, porêm, um certo numero de laços que uniam todos os diversos Estados entre si, formando por esse modo, até certo ponto, uma nação unica, composta de _Hellenos_, e para os quaes todos os mais povos tinham o nome commum de _Barbaros_. Esses laços eram a lingua, os costumes, e as instituições religiosas.
Na Grecia não havia _castas_ propriamente ditas, não havia barreiras insuperaveis entre as classes; as prerogativas da nobreza eram pouco extensas. Abaixo dos nobres havia os homens livres, que formavam as assembléas publicas e que exerciam uma grande influencia moral nas deliberações dos chefes.
Dependiam, porêm, principalmente da religião as instituições communs a todas as tribus hellenicas. Occupava o primeiro logar a _liga dos Amphictyões_, cujo centro era o oraculo de Delphos, e á qual inviavam deputados doze Estados gregos. Antes de qualquer impresa importante era sempre consultado o Apollo delphico, sendo as respostas, obscuras e muitas vezes equivocas ou enigmaticas, formuladas em sentenças por uma sacerdotiza inspirada (_pithoniza_).
Todas as tribus e todos os Estados gregos estavam egualmente unidos pelo laço das _festas nacionaes_ com sacrificios, jogos gymnasticos, e concursos de musica. As mais antigas e mais celebres eram as _festas olympicas_ que, de quatro em quatro annos, se celebravam n'uma planicie da Elida, nas margens do Alpheu; emquanto duravam, havia treguas geraes em toda a Grecia.
CAPITULO III
ESPARTA. LEGISLAÇÃO DE LYCURGO. GUERRAS DE MESSENIA
Os Dorios, que se fixaram na Laconia, consentiram que os indigenas d'este paiz (isto é, os _Laconios_) vivessem nas terras que lhes tinham pertencido, mas reduzidos á qualidade de vassallos. Umas tribus submetteram-se; outras, porêm, intentaram sacudir o jugo, e, sendo vencidas, foram collocadas na dura condição de escravas (_hilotas_). Ficou, portanto, havendo na Laconia tres especies de homens: os Dorios, ou os dominadores; os Laconios, ou os vassallos; os Hilotas, ou os escravos.
Quando os Dorios conquistaram o Peloponeso, coube a Laconia em parte aos dois filhos de _Aristodemos_, _Eurysthenes_ e _Procles_, os quaes fundaram ahi duas dynastias simultaneas que reinaram em Esparta durante mais de nove seculos.
Os tempos decorridos desde a invasão dorica até Lycurgo (1100?--884? A. C.) são quasi completamente desconhecidos não só pelo que respeita a Esparta como a todo o resto da Grecia. Nem as tradições nem a poesia, tão fecundas nos tempos heroicos, se quizeram occupar com esta primeira phase dos tempos historicos. O que se sabe é que os Dorios, relativamente em pequeno numero, e estabelecidos no seio de um paiz hostil, se concentraram em Lacedemonia ou Esparta, e d'ahi tomaram o nome especial de _Espartanos_. Viviam n'um estado de armamento constante, submettidos a uma rigorosa disciplina militar, habituados, por necessidade da propria conservação, ao jugo de leis durissimas.
Quando _Lycurgo_, patriota espartano da estirpe regia dos Proclidas, pretendeu restituir á sua cidade natal a tranquilidade interna perturbada desde longa data pelas dissensões de algumas familias poderosas e pelas usurpações de uma aristocracia absorvente da propriedade e dos direitos dos cidadãos, assegurando-lhe assim a antiga preeminencia sobre os outros Estados, não teve de inventar as leis que lhe são attribuidas; o que fez apenas foi restaurar o antigo regimen dorico.